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por Maria C.

O Ministério Público Federal e Themis Assessoria Jurídica e Estudos de Gênero propuseram Ação Civil Pública em desfavor de Sony Music Ind. Com. Ltda. e Furacão 2000 Produções Artísticas Ltda, pela propagação e divulgação das músicas “Tapinha” e “Tapa na Cara”, cujas letras seriam ofensivas à dignidade feminina, banalizariam a violência contra as mulheres e causariam dano moral difuso às mesmas, motivo pela qual pediram sua condenação.

O pedido foi julgado parcialmente favorável em Juízo de primeiro grau. No dia 12.07.13 o Tribunal da Justiça da 4ª Região reformou a decisão. No acórdão, um dos desembargadores pediu vista dos autos, e em 24 longas páginas, elaborou voto reformando a sentença de primeiro grau e julgando favoravelmente às gravadoras.

Em resumo, as razões do voto consistem: na afirmação de que as músicas são do gênero artístico funk e pagode, e deste modo, falam de realidades distintas e configuram formas de expressão populares a serem toleradas; não há prova de que ouvir a música e/ou sua divulgação aumente a violência e a agressão contra as mulheres (relação de causa e efeito); o direito de expressão e à livre iniciativa é garantido constitucionalmente, o qual só pode ser limitado quando verificado perigo concreto aos outros e à sociedade.

O voto apenas demonstra o óbvio, a concreta institucionalização do papel da mulher enquanto mero objeto, a supressão de sua tentativa de voz e a triste constatação de que as iniciativas tomadas são relegadas ao nível da abstração, dedicando os operadores do direito a manterem o status quo do patriarcado e nossas eternas algemas.

Não vou fazer uma análise jurídica do voto do desembargador, que não cabe aqui. Em sua qualidade de magistrado, atuou conforme sua jurisdição e aplicou os princípios e normas que reputou legítimos. Mas, na qualidade de cidadã, de mulher destinatária desta norma individual ditada no acórdão – porque a música nos afeta a todas, indistinta e difusamente – tomo a liberdade de comentá-la de forma despretensiosa, sem tecnicismos, e o faço com toda a liberdade de expressão que o dr. desembargador exaltou.

De início, é óbvio por demais que uma música, poema, texto ou qualquer coisa, cujo título seja “Tapinha” ou “Tapa na cara” e afirme e repita “dói, um tapinha não dói [...] um tapinha eu vou te dar”, e outra “tapa na cara, se você quiser eu vou te dar” em que o narrador/locutor é um sujeito masculino o qual se dirige na fala a um sujeito feminino em sua narrativa, contém em si pressuposta a violência, a aceitação da violência contra as mulheres, sua banalização mais típica.

Está no título, na letra, na voz. Nada é implícito. É claro que a letra não diz ‘espancar é legal’, isso não é socialmente aceitável. Aceitávelé “dar uns tapas pra sua patroa saber quem manda, afinal, ‘um tapinha não dói’; nem um ‘tapa na cara’ mesmo, em se tratando do ambiente doméstico”.

Note-se que a letra, a música, precisa sempre ser contextualizada para ser salva de qualquer interpretação agressiva contra as mulheres. Disse o acórdão: “são discursos de atos de amor”. Ah, nós não havíamos entendido... Afinal, não há uma linha tênue entre a violência gratuita e cultura do estupro.

Quando se diz que “um tapinha não dói”, ao se diminuir a palavra, “só um tapinha”, torna-se o discurso tolerável, quase amável. O discurso quase incute uma confusão entre a agressão e o carinho (essa é a perspectiva do MPF). De outro lado o ‘tapa na cara’ é dado se é pedido pelo sujeito feminino. Ora, ela apanha porque quer, porque pede. O sujeito masculino não tem culpa por bater, a culpa é toda da vítima, do sujeito feminino na fala da música, que pede, que implora pelo ‘tapa na cara’. Tudo culpa dela. E olhe que em nossa cultura, o ‘tapa na cara’ é a maior das violências, é uma verdadeira humilhação.

Como não afirmar que as músicas expressam a banalização da violência contra a mulher? Ao ouvir alguém cantando “dói, um tapinha não dói” para sua namorada, o que se extrai desse quadro? Evidente, jamais se afirmará que esse sujeito irá agredi-la, por ter entoado/ouvido a canção. Mas é também evidente que seu ambiente lhe afirma que é normal dar um tapinha ou uns tapinhas, que não dói. Nem um tapa na cara - é aceitável, ela está pedindo.

O discurso, em seu ambiente de lazer, de descontração, lhe afirma que o carinho e agressão se confundem, que a violência contra a mulher é irrefletida; e que não há problema: não dói na primeira situação e na segunda, é culpa dela. Como não sentir, ao ouvir as músicas, que elas repercutem, tornando a incutir a ideia eterna de que a mulher deve ser subjugada, dominada, calada?

Tudo isso dado o contexto atual da violência doméstica, tão alarmante que gerou a Lei Maria da Penha. No Brasil a cada 4 minutos uma mulher é vítima de violência doméstica, 70% dos incidentes ocorrem no lar, sendo o marido/companheiro o agressor habitual; em 40% das vezes há lesões graves; e os gastos sociais resultantes representam 10,5% do PIB nacional. O Governo Federal e a sociedade brasileira têm investido em marketing a fim de coibir e prevenir a violência de gênero e doméstica e conscientizar as mulheres de seus direitos.

