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por Larissa

Flores Raras, de Bruno Barreto, estreou nesta sexta-feira, 16, em 150 cinemas do Brasil. O filme, exibido anteriormente na abertura do festival de Gramado, ficou em 1º lugar de público no festival de cinema de São Francisco e em 2º lugar em Berlim. Não é à toa que a obra era ansiosamente aguardada pelas lésbicas do país.


Trata-se da história de amor, entre duas mulheres notáveis: Lota de Macedo Soares, a idealizadora e responsável pela construção do Aterro do Flamengo; e Elisabeth Bishop, renomada poetisa estadunidense, ganhadora, dentre outros, do Prêmio Pulitzer de 1956, com a obra Norte e Sul, escrita no período em que estava no Brasil.

Veja o trailer do filme: 


Antes da divulgação do trailer, havia receios a respeito da representação das personagens que iríamos encontrar. Não é raro, no cinema, que figuras célebres reconhecidamente homossexuais tenham essa parte de sua identidade disfarçada, ou apresentada apenas como um mero detalhe, como se viver a homossexualidade abertamente em uma cultura heteronormativa fosse algo banal na vida das pessoas. Os exemplos são muitos, não cabe aqui uma lista.

Em Flores raras, as cenas são claras. As duas se amam, se beijam, trocam carícias ternas e picantes. É mesmo possível reconhecer uma representação de afetividade convincente entre duas lésbicas. Glória Pires encena uma Lota decidida e autoritária, poço de segurança que se desfaz. Em uma certa crítica do filme, a atriz foi acusada, por essa atuação corajosa, de fazer uma caricatura forçada de masculinidade. Não há artificialidade nisso, não é uma caricatura. Nem todas as mulheres (ainda bem) seguem os padrões rígidos de feminilidade impostos pela cultura sexista heteronormativa. Isso não é caricatural, é a diversidade das formas de se ser pessoa humana.

Apesar de Bruno Barreto negar que o filme seja sobre homossexualidade, mas sim sobre perdas, o tema está lá com a própria vivência homossexual dessas mulheres históricas. É louvável que haja esse e outros temas. Já Glória Pires, em entrevista no festival de Gramado, comenta a importância da questão no filme em nosso momento político de avanços e reações apavoradas dos grupos conservadores em relação aos direitos homossexuais. Vale lembrar que o projeto do filme, iniciado há 17 anos com a compra dos direitos autorais do livro por Lucy Barreto, lidou com dificuldades em conseguir patrocínio pelo receio que muitas instituições têm de vincular suas marcas à homossexualidade.

E voltamos à pergunta título: Por que gostamos de ver lésbicas no cinema?
Gostamos de ver lésbicas no cinema, na televisão, nos livros porque gostamos de nos sentir representadas. Gostamos de reconhecer nossos conflitos, alegrias, anseios. As histórias contadas são formas de representação da realidade. Elas podem confirmar nossas crenças, reforçar ou questionar padrões, trazer reflexões sob outras perspectivas. O fato de só haver representações de amor heterossexuais acessíveis ao público em geral e principalmente aos adolescentes é uma violência através do silenciamento. 

Lembro que na minha adolescência não vi NADA que contemplasse outras formas de amor. As “lésbicas” que vi na televisão foram em produções pornográficas feitas para homens heterossexuais. Não é de se surpreender que esse tipo de material fosse mais acessível - depois da meia-noite na TV a cabo - que uma representação de afetividade autêntica entre duas mulheres. Ou seja, tudo bem que existissem lésbicas, mas para satisfação de desejos masculinos. Mas enfim, isso era final da década de 90. As coisas vão mudando, ainda que gays e lésbicas apareçam apenas de vez em quando, ainda como algo excepcional no grande circuito das narrativas cinematográficas ou literárias. Essa excepcionalidade não garante a quebra dos padrões, mas essa ínfima existência é um respiro em meio ao mar de produções que confirmam estereótipos heterossexuais de como ser mulher e de como ser homem.  O sucesso de Flores raras é sinal de novos tempos.

Veja:




VIOLETA PARRA (Chile, 1917-1967)
Cantora e compositora, poeta, ceramista, tecelã, pintora, pesquisadora e militante comunista, Violeta realizou seus estudos escolares até o segundo ano do secundário, abandonando-os em 1934, para trabalhar e cantar com seus irmãos em bares e circos, desenvolvendo uma importante carreira como autodidata desde muito cedo. Em 1952 começou a pesquisar as raízes folclóricas chilenas e compôs os primeiros temas musicais que a fariam famosa. Em 1954, quando já tinha o seu próprio programa de rádio, começou um rigoroso estudo das manifestações artísticas populares. Durante o ano de 1955 visitou a União Soviética, Londres e Paris, cidade onde residiu por dois anos. Em 1958 começa importante produção como artista plástica, chegando a expor no Louvre. Violeta Parra pode ser considerada a mãe da canção comprometida com a luta d@s oprimid@s e explorad@s, influenciando e inspirando milhares de artistas e trabalhadores na América e no mundo. Abaixo segue uma canção de Violeta, traduzida; um trecho curto de uma entrevista em que deixa clara sua posição acerca do caráter de sua arte; e um documentário (em espanhol) sobre essa mulher fascinante. Há uma ficção recente, chamada “Violeta se fue a los cielos”, de Andrés Woods, que apesar de não retratar tão intensamente a veia política da vida de Violeta, traz um tanto da poesia e luta dessa artista múltipla. Violeta Parra é uma mulher lutadora de "nuestra américa" que tod@s precisam conhecer!





