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NASCER HOMEM
(Adela Zamudio)

Quanto trabalho ela tem
pra corrigir a torpeza
de seu esposo, mas na casa,
(permita-me o assombro)
tão inepto como fátuo
segue ele sendo a cabeça,
porque é homem.

Se alguns versos escreve
-“De alguém esses versos são
que ela só os subscreve”;
(permita-me o assombro)
Se esse alguém não é poeta
por que tal suposição?
-Porque é homem.

Uma mulher superior
em eleições não vota,
e vota o sacana pior;
(permita-me o assombro)
Com só saber assinar
pode um idiota votar,
porque é homem.

Ele se abate e bebe ou joga
em um revés da sorte;
ela sofre, luta e roga;
(permita-me o assombro).
Ela se chama “ser débil”,
e ele se apelida “ser forte”
porque é homem.

Ela deve perdoar
se seu esposo lhe é infiel;
mas, ele pode se vingar;
(permita-me o assombro)
em um caso semelhante
até pode ele matar,
porque é homem.

Oh, mortal!
Oh mortal privilegiado,
que de perfeito e honesto
goza seguro renome!
Para você que basta?
Nascer homem.

(tradução de Jeff Vasques)


Adela Zamudio (Cochabamba-Bolívia, 1854-1928) publicou seu primero poema aos 15 anos, entitulado "Duas rosas" e, desde então, não pararia mais de escrever, sempre assinando com o pseudônimo de "Soledad" (Solidão), seu nome de guerra. Apesar de ter cursado apenas até o terceiro ano do primário (essa era a educação máxima a que as mulheres bolivianas tinham direito à época), seu desejo por conhecimento e liberdade à leva a instruir-se por conta própria. Por suas idéias avançadas para a época é isolada socialmente e aprende desde cedo a lidar com a tristeza e solidão a que se viu ilhada.

Adela, já como professora, desenvolve uma fecunda atividade pedagógica buscando eliminar as travas reacionárias que conduziam a educação das jovens bolivianas. Em sua defesa dos direitos das mulheres de receber boa educação, Adela Zamudio clamava a necessidade de introduzir o laicismo nos  programas acadêmicos nacionais, lançando algumas propostas audazes para sua época, como a instauração do matrimônio civil, o direito ao divórcio e à separação dos poderes da igreja católica e do Estado. Impulsionou o ensino gratuito e laico, denunciou fortemente o ‘primitivismo patriarcal’ da sociedade e a exploração e dominação dominante. Adela Zamudio contribuiu com todos seus esforços para a formação do pensamento feminista na Bolívia: em 1921 aparece em Oruro o primeiro número da revista "Feminiflor", dirigida e escrita por mulheres que fortaleciam o ideal da liberação feminina; e, em 1923, se constituiu em La Paz a primeira organização autônoma de mulheres que lutou pelos seus direitos políticos, o "Ateneo Feminino". Por esse período, as mulheres se incorporavam ao movimento sindical, com sindicatos própios e com a Federação Operária Feminina.

Adela Zamudio forma parte da primeira geração de autoras hispânicas do período modernista que resistem à estética vigente. São autoras que apelaram em seus escritos a um projeto de autenticidade tanto pessoal e político como estético que desarticulava a visão estereotipada que se projetava da mulher no cânone socioliterário. Em Zamudio se encontra a prioridade dada a um compromisso íntegro com a realidade boliviana de seu tempo, denunciando o sistema em curso. Assim, Adela levou adiante seu projeto de legitimação e fortalecimento da mulher. Lydia Parada de Brown considera que "esta escritora boliviana foi uma das maiores da América, mas lamentavelmente não alcançou a fama de Gabriela Mistral, ou de Juana de Ibarbourou".  O poema que traduzi acima é um de seus poemas mais famosos.

por Maria C.

Há uma ideologia perversa rondando a vida das mulheres. Como um vento gelado, um vírus incontrolável, essa coisa entra por todas as frestas, nos alcança por todos os lados, numa espécie de Estado totalitário midiático nazista sei-lá-o-quê. Não dá pra escapar: é o mito da beleza, a ditadura da magreza, da juventude, da perfeição. Mulher que é mulher é linda, jovem, magra, clara, bem cuidada, perfeita.

Não sou autoridade no assunto, nem é o tema, mas durante o nazismo, buscou-se apoio científico, nas ciências naturais da época, a fim de justificar-se a superioridade da raça ariana; da filosofia, utilizando-se inadequadamente os ideais de Nietzsche: seu conceito de super-humano em contraposição ao niilismo (em “Assim falou Zaratruschta”), havendo suposta ligação entre o nazismo e o Übermensch; e ainda, aliada ao uso pesado da mídia, foi utilizada a estética em favor do ideal totalitário. Hitler afirmou que “o maior princípio de beleza é a saúde”. Isso soa tão familiar...

Decaídas as questões políticas, militares e expansionistas, mas persistente o cinismo pseudocientífico e a necessidade de dominação e de criação de uma espécie superior – uma espécie superior de mulheres em relação às outras, as supermulheres, ouso afirmar que estamos vivendo uma espécie de nazismo criado especialmente para nós, mulheres.