Se a questão são números o problema é relevante. Ainda assim entendeu-se que não há problema na divulgação de músicas que falam de bater em mulheres (porque é uma pancada leve, um tapinha, um tapa na cara), que esta situação tão cotidiana não fere a dignidade humana feminina, ainda que o ordenamento jurídico tenha criado a Lei Maria da Penha, em reconhecimento histórico da violência sofrida pelas mulheres e da extrema necessidade de seu combate.

Infelizmente é um discurso que se repete em todas as mídias: está instituído há muito tempo e estamos tentando derrubá-lo com pouquíssimas e pequeníssimas vitórias há poucas dezenas de anos.

A negativa no julgamento joga na nossa cara essas obviedades insuportáveis. Juridicamente, até a década de 1950, as mulheres nem eram consideradas plenamente capazes, sempre sob a tutela do pai ou do marido. E estamos falando da questão formal, imagine na realidade, que é sempre mais crua e cruel.

Banalização? Imagina.
A verdade é que a liberdade ainda não chegou para nós. Estamos sendo utópicas em sonhar com igualdade. Nossa sociedade verdadeiramente não nos reconhece como sujeitos de direitos, pessoas dotadas de ideais (e ideias), sujeitos investidos de princípios.

Somos consideradas em maior grau objetos de direitos, e é por isso que se permite que ideias e imagens de domínio sobre nossas vidas e nossos corpos se propaguem como sendo normais, cotidianas, ordinárias, comuns, parte da realidade brasileira, de nossa expressão cultural. Não são. Não para os objetos de dominação.

A liberdade de expressão e de livre iniciativa das gravadoras foi preservada, sob os ideais da Constituição. Mas a dignidade humana feminina, concretamente, foi ignorada.

Queremos não apenas ser declaradas livres e iguais numa lei escrita, mas queremos ser reconhecidas efetivamente como sujeitos de direitos. Diferente de uma cadeira, não somos objetos.




por Roberta Gregoli


Jogo dos erros: Qual o problema com esta imagem?

Muito se diz da competição feminina no ambiente de trabalho e como por vezes mulheres em cargos mais altos são particularmente competitivas com outras mulheres. Enquanto é verdade que, no geral, mulheres são criticadas muito mais ferozmente do que seus colegas homens pelo mesmo tipo de comportamento (o famoso padrão duplo), a pergunta que não quer calar é: É possível ter uma atitude feminista ao reclamar da sua chefe?

Não seria o caso de negar que existem, sim, mulheres particularmente competitivas, fato observado não só em empresas como também em outros ambientes, como a política (vide Margaret Thatcher), mas para evitar que - como sempre - as mulheres levem a culpa por tudo, é preciso enfatizar que a raiz do problema é o machismo introjetado, não a mulher individual. 

E não é de se espantar que mulheres introjetem esse padrão de comportamento. Na cultura popular, o chamado princípio Smurfete, a existência de uma única personagem feminina num mundo de outro modo dominado por homens, continua presente em diversos produtos culturais... até hoje. Para citar dois exemplos brasileiros, nunca ouvi ninguém questionar o CQC por ter uma única (e mais recente) comediante mulher no seu quadro ou tampouco estranhar que, no filme De Pernas pro Ar (Roberto Santucci, 2010), Alice seja virtualmente a única mulher na empresa em que trabalha no início do filme. A consequência disso é a naturalização de um mundo não-natural (da última vez que verifiquei ainda éramos 50% da população mundial).

Nesses casos, em que uma única mulher serve para simbolizar todo o gênero, a figura feminina é chamada mulher-símbolo (minha tradução do termo token woman do inglês). O mesmo conceito de token se aplica a outros grupos minoritários: vemos em novelas x negrx-símbolo ou o gay-símbolo. Esse tipo de representação superficial tem por objetivo criar a ilusão de representatividade, sem alterar o paradigma estrutural ou significativamente. O equivalente a dizer que, agora que Dilma Rousseff é presidenta, não há mais machismo no Brasil.

"A negra-símbolo da empresa? É isso mesmo que você se considera,
Ms Corwin? Você é muito mais do que isso, eu lhe asseguro.
Você também é nossa mulher-símbolo."

Para expandir sobre o tópico, deixo vocês com este ótimo vídeo da Anita Sarkeesian do excelente Feminist Frequency, que descreve em detalhes esses dois conceitos - o princípio Smurfete e a mulher-símbolo - citando diversos exemplos da cultura estadunidense.


Legenda em português disponível clicando no botão no canto inferior direito


por Barbara Falleiros

Olhando para as fotos, me bateu um desânimo tão grande que eu tive vontade de chorar. Então é isso mesmo, nós não valemos nada. Pensei nas vezes em que já senti sobre a minha pele mãos indesejadas. E me veio novamente aquela repulsa, reação infelizmente familiar a tantas mulheres. A todas as mulheres - ouso dizer - em pelo menos algum momento de suas vidas. Numa dessas vezes, quando eu tinha dez anos, um garoto da escola se divertia em passar a mão na bunda das meninas. Lembro-me bem da sua risada. Eu e as outras garotas não achávamos a menor graça, mas ele continuava. Como nos ensina desde cedo a cultura do estupro, agressão é brincadeira, assédio é humor.

O Pânico é um programa de "humor" fraco e primário que, como de costume na tv brasileira, funciona à base de brincadeiras de mau gosto e de humilhações, reforçando o preconceito e o sexismo desde a concepção de seus "personagens", do homossexual com hemorroidas à mulher planta meramente decorativa. No programa, o grau de importância das participantes mulheres se mede pela quantidade de roupa que vestem: aquela que aparece um pouco mais coberta tem um papel de destaque, embora permaneça sendo a loira burra japonesa gostosa. Nicole Bahls, antiga figurante de biquíni, estava feliz em voltar ao programa com uma promoção: "Não vou ficar mais usando biquíni. (...) Vou ficar sentada junto com os outros humoristas. Estou me sentindo ótima, emocionada com a volta."

