-----> Este Blog já apareceu nestas emissoras <------

Mostrando postagens com marcador Barbara. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Barbara. Mostrar todas as postagens

por Barbara Falleiros

Olhando para as fotos, me bateu um desânimo tão grande que eu tive vontade de chorar. Então é isso mesmo, nós não valemos nada. Pensei nas vezes em que já senti sobre a minha pele mãos indesejadas. E me veio novamente aquela repulsa, reação infelizmente familiar a tantas mulheres. A todas as mulheres - ouso dizer - em pelo menos algum momento de suas vidas. Numa dessas vezes, quando eu tinha dez anos, um garoto da escola se divertia em passar a mão na bunda das meninas. Lembro-me bem da sua risada. Eu e as outras garotas não achávamos a menor graça, mas ele continuava. Como nos ensina desde cedo a cultura do estupro, agressão é brincadeira, assédio é humor.

O Pânico é um programa de "humor" fraco e primário que, como de costume na tv brasileira, funciona à base de brincadeiras de mau gosto e de humilhações, reforçando o preconceito e o sexismo desde a concepção de seus "personagens", do homossexual com hemorroidas à mulher planta meramente decorativa. No programa, o grau de importância das participantes mulheres se mede pela quantidade de roupa que vestem: aquela que aparece um pouco mais coberta tem um papel de destaque, embora permaneça sendo a loira burra japonesa gostosa. Nicole Bahls, antiga figurante de biquíni, estava feliz em voltar ao programa com uma promoção: "Não vou ficar mais usando biquíni. (...) Vou ficar sentada junto com os outros humoristas. Estou me sentindo ótima, emocionada com a volta."

Já Gerald Thomas, embora se veja como grande expoente artístico com carreira internacional - há prova de maior provincianismo do que a idolatria do exterior e o desprezo puro e simples por seu paisinho de quarto mundo, do qual ele mesmo reproduz o pior da cultura sexista? - não passa de um babaca que gosta de chocar e de mostrar o próprio pênis. Freud explica. Vergonhoso nivelamento por baixo esta sua vingança grosseira contra o Pânico, tentando levantar o vestido de Nicole e abrir o zíper da calça do colega repórter.

A grande repercussão do episódio mostra que, pouco a pouco, começa-se a questionar os limites de supostas "brincadeiras" do tipo. Ótimos textos foram publicados sobre o que aconteceu no lançamento do livro do dramaturgo, como o de Nádia Lapa: A cultura do estupro gritando e ninguém ouve. Eu chego tarde para acrescentar algo novo ao debate, mas gostaria apenas de chamar a atenção para o teor das declarações dxs envolvidxs na cena, para o vocabulário, que não é outro que o das justificativas e desculpas comumente usadas em casos de agressões e abusos. É como a cultura do estupro, que discute Nádia Lapa em seu texto e da qual já falamos bastante aqui no blog, se constrói pelo discurso.

As pessoas têm o direito de fazer o que quiserem com o corpo dx outrx? Uma agressão é um direito? Não seria, por acaso, por ele ser homem - por seu corpo não ser imediatamente tido com um bem público - que ele esteja menos sujeito à falta de respeito do que sua colega mulher? E a culpa então recai sobre a própria mulher, cuja beleza atrai e justifica o assédio? Estratégia clássica de minimização do ocorrido: a naturalidade do colega, o "bom humor" de outro expectador da cena, a negação dos fatos pelo diretor do programa...



Lendo na internet discussões sobre os padrões de comportamento de agressores sexuais, li uma frase que *curiosamente* se aplica à situação descrita aqui. Dizia assim: "Um agressor sexual geralmente acredita que ele é melhor que os outros e que não tem que seguir as regras como as pessoas comuns. Geralmente define a si mesmo como forte, superior, independente, auto-suficiente e muito masculino". Bom, na verdade, essa descrição serve para qualquer machão de grande ego por aí (e pouco importa sua orientação sexual). Aqui, Geraldo não só afirma sua superioridade, inatingível face à impunidade reinante no país (e ao falar de impunidade, ele é consciente de que seu ato não constitui uma simples brincadeira), mas se serve também do subterfúgio perverso de culpabilização da vítima. A culpa de ter sido tocada e apalpada é da moça que estava com um vestido curto e um salto alto. Ela estava pedindo, certo? É o comportamento dela que está em questão aqui, não? É uma vadia mesmo, não é? Pelas fotos, não dá pra ver que ela está gostando? O pior é que muita gente continua concordando nesse ponto, de que a mulher que se expõe é responsável, moralmente responsável pelo assédio que pode vir a sofrer:



Nicole Bahls, com sua beleza formatada de Panicat, é ela mesma uma vítima da concepção machista e objetificadora da mulher. E ela mesma ignora que abusos, agressões, ataques, assédios, apalpadas não são uma questão de sexo, mas sim de poder. “Acho que ele é gay assumido. Se fosse homem, com outra intenção... Mas era uma brincadeira. Se fosse um homem, talvez fosse mais agressivo”. Ledo engano. Nenhuma forma de assédio sexual manifesta o impulso incontrolável do desejo masculino pelo corpo feminino, essa é a desculpa para o que não passa de uma afirmação do poder de um sobre x outrx. Que importa que Geraldo sinta ou não desejo pela mulher que ele decidiu tocar e constranger publicamente! Somente o que importa é o consentimento. Nicole concordou em aparecer na tv de biquíni, concordou em tirar fotos para a Playboy, não concordou em que um desconhecido a agarrasse e tentasse levantar seu vestido em um evento diante de expectadores e fotógrafos. Simples assim. Ele não tinha o direito de fazê-lo, assim como os igualmente babacas do Pânico não têm o direito de fazer muito do que fazem.
Só que isso não é humor, não.


