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por Tággidi Ribeiro

Gentes, abaixo vai minha tradução do artigo When Women Wanted Sex Much More Than Men - and how the stereotype flipped, cujo original vocês podem ler clicando aqui. O texto é longo e será dividido.

No século XVII, um homem chamado James Mattock foi expulso da Primeira Igreja de Boston. Seu crime? Não foi usar um linguajar chulo ou sorrir no Sabbath ou qualquer dessas coisas que poderíamos pensar que os puritanos desaprovariam. Em lugar disso, James Mattock recusou-se a fazer sexo com sua mulher durante dois anos. Embora a comunidade de Mattock claramente visse como imprópria sua abstinência, é bem provável que o sofrimento de sua esposa estivesse em jogo quando a igreja decidiu afastá-lo. Os puritanos acreditavam que o desejo sexual era parte normal e natural da vida humana de homens e mulheres (desde que fosse heterossexual e restrito ao casamento), mas que a mulher queria e precisava de sexo muito mais que o homem. Um homem poderia escolher abrir mão de sexo com relativa facilidade, mas seria muito mais difícil para uma mulher ser privada do ato sexual.
Hoje, contudo, a ideia de que homens são mais interessados em sexo que mulheres é tão forte que parece quase não valer a pena falar sobre ela. Seja por causa do nível de hormônios ou pela "natureza humana", homens precisam fazer sexo, masturbar-se e ver pornografia de um jeito que simplesmente não é necessário para as mulheres, de acordo com o senso comum (e se existem mulheres que acham essas atividades todas muito necessárias, provavelmente elas têm algum problema). Mulheres precisam ser convencidas, persuadidas, mesmo forçadas a se 'entregar', porque a perspectiva de sexo não é atrativa por si só - tal é o estereótipo popular. Sexo, para as mulheres, comumente é alguma coisa não muito gostosa mas necessária que se faz para obter aprovação, suporte financeiro ou manter um relacionamento estável. E desde que as mulheres não são escravas de seus desejos como os homens, elas são responsáveis por assegurar que eles não 'se aproveitem' delas.

A ideia de que os homens são naturalmente mais interessados em sexo que as mulheres é ubíqua, razão pela qual é difícil imaginar que as pessoas alguma vez já pensaram diferente e, mais ainda, que o fizeram durante a maior parte da história do Ocidente: da Grécia Antiga ao começo do século XIX, julgou-se que as mulheres eram os demônios pornográficos e loucos por sexo. Em um mito grego antigo, Zeus e Hera discutem sobre quem tem mais prazer no sexo, se homens ou mulheres. Os deuses pedem ao profeta Tirésias, a quem Hera havia transformado certa vez em mulher, que ponha fim ao debate. O profeta responde: "Se o prazer sexual fosse dividido em dez partes, apenas uma pertenceria ao homem, e nove pertenceriam à mulher". Mais tarde, as mulheres seriam consideradas tentações cuja perfídia herdaram de Eva. Sua intensidade sexual era vista como um sinal de moralidade, razão e intelecto inferiores, e justificava estreito controle por parte de maridos e pais. Os homens, que não eram tão consumidos pela luxúria e que tinham capacidade superior de autocontrole, perfaziam o gênero mais naturalmente adequado a manter posições de poder e influência.
No começo do século XX, o médico e psicólogo Havelock Ellis talvez tenha sido o primeiro a documentar a mudança ideológica que tinha se instaurado recentemente. Em um trabalho de 1903, Estudos em Psicologia do Sexo, ele cita uma extensa lista de fontes históricas antigas e modernas que iam da Europa à Grécia (sic), do Oriente Médio à China, todas muito próximas quanto à ideia do desejo sexual feminino dominante. No século XVII, por exemplo, Francisco Plazzonus chegou à conclusão de que o parto muito dificilmente seria valorizado pelas mulheres se o prazer delas no sexo não fosse muito maior que o dos homens. Montaigne, Ellis aponta, considerou as mulheres "incomparavelmente mais aptas e mais ardentes no amor do que os homens, e que essa arte elas sempre conhecem mais a fundo que eles e podem ensiná-los, pois é uma disciplina que nasce em suas veias". Mas nem a época de Ellis havia sido tomada inteiramente pela ideia de que mulheres são desprovidas de desejo sexual. Contemporâneo de Ellis, o ginecologista austríaco Enoch Heinrich Kisch foi longe a ponto de afirmar que "O impulso sexual é tão poderoso nas mulheres que em certos períodos de sua vida essa primitiva força domina toda a sua natureza." 
Os tempos estavam claramente mudando, contudo. Em 1891, H. Fehling tentou desbancar a sabedoria popular: "É de todo falsa a ideia de que as moças tenham tão forte o desejo pelo sexo oposto quanto os rapazes... O surgimento de um viés sexual no amor de uma jovem é patológico." Em 1896, Bernhard Windscheid postulou: "Na mulher normal, especialmente a de alta classe social, o instinto sexual é adquirido, não inato; quando é inato ou despertado autonomamente, é uma anormalidade. Como as mulheres não conhecem esse instinto antes do casamento, elas não podem perdê-lo, uma vez que não há ocasião na vida para aprendê-lo."
E então, o que aconteceu?