Qualquer comercial de TVdestinado diretamente ao público feminino confirma a minha tese: “Cuidar das axilas é fácil!” ou então “O que você faz para acabar com as pontas duplas?” Vejam só, as mulheres devem inserir cuidados diários com suas axilas, que não bastam estar depiladas; devem ser claras, lisas, esfoliadas e macias! E as pontas duplas, então? Seus cabelos, pintados, alisados, chapados, hidratados, selados e sei-lá-o-quê devem receber diariamente produtos para evitar as pontas duplas, pois onde já se viu uma mulher ter pontas que não possam imitar uma franja? Nos filmes, nas novelas, nos telejornais e também nos comerciais de TV, todas as mulheres são magras, jovens, tem lindas peles e estão maquiadas, ao passo que os homens são normais: têm gordos, magros, altos, baixos, jovens, velhos, carecas, cabeludos, com dentes brancos ou amarelos.

Existe então uma nova raça, de supermulheres, as mulheres perfeitas, e digo esteticamente perfeitas, e somente estas têm dignidade para serem representadas na mídia? Ou melhor, apenas estas representam as mulheres, de modo que as demais não merecem sequer representação? Somos o terceiro estado pré-revolucionário, acaso? Um alienígena que necessitasse coletar dados sobre a população feminina e partisse da representação midiática sofreria um choque. Não acreditaria na disparidade daquilo que vê na TV e nas ruas. Onde estão as mulheres perfeitas, se perguntaria ele? Vivem no Olimpo? 

A questão é: porque querem nos fazer acreditar que precisamos dos “valores” que nos impõem, que precisamos internalizar estes valores, que necessitamos tanto da transvaloração do que é próprio do ser humano para apropriar “valores” femininos, tão externos e estéticos, a fim de definir o que é uma mulher, ao menos uma mulher de verdade, uma mulher bem sucedida, uma mulher perfeita. Por que de que adianta ter uma bela carreira, ser respeitável em seu meio, mas esteticamente ser considerada uma bruxa velha? É isso o que conta para as mulheres? Segundo aqueles novos valores propriamente femininos impostos pelo ideário anti-feminino (o nazismo feminino de que falo, em sátira), o poder, também inerente ao übermensch, no caso da mulher, é inútil, se ela é feia, ou gorda, ou tem rugas, manchas na pele, eventualmente um cabelo seco ou uma simples unha quebrada. Ela é menos mulher. Em seu tamanho poder lhe debocham pelas costas, onde já se viu uma mulher dessas não fazer as unhas? E por que, querida leitora, eu lhe pergunto, porque nós concordamos com esses editoriais nazi-fascitas em revistas sorridentes, que dizem que devemos pesar 50kg aos 45 anos e, deus nos livre, ter celulite? Por que corremos às lojas de cosméticos atrás dos hidratantes de axilas, dos esfoliantes de cotovelos; das clínicas de estética, dizendo amém, e socorro, sou um lixo humano e não mereço viver pois tenho cílios curtos? 

Porque há uma diabólica conspiração, tão evidente e escancarada, e há tanta gente lucrando com isso, que não nos questionamos mais: mulheres feias não têm representatividade, direitos, nem dignidade: não é mais literário (desgraçado Vinícius), é constitucional e científico, afinal, magreza anoréxica de passarela é saudável, e qualquer 200g a mais é obesidade mórbida. Tudo saúde, e morte aos gordos, porque barriga não é mais um órgão, mas um pecado mortal, uma coisa horrorosa, banida da TV, e isso é sério.

Minha ironia se deve à raiva, ao desprezo mesmo à tamanha tentativa de dominação da força feminina.

A tentativa de confinamento das mulheres no espelho, centradas em seu umbigo é repulsiva. Trata-se de uma estética de destruição, querem que nos rasguemos, nossas próprias algozes, de modo que assim, deixemos o caminho livre para que qualquer um nos explore, e explore qualquer necessidade patética que resolvam nos impingir, tais como hidratar as axilas ou viver de dieta intravenosa, um dogma! A revolta é grande. 

A solução? Diante de uma cultura de dominação forte/fraco, lógico/sentimental, tão arraigada e imposta tão covardemente que acreditamos que se funda na ciência, e é inata (!), é preciso de um movimento contrário de idêntica força, que parta da rejeição desta cultura. Um despertar já seria um começo. Conhecer a verdade e descobrir que não precisamos de nada do que nos dizem já é um passo a caminho da liberdade. Abra sua mente. Diga não. 

Quem sabe?