Fonte: Nós estamos sujeitos a tudo, diz Bola sobre brincadeira ;  Nicole Bahls sobre ataque de Gerald Thomas: "Fiquei abalada" ; Gerald Thomas responde a críticas.

por Barbara Falleiros

Quantidade de açúcar nas bebidas industrializadas
Nas cidades, as crianças de hoje não brincam na rua (perigosa demais, inadaptada) e passam a maior parte de seu tempo livre na frente do computador ou da televisão. Para os adultos, sair caminhando a pé ou de bicicleta são práticas que lutam para serem reabilitadas e assim, entre comodidade, segurança e falta de alternativas, não são poucos os que entram no carro até para ir à padaria. Tudo nos empurra para uma vida sedentária. A rotina pesada de trabalho e a falta de tempo encorajam o consumo de alimentos processados. Comida rápida, engolida por robôs eficientes. Se há um lugar em que a depressão me invade sem qualquer possibilidade de resistência são as praças de alimentação dos shoppings. Da luz pálida ao sorriso dos atendentes, tudo é irreal no templo do consumismo. Refrigerante no lugar de água, refrigerante na mamadeira, porções de porcariada cada vez maiores. "Amo muito tudo isso" - martelam na sua cabeça. Como de costume, os mais pobres são os primeiros a serem atingidos. Parece que no Brasil tomate agora é caviar. Crise passageira, que seja, mas frutas e legumes são artigos de luxo. Produtos orgânicos, então, é coisa de gente muito fina. E quem não pode ter sua própria horta (viva a horta urbana!) que encha o bucho de batatinha chips, bolacha recheada, coca-cola, miojo e salsicha. Desde pequenininhx.

No Brasil, um levantamento realizado em 2008/2009 mostrou que 50% dos homens e 48% das mulheres se encontram com excesso de peso, sendo que 12,5% dos homens e 16,9% das mulheres apresentam obesidade. Uma em cada três crianças brasileiras de 5 a 9 anos está acima do peso recomendado pela Organização Mundial de Saúde (OMS). Há um excelente documentário, Muito além do peso (assistam! é longo, mas vale a pena), que mostra as relações nefastas entre a publicidade de alimentos destinados às crianças e a obesidade infantil. Porém... no início deste ano o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin (PSDB), vetou a lei que tentava proibir a propaganda de alimentos infantis não saudáveis na televisão. Vetou. Anotaram?

Tudo isso para chegar a uma conclusão lógica e evidente: gordos e gordas, a culpa é de vocês. Não é lobby não, que história é essa? Não tem epidemia nenhuma e isso de predisposição genética é balela. Você é gordx porque quer! Mas pode não ser, você pode ser feliz em outro corpo comprando revista, remédio, produto. Mas ser gordo e feliz, isso é impossível.

...A gordofobia é para mim uma das mais grotescas formas de discriminação, e olha que a concorrência é rude. Nega a responsabilidade do nosso vender-comprar-vender way of life, dos padrões ditados por ele, culpabiliza a pessoa que sofre. Não levem a mal a comparação, que para mim é pertinente: ninguém jamais diria a uma pessoa com câncer "Nossa, você poderia dar um jeito nessa careca para ficar mais bonita! Você deveria fazer alguma coisa, se cuidar, ter mais força de vontade". Mas a/o obesa/o é sempre culpabilizado, mesmo quando se trata de um problema de saúde. Porque gordx é relaxadx, né? É culpa dele/a ser feio/a, largado/a, não se cuidar.

Vale lembrar

Gord@ é doente. Ou não.

Primeiramente, há pessoas que sofrem de obesidade e que estão, de fato, doentes. Se estão doentes, deveriam ser cuidadas por profissionais respeitosos. Aí está a primeira dificuldade. Quem já se esqueceu da conduta irresponsável e antiética do médico de Salvador que receitou "cadealina", ou cadeados na porta da geladeira, para uma paciente com problemas no fígado, que desejava emagrecer? A quem a/o obesa/o pode recorrer quando é estigmatizada/o pelo próprio profissional de saúde, que repassa ao paciente toda a responsabilidade por sua doença? A pessoa obesa tem todos seus passos controlados por uma patrulha desconhecida: se come demais e se continua sedentária, todos dizem "bem feito", se come de menos e tenta se exercitar, é "ridícula".

A discriminação no olhar. Projeto Wait Watchers da fotógrafa Haley Morris-Cafiero
Segundo ponto: por que é que pessoas doentes deveriam se sentir feias? Na verdade, escrevo este texto pensando em um post que vi outro dia, a respeito de um fotógrafo que retratou mulheres obesas. Como toda forma de expressão artística, a fotografia tem uma finalidade estética, e é aí que a coisa complica. Como é que o cara ousa criar beleza com modelos obesas? Não pode! E a desculpa muito sabida que encontraram para recusar toda beleza fora do padrão é... a saúde! Porque apreciar ou mesmo conceber que um/a obeso/a possa ser belo/a significa incentivá-lo na sua doença, lógico. E fiquem sabendo que isso é imoral. Ah, discriminação disfarçada de politicamente correto! A reação das pessoas é tão imediata que a autora do post em questão foi obrigada a fazer um adendo:

"*UPDATE: Nós do Hypeness não incentivamos a obesidade pois ela é uma doença e não é saudável. Os aplausos aqui foram para a atitude inovadora do fotógrafo de quebrar paradigmas e retratar uma realidade que existe, mesmo que a mídia e a sociedade deteste admiti-lo."

Espero que aqui no blog não precisemos desse adendo. E que a beleza dessas imagens possa ser apreciada sem hipocrisia.