Obviamente, ideias sobre gênero e sexualidade não são as mesmas em todo lugar, e em cada lugar e tempo há sempre contestação e visões diferentes. A história de como esse estereótipo - de que mulheres têm mais desejo sexual que os homens - foi invertido não é simples de traçar, não se deu de forma regular ou aconteceu de uma vez só. A historiadora Nancy Cott aponta o crescimento do protestantismo evangélico como catalisador dessa mudança, pelo menos na Nova Inglaterra. Ministros protestantes cujas congregações estavam crescendo, compostas agora sobretudo por mulheres brancas de classe média, provavelmente acharam razoável retratar suas fiéis como seres morais que estavam especialmente preparadas para responder ao chamado da religião, em vez de pintá-las como sedutoras indignas, de destino selado no Éden.
As mulheres tanto gostaram desse novo retrato como ajudaram a construí-lo. Era um caminho para um certo nível de igualdade com o homem, e mesmo superioridade. Por meio do evangelho, as mulheres cristãs eram "exaltadas acima da natureza humana, elevadas aos anjos", como diz o livro "A fêmea amiga, ou os deveres das virgens cristãs", de 1809. A ênfase na pureza sexual presente no título do livro revela que, se as mulheres fossem agora os novos símbolos da devoção religiosa protestante, deveriam sacrificar a recognição de seus desejos sexuais. Embora até mesmo os puritanos acreditassem ser perfeitamente aceitável tanto para homens quanto para mulheres desejar o prazer sexual (restrito ao casamento), as mulheres poderiam agora admitir querer sexo com o propósito de estabelecer vínculos com o marido ou para satisfazer seu instinto maternal. De acordo com Cott: "A falta de desejo sexual foi o outro lado da moeda paga, por assim dizer, pelas mulheres, no reconhecimento de sua igualdade moral". (Alyssa Goldstein)

por Tággidi Ribeiro


Publiquei uma série de textos chamada "Filosofia e mulheres", que criticava o prefácio machista do filósofo italiano Franco Volpi para o por demais machista livro "A arte de lidar com as mulheres", do Schopenhauer. Daí achei um texto do Umberto Eco que conta um tanto da mesma história da filosofia feita por mulheres que Volpi contou, mas sem menosprezar nem essa história, nem as mulheres. Vou reproduzir o texto de Eco em dois posts. É essencial.

Filosofar no feminino
Judite decapitando Holofernes, de Artemísia Gentileschi.
A antiga afirmação filosófica pela qual o homem é capaz de pensar o infinito ao passo que a mulher dá sentido ao finito pode ser lida de diversas maneiras: por exemplo, como o homem não sabe fazer filhos, consola-se com os paradoxos de Zenão. Mas, com base em afirmações do gênero, disseminou-se a ideia de que a História (ao menos até o século XX) nos fez conhecer grandes poetisas e exímias narradoras, e cientistas de diversas disciplinas, mas não mulheres filósofas nem mulheres matemáticas.
Em distorções desse tipo fundamentou-se por muito tempo a convicção de que as mulheres não tivessem talento para a pintura, a não ser Rosalba Carriera ou Artemísia Gentileschi, as de sempre. Natural que, enquanto a pintura foi afresco de igrejas, montar num andaime de saias não era coisa decente, nem era ofício de mulher dirigir um ateliê com 30 aprendizes, mas assim que foi possível fazer pintura de cavalete, as mulheres pintoras apareceram. Meio como afirmar que os judeus foram grandes em diversas artes, mas não na pintura, até aparecer Chagall.
Retrato de um homem, de Rosalba Carriera.
É verdade que a cultura judaica era eminentemente auditiva e não visual, e que a divindade não devia ser representada por meio de imagens, mas há uma produção visual de incontestável interesse em muitos manuscritos hebraicos. O problema é que era difícil, nos séculos em que as artes plásticas estavam nas mãos da Igreja, que um judeu fosse estimulado a pintar virgens e crucifixos. Seria como espantar-se por nenhum judeu ter se tornado papa.
As crônicas da Universidade de Bolonha mencionam professoras como Bettisia Gozzadini e Novella d'Andrea, tão bonita, esta, que tinha que dar aula escondida por um véu para não perturbar os estudantes, mas elas não ensinavam filosofia. Nos manuais de filosofia não encontramos mulheres ensinando dialética ou teologia. Heloísa, brilhantíssima e infeliz estudante de Abelardo, teve de se contentar em tornar-se abadessa. 
Hildegarda de Bingen.
Mas a questão das abadessas não deve ser subestimada; a elas se dedicou muitas páginas uma filósofa de nossa época, Maria Teresa Fumagalli. Uma abadessa era uma autoridade espiritual, organizativa e política, e desempenhava funções intelectuais importantes na sociedade medieval. Um bom manual de filosofia tem de enumerar, entre os protagonistas da história do pensamento, grandes místicas como Catarina de Siena, para não falar de Hildegarda de Bingen que, no que tange a visões metafísicas e perspectivas sobre o infinito, até hoje nos dá certo trabalho.    
A objeção de que a mística não é filosofia não se sustenta, porque as histórias da filosofia reservam espaço para grandes místicos como Suso, Tauler ou Eckhart. E dizer que grande parte da mística feminina dava maior destaque ao corpo do que às ideias abstratas seria como dizer que dos manuais de filosofia deve desaparecer, sei lá, Merleau-Ponty.  

por Tággidi Ribeiro


Aconteceu tanta coisa e eu quero falar sobre tantas outras que este post vai ser um apanhado geral de notícias das semanas passadas e pensamentos avulsos. Vou falar por tópicos, que fica mais fácil pra todo mundo, né?

1. Racismo (e machismo, claro): a ministra italiana de origem congolesa Cecile Kyenge foi comparada a um orangotango pelo vice-presidente do Senado italiano, Roberto Calderoli, no dia 13 de julho deste ano. Uma semana depois, um manifestante jogou bananas em direção a ela. Vereadores retiraram-se em protesto à presença dela em uma reunião da qual legitimamente participava. O líder de seu partido, Roberto Maroni, recusou-se a defendê-la. Fico pensando no antagonismo dessas forças: branco e negro, Europa e África, homem e mulher - e no quanto é necessário caminhar, tão distantes ainda estamos, em direção à concordância. Penso no Congo, onde nasceu Cecile, o pior país do mundo para as mulheres. Penso na Itália e na vergonha que deveria sentir de si mesma, por permitir tal desrespeito à própria ideia de humanidade.