Já Gerald Thomas, embora se veja como grande expoente artístico com carreira internacional - há prova de maior provincianismo do que a idolatria do exterior e o desprezo puro e simples por seu paisinho de quarto mundo, do qual ele mesmo reproduz o pior da cultura sexista? - não passa de um babaca que gosta de chocar e de mostrar o próprio pênis. Freud explica. Vergonhoso nivelamento por baixo esta sua vingança grosseira contra o Pânico, tentando levantar o vestido de Nicole e abrir o zíper da calça do colega repórter.

A grande repercussão do episódio mostra que, pouco a pouco, começa-se a questionar os limites de supostas "brincadeiras" do tipo. Ótimos textos foram publicados sobre o que aconteceu no lançamento do livro do dramaturgo, como o de Nádia Lapa: A cultura do estupro gritando e ninguém ouve. Eu chego tarde para acrescentar algo novo ao debate, mas gostaria apenas de chamar a atenção para o teor das declarações dxs envolvidxs na cena, para o vocabulário, que não é outro que o das justificativas e desculpas comumente usadas em casos de agressões e abusos. É como a cultura do estupro, que discute Nádia Lapa em seu texto e da qual já falamos bastante aqui no blog, se constrói pelo discurso.

As pessoas têm o direito de fazer o que quiserem com o corpo dx outrx? Uma agressão é um direito? Não seria, por acaso, por ele ser homem - por seu corpo não ser imediatamente tido com um bem público - que ele esteja menos sujeito à falta de respeito do que sua colega mulher? E a culpa então recai sobre a própria mulher, cuja beleza atrai e justifica o assédio? Estratégia clássica de minimização do ocorrido: a naturalidade do colega, o "bom humor" de outro expectador da cena, a negação dos fatos pelo diretor do programa...



Lendo na internet discussões sobre os padrões de comportamento de agressores sexuais, li uma frase que *curiosamente* se aplica à situação descrita aqui. Dizia assim: "Um agressor sexual geralmente acredita que ele é melhor que os outros e que não tem que seguir as regras como as pessoas comuns. Geralmente define a si mesmo como forte, superior, independente, auto-suficiente e muito masculino". Bom, na verdade, essa descrição serve para qualquer machão de grande ego por aí (e pouco importa sua orientação sexual). Aqui, Geraldo não só afirma sua superioridade, inatingível face à impunidade reinante no país (e ao falar de impunidade, ele é consciente de que seu ato não constitui uma simples brincadeira), mas se serve também do subterfúgio perverso de culpabilização da vítima. A culpa de ter sido tocada e apalpada é da moça que estava com um vestido curto e um salto alto. Ela estava pedindo, certo? É o comportamento dela que está em questão aqui, não? É uma vadia mesmo, não é? Pelas fotos, não dá pra ver que ela está gostando? O pior é que muita gente continua concordando nesse ponto, de que a mulher que se expõe é responsável, moralmente responsável pelo assédio que pode vir a sofrer:



Nicole Bahls, com sua beleza formatada de Panicat, é ela mesma uma vítima da concepção machista e objetificadora da mulher. E ela mesma ignora que abusos, agressões, ataques, assédios, apalpadas não são uma questão de sexo, mas sim de poder. “Acho que ele é gay assumido. Se fosse homem, com outra intenção... Mas era uma brincadeira. Se fosse um homem, talvez fosse mais agressivo”. Ledo engano. Nenhuma forma de assédio sexual manifesta o impulso incontrolável do desejo masculino pelo corpo feminino, essa é a desculpa para o que não passa de uma afirmação do poder de um sobre x outrx. Que importa que Geraldo sinta ou não desejo pela mulher que ele decidiu tocar e constranger publicamente! Somente o que importa é o consentimento. Nicole concordou em aparecer na tv de biquíni, concordou em tirar fotos para a Playboy, não concordou em que um desconhecido a agarrasse e tentasse levantar seu vestido em um evento diante de expectadores e fotógrafos. Simples assim. Ele não tinha o direito de fazê-lo, assim como os igualmente babacas do Pânico não têm o direito de fazer muito do que fazem.
Só que isso não é humor, não.


Fonte: Nós estamos sujeitos a tudo, diz Bola sobre brincadeira ;  Nicole Bahls sobre ataque de Gerald Thomas: "Fiquei abalada" ; Gerald Thomas responde a críticas.

por Thais Torres, a mais nova Subvertida :)

Estava eu lendo um caderno especial da Folha De São Paulo, publicado neste domingo, sobre a nova lei que regula o trabalho das domésticas. Não tenho empregada, nem tenho a intenção de pagar alguém para limpar a minha própria casa. Sinceramente, não vejo necessidade. Meu objetivo era achar algum texto que complementasse uma proposta de redação que estou fazendo sobre o assunto.

A vida do professor no Brasil tem muitos desafios e discutir assuntos que envolvam os direitos daqueles que trabalham e que se subordinam às ordens da família dos alunos é um deles. Na tentativa de cumprir essa e outras tarefas, há insatisfações das mais diversas ordens, mas uma me incomoda em particular: a crueldade com que jovens de 17, 18, 20 anos, no máximo, olham para pobreza que caracteriza o país e o total desinteresse deles em mudar essa realidade.


Enfim, estou me desviando do assunto. Na leitura do referido caderno da Folha, encontrei um artigo, pretensamente divertido e descolado, chamado 'Empregada pra quê?'. Escrito pelo ilustre desconhecido Sandro Macedo, é de um machismo atroz. Não pude deixar de me lembrar de um post (ótimo) da Bárbara Falleiros, aqui nesse blog, sobre a associação entre mulheres e a responsabilidade de limpar a casa.