por Tággidi Ribeiro


Atena, deusa da sabedoria.
O prefácio de Franco Volpi ao A arte de lidar com as mulheres, do filósofo alemão Arthur Schopenhauer, é ao fim interessantíssimo. A intenção clara do texto é não só desculpar a misoginia schopenhaueriana, posta na conta do humor ('é só uma piada'), mas também desculpar a misoginia da história e da filosofia ocidentais. Aliás, a palavra correta aqui é justificar, ou seja, demonstrar a justiça (histórica, universal) e legitimar as falas que calavam (ainda calam) a mulher. Contudo, nesse processo, Franco Volpi evidencia aquilo mesmo que o cega ou que ele se recusa a ver: o apagamento sistemático da figura feminina não por alguma sua inferioridade intrínseca, natural, mas dentro da própria construção discursiva dessa inferioridade. Vejamos o que ele nos diz:
6. Seja como for, a tradição do pensamento ocidental, apesar da diversidade das posições, das tendências e das escolas que a constituem, mostra uma surpreendente compactação ao remover, de princípio ou de fato, o sexo feminino, excluindo-o de um papel ativo na filosofia. Se o paralelo não suscitasse hilaridade, e se alguém já não o tivesse proposto, poderíamos arriscar a seguinte tese: assim como Heidegger afirmou que a filosofia ocidental é caracterizada pelo "esquecimento do Ser", poderíamos sustentar que ela é marcada por outro muito mais escandaloso: "o esquecimento da mulher".
O que me chama a atenção nessa fala, fora a questão posta, tanto histórica quanto metafísica, é que o paralelo traçado entre o esquecimento do ser e o da mulher seja, para mim, mulher, trágico, e nele provoque não só o riso, mas a explosão. A misoginia profunda de Franco Volpi tanto ri escandalosamente do esquecimento da mulher quanto esquece a mulher no tempo mesmo em que irrompe: as mulheres jamais seriam suas leitoras? Ou jamais chegariam a compreender, a penetrar esse discurso? Ou seriam obrigadas a capitular diante da verdade? Esta verdade(?):
 7. (...) na República, ele (Platão) reivindicou a igualdade dos direitos para as mulheres, admitindo-as até no estudo da filosofia: infelizmente, o fato é que nessa obra ele ilustrou apenas uma utopia. Já no Timeu, quando expôs a doutrina das metempsicoses, Platão afirmou que as almas são originariamente masculinas: as que vivem indignamente seriam destinadas a reencarnar num corpo feminino e, se novamente se comportassem mal, transmigrariam para o corpo de um animal. Desse modo, ele terminou por atribuir à mulher o estatuto de ser inferior, a meio-caminho entre o homem e o animal.
O homem ocidental clássico tem horror ao animal. Por animal entende aquilo que deixou de ser, aquilo a que se tornou superior e que deve necessariamente dominar. O homem ocidental construiu sua identidade tendo como alter, como outro, não a mulher, mas o animal. A mulher só passa a ser também o outro num momento posterior da dominação do homem sobre a natureza. E para justificar (principal verbo desse post) sua ascensão sobre qualquer ser, o homem imediatamente o associa, o assemelha ao animal. Keith Thomas nos conta, em O homem e o mundo natural, que crianças, jovens, pobres, negros, loucos, povos inteiros e, é claro, mulheres são comparados a animais, sobretudo até o século XIX, quando a biologia ganha o status de conhecimento e os animais têm reconsiderado o seu valor. Mas ainda no século XX o mesmo expediente é usado: antes e durante a Segunda Guerra os judeus são descritos como ratos, para ficar em um só exemplo. 

Quanto às mulheres, seguem animalizadas, ou melhor, seguem carregando a pecha que hoje pesa menos sobre o animal: praticamente todo o discurso midiático e muitas vezes também o biológico gira (propositadamente) em torno do estereótipo da mulher superemotiva, irracional. Seres irracionais não fazem filosofia, lugar primeiro da razão. Aqui o lugar de Franco Volpi.


ps: pincei apenas alguns trechos do prefácio e talvez em algum momento enfoque o texto de Schopenhauer, que segue de algum modo sendo replicado a sério. Veja nesta cena, para mim, tristíssima (min 11:06):


por Barbara Falleiros

[Vai aí um post no puro estilo "classe média sofre" ou "first world problems". Mas não me levem a mal por falar de noivado, jóias e relacionamentos. Se o assunto é aparentemente banal e burguês, suas implicações são alarmantes, como tentarei mostrar mais adiante: não só revelam como o sexismo e o consumismo podem ditar nossas vidas sem que percebamos, mas ainda como, bem longe da nossa existência tranquila, uma "declaração de amor" pode custar a vida e o sofrimento de milhares de seres humanos.]

"O diamante é um símbolo universal do amor. Tendo carregado inúmeros simbolismos, encarnou através dos séculos o amor romântico, emergindo hoje como seu mais poderoso mensageiro. (...) Hoje, mais do que nunca, o anel de noivado é a expressão mais poderosa do amor eterno e verdadeiro, um elemento essencial do ritual de casamento em todo o mundo." (História dos anéis de noivado, por De Beers)

Ser romântica e feminista não é das tarefas mais fáceis. Isto é, quando você se deixa levar pelo que dizem ser o romantismo. Infelizmente, de um modo geral, é mais cômodo e reconfortante ter verdades nas quais acreditar sem passar pelo esforço da reflexão... Foi assim que meu lado sentimental, flertando timidamente com a simbologia do amor indestrutível, engoliu como um ganso à foie gras o que a De Beers afirmou ser o emblema do amor para sempre. Por sorte, a minha outra metade, à qual um teimoso pragmatismo e perpétua desconfiança garantem a habilidade de detectar as inconsistências de um discurso, soube mais uma vez provar seu ponto e ganhar a discussão. Droga! 

Pois bem, em resposta a uma conversa de ontem à noite sobre casamento, alianças e frescuras, minha metade enviou-me hoje cedo um email com o seguinte título: "Diamonds are bullshit". Sem rodeios. Direto na ferida.

A mulher e o sexo como produtos:
"É claro que há um retorno para o seu
investimento. Nós só não podemos
mostrá-lo aqui."