2. Exploração sexual e patriarcado: a Itália continua na minha cabeça, por causa de Berlusconi. Condenado a sete anos de prisão por prostituição de menores, em junho deste ano, o ex-premiê italiano era grande amigo de Muammar Gaddafi, ex-ditador líbio assassinado durante a 'primavera' de seu país. Gaddafi tinha dezenas de escravas sexuais. Ao longo de seus quarenta anos de poder, estuprou milhares de mulheres, muitas delas ainda adolescentes, que simplesmente 'arrancava' da casa dos pais. Penso em Dominique Strauss-Kahn, que se livrou de ser preso por estupro e hoje enfrenta processo por 'proxenetismo', e me pergunto: quanto do sexo podre - da exploração sexual de mulheres, adolescentes e crianças - não será financiado pelo dinheiro dos homens que mandam no mundo?

3. No mundo: no Japão, a cúpula da Federação nacional de judô renunciou depois que seu diretor admitiu ter abusado sexualmente de uma atleta. Outras acusações envolviam abuso e violência durante os treinos e ainda uma condenação por estupro. Na China, Tang Hui, uma mãe que denunciou os homens que estupraram e obrigaram sua filha de onze anos a se prostituir tornou-se símbolo da luta contra a opressão das mulheres. Tang Hui foi condenada a 18 meses de trabalhos forçados, mas os chineses ficaram do seu lado e ela foi solta. No fundo do meu sentimento, essas vitórias me parecem derrotas, mas não desanimo.

4. E não deixo de desanimar, porque essa espiral louca da história nos coloca mais uma vez diante da desrazão, não travestida de razão desta vez. De repente, parece que a loucura do mundo quer se reafirmar no poder puro e simples, na submissão dos corpos, no ódio mesquinho ao diferente e no aniquilamento como solução. Rússia, Itália e Brasil não se podem dizer países não-esclarecidos - muito menos, no entanto, lúcidos. Enquanto a Rússia assina leis homofóbicas e a Itália se mostra fraca na reação ao racismo e à xenofobia, o Brasil dá cada vez mais lugar à voz religiosa não do amor, mas da mentira: a bancada religiosa insiste em dizer que a lei que prioriza o atendimento a vítimas de estupro abre brechas para o aborto.

5. Por essas e outras é que a performance em que dois artistas quebraram estátuas e simularam atos sexuais com elas durante a JMJ me pareceu legítima. O corpo da estátua não é um corpo digno de pena, nem tampouco o corpo de instituições, sejam elas religiosas ou laicas, que massacram o corpo-carne das pessoas. Aproveito para lembrar Amarildo, que é só mais um dos tantos corpos que se desintegram, vítimas dessas instituições.  



por Tággidi Ribeiro

"Não tenho ouro nem prata, mas trago o que de mais precioso me foi dado: Jesus Cristo."
As palavras que me servem de epígrafe são do Papa Francisco, em seu primeiro discurso ao povo brasileiro. Não sei que aconteceu a vocês quando as leram ou viram/ouviram, mas eu ri. Depois, fiquei com raiva, indignada: como tinha coragem de usar 'essas' palavras?! 

Meu riso me lembrou de Oliver Sacks em um de seus contos não-ficcionais, de cuja história é possível depreender que o riso que irrompe em meio à fala do outro pode ser uma mostra de que alguma parte de nós não acredita nessa fala; também, portanto, de que alguma parte do outro pode estar mesmo mentindo. Ademais, no mesmo conto, vemos até que ponto a escolha das palavras pode ser importante para estabelecer o sentimento de verdade em relação a um discurso.

Assim, em 'O discurso do Presidente', presente na coletânea O homem que confundiu sua mulher com um chapéu, Sacks refere a reação de um grupo de afásicos ao discurso de seu Presidente: uma gargalhada estrondosa. Oliver Sacks logo explica que muitos afásicos, incapazes de compreenderem as palavras em si, têm intensificadas as capacidades de reconhecer o tom e a intenção da fala, além do 'ar afetado' e de 'qualquer falsidade ou improbidade na aparência ou postura do corpo' do outro, do que resulta ser praticamente impossível enganar um afásico. Daí a gargalhada daquele grupo: o Presidente mentia. 

Um distúrbio cerebral oposto à afasia, contudo, tampouco pôde encobrir a tentativa de manipulação do discurso do Presidente. Na mesma ala dos afásicos, uma paciente com agnosia tonal, na qual preserva-se a compreensão das palavras mas perde-se o senso de 'tom, timbre, sentimento e caráter' da fala, foi taxativa ao afirmar sobre o discursante: "Seu uso das palavras é inadequado. Ou ele tem deficiência cerebral, ou alguma coisa a esconder." 

Assim, entre o riso e o incômodo, eu e outros tantos 'normais', como se somando alguma afasia e agnosia, declaramos mentiroso o discurso do Papa Francisco, na escolha das palavras e no tom de voz baixo, no ritmo pausado, calmo, na dicção clara, na postura comedida. O paradoxo entre sua fala e o que ostenta não deixa, para nós, margem alguma a dúvidas. Estas reações pincei do Facebook: 
Discurso do Pontífice: "não tenho ouro nem prata".
Não sei de vocês, mas adoro gente que tem bom humor...
Um buffet simples na recepção (água, café e biscoitos) para o Papa, custeado com os recursos do Estado, pelo módico valor de R$ 1300,00 por pessoa, totalizando R$ 850.000,00. ‪#‎dormeBrasil  
Até um tumblr foi criado para zombar da imagem de figura humilde que o Papa tenta vender ao mundo: http://papahumildao.tumblr.com/page/2 

Ocorre que milhões de outros normais, ajudados, diria Sacks (e aqui eu o parafraseio), pelo desejo de serem enganados, de fato se deixaram enredar. "E tão astutamente foram combinados o uso enganoso da palavra com o tom enganoso, que só os que tinham dano cerebral ficaram ilesos, não foram logrados."