O texto de Macedo começa bem. Assim o autor se define: 

Felizmente, ou não, faço parte de uma turma que não tem uma empregada. Aliás, minha família nunca teve empregada. Se puxar pela memória, vou me lembrar de mim mesmo enxugando a louça, sem direito a mesada, num exercício a seis mãos (a irmã lavava e o caçula guardava).

Pensei comigo: bacana! Pode servir para discutir com os alunos a cultura escravocrata do brasileiro, acostumado a ser servido o tempo todo e incapaz de lavar o próprio prato de comida. Engano meu. O argumento central para que ele não tenha empregada doméstica não é esse. Pelo contrário, o horror e a desconfiança dele em relação aos pobres são tamanhos, que ele se recusa até a ser servido por eles:


Mas só de escutar os amigos reclamando ("Ela não sabe lavar", "Mudou tudo de lugar", "Comeu o alfajor argentino") dá um desânimo.


Logo em seguida, ele dá “dicas” para evitar a empregada doméstica em casa. Algumas pouco higiênicas (“O copo de cerveja de ontem, por exemplo, é o copo de hoje. Se você for moderninho e quiser tomar uma IPA ou uma stout, melhor ainda. Pode misturar aromas”), outras até engraçadas (“Primeira dica: a cama. Para que arrumar de manhã o que será bagunçado à noite?”).



As mais interessantes são as que envolvem uma espécie de mentira que ele prega na mãe e na namorada para ter a casa limpa. O foco do texto não parece ser outro senão ensinar o leitor, um “macho-cristão-ocidental-solteiro” como ele, a conseguir ter serviços de empregadas domésticas, sem precisar pagar por isso, já que elas têm carinho e amor por ele.



A primeira a ser usada é a namorada. A dica é um primor: ajuda até a fingir romantismo, quem sabe, o leitor “macho-cristão-ocidental-solteiro” não consegue usar a mulher para a sua segunda função mais comum, aquela que ele não mencionou no texto:


No dia em que quiser trocar a cama, chame a namorada para dormir lá e faça tudo a dois. Vai parecer romântico.

A segunda a servir de empregada é a mãe. Mas cuidado, leitor! Não vá exagerar! É preciso lembrar que ela não é a sua empregada mais. Ela já foi, mas isso passou. Agora você tem mais de 18 anos, mora sozinho e é um macho solteiro. Não seja infantil!

E importante: a cada 15 dias, convide sua mãe para fazer uma visita. Use a camisa amarrotada. Mãe que é mãe não consegue ver o filho todo desarrumado.

Roupa passada e até uma minifaxina são quase garantidos. Mas, lembre-se, ela não é sua empregada. Ela já fez tudo isso para você até os 18.

Preciso interpretar o machismo da frase “Mãe que é mãe não consegue ver o filho todo desarrumado”? E, a pergunta que não quer calar, “Filho que é filho” convida a mãe para uma visita apenas para ter suas camisas passadas?

Os absurdos não param por aí. A mãe é uma empregada muito mais barata. Não precisa de salário, muito menos dessas bobagens como direito a descanso, férias e hora extra que andam exigindo por aí... Basta pagar um almoço que fica tudo resolvido.

E, se você levá-la para almoçar em seguida, todo mundo vai ficar feliz e agradecido. E sua roupa vai ficar com o cheiro que você gosta.

Podem se passar anos sem que essa lógica seja quebrada... ou até você se casar.

O texto é idiota, é claro. Mas não deixa de ser sintomático o recado – claríssimo e límpido como a mãe e a namorada do autor da crônica devem deixar as roupas de cama dele: empregadas domésticas roubam nossos alfajores importados e, por esse motivo não devemos contratá-las. Além disso, é desnecessário pagar alguém para arrumar sua casa, se você tem uma mãe que faz isso para você até os 18 anos – e quinzenalmente depois disso. Isso até você casar, é claro. Depois disso, fique tranquilo: suas namoradas cumprirão a função que sua mãe exercia. Você não ficará um único instante desamparado.

O texto termina com uma indicação: a série Downton Abbey, que está passando no GNT. Assista, leitor-machão-solteiro, para matar as saudades do tempo em que “subalternos até se estapeavam para poder ajudar o patrão a colocar a luva, com direito a livro de ponto”. Bons tempos aqueles, não é?

Não consigo deixar de também dar a minha dica para o autor do texto e para os leitores que concordam com ele. Recebi a brincadeira abaixo esta semana, publicada por amigos do Facebook:


Procurando por imagens para ilustrar o que escrevi aqui, encontrei essa outra obra-prima na abordagem deste assunto:


O post fica sem a ilustração que eu queria, portanto, pois ao digitar no Google “Machão + limpeza”, não encontrei uma única imagem de um homem de vassoura na mão. Mas o cartoon anterior me parece mais ilustrativo para compreender a relação entre essas duas palavras.


Por Thaís Bueno

Que o Brasil é um país onde se assiste a muita televisão, não é novidade. Segundo uma pesquisa Ibope de 2012 (quadro abaixo), o brasileiro assiste à TV por uma média de 5 horas e meia por dia. Obviamente, trata-se de uma média, que pode ser jogada para mais ou para menos dependendo de inúmeras variáveis: idade, classe social, gênero. É interessante notar, no entanto, que no meio desse mar de números e estatísticas (que parecem não dizer muita coisa), há um dado interessante: cada vez mais a TV por assinatura cresce em termos de audiência, roubando uma fatia do bolo que antes era servido às grandes redes de canais abertos.