O texto falava, de um ponto de vista masculino e econômico, do stress financeiro imposto aos jovens adultos, obrigados a investir seu dinheiro (dois meses de salário, segundo a "tradição") em um objeto que perde imediatamente a metade de seu valor logo após a compra (ao contrário da prata e do ouro, considerados investimentos viáveis). Jovens que ainda por cima sofrem uma enorme pressão social por conta do pedido de casamento... O texto explicava então que essa “tradição” dos anéis de noivado era o resultado de uma cuidadosa e eficiente campanha de marketing promovida pela De Beers, a gigante dos diamantes, no final dos anos 30. Seu objetivo: transformar o anel de noivado, até então um presente ocasional, em um símbolo mandatório do amor. Era preciso torná-lo precioso e imprescindível: mesmo a “extrema raridade” dos diamantes foi uma ideia construída pela campanha. Também vieram daí as superstições em torno da compra de um anel usado (símbolo de um amor que não durou).

"A razão pela qual você não sente isso é porque isso não existe. O que você chama de amor foi inventado por caras como eu, para vender meias-calça." (Don Draper, personagem da série Mad Men, sobre publicitários da década de 50)

Dureza. Na verdade, para fazer um resumo grosseiro, o amor romântico, que nós pensamos como algo próprio à natureza humana, construiu-se historicamente a partir dos séculos XII-XIII, na continuidade do antifeminismo dos Pais da Igreja e da idealização da mulher surgida na literatura do período (como teorizado por exemplo aqui). Mais recentemente, esse conceito de amor foi abocanhado pela publicidade, que percebeu rapidinho que a felicidade vende.

“Nós gostamos de diamantes porque Gerold M. Lauck nos disse para gostarmos”, diz o texto que recebi. Com a Grande Depressão, as vendas da De Beers caíram 75%. Em 1938, ela então encomendou a uma agência publicitária um estudo de marketing focado nos homens: era necessário inculcar nos jovens a ideia de que diamantes eram o símbolo do amor, e que quanto maiores e de maior qualidade, maior era a expressão desse amor. Quanto às mulheres, elas foram encorajadas a ver os diamantes como parte integrante da dinâmica amorosa. Mas Gerold M. Lauck precisava vender o produto tanto para aqueles que podiam comprá-lo, quanto para os que não tinham condições de fazê-lo. Daí a solução estratégica de transformá-los em um símbolo de status.

Ou seja, um símbolo do sucesso pessoal e financeiro da família, da liderança e da realização de um homem provedor, do valor de uma mulher escolhida - dentre tantas outras - por um homem de sucesso, da exibição pública de um status social valorizador para a mulher (o casamento), e mesmo do incentivo à competitividade feminina (“o meu é maior que o seu” como “eu valho mais do que você”, “eu tenho, você não tem” como “eu sou amada, você não é”)...
 

O fato é que o único verdadeiro sucesso envolvido na história foi o de uma manipulação marqueteira que fez com que, hoje, 80% das americanas recebam anéis de diamante ao ficarem noivas. Uma moda cada vez mais presente no Brasil. E na excitação da esperança de felicidade para sempre, acabamos nos esquecendo de que, ao peneirarmos esses símbolos, só o que encontramos de reluzente é o sangue derramado por uma indústria que se construiu na lama. Como mostrado no vídeo abaixo, na década de 1990, a guerra civil em Sierra Leona resultou em dez mil civis propositalmente mutilados, entre outras atrocidades quase indizíveis (estupro coletivo, mutilação de genitais de crianças) cometidas pelos rebeldes da Frente Revolucionária Unida, que escoaram cerca de 10 a 15% dos diamantes do comércio mundial. Isso em Sierra Leona, sem falar de Angola...


Dito isso, continuo com meu romantismo, ou seja, continuo acreditando no amor. Sem esperar do alto da torre que meu príncipe traga sentido à minha existência, mas consciente de que a vida é menos dura e mais prazerosa quando vivida em companhia, e que uma existência compartilhada é a maior das riquezas. Mas a ganância de uma indústria não tem mesmo nada a ver com o amor, e eu agradeço à minha metade pé-no-chão pela grande prova de respeito ao me lembrar disso.

Ressaltando, por fim, que este textinho não está aqui para julgar nenhuma feliz proprietária de um anel de diamantes nem nenhum homem apaixonado tentando mostrar do jeito que pode a sua afeição. Há uma diferença essencial entre julgar as vítimas e contestar as engrenagens. O ponto positivo nisso tudo é a rapidez com que uma “tradição” pode se estabelecer. Ora, não há nada de errado na aliança entre pessoas que se gostam. Por que é que símbolos de comprometimento deveriam ser ditados por uma cultura consumista sangrenta que nos pressiona de todos os lados, uns para se impor, outras para se submeter? Que criemos outros símbolos, mais profundos, igualitários e verdadeiros, e menos frágeis que um diamante.

"Para cada mão pedida em casamento, uma outra é arrancada."


Por Thaís Bueno

Você já parou para pensar em como certos discursos religiosos têm atacado, ao longo dos séculos, não apenas a integridade e a dignidade feminina, mas muitas vezes a própria integridade física da mulher? E, pelo fato de discursos religiosos estarem de certa forma entranhados em quase tudo que fazemos e pensamos (acredito que é impossível escaparmos a tudo o que tange à cultura em que estamos imersos), esses discursos nos afetam mais do que imaginamos. 