Mas é sempre preciso lembrar que existem pessoas que são gordas e que não estão doentes. Porque a família é gorda, porque gosta de comer, porque com o passar do tempo o corpo foi acumulando mais "substância", porque é assim e ponto. Tem gente que é mais alta, tem gente mais baixa, forte, fraca, pouco importa! O inaceitável é que a/o gorda/o seja bombardeada/o pela "boa intenção" de conhecidos e desconhecidos que são como felicianos em pele de presidente da CDHC. Reproduzo aqui o trecho de um post da Lola que, ela mesma uma mulher gorda, pode falar da sua própria experiência:

Toda vez que falo sobre aceitação do corpo aqui no blog, vem um batalhão dizer que só é gorda quem quer. Ou seja, já associam gordura com falta de caráter, ou, pelo menos, falta de determinação. O fato de 99% das dietas falharem (a pessoa até perde quilos mas acaba recuperando tudo e mais um pouco depois) não mostra o óbvio – que dietas não funcionam. Mostra que as gordas é que não funcionam porque são umas desleixadas. Elas simplesmente não fazem o esforço. Esforço que, pra muita gente, equivale a viver pra isso. Eu fiz reeducação alimentar uns quatro anos atrás, durante quase um ano, e até gostei. Cheguei a perder oito quilos. Mas eu vivia pra aquilo. Não havia um só momento que eu não pensava em comida, em quilos, em calorias, em ginástica.

E alguém vai ter a coragem de me dizer que isso é libertador? Contra essa história de que se deve acabar com a autoestima da pessoa gorda para não "incentivá-la" a continuar cultivando esse "terrível defeito físico e de caráter", ela diz:

Mas aprenda o quê, may I ask? Que ela é gorda? Juro que ela já tinha se dado conta. Que ela é horrível por ser gorda [quer dizer, que a pessoa é tida como horrível por ser gorda]? Vai por mim: ela sabe disso desde criancinha. Que precisa emagrecer? Ela passou a vida toda tentando. Gente, a verdade é uma só: se ofender gordas fizesse que perdêssemos peso, não haveria uma só gorda no mundo. Todas nós já fomos insultadas. Todas nós já tentamos emagrecer, e a maioria vai tentar até morrer.
Então é isso. Para terminar contra os bullyings, fica o vídeo e o discurso dessa jornalista americana, em resposta à carta "bem intencionada" de um homem preocupado com o exemplo que ela, gorda, passava para seu público :



"Você não está me dizendo nada que eu não saiba [sobre a minha aparência], mas você não me conhece e não sabe nada sobre mim. Eu sou muito mais do que um número na balança."

Entendeu?
 


por Barbara Falleiros

Quando, no início do mês, assistimos a mais uma grande tragédia envolvendo um ciclista em São Paulo, voltei a pensar nas dificuldades de circulação nos centros urbanos. Em São Paulo, a situação é tão caótica que até o ex-papável "não foi desta vez", dom Odilo, chegou a fazer piada: "Eu espero que o caminho do céu seja ainda mais congestionado que o de São Paulo". Nessa ditadura do automóvel e do desrespeito ao transporte coletivo e/ou sustentável, o caminho do céu acabará enfrentando um congestionamento de bicicletas...

Estação da Sé, em São Paulo, no horário de pico
No Brasil, onde não há transporte público digno deste nome - como mostra bem a imagem acima -, tem-se a impressão de que a posse de um carro garante a liberdade. Mas o irônico é que esta é uma liberdade de confinamento, liberdade de ficar parado, engarrafado, com as janelas fechadas, com medo dos que estão do lado de fora...

Para as mulheres, como sabemos, a questão é ainda mais problemática pois o espaço público, reino masculino, é hostil à sua presença. Eu já falei do assédio de rua e dos perigos que rondam a mulher que "anda sozinha", a Roberta também discutiu o assunto colocando em evidência os padrões duplos. No site das Pedalinas, o Coletivo Feminino de Ciclistas de São Paulo, há discussões sobre tipo de assédio sofrido pelas mulheres ciclistas. Lá encontramos, por exemplo, este depoimento:

Já imaginou estar subindo uma avenida (a Sumaré, no caso), em pleno domingo, feliz e contente por ter poucos carros na rua, e perceber que um carro reduz a velocidade e sentir uma palmada bem dada na bunda, seguida de um “vaaaaai coisa gostooooosa” e várias risadas de um bando de playboys? Nunca imaginou? Nem eu. Mas isso aconteceu comigo, e o carro preto de placa 2416 e a cara do mauricinho orgulhoso de seu ato machão-ogro olhando e rindo de mim no retrovisor, eu nunca vou esquecer.

A vítima do assédio e autora do post sugere um exercício interessante: fazer uma busca no Google Imagens por "mulheres bicicleta". O resultado não é muito difícil de imaginar: nos deparamos com imagens de mulheres sexualmente objetificadas, claro, com bundas, peitos, biquínis, e até mesmo uma boneca inflável... Vale uma comparação com a busca por "homens bicicleta"...



Parece bobo dizer, mas todos os entraves à circulação feminina são impedimentos à sua liberdade, no sentido mais concreto do termo. As mulheres que andam de ônibus e de metrô, como as pedestres e ciclistas, estão sujeitas a serem abordadas, constrangidas, tocadas, maculadas (literal e figuradamente). Como lembrou recentemente a Lola Aronovich, no ano passado foram denunciados sites que continham vídeos de cretinos, autointitulados "tarados do busão", que se masturbavam nos transportes lotados e ejaculavam sobre as mulheres.

Campanha lançada em 2008 em Rosario, Argentina
Seria justo termos, então, meios de locomoção dedicados exclusivamente ao sexo feminino? Muitos responderão que não. Responderão que esse tipo de medida apenas reforça a discriminação sexual. Entre esses estarão provavelmente aqueles que criticam as cotas raciais e leis como a da Maria da Penha. É que, às vezes, a divergência de opiniões parte de duas concepções distintas de igualdade: de um lado, a que entende que igualdade é oferecer o mesmo a todos independentemente do ponto de partida; de outro lado, aquela que visa a que todos alcancem um mesmo ponto de chegada.

Para o bem ou para o mal - ver a crítica no final deste post - inúmeras iniciativas de transporte feminino têm surgido em todo o mundo, dentre elas, os "táxis rosa" (sim, a associação imediata da cor rosa ao sexo feminino é questionável): o sistema surgiu em Londres em 2006 com o Pink Ladies Cab, sistema pré-pago para clientes registradas, funcionando nas noites de sexta e sábado e com veículos conduzidos por mulheres ; o serviço de táxi por mulheres e para mulheres foi exportado para Moscou, Beirute, Hebrom na Cisjordânia, Bombaim e Nova Deli, Paris, Joanesburgo, Puebla e Cidade do México, Medéllin na Colômbia, Tóquio etc.