Porque os pobres não têm 
(Violeta Parra)
Porque os pobres não têm
pra onde dirigir a vista,
a voltam para os céus
com a esperança infinita
de encontrar o que seu irmão
neste mundo lhe tira.

pombinha!
que coisas têm a vida,
ai zambita!*

Porque os pobres não têm
pra onde dirigir a voz,
a voltam para os céus
buscando uma confissão
já que seu irmão não escuta
a voz de seu coração.

Porque os pobres não têm
neste mundo esperanças,
se amparam na outra vida
como a uma justa balança,
por isso as procissões,
as velas, os louvores.

De tempos imemoriais
que se inventou o inferno
para assustar aos pobres
com seus castigos eternos,
e o pobre, que é inocente,
com sua inocência crendo.

O céu tem as rendas,
a terra e o capital,
e os soldados do Papa
lhes enche bem o embornal,
e ao que trabalha lhe metem
a glória como um cabresto.

Para seguir a mentira,
o chama seu confessor,
lhe diz que deus não quer
nenhuma revolução,
nem papéis nem sindicatos,
que ofendem seu coração.

* zamba: é uma dança cantada popular do noroeste da Argentinae que se espalhou por outras partes da América Latina.

Entrevista com Violeta Parra





Documentário sobre Violeta Parra (em espanhol)


(Seleção e tradução de Jeff Vasques)

A beleza trágica

Postado por Unknown | 07:46

por Thais Torres

Difícil saber se Nelson Rodrigues é mais admirado por ser o criador do teatro moderno brasileiro com Vestido de Noiva ou odiado por ser reacionário, machista e defensor da Ditadura Militar. De toda forma, é um nome impressionante da Literatura Brasileira. Primeiro motivo: é personagem e autor ao mesmo tempo. Segundo: é um autor completo, criador notável de tipos e de frases antológicas nas crônicas e autor de algumas das peças mais geniais da dramaturgia brasileira. Terceiro: em um momento em que ninguém podia se abster de ter uma opinião, ele teve a coragem de manter a sua e de alterá-la quando o próprio filho foi torturado pelo regime político que ele defendia. Há outros diversos motivos, mas acredito que é preciso reforçar este último: trata-se de um autor genial em diversos sentidos e suas opiniões políticas não alteram esse fato.

Tantas justificativas parecem ser necessárias em um post sobre Nelson Rodrigues neste blog. No entanto, ser feminista não me faz menos admiradora de sua obra. Isso gera conflitos, pois por mais que eu observe as nuances da máxima "Toda mulher gosta de apanhar" em seu real contexto (e há várias),  não posso negar que em parte foi isso mesmo que ele disse.

A crônica que escolhi para comentar hoje ("A morte pela beleza", está em O remador de Ben-Hur) trata de uma das obsessões do autor: a tragicidade da beleza, do talento e da santidade extremas. Assim ele começa o texto:

Marilyn Monroe morrera, na véspera, dessa enfermidade terrível que é a beleza. Enfermidade, disse eu. E, de fato, a beleza causa na mulher um desgaste interior, macio, insidioso, fatal. E, no fim de certo tempo, a mulher bonita se volta contra si mesma, com tédio e ira de todos os seus dons plásticos.


Mais adiante, o autor compara a tragicidade da beleza feminina com o drama que, segundo ele, acometeria um rol curioso de pessoas que vai dos santos aos grandes líderes, passando pelas belas mulheres e pelos  jogadores de futebol:

Mas o que eu queria dizer é que a autoflagelação, ou a autodestruição, é própria dos seres melhores. Há um momento em que o santo, ou o gênio, ou o herói, ou o craque tem uma brusca saudade da mediania.

O que é a tentação, para o santo, senão o ressentimento? Por um instante, baixa nele um tédio cruel da graça que o ilumina. Ele, então, desejaria ser um burocrata. Trocaria a bem-aventurança pela repartição. Do mesmo modo, um Napoleão, ou um Goethe, ou um Michelangelo há de perguntar, por vezes, a si mesmo: - "Por que é que eu não sou uma besta?"


Pode-se argumentar que o único papel da mulher nessa atormentada lista de "seres melhores" entediados com a própria supremacia é o de "mulher bonita". De fato. No entanto, cabe lembrar a profunda admiração que ele tinha por Clarice Lispector, classificada por ele mais de uma vez como "a maior escritora do Brasil e da América Latina" e acima dele próprio, portanto. O mesmo para sua irmã Stella, uma das raras médicas no Brasil dos anos 1940. Em outras palavras, a admiração de Nelson Rodrigues pelos seres geniais e superiores não reside na mera constatação do gênero ou da profissão do indivíduo, mas na tragicidade que acomete quem é, de alguma forma, superior. Mas que também faz parte de todos os seus outros suburbanos personagens. Para o autor de Vestido de noiva, a tragédia está por toda parte.