A Juventude

Há dentre esses milhões de normais enredados pelo Papa, milhões de jovens. Brasileiros que ontem estavam empunhando cartazes nas manifestações, protestando contra a corrupção, contra a impunidade e a violência; contra a desigualdade social, por saúde e educação. Esses jovens, desconfiados dos políticos e da política, mas crentes em deus e na Igreja Católica, parecem viver em outro mundo: eles nunca leram sobre os escândalos de pedofilia dentro da ICAR, jamais punidos? Nunca leram sobre as denúncias de lavagem de dinheiro, nem sobre como a Igreja enriqueceu vendendo o reino dos céus? Não percebem que há algo de muito errado entre o valor de R$ 118 milhões gastos em uma única visita e a fala 'não tenho ouro, nem prata'? Nunca ouviram falar da deseducação promovida pela ICAR com o fito de tornar o mundo ainda mais preconceituoso e desordenado? 

A humanidade está ameaçada pelos homossexuais; aborto é assassinato; é pecado usar camisinha e tomar anticoncepcionais, mesmo em países onde o número de casos de AIDS é espantoso: a Igreja Católica é esse crime, essa mentira - com um pouco mais de perspicácia, podemos lê-lo na própria cartilha distribuída aos jovens da JMJ. Com que desonestidade, contudo, o "kit peregrino" promove a desinformação, e com que docilidade o rebanho jovem se deixa estar, sem ao menos querer pensar e de fato buscar compreender em que contexto se inserem todas essas questões e com que seriedade devem ser discutidas e transformadas em politicas públicas.

Penso nas jovens mulheres, nas adolescentes e crianças que rezam alegres por uma igreja que as desrespeita fundamentalmente. Já pensaram, essas meninas, nos médicos e na mãe da menina de 9 anos, excomungados pela ICAR por terem permitido que ela abortasse o fruto de um estupro, em uma gravidez de alto risco? (Mas o estuprador pedófilo, padrasto da menina, não foi excomungado.) 

Penso nas corajosas mulheres de peitos nus que foram protestar por um Estado laico. Penso nas Católicas pelo Direito de Decidir. Penso no Estatuto do Nascituro, no PLC 122, no PL 60/99. Algum dos jovens da JMJ conhecerá de fato, sem preconceito, sem ideias rasas, algum desses tópicos? Terá respondido ao menos um 'sim' a alguma dentre tantas perguntas?

Uma juventude ignorante, que se recusa a saber, que escolhe não saber, é o verdadeiro mal. E, como em outros momentos da história, pode novamente agora contribuir com sua força, energia e estupidez para piorar o mundo.

ps: Jesus renegaria essa Igreja, esses mercadores do Templo.
ps2: links nas palavras em vermelho. 



por Tággidi Ribeiro


Nesta semana a Comissão de Transportes aprovou a separação de vagões para as mulheres, em ônibus e metrôs de São Paulo. Não consigo pensar de que ângulo pode ser defensável essa proposta, que em breve será apreciada pela Assembleia Legislativa do estado. 

As mulheres são 58% dxs usuárixs do metrô, mas certamente não terão 60% dos vagões a seu dispor. Se aprovada, além de não contemplar todas as mulheres, a proposta deixará ainda mais vulneráveis as tantas que não conseguirão lugar nos vagões a elas reservados. Imaginem a brecha para culpar as mulheres por seus próprios abusos: 'mas se ela estava no vagão dos homens...'.  Proposta retrógrada, me lembra de quando homens e mulheres não podiam estudar juntos na mesma escola, me lembra o mundo islâmico que tanto distingue espaços para os dois sexos, sem jamais resguardar de fato as mulheres porque a questão é cultural, definitivamente. 


As mulheres de todas as idades são assediadas por homens comuns, que julgam ser o assédio um direito seu, que julgam ser prova de 'macheza' 'aproveitar-se' delas. E o poder público só reforça essa percepção quando não pune adequadamente esses indivíduos, quando ignora na escola a necessidade mais que urgente de disciplinas que abordem (violência de) gênero, quando não esclarece apropriadamente sua polícia acerca do trato com as vítimas, quando não incentiva por meio de campanhas a denúncia. 


De uma perspectiva masculina, o que o poder público faz é apontar o dedo para todos os homens, como se fossem todos assediadores. Obviamente, se todos são suspeitos, fica dificílimo achar o culpado; se todos são culpados, não é possível punir alguém. Desde 2006 o Rio de Janeiro reserva vagões às mulheres, o que não fez diminuir o número de casos de assédio no transporte público. Na realidade, tanto o Rio quanto São Paulo viram as estatísticas de assédio e estupro saltarem - o que não sabemos é se há mais violência ou mais denúncias, fruto certamente mais da reação das mulheres que de esforços dos governos.

Tanto no Rio de Janeiro quanto na Índia, homens e mulheres disputam os vagões para mulheres. Essa guerra quem insufla são os governos. Em São Paulo, os vagões de metrôs e trens são disputados diariamente, sem distinção de sexo: fora a questão cultural, base que legitima a ação do assediador, o problema flagrante é a superlotação do transporte público, que praticamente zera a chance de defesa da mulher. Quem mesmo está cuidando de solucionar o problema da superlotação? De que ângulo mesmo a proposta do deputado Geraldo Vinholi do PDT é defensável?

Para mais reflexões, um post da Bárbara Falleiros (uma subvertida saudosa que logo volta!); um texto da Lola Aronovich e um do blog feminista da Carta Capital, por Nádia Lapa.

Educar homens e mulheres: o essencial.

por Tággidi Ribeiro



HISTÓRIA é o nome do dia de hoje. Em muitas das mais importantes capitais do país, incríveis ajuntamentos de  gente querendo, clamando por um país diferente. A grande mídia dará ênfase à (pouca) violência proveniente da raiva justificada de alguns grupos. A pergunta não é: por que agem dessa forma? A pergunta honesta seria certamente: como, diante de um cotidiano tão pesado, não agem? Ou: por que, diante de tantas violências cotidianas, agiriam de forma pacífica?

Manifestantes reunidos no Largo da Batata.
Apesar de motivos mais que suficientes para revidar a violência cotidiana sofrida, o que se ouvia em São Paulo muito apropriadamente eram os gritos de "Que coincidência! Não tem polícia, não tem violência!", atestando a pacificidade da manifestação, das reivindicações, dos afetos. Assim como no Ato Contra o Estatuto do Nascituro, do qual também participei, no sábado, na Sé. 