Táxi rosa de Puebla
Em algumas das cidades citadas, e em outras cidades brasileiras como Rio de Janeiro e Brasília (lei votada há pouco, em 2012 se não me engano, não sei se implementada), foram colocados em circulação vagões de metrô e de trem suburbano exclusivos para mulheres, normalmente em horário de pico. No Rio, pelo que li, a exclusividade não costuma ser respeitada pelos passageiros. Em São Paulo, a medida fora colocada em prática em 1995, houve uma tentativa de ressuscitá-la em 2005, mas recentemente o Metrô paulistano descartou a possibilidade de criação de vagões femininos por estes "infringirem o direito de igualdade entre gêneros à mobilidade livre". O problema é que a mulher não tem "mobilidade livre": vale lembrar que uma mulher a cada três dias registra queixa por abusos ocorridos dentro do metrô paulistano. Em 2012 na cidade de Campinas, no interior de São Paulo, uma comerciante lançou um abaixo-assinado pela criação de uma linha de ônibus exclusiva para mulheres, na tentativa de diminuir o assédio.

Vagões para mulheres na Índia

Isso só para citar alguns projetos contra um problema mundial, generalizado e recorrente.

Iniciativas como as citadas são respaldadas pela ONU em seus planos de combate à violência contra mulheres e meninas, hoje fortemente ligados a uma grande campanha, ONU-Habitat, pela melhoria dos estabelecimentos humanos e pela urbanização sustentável. Essas ações, que procuram ser ao mesmo tempo afirmativas e preventivas, tem como objetivo possibilitar às mulheres que se locomovam com segurança e sem medo.

Um sistema de transporte público seguro para mulheres é importante porque lhes permite circular livremente pela cidade, sem medo. Por falta de medidas de segurança eficazes, as mulheres são obrigadas a adotar diferentes comportamentos defensivos como, por exemplo, usar roupas "apropriadas" nos transportes públicos, viajar em grupos, subir apenas em vagões de metrô e ônibus que não estão lotados, ignorar o assédio verbal e sexual, gritar para pedir ajuda, carregar na roupa agulhas e alfinetes como armas de defesa, manter-se contra uma janela ou no fundo do veículo, evitar pegar táxis sozinha e abster-se de viajar em veículos ocupados apenas por homens (Kunieda e Gauthier, 2003, 14). Estas medidas defensivas são um pesado fardo adicional para as mulheres e as privam de seu direito de livre acesso à cidade. (ONU Mulheres)
Além dos vagões exclusivos, a ONU propõe outras estratégias de melhoria do transporte público, levando em conta as especificidades de gênero, como: possibilidade de a mulher pedir para descer do ônibus mais perto do seu destino, de manhã cedo ou à noite; instalação de serviços de prevenção da violência e de atendimento de vítimas nas estações de metrô; calçadas suficientemente iluminadas; instalação de ciclovias; tarifas abordáveis.

Porém, em relação aos vagões para mulheres, há quem critique a medida com argumentos de peso, como a professora e socióloga Bila Sorj. Para ela:
A questão é: por que os homens se sentem tão livres para assediar as mulheres? A medida admite implicitamente que o assédio é um impulso irresistível dos homens (...). E pressupõe que o que se pode fazer, então, é proteger as mulheres com vagões exclusivos.  (...) Esta lei reforça a ideia da fragilidade das mulheres, como se elas fossem seres que não pudessem se defender. Segregar reforça uma série de estereótipos masculinos e femininos que têm colocado a mulher numa condição de subordinação. A solução seria alterar os valores de uma masculinidade que supõe que os homens são livres para assediar as mulheres. Isso passa por políticas públicas, que constituam a conduta como crime moralmente condenável e facilitem às mulheres a denúncia desses casos.

A solução não é simples. Como fazer para que as mulheres circulem de fato com segurança no espaço público? Optar por medidas paliativas, enquanto nos esforçamos para promover uma mudança de mentalidade que faça da mulher o que ela é, uma pessoa, e não mais uma presa a ser caçada? É preciso continuar ocupando o espaço, de alguma forma... Mas que estratégias e soluções contra o assédio é a violência? Deixo este post em aberto. Outras ideias?





por Barbara Falleiros

[Vai aí um post no puro estilo "classe média sofre" ou "first world problems". Mas não me levem a mal por falar de noivado, jóias e relacionamentos. Se o assunto é aparentemente banal e burguês, suas implicações são alarmantes, como tentarei mostrar mais adiante: não só revelam como o sexismo e o consumismo podem ditar nossas vidas sem que percebamos, mas ainda como, bem longe da nossa existência tranquila, uma "declaração de amor" pode custar a vida e o sofrimento de milhares de seres humanos.]

"O diamante é um símbolo universal do amor. Tendo carregado inúmeros simbolismos, encarnou através dos séculos o amor romântico, emergindo hoje como seu mais poderoso mensageiro. (...) Hoje, mais do que nunca, o anel de noivado é a expressão mais poderosa do amor eterno e verdadeiro, um elemento essencial do ritual de casamento em todo o mundo." (História dos anéis de noivado, por De Beers)

Ser romântica e feminista não é das tarefas mais fáceis. Isto é, quando você se deixa levar pelo que dizem ser o romantismo. Infelizmente, de um modo geral, é mais cômodo e reconfortante ter verdades nas quais acreditar sem passar pelo esforço da reflexão... Foi assim que meu lado sentimental, flertando timidamente com a simbologia do amor indestrutível, engoliu como um ganso à foie gras o que a De Beers afirmou ser o emblema do amor para sempre. Por sorte, a minha outra metade, à qual um teimoso pragmatismo e perpétua desconfiança garantem a habilidade de detectar as inconsistências de um discurso, soube mais uma vez provar seu ponto e ganhar a discussão. Droga! 