Além disso, como negar que há mesmo um trágico destino associado às mulheres extremamente belas? Há aquelas que envelhecem e que jamais são perdoadas por isso. Há outras que morrem tragicamente jovens, como foi o caso da atriz citada por Nelson Rodrigues em sua crônica. Não ser bela tampouco é fácil para a mulher. Basta ver a luta incessante nas academias e clínicas de estética para se alcançar um padrão estético impossível. Padrão esse que traz sofrimento, mesmo quando atingido. 


Impossível não recordar aqui o episódio relatado no capítulo 31 de Memórias Póstumas de Brás Cubas. O protagonista se depara com uma borboleta preta e assustadora em sua casa, metáfora viva da "por que bela se coxa" Eugenia. Incomodado, não consegue deixar de matar o inseto e justifica seu próprio ato dizendo "Também por que diabo não era ela azul?". Em seguida, percebe que às borboletas azuis não caberia um melhor destino: "Porque, é justo dizê-lo, se ela fosse azul, ou cor de laranja, não teria mais segura a vida; não era impossível que eu a atravessasse com um alfinete, para recreio dos olhos". 

À borboleta preta cabe um destino trágico: ser morta e lançada com um "piparote" para as formigas do jardim. Tampouco terá outro melhor desfecho a vida da bela e suntuosa borboleta azul ou laranja, pois ela será morta e cruelmente exibida como um item de decoração.

Termino com uma foto de Norma Jean Baker, tão bela quanto o personagem Marilyn Monroe que ela interpretou ao longo da vida, para deleite de todos. 



por Roberta Gregoli


Jogo dos erros: Qual o problema com esta imagem?

Muito se diz da competição feminina no ambiente de trabalho e como por vezes mulheres em cargos mais altos são particularmente competitivas com outras mulheres. Enquanto é verdade que, no geral, mulheres são criticadas muito mais ferozmente do que seus colegas homens pelo mesmo tipo de comportamento (o famoso padrão duplo), a pergunta que não quer calar é: É possível ter uma atitude feminista ao reclamar da sua chefe?

Não seria o caso de negar que existem, sim, mulheres particularmente competitivas, fato observado não só em empresas como também em outros ambientes, como a política (vide Margaret Thatcher), mas para evitar que - como sempre - as mulheres levem a culpa por tudo, é preciso enfatizar que a raiz do problema é o machismo introjetado, não a mulher individual

E não é de se espantar que mulheres introjetem esse padrão de comportamento. Na cultura popular, o chamado princípio Smurfete, a existência de uma única personagem feminina num mundo de outro modo dominado por homens, continua presente em diversos produtos culturais... até hoje. Para citar dois exemplos brasileiros, nunca ouvi ninguém questionar o CQC por ter uma única (e mais recente) comediante mulher no seu quadro ou tampouco estranhar que, no filme De Pernas pro Ar (Roberto Santucci, 2010), Alice seja virtualmente a única mulher na empresa em que trabalha no início do filme. A consequência disso é a naturalização de um mundo não-natural (da última vez que verifiquei ainda éramos 50% da população mundial).

Nesses casos, em que uma única mulher serve para simbolizar todo o gênero, a figura feminina é chamada mulher-símbolo (minha tradução do termo token woman do inglês). O mesmo conceito de token se aplica a outros grupos minoritários: vemos em novelas x negrx-símbolo ou o gay-símbolo. Esse tipo de representação superficial tem por objetivo criar a ilusão de representatividade, sem alterar o paradigma estrutural ou significativamente. O equivalente a dizer que, agora que Dilma Rousseff é presidenta, não há mais machismo no Brasil.

"A negra-símbolo da empresa? É isso mesmo que você se considera,
Ms Corwin? Você é muito mais do que isso, eu lhe asseguro.
Você também é nossa mulher-símbolo."

Para expandir sobre o tópico, deixo vocês com este ótimo vídeo da Anita Sarkeesian do excelente Feminist Frequency, que descreve em detalhes esses dois conceitos - o princípio Smurfete e a mulher-símbolo - citando diversos exemplos da cultura estadunidense.


Legenda em português disponível clicando no botão no canto inferior direito


A Rúbia Magalhães, diretora do site sobre cinema chamado Cinéfilos me fez uma indicação de um texto sobre as adaptações cinematográficas dos livros de Jane Austen.



Hoje é dia da Coluna das terças-feiras: Indicações de livros!  A Lília dos Anjos (JASBRA-PB) me indicou esse super lançamento em português: Para Celebrar Jane Austen: Diálogos Entre Literatura e Cinema - de Genilda Azerêdo, clique aqui para conhecer os outros livros publicados por essa paraibana! 


Descrição

Os textos críticos reunidos neste livro são resultado de uma pesquisa financiada pelo CNPQ, através de bolsa de produtividade em pesquisa.

Os textos abordam questões fundamentais dos romances de Jane Austen, publicados entre 1811 e 1818, como a relevância das protagonistas-mulheres e a necessidade de tornar seus anseios e suas subjetividades visíveis, bem como o uso inovador que Austen faz dos recursos metalinguísticos e metaficcionais, a exemplo da paródia. 

A discussão também aproveita a relação contemporânea entre Austen e a adaptação audiovisual, sobretudo aquela realizada pelo cinema. 