Contra o Estatuto do Nascituro.
Não será pernicioso lembrar, contudo, que enquanto imprensa e governo nos cobram 'paz', é justamente essa que nos é negada. Eu vi, na quinta 13/06, manifestantes gritarem inocentes "Sem violência!" e receberem em resposta bombas e balas de borracha. Sem que nada de mal tivessem feito as mulheres à humanidade, há a possibilidade de que um estuprador conste como pai na certidão de nascimento de uma criança fruto de estupro. Há igual possibilidade de que a soma de dois gametas, ainda fora do útero feminino, tenham tanto ou mais direitos que uma mulher consciente, humana. 

Eu que sou palhaço...
Nosso problema não são os impostos: disso já sabemos. Nossos problemas são a corrupção e a má administração, coisas diferentes, mas bem parecidas, desde que estamos no Brasil. Nossos problemas também são criar uma cultura diferente da do 'jeitinho' e da 'malandragem' e instaurar um coletivo.

É nesse lugar, o do coletivo, que as manifestações de hoje se inserem. O aumento das passagens é coletivo, o trânsito de má qualidade é coletivo, o engarrafamento é coletivo. Coletivos são também os desejos de 'democracia de verdade' e de 'mudar o país'. E, embora 'a ficha ainda não tenha caído', o Estatuto do Nascituro é coletivo.

Não sabemos ainda o que resultará dessa avalanche de protestos. Sei que é muito bom ver e estar com o povo na rua, sentir a energia e a felicidade de cada um, mesmo depois de andar horas. É muito bom saber que nos reunimos por algo legítimo e que não há sombra de fascismo ali. 

Eu, particularmente, espero que esses dias nos apresentem novas lideranças, gentes em que possamos votar nas próximas eleições - gente sem preconceito de raça, cor e sexo e que esteja realmente comprometida com o fim de todas as misérias (em todos os sentidos) desse país. Gente que talvez tenha estado no Congresso hoje - parabéns, Brasília! Gente que esteve em São Paulo, no Rio, em BH, em Vitória, Maceió, Curitiba, Porto Alegre, Belém...

Precisamos urgentemente de novos políticos nesse país, muito dispostos a lutar por novas (nossas) causas. 

Manifestante no teto do Congresso, em Brasília.


por Tággidi Ribeiro


Esses dias me vi 'obrigada' a explicar a seguinte frase: "Eu gosto dessas meninas. Da Sabrina Sato, da Nicole Bahls." Pois é. Eu falei isso. E, sim, eu gosto dessas meninas. Já me peguei rindo delas, de suas bobagens, da falta de papas na língua, de sua rudeza. Tem uma coisa crua nelas que me é familiar e me faz simpatizar com elas. Acho que também sinto empatia por elas porque sei que são mulheres não respeitadas. São as típicas mulheres pelas quais os homens babam e as meninas gritam no recalque - e vão, namorados, maldizer a vulgaridade das 'mulheres que não se dão ao respeito', das piranhas, vagabundas, putas. 

Uma informação necessária: eu também já as chamei assim e não foi o feminismo que me 'salvou' de vê-las dessa forma; foi, antes mesmo de entrar em contato com o feminismo, a percepção de que, em algum momento de nossas vidas, todas nós somos putas. Putas porque traímos o namorado ou ficamos com o namorado de outra, porque aparecemos com uma saia curta demais, tiramos uma ótima nota, fomos antipáticas, porque usamos argumentos pertinentes em uma discussão ou porque simplesmente não foram com a nossa cara... Em algum momento, por um período breve ou nem tanto de nossas vidas, seremos chamadas de 'puta, vaca, piranha' (nos dirão isso na cara ou não). Acho que, a partir do momento em que entendi isso, eu passei a olhar para as mulheres, sobretudo para essas que eu achincalhava ou que eu via serem achincalhadas, de outra forma. E, claro, não pude deixar de comparar essa facilidade do ódio dirigido às mulheres à simpatia ou 'neutralidade' que eram dedicadas aos homens. Os comportamentos que geram o vilipêndio às mulheres são aceitos com naturalidade se são os homens que os protagonizam.

Verdade, verdade... quando odiamos os homens? Existe ódio aos homens correlato ao ódio que sentimos pelas mulheres (cotidiano, fácil e visceral)? Se existe, porque esse sentimento não se verifica na língua? Quer dizer: porque todo e qualquer xingamento dirigido a um homem parece fraco demais, parece nunca atingi-lo de fato? Dê uma olhada no vídeo abaixo, a partir do minuto 7:15.


Esteja claro que não defendo que passemos a dispensar ao homem o mesmo ódio que dispensamos às mulheres. Imagina! A ideia do feminismo não é rebaixar o homem à mulher (que, sim, ainda é vista como inferior) e sim elevar a mulher ao homem, igualá-los naquilo o mais importante: o estatuto de ser humano. E é justamente aqui que entram as Nicoles e Sabrinas da vida, as que não se dão ao respeito, as putas (e, por extensão, todas as mulheres) - porque é como se elas precisassem (nós precisássemos) de algumas 'qualidades' para alcançar esse estatuto. Elas não são seres humanos a priori (não nos enganemos - não somos). 

Como contraponto a essas mulheres minoradas, há um discurso, um comportamento e uma imagem do que seria a mulher de 'valor'. Na mídia, elas são, por exemplo, Gisele Bündchen e Grazi Massafera, ambas casadas e mães, mulheres discretas, sem arroubos, sensuais em certa medida, lindas. Nós não a chamaríamos de vulgares, mesmo que sejam retratadas seminuas ou usem vestidos provocantes. Nós não diríamos que são burras, ainda que seus discursos sejam vazios. Elas são as 'mulheres que se dão ao respeito', não meros objetos sexuais... Nós não vilipendiamos essas mulheres, elas nos são simpáticas ou 'neutras'. Elas chegam bem perto daquilo que os homens são, com a diferença, salutar, de que homens não precisam casar, ser pais, discretos, algo sensuais, lindos... para serem objeto do nosso afeto e respeito. A outra diferença é que, mulheres que são, Gisele e Grazi a qualquer momento podem tornar-se alvo das bocas do inferno.

