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NASCER HOMEM
(Adela Zamudio)

Quanto trabalho ela tem
pra corrigir a torpeza
de seu esposo, mas na casa,
(permita-me o assombro)
tão inepto como fátuo
segue ele sendo a cabeça,
porque é homem.

Se alguns versos escreve
-“De alguém esses versos são
que ela só os subscreve”;
(permita-me o assombro)
Se esse alguém não é poeta
por que tal suposição?
-Porque é homem.

Uma mulher superior
em eleições não vota,
e vota o sacana pior;
(permita-me o assombro)
Com só saber assinar
pode um idiota votar,
porque é homem.

Ele se abate e bebe ou joga
em um revés da sorte;
ela sofre, luta e roga;
(permita-me o assombro).
Ela se chama “ser débil”,
e ele se apelida “ser forte”
porque é homem.

Ela deve perdoar
se seu esposo lhe é infiel;
mas, ele pode se vingar;
(permita-me o assombro)
em um caso semelhante
até pode ele matar,
porque é homem.

Oh, mortal!
Oh mortal privilegiado,
que de perfeito e honesto
goza seguro renome!
Para você que basta?
Nascer homem.

(tradução de Jeff Vasques)


Adela Zamudio (Cochabamba-Bolívia, 1854-1928) publicou seu primero poema aos 15 anos, entitulado "Duas rosas" e, desde então, não pararia mais de escrever, sempre assinando com o pseudônimo de "Soledad" (Solidão), seu nome de guerra. Apesar de ter cursado apenas até o terceiro ano do primário (essa era a educação máxima a que as mulheres bolivianas tinham direito à época), seu desejo por conhecimento e liberdade à leva a instruir-se por conta própria. Por suas idéias avançadas para a época é isolada socialmente e aprende desde cedo a lidar com a tristeza e solidão a que se viu ilhada.

Adela, já como professora, desenvolve uma fecunda atividade pedagógica buscando eliminar as travas reacionárias que conduziam a educação das jovens bolivianas. Em sua defesa dos direitos das mulheres de receber boa educação, Adela Zamudio clamava a necessidade de introduzir o laicismo nos  programas acadêmicos nacionais, lançando algumas propostas audazes para sua época, como a instauração do matrimônio civil, o direito ao divórcio e à separação dos poderes da igreja católica e do Estado. Impulsionou o ensino gratuito e laico, denunciou fortemente o ‘primitivismo patriarcal’ da sociedade e a exploração e dominação dominante. Adela Zamudio contribuiu com todos seus esforços para a formação do pensamento feminista na Bolívia: em 1921 aparece em Oruro o primeiro número da revista "Feminiflor", dirigida e escrita por mulheres que fortaleciam o ideal da liberação feminina; e, em 1923, se constituiu em La Paz a primeira organização autônoma de mulheres que lutou pelos seus direitos políticos, o "Ateneo Feminino". Por esse período, as mulheres se incorporavam ao movimento sindical, com sindicatos própios e com a Federação Operária Feminina.

Adela Zamudio forma parte da primeira geração de autoras hispânicas do período modernista que resistem à estética vigente. São autoras que apelaram em seus escritos a um projeto de autenticidade tanto pessoal e político como estético que desarticulava a visão estereotipada que se projetava da mulher no cânone socioliterário. Em Zamudio se encontra a prioridade dada a um compromisso íntegro com a realidade boliviana de seu tempo, denunciando o sistema em curso. Assim, Adela levou adiante seu projeto de legitimação e fortalecimento da mulher. Lydia Parada de Brown considera que "esta escritora boliviana foi uma das maiores da América, mas lamentavelmente não alcançou a fama de Gabriela Mistral, ou de Juana de Ibarbourou".  O poema que traduzi acima é um de seus poemas mais famosos.



por Larissa

Flores Raras, de Bruno Barreto, estreou nesta sexta-feira, 16, em 150 cinemas do Brasil. O filme, exibido anteriormente na abertura do festival de Gramado, ficou em 1º lugar de público no festival de cinema de São Francisco e em 2º lugar em Berlim. Não é à toa que a obra era ansiosamente aguardada pelas lésbicas do país.


Trata-se da história de amor, entre duas mulheres notáveis: Lota de Macedo Soares, a idealizadora e responsável pela construção do Aterro do Flamengo; e Elisabeth Bishop, renomada poetisa estadunidense, ganhadora, dentre outros, do Prêmio Pulitzer de 1956, com a obra Norte e Sul, escrita no período em que estava no Brasil.

Veja o trailer do filme: 


Antes da divulgação do trailer, havia receios a respeito da representação das personagens que iríamos encontrar. Não é raro, no cinema, que figuras célebres reconhecidamente homossexuais tenham essa parte de sua identidade disfarçada, ou apresentada apenas como um mero detalhe, como se viver a homossexualidade abertamente em uma cultura heteronormativa fosse algo banal na vida das pessoas. Os exemplos são muitos, não cabe aqui uma lista.

Em Flores raras, as cenas são claras. As duas se amam, se beijam, trocam carícias ternas e picantes. É mesmo possível reconhecer uma representação de afetividade convincente entre duas lésbicas. Glória Pires encena uma Lota decidida e autoritária, poço de segurança que se desfaz. Em uma certa crítica do filme, a atriz foi acusada, por essa atuação corajosa, de fazer uma caricatura forçada de masculinidade. Não há artificialidade nisso, não é uma caricatura. Nem todas as mulheres (ainda bem) seguem os padrões rígidos de feminilidade impostos pela cultura sexista heteronormativa. Isso não é caricatural, é a diversidade das formas de se ser pessoa humana.