Segundo pesquisa realizada pela Agência Nacional de Telecomunicações, em 2011, a TV paga atingiu, no Brasil, um crescimento de mais de 21,7%, chegando a quase 12 milhões de domicílios. Seria interessante pensar nos fatores que ocasionaram esse crescimento, mas, agora, penso em outra questão: quais seriam as consequências desse crescimento processo de recepção de conteúdos pelos telespectadores brasileiros, considerando o espaço e os papéis das mulheres nos programas exibidos nos canais fechados? Como muita gente sabe, as séries estadunidenses, ou sitcoms, predominam na programação de boa parte desses canais fechados no Brasil, e estão cada vez mais populares entre os brasileiros. 

Seria interessante, então pensar: como é representada a imagem da mulher nesses seriados? Será que a mulher brasileira (ou as mulheres brasileiras) pode se identificar com os modelos femininos propostos por essas séries? 

Felizmente, há muitos estudos interessantes feitos sobre o alcance desses programas de TV no Brasil e os padrões que eles disseminam. Segundo um desses estudos (BEZERRA, 2008), mesmo nos casos em que tais seriados se dedicam a contar histórias de mulheres (nessa categoria, o famoso Sex and the City é o que primeiro me vem à mente) e suas conquistas no momento atual de avanço das lutas feministas, essas conquistas se restringem a questões da esfera privada, não representando uma grande mudança no âmbito público: 

 ...podemos ver a representação, feita através do discurso da personagem-narradora, de uma mulher que, sim, está num momento histórico decorrente de duras conquistas, um momento em que pode expressar o que pensa sobre variados tópicos, como: sexo, trabalho, amizades, espiritualidade e casamento. No entanto, podemos concluir que essa sua atuação ainda se restringe à esfera privada, em que suas preocupações, anseios, ações e relações não estão representadas como tendo impacto no âmbito social/público, esfera que historicamente vem sendo reservada aos homens.

Seriado Sex and the City: questões femininas podem ser interessantes, mas se restringem à esfera privada

É curioso pensar nessas análises dos seriados de TV levando em consideração quem é que escreve e produz esses programas. De acordo com o WGAW 2013 TV Staffing Brief, um estudo feito pelo The Writers Guild of America (sindicato que representa os escritores do setor cinematográfico e televisivo dos Estados Unidos), o grupo de profissionais que escrevem os programas de TV produzidos lá (e assistidos aqui) é constituído, predominantemente, por homens brancos. Muito pouco espaço é concedido a mulheres ou a mulheres ou homens negros no processo de produção do conteúdo que é exibido pelos canais de TV: nas temporadas 2011-2012, dos 1.722 roteiristas envolvidos na produção desses programas, apenas 519 (ou 30,5%) eram mulheres, e só 269 eram negrxs. 

Além desses números, o sindicato apresentou, no estudo, uma lista de séries de TV que não incluíram roteiristas mulheres ou negrxs em suas equipes de produção: 

:: Lista de programas de TV que não incluíram roteiristas mulheres na produção (temporada 2011-2012): 

America’s Funniest Home Videos 
Big Time Rush 
Californication 
Comedy Bang! Bang! 
Dancing With The Stars 
Eagleheart 
Enlightened (Creator Mike White wrote all the episodes) 
Futurama 
Geniuses 
Gurland On Gurland 
The Insider 
Kickin’ It 
Locke & Key 
Magic City 
Psych 
Teen Wolf 
Veep 
Workaholics I 
Workaholics II 

:: Lista de programas de TV que não incluíram roteiristas negrxs na produção (temporada 2011-2012): 

America’s Funniest Home Videos 
Anger Management 
Are You Smarter Than A Fifth Grader 
Baby Daddy 
Best Friends Forever 
Big Time Rush 
Blue Mountain 
State Boss 
Breaking Bad 
Californication 
The Client List 
Comedy Bang! Bang! 
Dancing With The Stars 
Eastbound and Down 
Enlightened (Creator Mike White wrote all the episodes) 
The Firm 
Free Agents 
Futurama 
Game of Thrones 
Geniuses 
A Gifted Man 
Glee 
Good Luck, Charlie 
Gossip Girl 
Gurland On Gurland 
Happily Divorced 
Hart of Dixie 
Homeland 
How To Be A Gentleman 
The Insider 
Jane By Design 
Kickin’ It 
Lab Rats 
Last Man Standing 
The League Longmire 
Make It Or Break It 
Man Up 
Mike and Molly 
Napoleon Dynamite 
Once Upon A Time 
One Tree Hill 
The Protector 
Ray Donovan 
Revenge 
State of Georgia 
Stevie TV 
Two And A Half Men 
Veep 
Web Therapy 
Weeds 
Workaholics I 
Workaholics II 

É frustrante notar que as listas são enormes. E, mais frustrante ainda, perceber que, entre esses programas, há alguns direcionados ao público infantil ou infanto-juvenil, como Futurama e Big Time Rush.



Como se pode imaginar, uma das consequências de termos apenas roteiristas homens e brancos escrevendo os programas televisivos aos quais assistimos é a homogeneização das histórias que esses programas contam e que, obviamente, não representam a mulher brasileira. No entanto, é preciso fazer uma ressalva: um roteirista ou escritor branco pode, sim, apresentar um retrato interessante e complexo da atual situação feminina ou mesmo da cultura negra. Como escreveu Alyssa Rosenberg, esse seria o caso dos seriados Enlightened (que apresenta questões interessantes sobre o universo feminino) e Breaking Bad (que inclui em sua trama histórias interessantes de personagens negrxs). Mas isso não justifica que tais histórias sobre mulheres ou negrxs sejam sempre contadas por homens brancos. Obviamente, como bem mostrou a escritora nigeriana Chimamanda Adichie em sua palestra no TED (ver vídeo abaixo), ouvir nossa história ser contada por outros pode ser interessante e enriquecedor, mas é também importantíssimo termos o espaço para podermos contá-las por nós mesmos.