E não me refiro aqui a um determinado tipo de violência contra a mulher ou a uma religião específica: há, no mundo todo, uma infinidade de modalidades religiosas que têm como base de suas práticas um certo temor a tudo que se relaciona à natureza feminina (desde os extremismos praticados por religiões islâmicas de países da África subsaariana até os discursos proferidos por religiosos que estão bem perto de nós). E, obviamente, o grau e o tipo de opressão praticada às mulheres também varia bastante. 

Esses fatos são muito bem explicados pela historiadora Anna Gicelle Garcia Alaniz em alguns dos videocasts que ela publica em seu canal no Youtube, o Cantinho da História. Entre outros assuntos, como o advento do nazismo e diferentes concepções de história, Anna se dedica, em dois vídeos, a discutir questões relacionadas ao feminismo: em um deles, ela fala sobre o Dia Internacional da Mulher e, em outro, sobre a opressão feminina operada pelos discursos religiosos. Tratadas a partir do interessante ponto de vista de uma historiadora e baseadas em uma rica e profunda análise desses temas, essas discussões podem nos ajudar muito a entender e ser mais críticos e sensíveis a essas questões. 



Tendo em mente as ideias que Anna traz, principalmente no vídeo relacionado à opressão feminina pelos discursos religiosos, é interessante pensarmos em certos fatos que, apesar de nos parecerem irrelevantes e naturais, são decorrentes de pura construção ideológica. Por exemplo, as palavras e o discurso de um religioso ao realizar um casamento; a forma como o aborto é tratado pelas diferentes religiões; a autoridade conferida às mulheres em certas igrejas; a forma como a natureza do corpo feminino é tratada em determinadas culturas; a constituição familiar; a forma como as religiões instituíram um lugar para mulheres entre suas santas e intercessoras, e como esse lugar lhes é concedido. 


Especificamente nesse último quesito, achei muito interessante um trecho do livro Borderlands/La Frontera – The New Mestiza, em que Glória Anzaldúa conta a história da formação de três figuras míticas mexicanas (a Virgem de Guadalupe, padroeira do México; Malinche, mulher indígena que ficou marcada como traidora na construção do imaginário nacional mexicano; e la Llorona, a mais famosa lenda mexicana, construída a partir do mito da mãe que perde seus filhos e com isso passa a vagar eternamente assombrando crianças "malcriadas"). Essas três figuras mexicanas podem ser um exemplo interessante de como a imagem da mulher (proveniente de diversos domínios da cultura – do imaginário indígena, de mitos e lendas populares ou da própria religião católica) é utilizada pelo discurso religioso como ferramenta ideológica para manipulação e manutenção do poder político e social: 

La gente Chicana tiene tres madres. Todas as três são intercessoras: Guadalupe, a mãe virgem que não nos abandonou, la Chingada (Malinche), a mãe violentada a quem nós abandonamos, e la Llorona, a mãe que procura pelos filhos perdidos e é uma combinação das duas primeiras. A ambiguidade cerca os símbolos dessas três "Nossas Senhoras". Guadalupe foi usada pela igreja para confirmar nossa opressão institucionalizada: para aplacar índios, mexicanos e chicanos. Em parte, a verdadeira identidade de todas as três foi subvertida – a de Guadalupe, para nos tornar dóceis e pacientes; a de la Chingada, para fazer com que nos envergonhemos de nossos ancestrais indígenas; e, de la Llorona, para nos tornar um povo eternamente sofredor. Essa subversão ajudou a fortalecer a dicotomia virgen/puta.


Se você quiser saber mais sobre o mito de la Llorona e de como os discursos religiosos podem influenciar na forma como a mulher é vista e tratada em nossa cultura, sugiro a leitura de “La Llorona: mito e poder no México”, de Rosa Maria Spinoso de Montandon. Disponível aqui.

por Barbara Falleiros

Quando respondo a perguntas sobre o que faço da vida, às vezes me deparo com interlocutores perplexos. Muitos não entendem o porquê de se estudar "personagens obscuros de um período obscuro", tão distantes do "extraordinário estágio civilizacional para o qual evoluímos"! Afinal, que interesse pode haver em uma época de príncipes e castelos, rivalidades e traições, para além daquilo que serve à fantasia de um Game of Thrones e afins? Vejo-me no papel de meus antigos professores de História, repetindo a adolescentes insolentes que a compreensão do passado serve para entendermos o presente. E às vezes você descobre que quinhentos, seiscentos anos te separam... do mesmo lugar!

Christine de Pizan no seu "escritório"
Há uma década, descobri uma mulher impressionante. Italiana de origem mas educada na corte francesa, filha de um médico do rei, Christine de Pizan (1364-1430) teria vivido uma existência tranquila, uma existência anônima de mãe e esposa como tantas outras se, como ela conta, sua vida não tivesse sido influenciada por duas forças poderosas, "Natureza" e "Fortuna" (ou seja, o destino).  A primeira conferiu-lhe grande curiosidade intelectual, a segunda deixou-a viúva aos 25 anos de idade, com três filhos pequenos. E o que faz uma jovem viúva com dificuldades financeiras no final da Idade Média? Casa-se novamente, certo? Errado! Ela se torna a primeira escritora profissional da história da literatura francesa.