Apesar de Bruno Barreto negar que o filme seja sobre homossexualidade, mas sim sobre perdas, o tema está lá com a própria vivência homossexual dessas mulheres históricas. É louvável que haja esse e outros temas. Já Glória Pires, em entrevista no festival de Gramado, comenta a importância da questão no filme em nosso momento político de avanços e reações apavoradas dos grupos conservadores em relação aos direitos homossexuais. Vale lembrar que o projeto do filme, iniciado há 17 anos com a compra dos direitos autorais do livro por Lucy Barreto, lidou com dificuldades em conseguir patrocínio pelo receio que muitas instituições têm de vincular suas marcas à homossexualidade.

E voltamos à pergunta título: Por que gostamos de ver lésbicas no cinema?
Gostamos de ver lésbicas no cinema, na televisão, nos livros porque gostamos de nos sentir representadas. Gostamos de reconhecer nossos conflitos, alegrias, anseios. As histórias contadas são formas de representação da realidade. Elas podem confirmar nossas crenças, reforçar ou questionar padrões, trazer reflexões sob outras perspectivas. O fato de só haver representações de amor heterossexuais acessíveis ao público em geral e principalmente aos adolescentes é uma violência através do silenciamento. 

Lembro que na minha adolescência não vi NADA que contemplasse outras formas de amor. As “lésbicas” que vi na televisão foram em produções pornográficas feitas para homens heterossexuais. Não é de se surpreender que esse tipo de material fosse mais acessível - depois da meia-noite na TV a cabo - que uma representação de afetividade autêntica entre duas mulheres. Ou seja, tudo bem que existissem lésbicas, mas para satisfação de desejos masculinos. Mas enfim, isso era final da década de 90. As coisas vão mudando, ainda que gays e lésbicas apareçam apenas de vez em quando, ainda como algo excepcional no grande circuito das narrativas cinematográficas ou literárias. Essa excepcionalidade não garante a quebra dos padrões, mas essa ínfima existência é um respiro em meio ao mar de produções que confirmam estereótipos heterossexuais de como ser mulher e de como ser homem.  O sucesso de Flores raras é sinal de novos tempos.

Veja:

por Tággidi Ribeiro

"Não tenho ouro nem prata, mas trago o que de mais precioso me foi dado: Jesus Cristo."
As palavras que me servem de epígrafe são do Papa Francisco, em seu primeiro discurso ao povo brasileiro. Não sei que aconteceu a vocês quando as leram ou viram/ouviram, mas eu ri. Depois, fiquei com raiva, indignada: como tinha coragem de usar 'essas' palavras?! 

Meu riso me lembrou de Oliver Sacks em um de seus contos não-ficcionais, de cuja história é possível depreender que o riso que irrompe em meio à fala do outro pode ser uma mostra de que alguma parte de nós não acredita nessa fala; também, portanto, de que alguma parte do outro pode estar mesmo mentindo. Ademais, no mesmo conto, vemos até que ponto a escolha das palavras pode ser importante para estabelecer o sentimento de verdade em relação a um discurso.

Assim, em 'O discurso do Presidente', presente na coletânea O homem que confundiu sua mulher com um chapéu, Sacks refere a reação de um grupo de afásicos ao discurso de seu Presidente: uma gargalhada estrondosa. Oliver Sacks logo explica que muitos afásicos, incapazes de compreenderem as palavras em si, têm intensificadas as capacidades de reconhecer o tom e a intenção da fala, além do 'ar afetado' e de 'qualquer falsidade ou improbidade na aparência ou postura do corpo' do outro, do que resulta ser praticamente impossível enganar um afásico. Daí a gargalhada daquele grupo: o Presidente mentia. 

Um distúrbio cerebral oposto à afasia, contudo, tampouco pôde encobrir a tentativa de manipulação do discurso do Presidente. Na mesma ala dos afásicos, uma paciente com agnosia tonal, na qual preserva-se a compreensão das palavras mas perde-se o senso de 'tom, timbre, sentimento e caráter' da fala, foi taxativa ao afirmar sobre o discursante: "Seu uso das palavras é inadequado. Ou ele tem deficiência cerebral, ou alguma coisa a esconder." 

Assim, entre o riso e o incômodo, eu e outros tantos 'normais', como se somando alguma afasia e agnosia, declaramos mentiroso o discurso do Papa Francisco, na escolha das palavras e no tom de voz baixo, no ritmo pausado, calmo, na dicção clara, na postura comedida. O paradoxo entre sua fala e o que ostenta não deixa, para nós, margem alguma a dúvidas. Estas reações pincei do Facebook: 
Discurso do Pontífice: "não tenho ouro nem prata".
Não sei de vocês, mas adoro gente que tem bom humor...
Um buffet simples na recepção (água, café e biscoitos) para o Papa, custeado com os recursos do Estado, pelo módico valor de R$ 1300,00 por pessoa, totalizando R$ 850.000,00. ‪#‎dormeBrasil  
Até um tumblr foi criado para zombar da imagem de figura humilde que o Papa tenta vender ao mundo: http://papahumildao.tumblr.com/page/2 

Ocorre que milhões de outros normais, ajudados, diria Sacks (e aqui eu o parafraseio), pelo desejo de serem enganados, de fato se deixaram enredar. "E tão astutamente foram combinados o uso enganoso da palavra com o tom enganoso, que só os que tinham dano cerebral ficaram ilesos, não foram logrados."

A Juventude

Há dentre esses milhões de normais enredados pelo Papa, milhões de jovens. Brasileiros que ontem estavam empunhando cartazes nas manifestações, protestando contra a corrupção, contra a impunidade e a violência; contra a desigualdade social, por saúde e educação. Esses jovens, desconfiados dos políticos e da política, mas crentes em deus e na Igreja Católica, parecem viver em outro mundo: eles nunca leram sobre os escândalos de pedofilia dentro da ICAR, jamais punidos? Nunca leram sobre as denúncias de lavagem de dinheiro, nem sobre como a Igreja enriqueceu vendendo o reino dos céus? Não percebem que há algo de muito errado entre o valor de R$ 118 milhões gastos em uma única visita e a fala 'não tenho ouro, nem prata'? Nunca ouviram falar da deseducação promovida pela ICAR com o fito de tornar o mundo ainda mais preconceituoso e desordenado? 