Referência bibliográfica:

BEZERRA, Fábio Alexandre Silva. Sex and the City e a representação da imagem feminina. Anais do CELSUL 2008. Disponível em: http://celsul.org.br/Encontros/08/sex_and_the_city.pdf. Acesso em: 01 abr. 2013.

por Roberta Gregoli


Do site Um dia ainda viro cartunista

...ser homem branco heterossexual de classe AB seria o nível fácil.

A metáfora é de Rachel Saklr. Em contrapartida, ser mulher, negra/indígena de classe D seria a dificuldade máxima.

É claro que é possível ganhar o jogo nos níveis de dificuldade mais elevados: tem gente que é mesmo boa de jogo, há quem tem sorte, há xs que têm inteligência e esforço acima da média. Agora, não dá para medir o todo por essas exceções e sair por aí dizendo que não existe sexismo no Brasil porque temos uma Presidenta ou que não existe racismo porque tenho um amigo negro que faz faculdade pública.

É preciso ter clareza que o jogo é diferente e, enquanto essas pessoas devem, sim, ser celebradas por suas conquistas excepcionais, não deixa de ser muito injusto culpabilizar quem não chega lá. 

O contrário também é verdadeiro: nem todo o homem branco cissexual de classe alta vai ganhar no jogo da vida, mas não dá para ficar chorando as cotas derramadas porque o jogo agora ficou um cadinho mais difícil.


Cotas raciais e de gênero são polêmicas porque alguns simplesmente não conseguem - ou não querem - enxergar a bruta vantagem que têm sobre xs outrxs - vantagem que vem das oportunidades de berço, e até muito antes do nascimento:

Breve história do privilégio

Em outras palavras imagens, se a vida fosse uma corrida, ela seria assim:

E a reação que enfrentamos quotidianamente
por apontar essa bruta injustiça é mesmo essa

As metáforas são várias, mas a do video game é particularmente pertinente porque o mundo dos games é sabidamente sexista. A começar pela representação das mulheres nos jogos, de Lara Croft a qualquer coadjuvante boazuda.



Na vida real, Anita Sarkeesian, do excelente Feminist Frequency, lançou um projeto para analisar a representação das mulheres nos video games e acabou sendo vítima de uma campanha de ódio massiva, que incluia até um jogo interativo em que jogadores eram encorajados a beat the bitch out (espancar a vadia).

Ainda mais perturbador - se é que isso é possível - que essa demonstração abertamente misógina em grande escala foi que os perpetradores constantamente se referiam a essa campanha de assédio e abuso como um jogo. - Anita Sarkeesian
Se a vida é um video game, misóginos são heróis. Era o que faltava. Mas antes fosse só no mundo dos games. O caso recente de dois jogadores de futebol americano que estupraram uma garota de 16 anos em Steubenville (que, apesar do nome, é uma cidade real nos Estados Unidos) resultou em condenação, coisa rara - vide o revoltante caso da banda New Hit em solo nacional. Apesar de terem sido julgados e condenados, o tom da mídia foi de comoção por 'essas jovens estrelas do esporte' que tiveram seu futuro 'arruinado':

Uma paródia de 2011 precede o caso e é assustadoramente parecida 
na sua abordagem distorcida do retrato dos criminosos.
Obrigada à Marylin Lima pela indicação dos links

Não é à toa que vítimas de abuso sexual são geralmente reticentes a vir a público: na cultura do estupro - que são todas as culturas -, é preciso muita consciência para se empoderar. Seja na realidade virtual ou na visceral, infelizmente, não é raro que criminosos sejam tidos como heróis e as vítimas compadeçam. O final feliz fica por conta de Anita Sarkeesian, que, apesar de todo o bullying, assédio e ódio, manteve sua campanha e conseguiu angariar um valor 25 vezes maior do que havia pleiteado inicialmente para o seu projeto. Mesmo no nível difícil, Sarkeesian chegou lá.


por Thaís Bueno


Você se lembra de uma polêmica ocorrida na mídia no final de 2012, envolvendo uma marca de lingerie e uma propaganda de gosto extremamente duvidoso? Na ocasião, a propaganda exibia uma favela do Rio de Janeiro, em processo de pacificação, um oficial caído no chão e uma mulher, negra, vestindo lingerie. O slogan: “Pacificar foi fácil, quero ver dominar”. A polêmica, claro, deveu-se ao fato de o Conar, órgão resposável pela regulação do que vai ou não ao ar nos meios de comunicação, determinar que se tratava de uma propaganda sexista, que vulgarizava a mulher e banalizava o processo de pacificação das favelas do Rio de Janeiro. 

Campanha da Duloren, de 2012, retirada do ar pelo Conar
Lembro que, na época, minha opinião sobre o anúncio era muito clara: ora, a propaganda era, em último caso, de péssimo gosto, e para mim não era novidade algo do tipo surgir na mídia brasileira. O que me surpreendeu, no entanto, foi a reação de muitas pessoas do ramo publicitário, nas redes sociais, taxando a decisão do Conar como ato de censura e postura politicamente correta. E eu pensei comigo: ora, qual o problema com o politicamente correto?