O caminho que Christine escolheu não era, decididamente, o que a sociedade esperava dela. É verdade que, enquanto mulher e escritora, ela representava uma "novidade" que foi em parte responsável pela fama que adquiriu ainda em vida. Por outro lado, os homens intelectuais não a consideravam como uma igual, longe disso, e ela teve que lutar duramente pelo seu espaço no campo literário. Christine tinha total consciência da posição de inferioridade ocupada pelas mulheres e um dos seus maiores combates foi contra a concepção misógina de uma natureza feminina "deficitária", isto é, contra a visão das mulheres como seres moralmente e intelectualmente inferiores (valeu, Aristóteles!). Era preciso distinguir o natural do cultural, como ela afirma no Livro da cidade das damas (1405) a respeito da educação feminina: 

Eu reafirmo, e não duvides do contrário, que se fosse costume mandar as meninas à escola e se lá aprendessem as ciências, como fazem com os meninos, elas aprenderiam tão perfeitamente e compreenderiam tão bem quanto eles as sutilezas de todas as artes e ciências. [...] Sabes por que elas sabem menos? Porque não vivenciam coisas diferentes, porque basta que permaneçam em suas casas, às voltas com suas ocupações domésticas. Porém, não há nada mais estimulante para uma criatura dotada de inteligência do que experiências diversas e abundantes.

No Livro da visão de Cristine (1405), que contém inúmeras passagens autobiográficas, ela retoma a questão a partir de sua própria experiência. Ela se imagina dialogando com uma personificação da Filosofia, à qual diz:

Pois embora minha natureza me inclinasse para o saber, as tarefas que normalmente cabem às mulheres casadas, além da obrigação de frequentemente carregar bebês em meu ventre, impediram-me de dedicar-me aos estudos. [...] E o que há de mais belo que o saber? E o que há de mais vergonhoso do que a ignorância de um homem? Assim, certa vez respondi a um homem que criticava meu desejo de saber: ele dizia que não cabia a uma mulher ter conhecimento, como existem poucas. Respondi que tampouco cabia a um homem ser ignorante, embora existam muitos!
E eis a resposta de Filosofia:
No que te diz respeito, não há dúvidas de que se teu marido estivesse vivo até hoje, não terias estudado tanto quanto estudaste, impedida pelas ocupações do lar. Assim, não terias apreciado uma das coisas que mais amas no mundo, isto é, o doce sabor do conhecimento.

Vale ressaltar que Christine não era contra o casamento. Ela amou profundamente o marido que seu pai escolhera para ela e admirava-o por sua inteligência. E se ela começou a escrever após sua morte, a poesia serviu-lhe primeiramente como experiência catártica, uma forma de lidar com a solidão e com a tristeza. "Sozinha estou e sozinha quero estar, sozinha deixou-me meu doce amigo, sozinha estou, sem companheiro nem mestre", disse em seu poema mais famoso.


Por volta de 1401-1402, Christine se envolveu em uma briga literária com homens intelectuais do seu tempo a propósito de uma obra extremamente famosa, o best seller de então, chamada Romance da Rosa. O livro conta a história da tomada de um castelo seguida da "colheita de uma rosa" pelo Amante apaixonado, em outras palavras, a história da conquista e da defloração de uma jovem dama. Para Christine, um escritor tinha que arcar com sua responsabilidade moral e não podia escrever absurdos misóginos e obscenos usando a desculpa de que tinham sido ditos por suas personagens. A discussão toda era sobre a função da literatura, o que não cabe desenvolver aqui, mas é muito interessante reparar nos argumentos usados pelos "inimigos" de Christine para desmerecê-la no debate. Para um deles, tudo o que ela era dizia era ditado por terceiros. Afinal, que mulher seria capaz de pensar e tirar suas próprias conclusões? Ela era só o "guarda-chuva" (é a palavra que ele usa, ou "capa de chuva") colocado na linha de frente do debate e atrás do qual se escondiam homens covardes que lhe assopravam os argumentos... Resumindo, queria dizer: não foi você quem disse e eu não discuto com mulher.

Sábios e o temor da audácia feminina:
Aristóteles seduzido e humilhado pela cortesã Fílis
Após lançada a carta da incapacidade intelectual, eis que emergia o velho e bom julgamento baseado na moral e na sexualidade feminina. Ora, ao ousar atacar o grande mestre autor do Romance da Rosa, Christine agia como Leontina, uma prostituta grega que criticara o filósofo Teofrasto. Ou seja, no debate, Christine é literalmente chamada de puta!

Não é curioso que nós, seiscentos anos depois, escutemos o mesmo tipo de discurso, o mesmo tipo de argumento e o mesmo tipo de insulto? Não é curioso que nós, mulheres, ainda estejamos tentando conciliar casa, filhos e trabalho, sobrecarregadas por tarefas domésticas que muitas vezes nos impedem de seguir vocações? Que embora as mulheres sejam hoje a maioria na Universidade (enquanto estudantes, mas não necessariamente enquanto docentes...), ainda existam áreas nas quais elas são vistas como "incapazes" e "incompetentes", só por serem mulheres? Que em suas tentativas de emancipação a mulher seja invariavelmente tratada como piranha e vagabunda?