A humanidade está ameaçada pelos homossexuais; aborto é assassinato; é pecado usar camisinha e tomar anticoncepcionais, mesmo em países onde o número de casos de AIDS é espantoso: a Igreja Católica é esse crime, essa mentira - com um pouco mais de perspicácia, podemos lê-lo na própria cartilha distribuída aos jovens da JMJ. Com que desonestidade, contudo, o "kit peregrino" promove a desinformação, e com que docilidade o rebanho jovem se deixa estar, sem ao menos querer pensar e de fato buscar compreender em que contexto se inserem todas essas questões e com que seriedade devem ser discutidas e transformadas em politicas públicas.

Penso nas jovens mulheres, nas adolescentes e crianças que rezam alegres por uma igreja que as desrespeita fundamentalmente. Já pensaram, essas meninas, nos médicos e na mãe da menina de 9 anos, excomungados pela ICAR por terem permitido que ela abortasse o fruto de um estupro, em uma gravidez de alto risco? (Mas o estuprador pedófilo, padrasto da menina, não foi excomungado.) 

Penso nas corajosas mulheres de peitos nus que foram protestar por um Estado laico. Penso nas Católicas pelo Direito de Decidir. Penso no Estatuto do Nascituro, no PLC 122, no PL 60/99. Algum dos jovens da JMJ conhecerá de fato, sem preconceito, sem ideias rasas, algum desses tópicos? Terá respondido ao menos um 'sim' a alguma dentre tantas perguntas?

Uma juventude ignorante, que se recusa a saber, que escolhe não saber, é o verdadeiro mal. E, como em outros momentos da história, pode novamente agora contribuir com sua força, energia e estupidez para piorar o mundo.

ps: Jesus renegaria essa Igreja, esses mercadores do Templo.
ps2: links nas palavras em vermelho. 



por Mazu


Fallon Fox
Esta semana, resolvi fazer entrevistas por esse mundão a fora. Tudo porque resolvi falar de um assunto que anda me fazendo pensar e coçar o cabeção há alguns dias. Fallon Fox!

Fallon Fox é uma lutadora de MMA que passou pela cirurgia de mudança de sexo. Lá por meados de abril, ela recebeu autorização para lutar num campeonato feminino na Flórida. Isso causou altos bafafás e teve até lutador do UFC suspenso por destilar preconceito em vídeo.

Antes e depois de Fallon Fox
O motivo de tanto barulho é o mesmo que me deixou cheia de dúvidas e me dividiu. Mesmo que algumas pessoas tenham a opinião de que a diferença de força física entre homens e mulheres é socialmente construída, ainda tem muita gente que afirma que a parada é biológica mesmo. Eu, com o pouco de experiência que tenho em treino, posso afirmar que nunca fui páreo para homens do meu peso, até alguns menores e mais novos costumavam me derrubar com certa facilidade. Será social, comigo? Logo eu toda feminista e tals? Não sei.

Mas por que estou falando de diferença entre homens e mulheres, se a Fallon não é homem, agora ela é mulher, certo? Legalmente e biologicamente. Então, ela perdeu a chamada "força masculina"? Sua composição física é igual a das outras lutadoras? Seria ela menos ou mais forte que algumas lutadoras que se entopem de hormônio masculino? Aqui, dá para ler a opinião de várias lutadoras diferentes.


Ronda Rousey, a primeira mulher campeã do UFC e atleta de artes marciais desde a infância, acha que Fox teria uma vantagem por ter passado a puberdade como homem, período em que teria adquirido a densidade óssea de um homem.

Como a gente pode ver, é complicado. Agora ela é uma mulher e tem os direitos que todas nós temos. Mas, vamos supor que eu fosse uma lutadora, eu não sei se me sentiria confortável e respeitada em enfrentá-la. Estou sendo super sincera aqui. E por essa divisão, confusão e tals, que fui pedir ajuda aos amigos de várias áreas, falei com militantes, médicos, treinadores e abaixo, trago algumas das respostas que recebi.

Sobre a composição física e densidade óssea:


Na verdade, se a pessoa tem o cromossomo Y e testículos ela tem produção de testosterona e conversão de testosterona em um derivado mais ativo. Isso faz com que tenha mais musculatura, maior estatura, mais densidade óssea do que mulheres. Isso faz com que homens e mulheres tenham constituição diferente, o que fica bem mais nítido depois da puberdade.

De fato, se alguém remove os testículos antes da puberdade terá musculatura e estatura mais próximas do "feminino", porque a maior parte da produção e utilização da testosterona se dá da puberdade em diante. Ou seja, ainda que ela tome hormônios feminizantes hoje, ela ainda tem "vantagens" do homem quando se fala em força física.
- Médica Pediatra

A densidade óssea vem da contração muscular e do balanço positivo de nitrogênio que é muito mais intenso em um sujeito que produz testosterona. O fato de ela ter feito a cirurgia não tira essa densidade óssea já existente.
- Médico Ortopedista

Sobre as diferenças entre uma lutadora que passou pela cirurgia de mudança de sexo e uma lutadora que se droga:


Ela (transexual) seria muito mais fraca que uma lutadora que se droga, pois o uso de anabolizantes faz que sua testosterona e DHT se elevem, no mínimo, 10 vezes mais que o fisiológico de um homem. Conheço fisiculturistas em que esse valor passou das 100 vezes mais. Além da testosterona, o uso de anabolizantes esteroides eleva outros tipos de hormônios. O uso apenas de testo não é o segredo.
- Médico Ortopedista