As frequentes adaptações de romances da autora atestam a atualidade das questões que ela aborda, a exemplo do autocontrole da emoção, da necessidade do discernimento crítico, mas também de experiências, ainda que sutilmente expressas, ligadas à sexualidade, ao erotismo; também de questões mais amplamente políticas, como a crítica ferrenha à hipocrisia e ao imperialismo da sociedade inglesa pré-vitoriana.

Especificações

Encadernação: Encadernado
Dimensões (Altura x Largura): 14,8 x 21

Dados técnicos

Número de Páginas: 110
Edição: 1a
Ano da edição: 2013

PRÉ-LANÇAMENTO! Clique aqui para fazer a sua reserva! 


Conheça aqui as outras indicações desta coluna.

Imagem: Austenprose


Marcela Soalheiro, aluna do mestrado de cinema da UFF no Rio de Janeiro e fã de Jane Austen nos faz um pedido de ajuda! Responder a um questionário sobre Jane Austen.

Marcela nos conta que desde a graduação, desenvolve um trabalho acadêmico sobre o papel dos fãs na produção contemporânea de Austen, e agora, na dissertação, busca traçar um perfil deste fãs no Brasil.

Para isso, desenvolveu um questionário, muito simples e fácil de responder.

Marcela agradece atencipadamente a todos que puderem participar da pesquisa que não dura nem 5 minutos! 

Para responder, clique aqui.

por Tággidi Ribeiro




O Oscar é a festa máxima do cinema. Máxima porque sabemos que nela estarão os filmes mais bem produzidos, mais caros, mais vistos e/ou comentados. Alguns desse filmes se tornam clássicos, outros são esquecidos, assim como seus atores, atrizes, roteiristas, diretores, diretoras etc. 

Halle Berry - Oscar em 2002
Opa, eu disse diretoras? Sorry. My bad. Em 85 anos de festa (para quem?), apenas quatro mulheres foram indicadas ao prêmio de melhor direção e apenas uma delas o venceu: Kathryn Bigelow, em 2010(!). A essa altura, sendo leitor(a) deste blog, você já deve estar se perguntando: e negrxs? Apenas um(!), John Singleton - em 1991, foi indicado a melhor diretor e não ganhou. Atores e atrizes negros em papéis principais? Apenas quatro atores e uma(!) atriz. Outras oito estatuetas para indicados a atuações coadjuvantes, só. Gays? Filmes sim, mas não pessoas. A diversidade para por aqui. Por isso, o discurso de Jodie Foster no Globo de Ouro deste ano foi tão emocionante. 

Sabendo desse contexto não fica difícil entender porque um cara como Seth MacFarlane tem lugar como apresentador nesse evento falsamente chiquérrimo. Me contem: existe algo mais brega, mais fora de moda, mais sem graça que piada racista e sexista? É sério: pagar rios de dinheiro pra deixar as pessoas constrangidas, pra ninguém se divertir de verdade, é o cúmulo da cafonice. 

E o mundo inteiro parou pra rir amarelo com MacFarlane fazendo piada sobre o enredo de Django Livre ser como a relação entre Chris Brown e Rihanna; envolvendo o nome de Quvenzhané Wallis, indicada ao Oscar de melhor atriz com 9 anos(!), numa 'brincadeira' sobre George Clooney gostar de mulheres mais novas - pausa: 1) convenhamos, ele jamais faria isso se a atriz fosse branca; 2) o site de 'humor' The Onion chamou a mesma criança de algo pior que vadia, depois se desculpou (desculpas my ass, tem que meter processo. Como alguém tem coragem de pensar em insultar uma menina de 9 anos na noite mais importante de sua vida ou em qualquer outra ocasião? Novamente, isso não aconteceria se ela fosse branca). 

Vilão da Lazy Town
MacFarlane (que tem uma cara de personagem de Lazy Town, não?) insistiu no seu conceito de humor: latinos? São bonitos e pouco importa o que falam; mulheres? São loucas obsessivas. 'Por isso vou brincar que eu iria brincar que a gente já viu os peitos de um monte de atrizes mas eu não vou brincar de verdade porque eu sei que elas não vão gostar' (quão adolescente isso soa para vocês?). Aliás, na 'canção' feita pelo... comediante, era muito engraçado ver peitos de atrizes inclusive em filmes nos quais suas personagens eram estupradas. Quanto cultura do estupro isso soa para vocês?

Empatia zero. Felizmente, MacFarlane está sendo apontado como o pior apresentador da história do Oscar. Menos pelo racismo e pelo sexismo e mais por satirizar a morte de Lincoln, um dos grandes heróis estadunidenses. Ainda bem que esse tipo de cara ajuda bastante na hora de se enterrar.

Helen Hunt
Por fim, eu que acabei dando tanta atenção ao Oscar por causa desse babaca que a Academia contratou provavelmente para mostrar quem manda - homens brancos -, mais uma vez achei a festa cafona por outro motivo: a ostentação. Não consigo deixar de perceber como imorais os ternos e vestidos caríssimos, as limousines, as joias (colares de 2,5 milhões de dólares!). Como alguém pode dizer que essas celebridades todas são superlegais e generosas se têm coragem de participar disso? Se o amor ao dinheiro e ao luxo é um dos principais motores do mal que há no mundo?