Pois bem, em resposta a uma conversa de ontem à noite sobre casamento, alianças e frescuras, minha metade enviou-me hoje cedo um email com o seguinte título: "Diamonds are bullshit". Sem rodeios. Direto na ferida.

A mulher e o sexo como produtos:
"É claro que há um retorno para o seu
investimento. Nós só não podemos
mostrá-lo aqui."

O texto falava, de um ponto de vista masculino e econômico, do stress financeiro imposto aos jovens adultos, obrigados a investir seu dinheiro (dois meses de salário, segundo a "tradição") em um objeto que perde imediatamente a metade de seu valor logo após a compra (ao contrário da prata e do ouro, considerados investimentos viáveis). Jovens que ainda por cima sofrem uma enorme pressão social por conta do pedido de casamento... O texto explicava então que essa “tradição” dos anéis de noivado era o resultado de uma cuidadosa e eficiente campanha de marketing promovida pela De Beers, a gigante dos diamantes, no final dos anos 30. Seu objetivo: transformar o anel de noivado, até então um presente ocasional, em um símbolo mandatório do amor. Era preciso torná-lo precioso e imprescindível: mesmo a “extrema raridade” dos diamantes foi uma ideia construída pela campanha. Também vieram daí as superstições em torno da compra de um anel usado (símbolo de um amor que não durou).

"A razão pela qual você não sente isso é porque isso não existe. O que você chama de amor foi inventado por caras como eu, para vender meias-calça." (Don Draper, personagem da série Mad Men, sobre publicitários da década de 50)

Dureza. Na verdade, para fazer um resumo grosseiro, o amor romântico, que nós pensamos como algo próprio à natureza humana, construiu-se historicamente a partir dos séculos XII-XIII, na continuidade do antifeminismo dos Pais da Igreja e da idealização da mulher surgida na literatura do período (como teorizado por exemplo aqui). Mais recentemente, esse conceito de amor foi abocanhado pela publicidade, que percebeu rapidinho que a felicidade vende.

“Nós gostamos de diamantes porque Gerold M. Lauck nos disse para gostarmos”, diz o texto que recebi. Com a Grande Depressão, as vendas da De Beers caíram 75%. Em 1938, ela então encomendou a uma agência publicitária um estudo de marketing focado nos homens: era necessário inculcar nos jovens a ideia de que diamantes eram o símbolo do amor, e que quanto maiores e de maior qualidade, maior era a expressão desse amor. Quanto às mulheres, elas foram encorajadas a ver os diamantes como parte integrante da dinâmica amorosa. Mas Gerold M. Lauck precisava vender o produto tanto para aqueles que podiam comprá-lo, quanto para os que não tinham condições de fazê-lo. Daí a solução estratégica de transformá-los em um símbolo de status.

Ou seja, um símbolo do sucesso pessoal e financeiro da família, da liderança e da realização de um homem provedor, do valor de uma mulher escolhida - dentre tantas outras - por um homem de sucesso, da exibição pública de um status social valorizador para a mulher (o casamento), e mesmo do incentivo à competitividade feminina (“o meu é maior que o seu” como “eu valho mais do que você”, “eu tenho, você não tem” como “eu sou amada, você não é”)...
 

O fato é que o único verdadeiro sucesso envolvido na história foi o de uma manipulação marqueteira que fez com que, hoje, 80% das americanas recebam anéis de diamante ao ficarem noivas. Uma moda cada vez mais presente no Brasil. E na excitação da esperança de felicidade para sempre, acabamos nos esquecendo de que, ao peneirarmos esses símbolos, só o que encontramos de reluzente é o sangue derramado por uma indústria que se construiu na lama. Como mostrado no vídeo abaixo, na década de 1990, a guerra civil em Sierra Leona resultou em dez mil civis propositalmente mutilados, entre outras atrocidades quase indizíveis (estupro coletivo, mutilação de genitais de crianças) cometidas pelos rebeldes da Frente Revolucionária Unida, que escoaram cerca de 10 a 15% dos diamantes do comércio mundial. Isso em Sierra Leona, sem falar de Angola...


Dito isso, continuo com meu romantismo, ou seja, continuo acreditando no amor. Sem esperar do alto da torre que meu príncipe traga sentido à minha existência, mas consciente de que a vida é menos dura e mais prazerosa quando vivida em companhia, e que uma existência compartilhada é a maior das riquezas. Mas a ganância de uma indústria não tem mesmo nada a ver com o amor, e eu agradeço à minha metade pé-no-chão pela grande prova de respeito ao me lembrar disso.

Ressaltando, por fim, que este textinho não está aqui para julgar nenhuma feliz proprietária de um anel de diamantes nem nenhum homem apaixonado tentando mostrar do jeito que pode a sua afeição. Há uma diferença essencial entre julgar as vítimas e contestar as engrenagens. O ponto positivo nisso tudo é a rapidez com que uma “tradição” pode se estabelecer. Ora, não há nada de errado na aliança entre pessoas que se gostam. Por que é que símbolos de comprometimento deveriam ser ditados por uma cultura consumista sangrenta que nos pressiona de todos os lados, uns para se impor, outras para se submeter? Que criemos outros símbolos, mais profundos, igualitários e verdadeiros, e menos frágeis que um diamante.

"Para cada mão pedida em casamento, uma outra é arrancada."


por todas nós


Hoje não queremos flores, nem desejamos ser comparadas a elas. Por isso não venham nos dizer, neste dia 8 de março, o quanto somos belas, delicadas e perfumadas. Não somos bonecas novas recém-saídas da caixa. Somos gente. Feias ou bonitas, delicadas ou brutas, nada disso vem ao caso. Porque hoje não se comemoram as qualidades femininas que supostamente nos tornam atraentes. O dia internacional da mulher foi e será um dia de luta. 