Sobre a participação de Fallon nos eventos


Difícil dar opinião. Depende de o que pensamos que seja o objetivo do esporte. Se for vencer uma disputa equilibrada, não concordaria com a participação dela em esportes femininos porque ela tem uma vantagem indiscutível. Por outro lado, se o objetivo do esporte for o de promover integração, educação etc etc etc, a discussão muda completamente.
- Médica Pediatra 

Difícil, heim? No entanto, acho que talvez estejamos caminhando rumo à diminuição das diferenças de capacidades físicas de homens e mulheres. Nas olimpíadas de Londres, não teve uma chinesa que nadou tão rápido que empatou ou ficou pouco atrás do Ryan Lochte? E não é necessário que sejamos desafiadas para que possamos 'incrementar' nossa força física? Se uma mulher trans tem reconhecido seu direito de usar seu nome de mulher, se quer reconhecida como mulher, não deveria mesmo lutar com mulheres?
- Blogueira Feminista

Fallon Fox
Chris Cyborg, que foi pega no doping depois de nocautear uma adversária em alguns segundos

Ronda Rousey, atual campeã mundial da categoria peso galo do UFC
 
Do que li e ouvi por aí, tirei que uma lutadora que passou pela cirurgia de mudança de sexo, especialmente as que foram homens na puberdade, teriam alguma vantagem sobre uma mulher cisgênero. Agora, a Fallon já perdeu lutas, logo, essa vantagem não deve ser insuperável. A meu ver, desleal mesmo é a competição com quem se droga, seja a pessoa cisgênero ou transgênero.

Fico triste porque queria vir aqui com uma solução pronta e emblemática, uma bandeira. Mas também não posso ser hipócrita. A gente tem mais é que debater, se informar e ler, a informação costuma ser o caminho mais seguro para o respeito.

De qualquer forma, a Comissão Atlética, na Flórida, parece ter tomado sua decisão, e as meninas da luta têm que se adaptar a ela. E talvez isso seja bom, como disse a nossa amiga blogueira, quando existe desafio, a gente sempre se supera.


por Mazu

Hoje, vamos falar de humor e estereótipos. Ah os estereótipos.... Sim, lá vem outro post mal-humorento contra o humor e a liberdade de expressão. ¬¬

A Roberta adora falar de humor e manda muitíssimo bem quando faz, dá uma olhada aqui, aqui e aqui. Dá para selecionar o marcador humor e ver os vários posts sobre isso no blog também.

Vou tratar especificamente do vídeo Mulheres do Porta dos Fundos. Na boa, eu vi dois vídeos deles antes disso e gostei muito (Spoleto e Deus). Mas esse, especificamente, se baseia num estereótipo que me incomoda muito. Vejamos:


Por quê, meu Deus, as titias feministas vamos implicar com esse vídeo engraçadinho (só que não) desse grupo humorístico tão querido da galera (que, segundo comentário forte nas interwebs, pertence ao rei dos coxinhas, Luciano Huck)?

Porque reforça um estereótipo.

Parece pouco para tanta implicância, não é mesmo? Mas não é. Vai vendo. O estereótipo de que as mulheres falam demais e reclamam demais é perigoso, sim, porque valida o velho "mulher boa é mulher calada". Além de dar aval para que não sejamos ouvidas. Por que escutar uma denúncia de assédio moral ou violência psicológica (que é mais difícil de detectar) quando o "natural" da mulher é reclamar? Para que agir com respeito e ser um bom companheiro se "haja o que hajar" a mulher vai reclamar?

O grande problema dos estereótipos é este: legitimar o comportamento de uma sociedade opressora. Dizer que mulher só reclama é um jeito de nos calar. E, caso você não tenha lido o post anônimo anterior ao meu, leia e veja como isso é um problema.

Por quê? a gente fica mais linda caladinha?

Vou retomar um trecho de um post da Rô, que pode ser lido na íntegra aqui, para formular um argumento sobre a falação das mulheres. Este trecho trata de um tipo específico de piada machista:

1) Piadas que afirmam o comportamento "natural" das mulheres

Que as mulheres gastam o dinheiro dos maridos, falam demais, são vaidosas, superficiais e fúteis, etc.


O intuito dessas piadas é, pura e simplesmente, ridicularizar comportamentos tidos como femininos, ou seja, ridicularizar as mulheres. Essa categoria, apesar de parecer light, justifica atitudes paternalistas de menosprezo e desqualificação ao reforçar estereótipos que estão longe de ser verdade para muitas, senão a maioria de nós.

Quem divulga estas piadas não são só homens, é claro. Como diria uma colega, você sabe que está numa luta difícil quando metade do seu time está contra você. Mulheres muitas vezes promovem esse tipo de humor sem muita reflexão. A piada ao lado, por exemplo, foi compartilhada por uma mulher que sei que sustenta a casa, inclusive o marido, há décadas. Qual a graça em se autodenegrir, sendo que o que é afirmado nem é verdade?
E nem é verdade. Fato. A gente fala e reclama muito menos do que devia, companheirada! E essa é a verdade.

A Lola diz que "toda mulher tem um história de horror pra contar", mas a gente nunca conta. Nunca contei por aí que, quando tinha 14, um sujeito tentou me derrubar da bicicleta enquanto eu voltava da casa de um amigo. Nunca contei que, quando estudava em Campinas e trabalhava em São Paulo, desmaiei de cansaço no ônibus e acordei com o cara do lado me apalpando. Nunca admiti que acordo meu companheiro todo dia para me levar ao ponto de ônibus porque os números de violência sexual contra mulheres no DF são ridículos, e eu morro de medo de andar duas quadras sozinhas às 6h da manhã. Nunca admiti que fico calada de medo de perder o emprego diante do sexismo do meu chefe. Sério, eu milito há um tempão, desde a faculdade, e eu nunca disse nada disso em público. E tanta coisa para dizer, e o parágrafo ficando enorme, e, talvez, alguém tenha parado de ler porque, afinal, um parágrafo enorme de outra mulher reclamando...