É interessante perceber que 'ideologicamente' não há diferenças entre Nicoles, Sabrinas, Giseles e Grazis, pois todas se inserem em lugares esperados para as mulheres. As primeiras são as putas (as fáceis, as indignas, as pra trepar), as outras são as santas (as honestas, as direitas, as pra casar). Esses lugares são lugares de mercado: cada uma delas vende artigos diversos para classes diversas. As primeiras, para classes mais populares; as outras, para classes mais abastadas. Esses lugares também são lugares demarcados culturalmente, corporalmente, nas falas e nas formas. Nicoles e Sabrinas falam 'errado' e seus corpos são musculosos; Giseles e Grazis falam 'certo' e seus corpos são delgados. Nicoles, Sabrinas, Giseles e Grazis são produtos pensados e nós, de uma forma ou de outra, no elogio ou no insulto, os compramos - enquanto sem perceber valoramos as mulheres a partir de uma identificação classista.

Mas, pera lá, se elas estão aí para a manutenção do status quo feminino, dentro de uma divisão de classes, do trabalho e da beleza feita por homens e para homens, porque não deveriam ser, todas, alvo? Simples: porque o alvo deve ser a indústria que as produz, e toda a cultura de uso da mulher - o alvo é sempre o patriarcado.

Para fechar a minha explicação, que começou laaaaá em cima: gosto de Nicoles e Sabrinas porque as vejo não como 'as vagabundas que estão atrás de dinheiro fácil', mas como sujeitos contingenciados pela história, como todos nós: por uma história de milênios de opressão da figura feminina (sobretudo dessa figura associada tão instantaneamente ao sexo); por uma história que sempre 'conspurcou' uma determinada parcela de mulheres para que ocupassem 'o pior lugar', o lugar indefensável, o da mulher 'desonrada', o da prostituta; por uma história de vida que eu não sei qual é, que pode ter sido feliz ou triste, mas na qual certamente também encontram-se os encadeamentos que as levaram a ser 'celebridades' e a ser esse tipo específico de celebridade. O simples fato de permitir ao outro uma história o humaniza - e isso mata em mim o ódio que mataria (ainda que apenas verbalmente) o outro.

Por fim, acho que nós mulheres não podemos nos furtar a pensar o quanto a exacerbação da sexualidade nos corpos de Nicoles e Sabrinas irritam a nossa própria sexualidade. O que quero dizer: assim como muitos homens homofóbicos desejam secretamente os corpos de outros homens, na nossa raiva voltada a esses corpos de mulheres não estaria também o nosso desejo?

por Tággidi Ribeiro


Escrevi esse post aqui, sobre o que fazer em caso de estupro, para a vítima. Agora, quero falar a você que pode eventualmente ser conhecidx, amigx ou parente de uma vítima de estupro. Sabendo que a maioria dos estupros acontece em casa, sendo perpetrados por conhecidos da vítima, você pode ser inclusive testemunha (ocular ou não) de um. Por isso, acho bom você ficar preparadx para ser diferente do que as pessoas costumam ser nesses casos: insensíveis, cruéis, desconfiadas e não confiáveis.

1. Em primeiro lugar, se uma mulher - mãe, irmã, amiga, prima - disser a você que foi vítima de estupro, não pergunte "O que você estava fazendo?"; "Como estava vestida?"; "Mas porque foi falar com ele?"; "Por que saiu sozinha?". Também não diga: "Você não devia ter bebido tanto."; "Acho que você deve estar confusa. Ele não faria isso."; "Vai ficar sozinha com homem, sabe o que acontece...".

Cada uma dessas falas é uma sentença que repassa à vítima de estupro a responsabilidade por ter sido estuprada. É como se ela pudesse, por meio de algum comportamento ou atitude, estar a salvo desse crime hediondo. Na mesma medida em que responsabiliza a vítima, tira a responsabilidade do estuprador, tornando-o alguém que teve um motivo para praticar esse crime. De todas essas falas, a pior é, obviamente, aquela que deliberadamente duvida da vítima: "Ele não faria isso." é uma frase que funciona bem  como um segundo estupro - portanto, mesmo que a diga só para si mesmx, faça-o sentindo vergonha. Ah, não fique caladx e NUNCA diga: "Esquece isso."

2. Em segundo lugar, faça a coisa mais importante: ofereça apoio, diga que conte com você, leve a vítima ao hospital, à delegacia. Peça ajuda para ela, defenda-a de constrangimentos na delegacia, no hospital, pois muitas vezes os profissionais dessas instituições reproduzem os preconceitos da sociedade machista. Pode ser que ela não queira denunciar o estupro: em qualquer caso, dê seu apoio à vítima - mas deixe claro que se ela resolver denunciar, você estará ao lado dela.

Atenção: se você for testemunha ocular de um estupro, é seu dever chamar a polícia ou de qualquer forma fazer parar o ato (e chamar a polícia). Não raro lemos casos em que as vítimas foram abusadas na frente de outras pessoas e ninguém fez nada (leia e chore). Ah, caso você tenha dúvida de que o ato sexual por você presenciado seja estupro ou não: intervenha primeiro, pergunte depois.  