Não venham nos dizer que somos contraditórias, que nos deixamos levar pela emoção. Só se esta emoção for a revolta, a raiva de saber que há lugares do mundo em que 70% das mulheres sofrerão violência sexual em algum momento de suas vidas. Uma rosa não apaga o que viveu a jovem indiana, jogada nua para fora de um ônibus, com seu intestino perfurado pela barra de ferro que foi introduzida na sua vagina. Hoje é um dia de luto, por ela e por tantas outras, por aquelas que estão sendo violentadas e assassinas no exato minuto em que escrevemos. Hoje é um dia de luta, para que canalhas como os da banda New Hit não cometam atrocidades e saiam impunes.

Não nos falem da nossa sensibilidade, como se o sentir e o amar fossem próprios a um sexo e não a todo o gênero humano. Não nos dêem um beijo na testa, nos parabenizando por sermos boas mães. Boas mães o são por amor, comprometimento e responsabilidade, e não porque são mulheres. Péssimas mães também existem, assim como ótimos pais. Tampouco nos falem da nossa capacidade de amar incondicionalmente. Não nos encorajem a suportar o que não podemos, a aceitar o inaceitável.

Não queremos ser enaltecidas, endeusadas ou ser tidas como epítome da virtude e da civilidade. Queremos ter o direito de ser más. Queremos a igualdade que garante que a escolha entre virtude ou vício seja individual, não generalizada para todo um gênero.

Chega de contradições. Não adianta nos falar que toda a mulher merece respeito hoje e nos assediar na rua amanhã. Nós não precisamos de gentilezas. Não pedimos favores, não queremos condescendência. Não queremos ouvir como é maravilhoso ser mulher, principalmente porque o 'ser mulher' não existe, é construído cultural e socialmente.

Hoje não nos dêem flores. Exigimos direitos e justiça. O que queremos é dignidade. Queremos oportunidades iguais, salários iguais. Queremos respeito e o direito de andar onde quisermos, com a roupa que quisermos e em segurança. Queremos fazer parte de uma cultura que não sexualiza nossos corpos constantemente para vender produtos. Uma cultura que não promova o estupro. Hoje - e todos os dias - não precisamos de elogios sobre a nossa feminilidade, queremos a liberdade real de nos expressarmos e vivenciarmos nossos corpos em toda sua plenitude.

Nós, mulheres feministas, lutamos por igualdade de direitos e deveres, pelo fim da violência de gênero, pelo fim da cultura do estupro, pelo fim da objetificação das mulheres, por nossa liberdade, por nossa felicidade sexual, pela propriedade de nossos corpos, pela ideia de que mulheres são gente. Não esperamos presentes menos caros que esses neste 8 de março.

Se quiser nos parabenizar, parabenize-nos pela luta, porque é isso o 8 de março, um dia de luta, não uma homenagem à feminilidade. Não se trata de comemoração. Se algumas mulheres, em alguns lugares, trabalham, votam e significam na sociedade, de maneira independente dos homens, isso é possível porque, não muito tempo atrás, outras mulheres lutaram por isso. Algumas morreram por isso, muitas continuam a morrer porque nossa luta não atingiu ainda seu objetivo e porque a liberdade e a independência feminina ainda não são fatores globais. Se quiser nos presentear ou homenagear, de verdade, de alguma forma, denuncie o machismo, aponte essa ordem social repressora, que tantas vezes passa despercebida. Lute conosco. Subverta-se!

E que hoje seja um dia de celebração também. Celebração das conquistas dessa luta árdua, que, apesar de longe de estar ganha, nos motiva e nos apaixona. Celebração da amizade e do amor entre as mulheres, da sororidade. Celebração de tudo o que conquistamos, nos dando energia para seguir em frente...

...até que todas sejamos livres.


por Barbara Falleiros

As leitoras e leitores deste blog devem ter acompanhado, esta semana, o caso de hostilização de um grupo de estudantes feministas que protestava contra trotes sexistas na USP de São Carlos. Para quem ainda não soube do ocorrido, aqui vai o relato divulgado no Facebook por uma integrante da Frente Feminista de São Carlos, levemente resumido:

Todo ano ocorre aqui na USP São Carlos o Miss Bixete, evento no qual, após passarem pela "apelidação" (apelidos pejorativos e fazendo juízo de valor sobre seus corpos e sua sexualidade), as calouras são levadas pelos veteranos para que desfilem. Ao longo do desfile os veteranos gritam em coro "peitão, peitão, peitão" pedindo para que a caloura mostre os seios e incentivam que ela dance e exponha seu corpo. Uma prática também frequente nesse dia do "evento" é a "competição do picolé". Nesta competição, cada uma das calouras recebe um picolé e têm que chupá-lo simulando sexo oral. A que terminar o picolé primeiro "ganha".

Como resposta ao evento, nos últimos cinco anos, o Coletivo de Mulheres do CAASO (centro acadêmico) e Federal promovem um ato em boicote ao Miss bixete, a fim de tentar conscientizar o maior número de pessoas possível. Nesta última terça-feira, a Frente Feminista de São Carlos reuniu 50 pessoas para a manifestação em repúdio ao evento. A manifestação era pacífica e contava com instrumentos de batuque, músicas, faixas com palavras de ordem e panfletagem.


Retrato de um imbecil (não encontrei a foto original)
Ao longo da manifestação, integrantes do GAP (Grupo de Apoio a Putaria) e alunos da USP que participavam do evento, arrancaram e rasgaram alguns dos cartazes da manifestação, tentarem impedir nossa entrada no CAASO, jogaram cerveja, copos e duas bombas em nossa direção. Houve empurrões, tentativa de agressão, assédio às meninas e um grupo que, no final da manifestação, perseguiu com pedaços de pau os manifestantes. Como resposta a nossa faixa, os meninos do GAP simulavam ato sexual com uma boneca inflável diante da manifestação. Alguns participantes do evento tiraram as roupas e fizeram gestos obscenos, sempre se direcionando aos manifestantes e dizendo provocações como "isso aqui é para corrigir esse bando de viado e sapatão". A USP abriu inquérito para investigar a respeito dos alunos que ficaram nus e a mídia local tem se focado nisso.