Alô, alô, todas denunciando!

A gente não diz nada para não incomodar os opressores, porque a gente não quer ser a moça do vídeo que só reclama, porque a gente foi convencida pela sociedade patriarcal de que se essas coisas acontecem com a gente, de certa forma, a culpa é nossa, e que a gente não aprecia toda a "proteção" que o patriarcado nos dá. Bem-vindas ao mundo em que todos os mimimis são permitidos, menos os seus!

Só para constar, quando o Porta dos Fundos ironizou o comportamento masculino, que não distingue mulher de boneca inflável de companheiro homo, brincou com o estereótipo do homem incapaz de ouvir e perceber, eu me ofendi pelos homens. Pelos da minha vida e pelos que não conheço. Hipérbole e piadas à parte, não achei que representa, nem que faz rir.


por Tággidi Ribeiro

Vale a pena ler o texto abaixo. É a resposta de Matt Dillahunt, do Atheist Experience, a uma de suas espectadoras cristãs. Todos sabem que sou ateia, mas definitivamente não importa se deus (ou deuses) existe(m) ou não. Provar isso não é uma bandeira minha. O que nos incomoda a todos, inclusive a muitos dos que creem em um deus, é a sanha totalitária de muitas religiões, que tentam nos coagir a viver sob seus dogmas. Em tempos de Franciscos e Felicianos, que reservam à mulher o mesmo espaço já conhecido da casa, o mesmo lugar já conhecido - abaixo do homem, em todas as instâncias da vida; que num mundo de 7 BILHÕES de pessoas insuflam o ódio aos homossexuais dizendo que por causa deles a humanidade corre perigo; que tentam resgatar antigos preconceitos contra negros, precisamos nos posicionar incansavelmente pelo direito à dissidência. Por que não poderíamos nos haver com deus depois? Não nos foi reservado o livre arbítrio? Enfim, espero que a fala abaixo os faça refletir sobre a minha e sobre a sua liberdade. O vídeo está no final do post. E aqui tem também o ótimo post da Mazu sobre o (in)Feliciano.

"O que ela (espectadora) escreveu foi: 'Eu não quero viver em um mundo onde os poderosos impõem suas más intenções às massas e não encaram nenhum tipo de consequência. Sem Deus, os homens escapam muito facilmente da justiça humana. Eu não engulo com isso.' Ela também abordou a pedofilia, pelo que percebi, porque alguém falou sobre padres pedófilos para ela. 'Então, você sabe, pedofilia é imoral mas há pedófilos que escapam da justiça humana e portanto é bom saber que a justiça de Deus vai eventualmente pegá-los.' Essa é a base do porquê ela acredita, então aqui está a minha resposta: O mundo onde você quer viver não tem base no mundo onde você de fato vive. Se essa é sua principal objeção às visões de mundo que não incluem justiça cósmica, me perdoe o comentário condescendente, você realmente não entende do que você está falando. A vida não é justa e o desejo de justiça que você expressa é um pensamento-chave da maior parte das religiões.

Todos sabemos que o bem muitas vezes não é premiado e o mal segue impune, então os que esperam justiça criaram uma saída para não se atolar em depressão e evitar encarar a aspereza de uma realidade indiferente. Seja céu e inferno, ou Karma ditando infinitas reencarnações, todas as religiões servem ao mesmo propósito. Alguns de nós preferem encarar a realidade, alguns de nós percebem que não há uma boa razão para crer que o universo não seja nada senão indiferente à nossa existência e aos nossos conceitos de bem e mal. Algumas pessoas percebem que lidar com a realidade em termos 'reais' é a única forma de 'realmente' melhorar a situação.

A vida não é justa. E é de fato reconfortante pensar sobre isso. Se a vida fosse justa, isso seria dizer que você é merecedor das coisas ruins que acontecem com você. E aqueles que se beneficiam de más ações seriam iguais merecedores. Perceber que não há razão para esperar justiça é o que assegura fazer coisas que imponham justiça. Perceber que o bem não é sempre recompensado é o que nos guia a premiar o bem quando o vemos. Perceber que o mal não é sempre punido é o que nos guia a trabalhar juntos como sociedade cooperativa, lidando com nossos problemas coletiva mas também individualmente, de uma forma que encoraje mudanças reais e que, esperamos, minimize ações prejudiciais. Perceber que a justiça não é garantida nos permite apreciar quando ela se realiza e assegurar que se realize em uma base regular. Sua visão particular do conceito de 'deus de justiça' representa o máximo da irresponsabilidade e da injustiça.

A religião que você escolheu nos considera pecadores ao nascer, culpados antes de dar o primeiro suspiro, responsável por coisas que nunca fizemos. Essa religião oferece perdão instantâneo e não merecido para os crimes mais horríveis e pune com pena eterna pessoas cujo único crime é a descrença. 
Somos todos humanos.
Essa religião defende a escravidão, deprecia mulheres, amaldiçoa homossexuais, ordena o apedrejamento de crianças desobedientes, sanciona guerras e extermínios, desculpa sacrifício humano e envenena toda mente que toca. Ela inclui somente um crime imperdoável: não crer. Isso é justo? A 'justiça' que você admira não é justiça, é decreto divino, é arbitrária, caprichosa e, no fim das contas, injusta e imoral.

Sim, eu sei que há pedófilos por aí que escaparam de nossa justiça falha. Você percebe que o seu sistema diz que todos eles são elegíveis a um paraíso eterno? Como isso redireciona sua objeção? Sob as leis do cristianismo, o pedófilo que escapou da justiça aqui pode também escapar da justiça definitiva. Sob as leis do cristianismo, ele talvez viva eternamente no paraíso, enquanto alguém que passou a vida toda fazendo o bem, ajudando os outros e contribuindo de maneira positiva, na única vida que temos certeza que teremos, no final é julgado indigno desse prêmio. Não se engane: você não aceitou um senso cósmico de justiça que alivia o problema. Você aceitou um que alivia o problema para você. É uma justificativa egoísta que não demonstra preocupação com questões de justiça. É o pico da arrogância e do seu desejo de se sentir especial porque 'alguém lá em cima' acha que você é especial.