Helen Hunt quase se safou dessa, aparecendo com um vestido de US$ 200,00. Seu colar, contudo, valia US$ 700.000. Fazer propaganda, incitar o desejo no público não é menos danoso ao mundo e portanto não menos desculpável.

Estamos no século XXI, 2013. Edição encerrada. Tio Oscar, tão velhinho, precisa rever muitos conceitos.  


Por Thaís Bueno

Tina Modotti


Você conhece ou se lembra de ter ouvido o nome de Tina Modotti? Pode ser que não se lembre, mas você provavelmente viu essa mulher extraordinária como personagem do filme Frida (2002): Tina era aquela que abria sua casa para os artistas que faziam parte da rica e fervilhante cena artística da Cidade do México, nas décadas de 20 e 30. No filme, Tina, interpretada por Ashley Judd, organizava festas animadíssimas, além de beijar Frida Kahlo e participar ativamente do movimento comunista. Mas houve uma infinidade de outras coisas interessantes na vida dessa mulher, que o filme não mostrou.

Esta é a cena em que Tina dança com Frida, ao som da maravilhosa Lila Downs, cantando Alcoba Azul:



Eu adoro tudo que se relaciona a aspectos biográficos de grandes personagens da história, principalmente se a personagem é uma mulher. Por isso, biografias e correspondências são alguns dos meus gêneros literários favoritos. E foi isso que me atraiu à biografia, em formato de HQ, Tina Modotti: uma mulher do século XX (de Ángel de la Calle, publicado no Brasil pela Conrad Editora). O livro faz um bom passeio por toda a vida de Tina, desde sua saída da Itália, onde nasceu em 1896, até sua morte, no México (algo que, diga-se de passagem, até hoje está mal explicado). 

Biografia de Tina Modotti em HQ


Entre seu nascimento e sua morte, Tina Modotti passou por tantas coisas que sua vida poderia render uns três livros dos mais diferentes gêneros literários. Se relacionou com pessoas como Olga Benário, Luis Carlos Prestes, Frida Kahlo, Diego Rivera, Maiakóvski, Hemingway, John dos Passos, James Joyce e Pablo Neruda. Foi atriz do cinema hollywoodiano, fotógrafa genial no México e militante comunista. Participou da Guerra Civil Espanhola. Foi espiã soviética em Berlim. Como consequência de sua forte agência política, Tina morreu misteriosamente, na Cidade do México, em 1942.

Mas não vale a pena ficar aqui esmiuçando cada um dos capítulos da vida de Tina (em vez disso, minha dica é que você confira o livro, ou leia uma das várias biografias que existem sobre ela). A mim, o que mais interessa na trajetória de Tina, além de sua fotografia, é a forma como ela viveu suas paixões e seus ideais. Tina foi uma mulher genial e libertária, que viveu sua vida de acordo com suas próprias ideias e vontades. Exerceu suas potencialidades sem se limitar às convenções e às limitações sociais de sua época, o que é sempre difícil e digno de nota, em qualquer época. E isso tudo fica bem claro na biografia/HQ. Minha única ressalva ao livro seria ao título: acho que “mulher do século XX” é uma forma um tanto limitada de descrever Tina Modotti. Será que alguns dos dilemas e das crises pelas quais ela passou não poderiam ser parecidas às das mulheres de hoje?

Há um café onde se misturam políticos, pistoleiros, criminosos comuns, toureiros, putas e atrizes de terceira. A personagem mais fascinante de todas é uma fotógrafa e modelo, além de prostituta de muita classe e Mata Hari do Comintern, chama-se Tina Modotti... (Kenneth Rexroth)

 Quando quero me lembrar de Tina Modotti devo fazer um esforço, como se tratasse de recolher um punhado de névoa. Frágil, quase invisível. Eu a conheci ou não a conheci? (Pablo Neruda).

Abaixo, algumas artes fotográficas de Tina Modotti:

Sombrero, martelo, foice (1927)

Bandoleira, milho, violão (1927)

Mãos de titereiro (1929)

Lendo El Machete (1928)

Diego Rivera e Frida Kahlo, em passeata, fotografados por Modotti (1929)

Mulher carregando yecapixtla (1929)




Você pode conferir mais fotografias de Tina Modotti neste site do MoMA: http://www.moma.org/collection/artist.php?artist_id=4039.


por Tággidi Ribeiro




Assisti a Django Livre (Django Unchained, EUA, 2012), de Quentin Tarantino. Pensei um monte de coisas - durante e depois do filme -, então esse texto é uma tentativa de organizar tudo o que me passou pela cabeça. Como não sou crítica de cinema - apenas amo cinema - peço que me perdoem de antemão o vocabulário não especializado que vou usar. (Ah, se você não viu o filme, não leia esse texto.)