Não sou antropóloga para sair teorizando sobre ritos de passagem, mas lá fui eu humildemente ler na Wikipedia sobre trotes estudantis. Aprendi que ritos de passagem proporcionam "o aprendizado de valores fundamentais para a vida no nível seguinte" e que os trotes são "ritos de passagem às avessas, representando uma prática oposta aos valores humanistas da universidade".

O calouro é encarado pelo veterano como algo (mais que um animal, mas menos que um ser humano) que deve ser domesticado pelo emprego de práticas humilhantes e vexatórias. Da mesma forma, denominar o calouro de bixo (ou bixete, se for mulher), parece querer indicar que o calouro deve ser humilhado a ponto de nem mesmo merecer que a palavra bicho seja escrita corretamente. (Zuin, 2002, p. 44).

O interessante, a meu ver, é que no caso de trotes sexistas não se trata de passagem por uma situação de constrangimento ritual - e portanto, pontual, isto é, delimitada no tempo (um dia, uma semana de trote) - que, ao seu fim, levará o indivíduo constrangido a ser aceito e em breve alçado ao mesmo nível hierárquico dos que o constrangeram. Em um trote sexista há apenas a reprodução e a perpetuação da violência, do menosprezo e dos abusos que as mulheres e/ou "minorias" sofrem cotidianamente e continuarão a sofrer em suas vidas muito tempo depois de terminado o trote.

Os comentários de leitores às reportagens que saíram no jornal ilustram bem o desconhecimento do discurso que sustenta esse tipo de prática sexista. "É só tomar um banho que passa" não funciona no caso de um trote sexista porque as meninas vão continuar sendo julgadas pelo seu corpo e porque o sexo oral, na nossa sociedade, vai continuar sendo associado à uma prática coerciva ou humilhante (lembrando que o "grito de guerra" de uma faculdade contra outra costuma ser o "Chupa!": "Chupa medicina!", "chupa engenharia!", "chupa Poli!" etc.). Nada disso provoca "engrandecimento". E é preciso que o discurso mude urgentemente do "se não quer não participe" para o "se ofende não organize"... Está na hora de começar a pensar.


Como tentamos mostrar em inúmeros posts aqui do blog, a carta do humor é utilizada de modo frequente para tirar o peso da violência, "maquiar" problemáticas sérias, reforçar, por exemplo, a chamada cultura do estupro. Diante da faixa de protesto com os dizeres "Somos mulheres, não bonecas infláveis. Temos ideias, não somos manipuláveis", os partidários do Miss Bixete se divertiram simulando sexo com uma boneca. Mulher objeto. Mais ainda, eles distribuíram folhetos de incitação à violência contra as mulheres baseados na capa do best seller - diga-se de passagem, criticado por muitas feministas - Cinquenta tons de cinza:  "Cinquenta golpes de cinta. A cura para o fogo no rabo dessa mulherada mal comida." Devem ter se divertido tanto e achado tanta genialidade no trocadilho. Mas qualquer um que parasse um segundo para refletir sobre a frase  não esboçaria nem mais um sorriso amarelo. A violência física contra as mulheres não é uma piada. Ela mata, de verdade, todos os dias.

Temos aqui no blog leitores machistas, cada vez mais fiéis, que a esta altura já devem estar digitando um comentário: "Mas na manifestação essas vadias ficam peladas, não ficam?" Nem se incomodem em escrever, essa reflexão já foi feita, por exemplo, aqui:

Que as calouras sejam pouco induzidas a participar do tal desfile não desculpa a existência de um evento em que jovens mulheres, que provaram sua capacidade intelectual ao serem admitidas em um vestibular concorrido, sejam imediatamente reduzidas ao valor de seus corpos ao pisarem na universidade. Além disso, nota-se que o mesmo tipo de raciocínio utilizado para culpabilizar vítimas de estupro ou violência aparece aqui, já que comentário faz recair o julgamento moral sobre as participantes do "concurso" ao invés de responsabilizar seus organizadores: tornaram-se "engenheiras respeitáveis" apesar de terem participado, apesar de seu "exibicionismo adolescente", e a culpa das que se sentissem pressionadas seria delas mesmas por não terem "estrutura psicológica".

O que mais dificulta, no entanto, os combates feministas contra discursos e práticas machistas do tipo deste trote é o fato das diversas manifestações de nudez serem facilmente confundidas. O que é que tem mostrar o pênis se as "feministas" - ou "esse pessoal" - mostram o peito?

Vamos esclarecer as coisas. O movimento das Femen, com o qual eu particularmente não me identifico e a respeito do qual mantenho as dúvidas colocadas aqui, contextualiza explicitamente a prática da nudez de suas manifestantes como estratégia para atrair a atenção da mídia tradicional.

Já o movimento da Marcha das Vadias surgiu em resposta a uma alegação de um policial canadense para quem "se as mulheres evitassem se vestir como vadias, não seriam estupradas". Sabemos que não é a roupa que causa o estupro mas as relações de poder, que desumanizam a mulher. Ironizando a fala do policial e mostrando que, segundo esse tipo de pensamento, toda mulher seria "vadia", as militantes da Marcha das Vadias costumam desfilar usando roupas curtas e algumas com seios nus, reivindicando o direito das mulheres de fazerem o que quiserem de seus corpos e pedindo o respeito total ao corpo feminino, contra sua sexualização exagerada. O que elas tentam mostrar é que a quantidade de pele exposta por uma mulher não é jamais um convite para que os homens se disponham de seu corpo como bem entenderem e sem consentimento.

Quanto aos pênis dos estudantes, fica claro que a nudez foi usada intencionalmente de forma violenta, ainda mais acompanhada de gestos obscenos e ameaças homofóbicas, como relatado ("Isso aqui é para corrigir esse bando de viado e sapatão"). O pênis, em si, não significa nada. Um pênis nu é tão inonfesivo quanto um seio de fora. Exceto quando ele é usado como órgão e símbolo de perpretação da violência, da humilhação e do ódio.

Agora dá para entender a diferença? Ela não é pequena.