Em uma de suas cartas escritas durante essa querela literária, Christine tentou convencer seus interlocutores de que as mulheres não eram monstros de outra espécie, que precisavam ser combatidos e domados, que elas eram seres humanos como eles:

Penso sem dúvida que, se tu fosses bem informado, já não trarias [ao debate] aquele Ovídio da Arte de amar como argumento para desculpar teu mestre [o autor do Romance da Rosa]. [...] Ó livro mal intitulado Arte de amar! Pois de amor é que não é! Mas sim de falsa arte e maliciosa habilidade de enganar mulheres, é como deveria ser chamado. Que bela doutrina! É então um grande feito iludir essas mulheres? Quem são as mulheres? São elas serpentes, leões, dragões, víboras, animais vorazes devorantes e inimigas da natureza humana, que devem ser trapaceadas e capturadas por meio de artimanhas? Se assim pensais, homens, lede então a Arte: aprendei os artifícios! Agarrai bem as mulheres! Enganai-as! Insultai-as! Invadi o castelo! Cuidai, homens, para que nenhuma vos escape, e que tudo ceda ao opróbio! Por Deus, não são elas vossas mães, vossas irmãs, vossas filhas, vossas esposas e vossas amigas? Elas são vós mesmos e vós mesmos sois elas.

Feminismo: há mais de seis séculos, a ideia radical de que as mulheres são gente...


por Thaís Bueno

La Malinche, de Rosario Marquardt, 1992
Se existisse um hall of fame para tradutorxs, com certeza no topo da lista de homenageadxs estaria uma índia, que, não bastasse ter sido a tradutora do original, foi também amante dele.

Trata-se de La Malinche, como é mais conhecida (mas também foi chamada de Malinalli e Malintzin na tribo onde cresceu). La Malinche foi uma princesa de origens asteca e maia, nascida no final do século XV, na região onde hoje fica o México, e ainda criança foi vendida como escrava, por seu padrasto, a um comerciante local. Em seguida, com a invasão do México pelos espanhóis, La Malinche foi parar nas mãos de Hernan Cortéz, espanhol que foi figura central no episódio da conquista do México.

Ao perceber que Malinche se virava muito bem com idiomas, os espanhóis a recrutaram como intérprete de Cortéz. A partir de então, ela passou a traduzir, para o invasor, não apenas as palavras do imperador asteca Montezuma, mas tudo o que os astecas discutiam a respeito da chegada dos espanhóis.

No século XVI, a índia Malinche foi intérprete do espanhol Hernan Cortéz,
traduzindo, da língua nahuatl, as planos e os planos do imperador asteca Montezuma
e contribuindo para o projeto de conquista do México pelos espanhóis
(Ilustração: Lienzo de Tlaxcala)

Obviamente, essa "mexicana nativa", se é que se pode falar assim, foi extremamente influente nos planos de conquista orquestrados por Cortéz, planos esses que terminaram em um dos maiores genocídios de que se tem notícia. E é muito interessante pensar que, muitos anos após a conquista do México, durante o processo de independência e de formação do imaginário nacional do país (uma nova ordem patriarcal e religiosa), a figura de Malinche reapareceu, passando a representar a mulher traidora e vil, que se entregou (linguística, cultural, militar e sexualmente) ao inimigo, e assim entregou ao invasor todo o México. Ao contrário da imagem da Virgem de Guadalupe, a virgem mestiça que representaria a face “santa” da cultura mexicana, Malinche carregaria a imagem de puta (e não deixa de ser engraçado e irônico que, em uma cidade do Texas, EUA, exista um bairro em que as ruas Guadalupe e Malinche se cruzam). “Hijo de La Malinche”, “malinchista”, “à La Chingada” são todas expressões pejorativas (que aqui no Brasil têm correspondentes como "filho da puta" e "para a puta que o pariu") que remetem à figura da índia e são bastante usadas no México. 
Vista do Google Maps da irônica esquina em que a rua Guadalupe
e a avenida Malinche se cruzam em Laredo, Texas, EUA

Pensando em toda essa história e também que a História que conhecemos é sempre contada segundo uma ideologia, não me surpreende que La Malinche tenha se transformado em palavrão na boca dos mexicanos.  Ela foi uma mulher dotada de um poder extraordinário, dado o contexto político. Como intérprete de Cortéz, ela estava na posição singular de decidir o que ambas as partes do conflito iriam saber e o que seria mantido em segredo. Ela não apenas estava passando informações de uma língua para outra, mas tinha o poder de decidir se mudaria ou não o curso da história, a cada frase. Uma mulher como ela, com tamanho poder, não poderia ser admirada, nem respeitada. Ela teria que ser rebaixada e ridicularizada, tanto naquele momento específico, quanto em todo o desenrolar da história do México. 

Essa questão me faz lembrar um ótimo professor que, certa vez, em sala de aula, contou para a turma uma das inúmeras e péssimas piadas sobre a “loira burra”, que todo mundo conhece. A turma riu. Em seguida, o professor perguntou: “vocês sabem por que riram?” A turma em silêncio. Ele próprio respondeu à pergunta, explicando que, pelo simples fato de a loira ser loira, ou seja, se encaixar no padrão de beleza que o nosso país mais valoriza, ela não pode nem deve ter outras características positivas, como inteligência ou bom humor, pois, caso isso aconteça, seu poder será muito grande e ela poderia ameaçar o status quo.