Eu adorei o filme por muitas razões. Em primeiro lugar, sempre gostei da violência dos filmes do Tarantino, muitas vezes trágica, mas quase sempre cômica e por isso palatável. Em Django, essas duas facetas se concertam muito bem, e podemos deplorar a cena em que um escravo é devorado por cães, ou a cena em que uma escrava fugida (Brunhilde, papel de Kerry Washington) é tirada do 'forno' usado para seu castigo e ainda a luta de mandingos. Por outro lado, nos diverte - sim, diverte - a cena em que o próprio Tarantino explode(!), a morte do xerife, a cena da emboscada em que morrem dezenas de homens brancos que querem matar Django (Jamie Foxx) e seu amigo Schultz (Christoph Waltz) e na qual Tarantino tira um sarro homérico da KKK (que ainda estava em formação, diga-se).

O filme opera com a dicotomia opressor/oprimido e não tem muitos escrúpulos ao simplesmente eliminar quem oprime - os escravocratas do sul dos Estados Unidos, caricatos em sua maldade. Obviamente, quem se identifica com o negro oprimido comemora e se sente vingado. Então, só me resta dizer que Django é pura catarse.

...E o Vento Levou
Acho que Tarantino se tornou um especialista nesse movimento catártico: em Bastardos Inglórios (2009), comemoramos um cinema inteiro explodindo e matando nazistas, inclusive Hitler; em À Prova de Morte (2007), comemoramos a caça a um psicopata misógino que mata mulheres por diversão - atenção, são mulheres, só mulheres, que o caçam. E tem Kill Bill, também, né? As escolhas de Tarantino são conscientes e vemos a tela do cinema transformar-se no lugar desses grupos historicamente... f*didos: mulheres, judeus e negros, enquanto a arte se coloca classicamente à disposição, talvez não da ideologia, mas da ideia, da moral (de uma moral). Tarantino trabalha com uma ética da vingança muito clara: é lícito matar quem seja, a qualquer momento e de qualquer maneira, desde que seja o inimigo. Não há misericórdia. E nós, em frente à tela, pensamos: "Mas também pudera! Olha o que o inimigo (branco escravista, nazista, misógino) fez!" Assim, lavamos a alma...

A um Passo da Eternidade
Casablanca
Claro que incomoda o fato de que Schultz, o branco parceiro, tenha mais consciência e sentimento de revolta que Django, o negro protagonista (pra haver mudança é preciso dissidência?). E incomoda também o fato de que o grande vilão, o mais detestável do filme, seja negro: Stephen (Samuel L. Jackson), um escravo doméstico (pra haver manutenção é preciso haver anuência?). Incomoda ainda o fato de que as mulheres sejam praticamente anuladas no filme. Mas, quer saber, dou um mega desconto! Tarantino está há quase duas décadas fazendo filmes com personagens femininas que fogem de estereótipos e dando destaque a atores negros - temos uma mulher negra protagonista em Jackie Brown (1997). Em Bastardos Inglórios vemos um negro e uma branca fazendo par amoroso - é quase impossível assistir a isso na grande tela...

Pergunto: quantas vezes assistimos a um herói negro montado em um cavalo branco resgatando sua donzela? Quantas vezes vimos a clássica cena do beijo ter dois protagonistas negros?

Django Livre




E não foi só a questão ideológica que me pegou em Django Livre (aliás, se houvesse ideologia sem qualidade, eu falaria mal). Gosto das atuações do principal quarteto masculino do filme: Jamie Foxx como Django - ele tem força e melancolia no olhar, o que eu acho fascinante e necessário pra quem tem as costas marcadas pelo chicote e busca a amada; de Christoph Waltz, como o caçador de recompensas libertário e cínico, o alemão Schultz - Christoph já havia 'quebrado tudo' como o coronel Hans Landa, em Bastardos; a atuação de Leonardo DiCaprio é excelente, como o malvado Calvin Candie; e Samuel L. Jackson deveria estar concorrendo ao Oscar, pelamor.

A trilha sonora é ótima. Tarantino sempre cuida muito bem disso. E faz TODO SENTIDO usar rap em algumas cenas de tensão. É como se a existência desse gênero musical se justificasse, sabe? Sem querer ser determinista, mas já sendo: como se somente os negros, tendo vivido a escravidão por tantos séculos, soubessem o que é o peso do mundo.

E pra quem acha que o filme está mal editado ou mal cortado, nas cenas grotescas eu me lembrei direitinho dos filmes de faroeste e dei muita risada. Não é isso o que o Tarantino faz: homenagear o cinema? Mesmo na cena em que Lara Candie, morre, não há erro ou gratuidade: conta-se (não achei a referência, ainda!) que, ao saber que as pessoas ao serem alvejadas não morriam dramaticamente, caindo devagarziiiinho, como em geral acontecia nos westerns, Sérgio Leone (se não me engano) chegou a usar cordas para puxar seus atores no momento em que levassem o tiro, o que criou o mesmo efeito exagerado e obviamente cômico da morte da irmã de Calvin Candie.

Enfim, eu chorei, sorri e saí feliz do cinema, pensando todas essas e mais um monte de coisas. E vocês?




por Roberta Gregoli


O título do filme De pernas para o ar 2 sugere subversão: de cabeça para baixo, o mundo às avessas num carnaval bakhtiniano onde o rei vira plebeu (ou rainha) e a plebe tem seu dia de realeza. Como toda comédia romântica, o foco está nos papeis de gênero, então presumimos que a subversão seja desta natureza, o que a referência a pernas no título e o enredo do filme reforçam: um mundo em que mulheres são workaholics E têm orgasmos. 
Eu nem sou daquelxs que menosprezam o cinema popular brasileiro: muito pelo contrário, sou entusiasta. Admiro seu poder de alcance e seu potencial transgressor, e acho que desdenhar o cinema popular generica e acriticamente é uma das facetas do elitismo tupiniquim.