3. Caso a vítima de estupro venha a engravidar, deixe por conta dela a decisão de abortar ou não. E a apoie em qualquer caso. Lembre-se de que o aborto para vítimas de estupro é legal neste país - ainda que haja gente querendo suprimir esse direito da mulher, mercantilizando os úteros femininos. Se você ainda não ouviu falar sobre, o Estatuto do Nascituro prevê uma bolsa para as mulheres que decidirem não abortar fetos frutos de estupro. Se você não sabe, a Elba Ramalho 'intercedeu' por um feto, chantageando emocionalmente uma menina de 14 anos que havia sido estuprada pelo pai. Não faça isso, não faça parte disso. Pense nessa pessoa sofrendo a seu lado e haja legalmente, deixando crenças e convicções morais de lado. Essa pessoa será sua filha, amiga, namorada, mulher, mãe, avó... Ela vai precisar do seu apoio, que é a grande palavra desse post.

Por fim, quero lembrar que vivemos em uma cultura do estupro, na qual a vítima, via de regra, é acusada, julgada e culpada em lugar do estuprador. Justamente por isso, precisamos aprender a ser o contrário, precisamos aprender a ter empatia e compaixão pela vítima, não pelo criminoso, mesmo que este seja seu vizinho, amigo, pai, irmão, marido, filho, avô. Pense bem: depois de tudo o que você já leu, de saber quão traumático pode ser o estupro, levando suas vítimas mesmo ao suicídio... você ainda vai duvidar, culpar a vítima? Você ainda vai preferir continuar casadx com um estuprador a denunciá-lo? Vai esconder (de si mesmx) que alguém conhecido, ou até muito próximo, é estuprador? E se o estuprador fizer mais vítimas? E se ele vitimar você?


por Tággidi Ribeiro


Sabe, nunca me passaram a mão no ônibus, nem no metrô - o que já aconteceu com a maioria das meninas com quem falei sobre. Mas já aconteceram coisas "chatas" que quero relatar a vocês. Hoje é o dia do meu sexismo de cada dia.

Da primeira vez, no ônibus, eu na fila para pagar achava o cobrador muito animadinho com as mulheres. Estranhei. Quando eu fui passar, encostando o bilhete único na máquina, ele roubou a minha mão (acho que tocar é um verbo muito bonito e portanto não adequado pra eu usar aqui). Ele roubou a minha mão e eu me senti invadida. Eu fui invadida, porque havia bastante espaço para que a mão daquele homem estivesse bem distante da minha. O ônibus não chacoalhou, nem nada. Ele propositadamente encostou sua mão em mim. Parece mimimi de feminista, né? Pois bem. Não era a primeira vez que eu via isso acontecer, nem a última que eu veria: uma vez no metrô, outra no ônibus (respectivamente). Dois caras, duas meninas. Eles olhavam. O do metrô tinha aquele sorriso escroto. O do ônibus tinha cara de bonzinho, tímido. Tanto o metrô quanto o ônibus estavam vazios e eles deram um jeito de se encostar nas meninas. O do metrô, no braço. O do ônibus, no ombro. Houve cálculo, houve método. Havia a ideia de que isso deve ser feito: invadir, desrespeitar o espaço do corpo do outro se o outro é uma mulher vulnerável de alguma forma - uma mulher em um espaço público. O olhar excita, o toque é a prévia da punheta se não há chance para o abuso, para o estupro. Não digo com isso que esses homens são estupradores, mas tampouco posso dizer que não o são.

Da segunda vez, eu nem havia olhado para o cobrador. Simplesmente esperava com a mão aberta para receber o troco de moedas. Ele colocou o montinho no centro da minha mão e roçou com seus dedos toda ela. Eu disse "obrigada" e saí me sentindo estranha, novamente invadida. Já na rua (desci logo), me sentindo cada vez mais invadida (como se estivesse acordando para o sentido do ato daquele homem), lembrei de uma 'brincadeirinha' que os meninos da minha cidade faziam com as meninas - roçar, fazer cócegas (n)o centro de suas mãos, para excitá-las. Nós éramos meninas, adolescentes de 11, 12 anos e os meninos provavelmente haviam aprendido isto com seus amigos, parentes mais velhos: o centro da mão é algo tão íntimo quanto uma vagina. Mentira. O que é constrangedor, e que para nós, meninas, era desconcertante (reagíamos rindo às vezes, e sempre protestando), é um toque que não está no programa, é o toque inesperado, não consentido. Quantas vezes não ouvimos, depois de um toque inesperado na cintura ou no joelho: "cócega só até os 12 anos"? Esse tipo de ciência (no mau sentido) do corpo e dos desejos de uma mulher (menina, criança até), passada de geração para geração e que autoriza a invasão do corpo feminino é a base familiar, cotidiana da cultura do estupro. Não é a mídia que gera essa cultura - a mídia pertence a homens inseridos nessa cultura, que receberam esse tipo de (de)formação. A mídia perpetua a cultura de estupro - e muito bem por sinal.

Tem muito mimimi feminista guardado. Aconteceram outras coisas mais, menos e mais violentas, mas vou parar aqui por hoje, falando o pior. O pior é que eu não consigo reagir. Quem me conhece sabe da minha capacidade de ser agressiva e, hell, eu sou feminista. Eu fico paralisada, eu não entendo, eu agradeço ao cobrador (!). Eu já imaginava que essa inação tivesse  que ver com meu histórico de abuso (já falei sobre isso aqui no blog, em textos antigos). Voltando ao divã, a terapeuta confirmou. Agora, vou começar mais uma longa jornada na minha noite adentro, depois de todo o trabalho tentando me livrar da culpa, da sensação de ser suja, de achar que não merecia amor - que deu muito certo, mas acho que porque, além de eu ser resistente pra diabo, também não sofri abusos contínuos como muitas das mais sofridas vítimas...    

Eu obviamente vou conseguir. Achei que pudesse sozinha, mas vou precisar de ajuda: tudo bem, o importante é superar a questão. Até porque, quando eu superar, quando eu conseguir reagir... Quando, em vez de abaixar a cabeça, eu apertar a garganta do sujeito (já falei que eu sou agressiva?)... É nossa revolução, sabe? Eu sou vocês. Eu serei todas nós.