A história de La Malinche pode nos ensinar muito sobre o porquê de a “loira” sempre ser “burra” em nossas piadas. No entanto, há alguns anos, a figura de La Malinche tem sido resgatada por estudiosas (e isso me torna muito otimista) que passaram a defender para a indígena a imagem da mulher que representa a abertura ao outro e que, em uma situação de poder, o utiliza para transpor limites de gênero e cor, celebrando o hibridismo e a mestiçagem em detrimento de um ideal de pureza.

 Norma Alarcón[1], feminista chicana, buscou em Todorov uma boa e nova definição para papel de La Malinche na história mexicana e latino-americana:

primeiro exemplo e, portanto, símbolo da hibridação de culturas, ela proclama o estado novo mexicano e, mais do que isso, o estado presente de todxs nós, uma vez que, se não somos todxs bilíngues via de regra, somos, inevitavelmente, bi ou triculturais. La Malinche glorifica a mistura em detrimento da pureza, bem como o papel dx intermediárix. Ela não se submete ao outro simplesmente. Ela adota a ideologia do outro para melhor compreender sua própria cultura, conforme se pode ver na eficácia de seu comportamento (mesmo que "compreender" signifique aqui "destruir").


[1] ALARCÓN, Norma. “Traddutora, traditora: a paradigmatic figure of chicana feminism”, in Inderpal Grewal & Caren Kaplan (org.) Scattered hegemonies. Postmodernity and transnational feminist practices. Minneapolis & London: University of Minnesota Press, 1994, p. 43-56.
 


Há um ano, mudei para o Distrito Federal. Aqui, tudo é muito diferente, muita coisa choca, muita coisa assusta, para o bem e para o mal. Uma das coisas que mais me assusta, para o mal, no DF, são os casos de violência contra a mulher: são quase 15 ocorrências por dia. Em março de 2012, o DF era o líder de denúncias no ranking, seguido pelo Espírito Santo e Pará. 

O DF é muito menos lilás que isso

Na maioria dos casos, a agressão faz parte daquela velha história de "amor": a gata amava o cara, não ama mais ou não tolera mais, então, toma tiro, toma pancada e vai tomando. Outra prática comum é o assalto seguido de estupro, geralmente envolvendo casais e famílias como vítimas. Isso me fez pensar na Marcela Temmer, em outras pessoas e situações nessa vida. Muita coisa mudou, melhorou até, mas as mulheres ainda são vistas como posses do homem. É a conclusão possível, né? Triste.

Li, por indicação de uma amiga, uma notícia antiga sobre a Marie Nzoli e o cotidiano das congolesas, cotidiano este que envolve estupros diversos e variados em sua vida, por tantos motivos. Na verdade, não consigo pensar em coisa mais sem motivo que o estupro. Mentira. A guerra, o genocídio e a briga político-social pelos diamantes, no Congo, são ridiculamente e igualmente coisas sem motivo, mas enfim.

Não rola comparar o Brasil com o Congo, a situação lá é de fazer chorar, vomitar e tudo mais. Aqui, a gente conta com esse e aquele instrumento legal e instituições de defesa, mas ainda assim, determinadas coisas acontecem. Eu disse ali em cima que esses acontecimentos absurdos narrados pela Marie são sem motivo, mas é pela brutalidade né, pelo grotesco do cenário. Na real, o motivo de o estupro servir de arma de guerra; de um cara entrar na casa de outro cara e roubar a casa, o carro e estuprar sua mulher; de o ex matar ou tentar matar a ex; enfim, o motivo é o machismo. É, o machismo é motivo para coisas que vão desde as mais bobas às mais graves. Século XXI, e ainda tem MUITA gente achando que a mulher é posse do homem.

Marie Nzouli e a organização que fundou no Congo

Pessoalmente, acredito que nossas posses têm o poder de nos transformar, para o bem, quando nos trazem responsabilidades. Acredito que relacionamentos nos transformam, para o bem, quando fazem de nós pessoas melhores. É óbvio que isso não acontece sempre. Um exemplo, ou melhor, um desenho. O Lula Molusco tem uma casa de pedra e um clarinete. Vamos supor que ele comece a namorar a Pequena Sereia. Nada, nada disso vai adiantar, se o Lula Molusco continuar sendo o mesmo babaca de sempre, implicando com o Bob Esponja só porque ele é uma esponjinha feliz. Agora, se ele for namorar a Ariel e deixar o Calça Quadrada ser feliz, aí sim faria alguma diferença.

Além dessa questão de posses e relacionamento não mudarem ninguém. O mais importante de tudo é isto: as mulheres não são coisas. Não são comida, não são enfeites, não são objetos. Elas não podem sofrer  violência de qualquer natureza por não querer um homem, por estar sozinha, por não estar de burca ou por estar.

A gente, aqui no blog, é acusada o tempo todo de exagerar e tudo o mais. Já disseram que somos mal resolvidas porque vemos machismo em tudo. Bom, é nosso papel, como feministas, mostrar que o machismo está no ar. E que vai desde escutar assobio na rua até a amiga da prima da vizinha que levou um tiro porque tentou largar um cara. E, se apontar, chamar atenção aos fatos é ser mal resolvida, sim, somos mal resolvidas. E preferimos assim. Sério, se existe alguém em paz com uma sociedade em que estupro pode fazer parte do cotidiano de tantas formas, humildemente, tenho que dizer que ser bem resolvido é uma bosta, a pessoa precisa ter um problema muito sério para ser bem resolvida com a sociedade como está.


Como Conquistar um Homem