Mas no caso de De pernas para o ar 2, infelizmente, a aparente subversão de gênero é um verniz superficial, que serve para satisfazer os ânimos dxs que se acham modernosxs ao mesmo tempo em que continua a promover - agora com novo visual, um verniz mais lustroso - os pilares da opressão de gênero.

E o pilar sobre o qual De pernas para o ar 2 se sustenta é o mais fundamental e caro ao patriarcado: a divisão sexual do trabalho. Alice (Ingrid Guimarães) é uma workaholic inveterada que se desdobra para manter casa, filho e casamento. O enredo do filme gira em torno dos malabarismos de Alice para "dar conta" (como dito repetidas vezes ao longo do filme) de suas responsabilidades, à custa de sua saúde e bem-estar.

É raro no cinema um quadro composto somente
por mulheres, ainda mais em posição de poder

Até então, o filme tem potencial, afinal, não existe nada mais injusto do que a chamada tripla jornada de trabalho (casa, carreira, cria). No entanto, a premissa que casa e filhos são de responsabilidade única e exclusiva das mulheres nunca é questionada. Numa cena absolutamente reveladora, Marcela (Maria Paula) aparece com o filho de Alice, dizendo: "Alguém tinha que pegar ele na escola, né?". Em nenhum momento é levantada a hipótese do marido (João, interpretado por Bruno Garcia), presente na cena, assumir essa tarefa.

Lançado no mesmo ano em que a Organização Internacional do Trabalho constata que, no Brasil, as mulheres gastam 12,50 horas a mais por semana em afazeres domésticos do que os homens, o filme, além de não questionar a injustiça desta realidade, a naturaliza como normal.


A única função de João na cena com o filho é somar uma voz ao coro que culpa Alice. E, no delírio irreal do filme, é possível "dar conta" de tudo. O filme personifica a mulher maravilha numa personagem habilmente chamada Vitória (Christiane Fernandes), que tem 5 filhos, uma carreira de status de sucesso, mantém a casa sozinha, é linda e cozinha "para relaxar". É mole?

Culpa é lugar-comum na história. Perdi a conta de quantas vezes Alice se desculpa, sobretudo para os homens de sua vida: seu marido e seu filho. Quando descobre que o marido beijou Vitória, Alice revida, mais ou menos nestes termos: "idiota eu não sou, eu posso trabalhar demais, mas quem me traiu foi você". Pensa que o gostosão pede desculpas? Em nenhum momento. Ele se sente absolutamente no direito, o que eu presumo seja justificado pelo fato da 'muié' não ter 'comparecido'. Aliás, foi Vitória que o beijou. Não importa qual a mulher, a culpa é sempre delas.

E se um beijo é uma coisa tão inofensiva, por que então o beijo entre Alice e o galã Ricardo (Eriberto Leão) é negado ao público, apesar de tantas oportunidades por um triz? A equação é simples: traição masculina = natural, traição feminina = tabu #padrãoduplo

Mas numa coisa o filme acerta: quando questionada como dá conta, a mulher maravilha Vitória é rápida em responder que "é fácil, querida, eu não tenho marido". Ter um cônjuge masculino em casa representa um aumento de 2 horas de trabalho por semana para as mulheres.


Outro ponto negativo do filme é que a amizade e solidariedade entre as personagens de Ingrid Guimarães e Maria Paula, presente no primeiro filme, se dissipa, e a disputa entre as duas por um homem sela o que o resto do filme já indicava: o único vínculo feminino colocado como genuíno e saudável é entre mãe e filha. Amigas são competidoras em latência.

Os que torcem o nariz dirão que já esperavam, que o cinema nacional é isso mesmo. Eu digo que, por um filme que fala sobre vibradores, mulheres viciadas em trabalho e orgasmo feminino, eu nutria esperanças. Não fosse o talento de Ingrid Guimarães e seus brilhantes monólogos, De pernas para o ar 2 seria uma total perda de tempo.



por Roberta Gregoli


Num post anterior descrevi como mesmo as mais bem-intencionadas das feministas acabam caindo nas armadilhas sutis do sexismo. Também argumentei que não devemos nunca culpar as mulheres porque o machismo está em todo lugar e fomos criadas com ele, não raras as vezes até mesmo dentro de nossas famílias. O nome carinhoso que eu dou para isso é lavagem cerebral cultural. E é preciso muita reflexão e paciência nessas horas - com nós mesmas e com o próximo.

Deve ter uma parcela de leitor@s que lê esse primeiro parágrafo e pensa: aí, mania de perseguição. Eu sou tão descolad@, tod@s @s meus amig@s são descolad@s, minha família é prafrentex, eu não fui criad@ assim porque essa de machismo não rola no meu meio.

Mas você vai ao cinema, certo?