Espero que vocês, assim como eu, estejam em busca da reação. Ensinar os homens a respeitar e ensinar as mulheres a reagir ao desrespeito.

por todas nós


Hoje o blog comemora um ano de existência. E estamos muito felizes. São mais de 200 textos, mais de 500 comentários e 96.000 visitas! Tentando com a nossa proposta de pluralidade, publicamos textos,  de sete colaboradoras fixas, 11 relatos enviados para o Sexismo de Cada Dia e nove Guest Posts. Este espaço é uma (pequena) plataforma, mas que nós podemos atestar pessoalmente ser muito significativa.

Questões de gênero são geralmente explosivas porque mexem com ansiedades relacionadas a normas sociais e inevitavelmente vêm atreladas à questão da sexualidade. O blog promove um fórum para podermos nos expressar livremente e desenvolver um argumento completo, que pode então ser lido e discutido. E é particularmente eficaz para contrabalancear páginas e blogs misóginos, ainda que muitos deles tenham milhares de seguidores.

Fora o desejo de transformar a sociedade hodierna, esse dado também evidencia a necessidade da existência deste espaço e dos espaços das nossas colegas feministas. Se a reação de disposição contrária à ação que clama liberdade e igualdade a todas as mulheres é tão intensa e, nos parece tantas vezes, desproporcional, então só podemos concluir que sob a superfície do humor e do afeto brasileiros esconde-se, ao lado do racismo e da homofobia, e de um sem número de preconceitos, também a misoginia, também a discriminação de gênero. Expor essa ferida é sem dúvida a melhor forma de sarar.

Precisamos de mais textos, mais relatos, 'causos', anedotas, reflexões. Enviem suas contribuições - de qualquer tamanho, linguagem, assinados ou anônimos.


Acima de tudo, muito, muito obrigada por tudo! Por nos acompanharem, por deixarem comentários, por todo o carinho!

E não se esquecem de nos seguir no Facebook e no Twitter!


por Tággidi Ribeiro


Atena, deusa da sabedoria.
O prefácio de Franco Volpi ao A arte de lidar com as mulheres, do filósofo alemão Arthur Schopenhauer, é ao fim interessantíssimo. A intenção clara do texto é não só desculpar a misoginia schopenhaueriana, posta na conta do humor ('é só uma piada'), mas também desculpar a misoginia da história e da filosofia ocidentais. Aliás, a palavra correta aqui é justificar, ou seja, demonstrar a justiça (histórica, universal) e legitimar as falas que calavam (ainda calam) a mulher. Contudo, nesse processo, Franco Volpi evidencia aquilo mesmo que o cega ou que ele se recusa a ver: o apagamento sistemático da figura feminina não por alguma sua inferioridade intrínseca, natural, mas dentro da própria construção discursiva dessa inferioridade. Vejamos o que ele nos diz:
6. Seja como for, a tradição do pensamento ocidental, apesar da diversidade das posições, das tendências e das escolas que a constituem, mostra uma surpreendente compactação ao remover, de princípio ou de fato, o sexo feminino, excluindo-o de um papel ativo na filosofia. Se o paralelo não suscitasse hilaridade, e se alguém já não o tivesse proposto, poderíamos arriscar a seguinte tese: assim como Heidegger afirmou que a filosofia ocidental é caracterizada pelo "esquecimento do Ser", poderíamos sustentar que ela é marcada por outro muito mais escandaloso: "o esquecimento da mulher".
O que me chama a atenção nessa fala, fora a questão posta, tanto histórica quanto metafísica, é que o paralelo traçado entre o esquecimento do ser e o da mulher seja, para mim, mulher, trágico, e nele provoque não só o riso, mas a explosão. A misoginia profunda de Franco Volpi tanto ri escandalosamente do esquecimento da mulher quanto esquece a mulher no tempo mesmo em que irrompe: as mulheres jamais seriam suas leitoras? Ou jamais chegariam a compreender, a penetrar esse discurso? Ou seriam obrigadas a capitular diante da verdade? Esta verdade(?):
 7. (...) na República, ele (Platão) reivindicou a igualdade dos direitos para as mulheres, admitindo-as até no estudo da filosofia: infelizmente, o fato é que nessa obra ele ilustrou apenas uma utopia. Já no Timeu, quando expôs a doutrina das metempsicoses, Platão afirmou que as almas são originariamente masculinas: as que vivem indignamente seriam destinadas a reencarnar num corpo feminino e, se novamente se comportassem mal, transmigrariam para o corpo de um animal. Desse modo, ele terminou por atribuir à mulher o estatuto de ser inferior, a meio-caminho entre o homem e o animal.
O homem ocidental clássico tem horror ao animal. Por animal entende aquilo que deixou de ser, aquilo a que se tornou superior e que deve necessariamente dominar. O homem ocidental construiu sua identidade tendo como alter, como outro, não a mulher, mas o animal. A mulher só passa a ser também o outro num momento posterior da dominação do homem sobre a natureza. E para justificar (principal verbo desse post) sua ascensão sobre qualquer ser, o homem imediatamente o associa, o assemelha ao animal. Keith Thomas nos conta, em O homem e o mundo natural, que crianças, jovens, pobres, negros, loucos, povos inteiros e, é claro, mulheres são comparados a animais, sobretudo até o século XIX, quando a biologia ganha o status de conhecimento e os animais têm reconsiderado o seu valor. Mas ainda no século XX o mesmo expediente é usado: antes e durante a Segunda Guerra os judeus são descritos como ratos, para ficar em um só exemplo. 

Quanto às mulheres, seguem animalizadas, ou melhor, seguem carregando a pecha que hoje pesa menos sobre o animal: praticamente todo o discurso midiático e muitas vezes também o biológico gira (propositadamente) em torno do estereótipo da mulher superemotiva, irracional. Seres irracionais não fazem filosofia, lugar primeiro da razão. Aqui o lugar de Franco Volpi.


ps: pincei apenas alguns trechos do prefácio e talvez em algum momento enfoque o texto de Schopenhauer, que segue de algum modo sendo replicado a sério. Veja nesta cena, para mim, tristíssima (min 11:06):


Como Conquistar um Homem