Pois bem, foi nessa época que comecei a notar que cresce há algum tempo, principalmente entre homens e mulheres que acreditam fazer parte de uma certa “intelectualidade” brasileira (que no entanto é bastante rasa e imediatista), um certo desprezo ao que se acredita ser o politicamente correto. Para essas pessoas, a atitude politicamente correta seria uma postura “quadrada”, que restringe liberdades individuais. Comentários como “ora, que deixem a fulana tirar a roupa no anúncio! Estamos em um país tropical, onde as mulheres usam menos que isso nas ruas... Não sejamos hipócritas!” e “a censura voltou e o Brasil está regredindo... daqui a alguns anos, a publicidade não poderá dizer mais nada!” estavam entre as pérolas que li e ouvi.  








O mesmo tipo de reação às vezes surge quando certas pessoas leem um texto que apresenta marcas de gênero. Muita gente lê uma frase como “Damos boas-vindas a todos(as) os(as) presentes” e não gosta, argumentando que as marcas do feminino nada mais são do que uma intrusão desnecessária, intrusão essa que “polui” o texto. Por que será que também não fico surpresa?

Se pensarmos bem, tanto no caso da modelo de lingerie na TV quanto no caso da linguagem com marcas do feminino, o que está em jogo não é exatamente uma simples questão de “proibição de um determinado modo de falar”, e sim uma questão de modo de agir. Obviamente, para quem acha que uma piada preconceituosa ou um linguajar ofensivo à mulher não afeta a forma como sentimos a realidade e vivemos neste mundo, o politicamente correto não faz sentido. Para essas pessoas, o “político” está relacionado a moralidade, e não a respeito e convivência. Para elas, portanto, o politicamente correto é apenas algo que restringe sua liberdade de dizer o que quiser (algo que, inclusive, já foi discutido aqui no Subvertidas).

No entanto, se pensarmos que o que lemos e escrevemos pode afetar efetivamente nossa percepção da realidade, a política toma outra dimensão e o politicamente correto passa a ser uma das armas de que podemos dispor para subverter ideologias e discursos dominantes. Por exemplo, quando optamos inserir uma marca de gênero em nosso texto, estamos provocando, pela linguagem, um estranhamento a algo que, não fosse por essa “intrusão”, passaria em branco (e vale também pensar nos efeitos dessa expressão, “passar em branco”, que acabei de usar). É como se, inserindo “(as)” ao final de uma palavra masculina, estivéssemos nos lembrando de que há ali, também, a possibilidade da existência de uma mulher. E, mais do que isso, pode nos levar a perceber como a condição masculina nos parece ser neutra. É uma condição dominadora e que, aparentemente, não precisa ser colocada em debate. Ela sempre se apresenta a nós como uma condição natural, uma condição que vem a priori, uma condição à qual o feminino se opõe. 


Se tomamos em consideração todas essas questões, podemos entender, também, porque é que o termo “feminista” carrega, para muitas pessoas, uma conotação negativa, como se a feminista fosse uma mulher radical, inadequada, difícil. E também porque, mesmo quando se trata de alguém que se opõe à ideia do sexismo, essa pessoa prefere se denominar como alguém “em favor dos direitos das mulheres” ou “feminina”, atenuando assim os efeitos do termo “feminista” e evitando para si o rótulo injusto que se costuma aplicar às feministas. Mas, será que se trata apenas de uma questão de “mudar de nome”? Será que, mudando o nome, mudamos também aquilo a que nos referimos? O que uma mudança de nome implicaria?

Parece que, no tempo de Shakespeare, “mudar o nome” não significava muita coisa, não afetava muito o mundo tal como era. A rose by any other name would smell as sweet (“Se uma rosa tivesse outro nome, ainda assim teria o mesmo perfume”) é um dos trechos da mais famosa peça de Shakespeare. Mas, hoje, séculos após a publicação de “Romeu e Julieta”, não dá mais para pensar assim, gente. Acredito que mundo mudou, e muito. Nos dias de hoje, por algum motivo, essa suposta arbitrariedade entre o que se diz e a realidade está fragilizada. O dizer e a forma de dizer podem ser a própria ação (toda a obra de Nietzsche está aí para nos mostrar isso). E, embora o cuidado com a linguagem não resolva milagrosamente problemas que são sociais e políticos (e que, obviamente, pedem também ações políticas e sociais diretas, não apenas linguísticas), ao prestarmos atenção àquilo que falamos, nós despertamos para algumas questões importantes, e aquilo que lemos e escrevemos pode se apresentar de forma diferente. A forma de dizer, às vezes, diz por si própria. 


A luta contra os preconceitos terá que ser uma luta persistente e incansável. Será preciso inúmeras tentativas e, ainda assim, não haverá nenhuma garantia de que o mundo estará livre de todos os preconceitos e a linguagem, politicamente "limpa" de uma vez por todas. Entretanto, uma das maneiras mais eficazes de combater os preconceitos sociais que, ao que tudo indica, sempre existirão, é monitorando a linguagem por meio da qual tais preconceitos são produzidos e mantidos e obrigando os usuários, em nome da linguagem politicamente correta, a exercer controle sobre sua própria fala, e, ao controlar sua própria fala, constantemente se conscientizar da existência de tais preconceitos.
Intervir na linguagem significa intervir no mundo. (Kanavillil Rajagopalan, "Sobre o porquê de tanto ódio contra a linguagem 'politicamente correta'")

 

Ainda que tenha outro nome, o sexismo vai continuar fedendo



por Roberta Gregoli

Dolce & Gabbana glamourizando o estupro por gangue

Na cultura do estupro, como o nome já diz, praticamente toda a cultura funciona para sancionar o estupro e culpar xs sobreviventes. E aqui entram a banalização do estupro através de piadas, a mídia tradicional e mesmo o judiciário, que sistematicamente inocenta estupradores:


Em cima: Estupradores - Denunciados - Levados a julgamento - Presos
Embaixo: Acusados falsamente
Fonte: http://theenlivenproject.com/the-truth-about-false-accusation/

Então não é de surpreender que o mercado de bens de consumo corrobore com este paradigma, cobrindo de glamour o que, no final das contas, não passa de violência de gênero (veja a figura de abertura do post).