Há um teste muito interessante para filmes chamado teste Bechdel*. Para passar no teste, um filme precisa cumprir 3 critérios simples:

1) ter pelo menos duas mulheres que tenham nome
2) que conversem entre si
3) sobre um assunto que não seja homens

É incrível a quantidade de filmes que não passa no teste -- vale a pena começar a prestar atenção quando for ao cinema.

O teste Bechdel surgiu com este quadrinho, criado por Alison Bechdel em 1985

É como se, não bastasse não haver espaços de representação para as mulheres (coberto pelo primeiro critério), quando eles existem são sempre colocados em relação aos homens (critérios 2 e 3). Somos condicionadas a sempre considerar os homens e, mais do que isso, a nos pensarmos em relação a eles.

Esse foi só um exemplo dentre vários que poderia citar. Você pode fazer outros testes também: veja o número de mulheres que trabalha na sua empresa e os cargos elas ocupam; compare o número de mulheres na sua sala de aula com o número de professoras (cursos de Letras são ótimos para isso, porque em geral a classe é majoritariamente feminina e a porcentagem muda completamente quando você olha para o quadro de professores e para os cargos mais elevados de chefia do departamento); preste atenção nas atitudes sutis do dia-a-dia, desde as cantadas desrespeitosas - que na maioria das vezes são "só de brincadeirinha" - até ser ignorada ou ridicularizada simplesmente por ter uma opinião e expressá-la.**

O machismo é um bicho papão, que perversamente aprendemos a respeitar desde pequen@s. Por isso proponho aqui, de maneira metafórica, a máxima católica - e guardem este momento, porque não é sempre que isso acontece em blogs feministas: orai e vigiai. Em termos laicos: reflita e esteja atent@, sempre.

Afinal, mulheres e homens, não se enganem: o machismo está em todo o lugar e, se você deixar, ele vai te comer!


* Obrigada à Crocomila por compartilhar o vídeo do Feminist Frequency, que é excelente.
** Como levantou a Patti, querida leitora aqui do blog.


por Roberta Gregoli

Já falamos um pouco aqui sobre a representação das mulheres na mídia e sobre os padrões crueis de beleza perpetrados em geral. Além do maravilhoso documentário Miss Representation, existem outros (como as 4 versões do também maravilhoso Killing Us Softly) e canais do YouTube (como o Feminist Frequency) sobre o tema. Infelizmente, até onde eu saiba não há nada parecido sendo feito no Brasil, então aproveito este espaço para divulgar o que tem sido feito no mundo anglófono, principalmente nos Estados Unidos. 

Para entender a seriedade da questão dos ideais irreais de beleza, sobretudo e mais claramente manifestados no uso indiscriminado de Photoshop, veja este vídeo de apenas 75 segundos. Se fosse um caso ou outro, tudo bem, mas o fato é que todas as imagens de mulheres que vemos são manipuladas digitalmente, criando padrões inalcançáveis de beleza. A consequência para as meninas e mulheres reais vão desde a baixa autoestima, passando por distúrbios alimentares até a auto-mutilação. Esta matéria mostra o antes e depois do Photoshop, deixando claro que o que vemos não são mulheres reais e sim, pura e simplesmente, CGI (imagens geradas por computador). O cúmulo (ou talvez somente um exemplo mais óbvio) foi a loja de roupas europeia H&M, que criou um catálogo inteiro usando o mesmo corpo - gerado por computador - para todas as modelos:

H&M admite ter colado rostos de modelos a corpo criado digitalmente
O debate em torno da questão foi reavivado recentemente, quando a adolescente norte-americana de 14 anos Julia Bluhm pediu a revista Seventeen (uma das maiores revistas para o público adolescente nos Estados Unidos) que incluísse em cada edição uma foto que não fosse modificada por Photoshop. A revista negou. Há agora um abaixo-assinado com o mesmo pedido que já conta com mais de 83 mil assinaturas e um mutirão virtual chamado Keep it real. A ideia é desafiar por 3 dias (de 27 a 29 de junho), no mundo virtual, as revistas a incluírem pelo menos uma foto não alterada digitalmente. 

Para fazer parte do desafio, junte-se ao grupo no Facebook e acesse o pacote de recursos elaborado pelo pessoal do Miss Representation. Como o pacote está em inglês, traduzo aqui, em linhas gerais, os passos do desafio:

- Mude a capa do seu Facebook para esta (traduzida com exclusividade pelas Subvertidas!):


- Publique este poster no seu mural:

Dia 1 (27 de junho)
Poste no Twitter frases com a hashtag #KeepItReal. Na página 3 do pacote de recursos, há uma lista do Twitter das revistas para envio direto.

Dia 2 (28 de junho)
Poste no seu blog - as Subvertidas adiantadas!

Dia 3 (29 de junho)
Use o Instagram com a hashtag #KeepItRealChallenge e publique fotos que capturem o que você acredita que seja beleza real. A melhor foto será publicada num outdoor em Nova York! Se você não usar o Instagram, publique no Twitter com a hashtag #KeepItReal ou no grupo do Facebook.

Essa é uma discussão que precisa ganhar força urgentemente no Brasil - onde ainda é aceitável que o corpo feminino seja usado para vender cerveja e a onipresença do Photoshop segue sem ser desafiada -, por isso não deixem de participar da campanha!

Como Conquistar um Homem