De acordo com o paradigma que você defende, 'ele' acha que qualquer um que o adore é especial, sem preocupação com justiça ou caráter. Vá, leia Romanos. Ninguém fala desse ponto mais claramente que Paulo. A Lei foi estabelecida com pleno conhecimento de que ninguém seria apto a cumpri-la. Ela foi estabelecida para demonstrar essa incapacidade e nos trazer a danação depois. E então se estabeleceu um  escape para que algumas passassem, independentemente de suas posturas em relação a essa Lei. Sua religião a fez escrava. Fez com que não se preocupasse. Fez você apoiar a imoralidade e a injustiça, enquanto afirma que decretos arbitrários e escapes contam igualmente. É uma mentira repreensível, que a envenena e a impede de entender a realidade. Quando as grades caírem dos seus olhos como aconteceu com muitos de nós, estaremos aqui e você vai perceber que não está sozinha. E não tem culpa."

O que eu espero, do fundo do coração, é que, com deus ou sem deus, as pessoas se guiem por aquilo que abarca a todos: nossa condição humana e viva, igual em importância desde nosso primeiro até nosso último suspiro. Espero que deixemos de justificar, por deuses ou partidos, atrocidades - como fizemos tantas vezes ao longo do século XX, ao longo da história, e continuamos a fazer. 


por Mazu 

        Se todas as potências do homem na visão, na audição, nos recursos imensos do cérebro, nos recursos gustativos, nas mãos, na tactilidade, nos pés, se todas essas potências foram dadas ao homem para educação, para o rendimento no bem, isso é, potências consagradas ao bem e à luz, em nome de Deus. Seria o sexo, em suas várias manifestações, sentenciado às trevas?
- Chico Xavier 


Se você anda pelo Brasil, física ou virtualmente, e se não mora embaixo de uma pedra, tem acompanhado as várias manifestações contra o Pastor Feliciano. Elas estão por todo lado, na rua, na chuva, na fazenda, nas internets ou numa casinha de sapê. Este post vai destoar um pouco das manifestações porque vou defender o Feliciano. Brinks. Impussibru. (Bazinga!)

Bom, já assumi, sou uma pessoa religiosa, já fui mais, mas a culpa não é bem de Deus e, sim, dos que acham que falam em nome dele. É, gente tipo o Feliciano. Já falei sobre minha fé e o feminismo aqui. A Thaís e a Tággidi trataram lindamente de religião e preconceito aqui e aqui. Para a gente não ficar se repetindo, vou tratar só do Parco Feliciano. Isso porque, pelo visto, muita gente parece não entender qual é o problema dos movimentos sociais (feminista, LGBT, dos direitos humanos) com o Impastor. Abaixo, numerei alguns exemplos do que escutei e li nos debates gerados em torno das afirmações do Feliciano:



1) A implicância com o Feliciano é preconceito contra evangélicos e cristãos?

Não. Gostaria de deixar assim bem claro que o problema que temos com o Feliciano não tem relação com a religião dele. O Jean Willis fez uma nota bem legal sobre isso. De minha parte, vou fazer uma brincadeira: eu até tenho amigos evangélicos, logo não sou evangelicofóbica. 

Agora, falando sério, o problema não é a religião, é o uso que ele faz da religião para justificar e legitimar os próprios preconceitos. Existe muita gente religiosa, inclusive evangélica, putíssima com as afirmações babacas dele.



2) A gente não tem direito à opinião? E a liberdade de expressão?

Lógico que tem. E a liberdade de expressão continua incompreendida, a coitadinha. Direito à opinião e à liberdade de expressão é uma garantia nos dada pela nossa maravilhosa, LAICA e nem sempre cumprida Constituição Federal de 1988. Mas, como todas as garantias e as liberdades individuais, a liberdade de opinião não é absoluta, não, bro. Todas as liberdades individuais têm o seguinte limite: o outro. Lindo, né? Me gusta. 

Assim, eu posso ter opinião, você, nós podemos, como cidadãos comuns, civis, ter a nossa opinião, por mais ridícula que ela seja e desde que ela não prejudique outras pessoas. A gente pode fazer tudo o que a lei não proíbe. Agora, um agente público, um agente político, um deputado tem a liberdade muito mais limitada que a nossa. Eles só podem fazer o que a lei permite. Por incrível que pareça. Logo, o deputado Feliciânus não pode sair por aí fazendo e falando qualquer coisa. As ações desses caras têm que estar dentro das leis, de acordo com a nossa amada salve, salve Constituição que não é, pasmem, a bíblia. E a Constituição PROÍBE discriminação religiosa, de manifestação ideológica, cor, raça e, além disso, equipara homens e mulheres em direitos e obrigações. Lá no comecinho já, artigo 5º, ou seja, não está nem no fim, nem oculto ou escondido na CF, está nas primeiras páginas mesmo. São garantias expressas.

Outro problema é que um deputado com essas opiniões fortes e ofensivas é uma ameaça constante aos nossos direitos adquiridos. Um exemplo, o cara acha que o desmantelamento da família como instituição e o aumento da homossexualidade é culpa dos direitos que as mulheres adquiriram. Aliás, como diria a Feminista Cansada, ele acha que SE as mulheres exercessem esses direitos, elas ameaçariam aquelas instituições. Vai vendo, até os caras mais conservadores sabem que a gente não tem acesso a todos os direitos que estão no papel.