A Victoria's Secret entrou na dança com uma coleção de calcinhas da linha Pink, sua marca voltada para o público adolescente, que traziam a estampadas expressões como Unwrap me (Me abra) e Sure thing (Coisa certa). Apesar de não promover o estupro de maneira óbvia e direta - só mesmo uma aberração chamada Lobo da Insanidade para ser capaz disso - esse tipo de produto naturaliza, de maneira sedutora, os mitos envolvidos na manutenção da cultura de estupro.

A sociedade civil interveio (ainda bem que temos o feminismo!) com uma resposta absolutamente inusitada, bem-humorada e inteligente: criou um site falso com uma linha chamada Love Consent trazendo estampas anti-estupro. Se a linha da Victoria's Secret confundia a noção de consentimento com uma calcinha que dizia Yes, no, maybe (Sim, não, talvez), a Love Consent deixa claro: No means no (Não quer dizer não).

Victoria's Secret e ativismo feminista: de 'Coisa certa' para 'Peça permissão antes'
porque "nenhuma vagina é 'uma coisa certa'"

Como a cultura de estupro está em todo o lugar, cito também uma situação diária. Esses dias eu, conversando com um amigo (branco, escolarizado, de classe média), dizia que, uma vez que a garota (ou garoto) tenha dito não, insistir leva a uma zona ambígua que pode ser qualificada como estupro. Como disse a Lola, pensamos em estupro como uma coisa que acontece num beco escuro, envolvendo um desconhecido e muita violência. Mas não. Estupro é qualquer ato que envolva o não consentimento de uma das partes.

A cada 12 segundos, uma mulher é estuprada no Brasil. E em 84% dos casos julgados o crime é cometido por um conhecido. Este número envolve principalmente familiares, que é um caso diferente do que estou tratando aqui: o chamado date rape, para o qual não há estatísticas confiáveis que eu conheça no Brasil, é o estupro que ocorre durante um encontro ou uma 'ficada', e que é muito pouco denunciado, justamente porque o conceito ainda não está articulado na cultura popular. Mas o date rape acontece obviamente entre pessoas que se conhecem e frequentam os mesmos ciclos sociais, por isso é também chamado de acquaintance rape (estupro por um conhecido). Veja um depoimento aqui.

Vivemos numa sociedade machista (surpresa) que faz com que as mulheres acreditem que a culpa de... bom, praticamente tudo, é delas. Daí uma garota e um cara estão ficando, ele começa com umas carícias mais quentes e a garota pede para parar. O cara força a barra, seja com um pouco de violência (tenta enfiar a mão embaixo da calcinha dela ou a segura mais forte, o que pode ser confundido com a famigerada 'pegada' - que por acaso não seria mais um mecanismo da cultura do estupro??) ou com um papinho de amante latino do tipo "relaxa, gata", "não tem problema", "não é nada de mais"... E a garota vai cedendo. 

Quando contei ao meu amigo que isso também é uma forma de violência, ele se surpreendeu: "mas, no fundo, ela queria". E me disse ainda que a nossa sociedade é muito repressora e não deixa a mulher se expressar sexualmente, por isso o cara tem que insistir. Eu detesto este "no fundo ela queria" - como um cara pode ter a arrogância de achar que sabe, melhor do que a própria mulher, o que ela quer? Quando se trata de consentimento, ao contrário do que meu amigo e a Victoria's Secret acreditam, não existe "no fundo": é o que a garota diz e ponto.

Ele está certo quanto à sociedade repressora, mas a repressão não é que ela está louquinha para transar com ele mas tem que parecer uma boa moça para que ele queira casar com ela (além de arrogante, esta lógica é de outro século, não?). A repressão funciona a partir do momento que a garota não tem assertividade para dizer: NÃO, EU NÃO QUERO TRANSAR COM VOCÊ. PONTO.

Ou seja, o ceder é que é a repressão da sociedade em funcionamento. A cultura do estupro nos cria para defender estupradores ao repetir sem cessar que a culpa é das mulheres.


Que estamos em débito com o cara porque ele pagou pelo jantar, porque demos "falsa esperança", porque fomos até a casa dele... Algumas ficam "com dó" porque o cara está insistindo e, ah, ele é tão bonzinho...

Se eu fosse super-heroína e pudesse escolher um único superpoder, queria ser capaz de empoderar as mulheres. Fazer com que magicamente nos libertássemos dessas culpas construídas para nos tornarem dóceis e sexualmente disponíveis para os homens.

Então, que fique claro: Não é não. 

Garotos, se e a gata disse 'não' uma vez, que seja o suficiente. Senão, você é um estuprador em potencial #pensenisso

Não forcem a barra. 'Forçar a barra', como a própria expressão sugere, é uma violência, o que te qualifica como agressor. Se ela estiver a fim, ela vai te procurar e vocês vão transar quando e se ela quiser de verdade.

Garotas, empoderem-se. Leiam este excelente post da tia Mazu. E, mesmo que você esteja pelada na frente de um cara e mude de ideia, diga NÃO. Seu corpo, suas regras. Sempre.



Como Conquistar um Homem