De toda forma, essa culpabilização da mulher é uma opinião mal formada e mal informada. Primeiro que a estrutura patriarcal de família sempre terá problemas e passará por crises porque é excludente, limitadora e preconceituosa. Se a família do jeito que o patriarcado idealiza não existe, é porque o seu próprio sistema é falho. Outra coisa, a homossexualidade não "aumentou", detesto quando falam isso, como se fosse um problema. O que acontece é que, hoje, as pessoas têm um pouco mais de liberdade sexual. E Feliciano ameaça diretamente esse pouco que, ao mesmo tempo, é muito, do que a gente já conquistou.

Por isso que a opinião dele não é simplesmente uma opinião. Essa pessoa que abre a boca para dizer isso, é a pessoa que pode (sim, tem o poder de) criar e mudar as leis. Perceba e entenda o nosso pânico.



3) Eu sou homem, branco e hétero, Feliciano não me interessa (atinge).

Há. Senta aí, bonito. Xô te contá. Agora, por enquanto, não. Afinal, é mais fácil começar pelas minorias (que apesar do que o Felicianta acha, não significa minoria numérica, tá?). Mas se você gosta do seu direito de ser ateu, agnóstico, católico ou qualquer outra coisa que não evangélico, cuide-se, viu. Se você foi criado por uma mulher que trabalhou fora (e, provavelmente, dentro) para te manter, se você tem uma companheira com quem divide as contas, cuida também, viu. Os direitos ameaçados não te afetam diretamente, mas gente intolerante no poder, de alguma forma e em algum momento, atinge todo mundo. Se não hoje, logo mais.

4) Os  evangélicos não podem ter representação parlamentar?

Uai, poder pode. O que não pode é tentar passar e impor suas crenças para o resto do país. Oferecer a cura gay na igreja não é proibido, embora, pessoalmente, pareça-me absurdo. Agora, transformar a cura gay em lei não pode. Fere diretamente a liberdade de um monte de gente.

É assim: num Estado laico que prega a liberdade religiosa, as crenças ficam nas respectivas casas (igrejas, terreiros, centros, etc.). No Congresso, os pastores não devem ser pastores; nem os padres, padres. Isso porque eles não representam apenas os que votaram neles, ali, eles estão por todo mundo. É pra ser simples, cada um no seu quadrado, e todos se respeitando.

5) E aí, a gente faz o quê?

Muitas coisas. Para começar, a gente se junta aos protestos. Pode parecer que não adianta, mas adianta. Devemos ir às manifestações e assinar as petições. A mentalidade felicianística ameaça não só os direitos dos homossexuais e das mulheres, ameaça o Estado democrático que a gente vem buscando há tempos e queima muito o filme dos cristãos. Então, bora participar.

Para terminar, tenhamos pensamento crítico. Não por nada, não, sem querer ofender, se você tem uma religião que prega violência contra o diferente, talvez seja interessante pensar melhor a respeito. Estudar um pouquinho de história, ver tudo de horrível que esse tipo de pensamento já causou e ainda causa. Mas, assim, de boa, sem querer pregar contra nenhuma religião. Sei lá, me chame de louca, mas Deus, pra mim, é amor.

Tággidi subvertendo!

por Roberta Gregoli


Do site Um dia ainda viro cartunista

...ser homem branco heterossexual de classe AB seria o nível fácil.

A metáfora é de Rachel Saklr. Em contrapartida, ser mulher, negra/indígena de classe D seria a dificuldade máxima.

É claro que é possível ganhar o jogo nos níveis de dificuldade mais elevados: tem gente que é mesmo boa de jogo, há quem tem sorte, há xs que têm inteligência e esforço acima da média. Agora, não dá para medir o todo por essas exceções e sair por aí dizendo que não existe sexismo no Brasil porque temos uma Presidenta ou que não existe racismo porque tenho um amigo negro que faz faculdade pública.

É preciso ter clareza que o jogo é diferente e, enquanto essas pessoas devem, sim, ser celebradas por suas conquistas excepcionais, não deixa de ser muito injusto culpabilizar quem não chega lá. 

O contrário também é verdadeiro: nem todo o homem branco cissexual de classe alta vai ganhar no jogo da vida, mas não dá para ficar chorando as cotas derramadas porque o jogo agora ficou um cadinho mais difícil.


Cotas raciais e de gênero são polêmicas porque alguns simplesmente não conseguem - ou não querem - enxergar a bruta vantagem que têm sobre xs outrxs - vantagem que vem das oportunidades de berço, e até muito antes do nascimento:

Breve história do privilégio

Em outras palavras imagens, se a vida fosse uma corrida, ela seria assim:

E a reação que enfrentamos quotidianamente
por apontar essa bruta injustiça é mesmo essa

As metáforas são várias, mas a do video game é particularmente pertinente porque o mundo dos games é sabidamente sexista. A começar pela representação das mulheres nos jogos, de Lara Croft a qualquer coadjuvante boazuda.



Na vida real, Anita Sarkeesian, do excelente Feminist Frequency, lançou um projeto para analisar a representação das mulheres nos video games e acabou sendo vítima de uma campanha de ódio massiva, que incluia até um jogo interativo em que jogadores eram encorajados a beat the bitch out (espancar a vadia).

Ainda mais perturbador - se é que isso é possível - que essa demonstração abertamente misógina em grande escala foi que os perpetradores constantamente se referiam a essa campanha de assédio e abuso como um jogo. - Anita Sarkeesian
Se a vida é um video game, misóginos são heróis. Era o que faltava. Mas antes fosse só no mundo dos games. O caso recente de dois jogadores de futebol americano que estupraram uma garota de 16 anos em Steubenville (que, apesar do nome, é uma cidade real nos Estados Unidos) resultou em condenação, coisa rara - vide o revoltante caso da banda New Hit em solo nacional. Apesar de terem sido julgados e condenados, o tom da mídia foi de comoção por 'essas jovens estrelas do esporte' que tiveram seu futuro 'arruinado':

Uma paródia de 2011 precede o caso e é assustadoramente parecida 
na sua abordagem distorcida do retrato dos criminosos.
Obrigada à Marylin Lima pela indicação dos links

Não é à toa que vítimas de abuso sexual são geralmente reticentes a vir a público: na cultura do estupro - que são todas as culturas -, é preciso muita consciência para se empoderar. Seja na realidade virtual ou na visceral, infelizmente, não é raro que criminosos sejam tidos como heróis e as vítimas compadeçam. O final feliz fica por conta de Anita Sarkeesian, que, apesar de todo o bullying, assédio e ódio, manteve sua campanha e conseguiu angariar um valor 25 vezes maior do que havia pleiteado inicialmente para o seu projeto. Mesmo no nível difícil, Sarkeesian chegou lá.


por Mazu


Este post terá uma vibe de descontração. Sabe como é, às vezes, cansa. Já dissemos, a feminista cansada já disse. Tem muito troll no mundo, e a vida é muito curta e bela.

Escutamos algumas barbaridades, sempre de vez em quando, por sermos mulheres e/ou feministass, e, em vista disso, resolvi comentar determinados "argumentos".

Sei que não é sempre que estamos na pegada de comprar briga, sei que rola um sentimento de "não compensa", mas a nossa sociedade é muito boa em mascarar preconceitos e discriminação, a gente vive em uma era que somos levados a acreditar, pela mídia, pelos costumes e até pelo sistema de ensino, que todo mundo pode ter o mesmo acesso a tudo. Bom, isso é mentira, e esse é o motivo pelo qual, quando escutamos isso ou aquilo, devemos discutir. O que não nos impede de nos divertir também, certo? ;)

Então, é isso, compas. Não esmoreçamos e vamos à Lista de Merdas Coisas que Escutamos por Aí, versão 1:


1. "Pode ser feminista, mas não precisa ser tão radical!"


Resposta rápida: radical é tanto machismo em pleno século XXI, eu sou até moderada, fofx!

Quem tiver com tempo, pode recitar, com a mão no peito em postura de hino nacional, estes tweets maravilhoosos da Carina Prates (vi no feminista cansada).


2. "Não sou machista, nem feminista, todo mundo é igual!"


Esse é um discurso "munitinhu", fofo, que parece inofensivo, mas não é! E precisa ser combatido, muito! Na real, a pessoa está dizendo: a sociedade está boa assim para mim, não me perturbem! As pessoas que acham que todo mundo é igual costumam ocupar um lugar muito confortável na vida, repare bem.

Já que todo mundo é igual, por que as instituições, organizações, entidades, empresas e países são, na maioria, liderados por homens brancos, que não são de longe a maioria (no sentido numérico) no mundo?



3. "Vocês ficam falando alto de sexo e sexualidade feminina, mulher tem que se preservar, que coisa mais vulgar..."


Esta requer elegância, sabe? Aquela elegância de cavalo em desfile de sete de setembro. Vou usar uma figura para explicar bem, desenhar mesmo, como nos sentimos:


Como Rick Astley, não estamos nem aí ("you've been rick rolled!")

Sério, se a gente não pode falar da nossa sexualidade, quem pode? Os homens?


4. a) "Mulher de roupa curta na rua quer o quê?" e  b) "Depois acontece alguma coisa vai fazer o quê?"


a) É difícil responder por que uma mulher pode querer qualquer coisa, mas o importante mesmo é: ninguém tem nada a ver com isso. Não dá para o sujeito ser tão egocêntrico a ponto de achar que toda roupa curta é para ele, muito menos achar que nos interessa a sua opinião sobre nossa aparência ou roupa. Se você for convidado e se interessar, venha, se você for perguntado, responda, no mais, guarde suas opiniões e mãos para você, ok?

b) denunciar e por o estuprador na cadeia.

Chessus, abandonemos o mito do homem estuprador em potencial que não consegue se segurar, de uma vez por todas. A escolha de roupa é nossa, respeito é obrigação e é direito de todxs!


Campanha de carnaval, que serve pro resto do ano também

5. "O feminismo é coisa do passado, hoje, isso não é mais necessário." 


Para esta, dá para aplicar quase que a mesma resposta da 2, e é bom lembrar que, por exemplo, no Brasil, as mulheres votam só há 76 anos. A primeira senadora foi eleita em, pasmem, 1990, e a primeira ministra data de 1988. Vai vendo. Não rola dizer que o meio do caminho, aliás, o começo do caminho é o fim do caminho, saca? Ainda temos um tantão para percorrer até a isonomia, e o grande problema de parar antes disso, no meio ou começo do caminho, é que esses são lugares muito propícios ao retrocesso. Logo, sigamos.


Por anna-grrrl.tumblr.com

6. "Os caras que são feministas são umas mulherzinhas"


Isso, para a gente, é elogio. Eles são legais, mas não são tão legais assim. ;) Brincs. 

A gente vive em um mundo que ser "mulherzinha" pode ter o significado de frágil ou medroso - não aguento, nem entendo, mas... E "homem" em frases como "seja homem" pode significar corajoso. Se a gente for usar os termos dessa forma, eu diria que homens feministas são muito mais "homens" que aqueles que preferem seguir o fluxo da maioria, o que não requer nem coragem, nem esforço algum.

A Márcia Tiburi escreveu um texto muito, muito, bom sobre o lugar da "mulherzinha" e quem realmente anda ocupando esse lugar.


7. "Os caras que defendem licença-paternidade querem ficar 30 dias de folga, coçando o saco."


Parabéns para você que acha que o papel do pai, na criação do filho, é coçar o saco ou que acha que cuidar de um recém-nascido é o mesmo que folga. Espero que as pessoas que acreditam nisso nunca tenham filhos, do contrário, só lamento.

É isso, por enquanto, afinal de contas, nós bem sabemos que outras listas virão e que esta não está completa.


Como Conquistar um Homem