Para terminar este post numa nota positiva: como foi dito acima, os protestos contra o evento Miss bixete acontecem há cinco anos e têm surtido efeito, já que o evento parece estar perdendo cada vez mais força - apesar do acontecido este ano, e esperamos que os responsáveis sejam sancionados pela Universidade. Parabéns para o Coletivo de Mulheres do CAASO e a Frente Feminista! Também fiquei agradavelmente surpresa com a quantidade de homens feministas na manifestação do coletivo. Liberdade, igualdade e respeito para todo mundo, e um ótimo ano escolar para todos os esperançosos que iniciam os melhores anos de suas vidas.





por Barbara Falleiros

Quando respondo a perguntas sobre o que faço da vida, às vezes me deparo com interlocutores perplexos. Muitos não entendem o porquê de se estudar "personagens obscuros de um período obscuro", tão distantes do "extraordinário estágio civilizacional para o qual evoluímos"! Afinal, que interesse pode haver em uma época de príncipes e castelos, rivalidades e traições, para além daquilo que serve à fantasia de um Game of Thrones e afins? Vejo-me no papel de meus antigos professores de História, repetindo a adolescentes insolentes que a compreensão do passado serve para entendermos o presente. E às vezes você descobre que quinhentos, seiscentos anos te separam... do mesmo lugar!

Christine de Pizan no seu "escritório"
Há uma década, descobri uma mulher impressionante. Italiana de origem mas educada na corte francesa, filha de um médico do rei, Christine de Pizan (1364-1430) teria vivido uma existência tranquila, uma existência anônima de mãe e esposa como tantas outras se, como ela conta, sua vida não tivesse sido influenciada por duas forças poderosas, "Natureza" e "Fortuna" (ou seja, o destino).  A primeira conferiu-lhe grande curiosidade intelectual, a segunda deixou-a viúva aos 25 anos de idade, com três filhos pequenos. E o que faz uma jovem viúva com dificuldades financeiras no final da Idade Média? Casa-se novamente, certo? Errado! Ela se torna a primeira escritora profissional da história da literatura francesa.

O caminho que Christine escolheu não era, decididamente, o que a sociedade esperava dela. É verdade que, enquanto mulher e escritora, ela representava uma "novidade" que foi em parte responsável pela fama que adquiriu ainda em vida. Por outro lado, os homens intelectuais não a consideravam como uma igual, longe disso, e ela teve que lutar duramente pelo seu espaço no campo literário. Christine tinha total consciência da posição de inferioridade ocupada pelas mulheres e um dos seus maiores combates foi contra a concepção misógina de uma natureza feminina "deficitária", isto é, contra a visão das mulheres como seres moralmente e intelectualmente inferiores (valeu, Aristóteles!). Era preciso distinguir o natural do cultural, como ela afirma no Livro da cidade das damas (1405) a respeito da educação feminina: 

Eu reafirmo, e não duvides do contrário, que se fosse costume mandar as meninas à escola e se lá aprendessem as ciências, como fazem com os meninos, elas aprenderiam tão perfeitamente e compreenderiam tão bem quanto eles as sutilezas de todas as artes e ciências. [...] Sabes por que elas sabem menos? Porque não vivenciam coisas diferentes, porque basta que permaneçam em suas casas, às voltas com suas ocupações domésticas. Porém, não há nada mais estimulante para uma criatura dotada de inteligência do que experiências diversas e abundantes.

No Livro da visão de Cristine (1405), que contém inúmeras passagens autobiográficas, ela retoma a questão a partir de sua própria experiência. Ela se imagina dialogando com uma personificação da Filosofia, à qual diz:

Pois embora minha natureza me inclinasse para o saber, as tarefas que normalmente cabem às mulheres casadas, além da obrigação de frequentemente carregar bebês em meu ventre, impediram-me de dedicar-me aos estudos. [...] E o que há de mais belo que o saber? E o que há de mais vergonhoso do que a ignorância de um homem? Assim, certa vez respondi a um homem que criticava meu desejo de saber: ele dizia que não cabia a uma mulher ter conhecimento, como existem poucas. Respondi que tampouco cabia a um homem ser ignorante, embora existam muitos!
E eis a resposta de Filosofia:
No que te diz respeito, não há dúvidas de que se teu marido estivesse vivo até hoje, não terias estudado tanto quanto estudaste, impedida pelas ocupações do lar. Assim, não terias apreciado uma das coisas que mais amas no mundo, isto é, o doce sabor do conhecimento.

Vale ressaltar que Christine não era contra o casamento. Ela amou profundamente o marido que seu pai escolhera para ela e admirava-o por sua inteligência. E se ela começou a escrever após sua morte, a poesia serviu-lhe primeiramente como experiência catártica, uma forma de lidar com a solidão e com a tristeza. "Sozinha estou e sozinha quero estar, sozinha deixou-me meu doce amigo, sozinha estou, sem companheiro nem mestre", disse em seu poema mais famoso.


Por volta de 1401-1402, Christine se envolveu em uma briga literária com homens intelectuais do seu tempo a propósito de uma obra extremamente famosa, o best seller de então, chamada Romance da Rosa. O livro conta a história da tomada de um castelo seguida da "colheita de uma rosa" pelo Amante apaixonado, em outras palavras, a história da conquista e da defloração de uma jovem dama. Para Christine, um escritor tinha que arcar com sua responsabilidade moral e não podia escrever absurdos misóginos e obscenos usando a desculpa de que tinham sido ditos por suas personagens. A discussão toda era sobre a função da literatura, o que não cabe desenvolver aqui, mas é muito interessante reparar nos argumentos usados pelos "inimigos" de Christine para desmerecê-la no debate. Para um deles, tudo o que ela era dizia era ditado por terceiros. Afinal, que mulher seria capaz de pensar e tirar suas próprias conclusões? Ela era só o "guarda-chuva" (é a palavra que ele usa, ou "capa de chuva") colocado na linha de frente do debate e atrás do qual se escondiam homens covardes que lhe assopravam os argumentos... Resumindo, queria dizer: não foi você quem disse e eu não discuto com mulher.

Sábios e o temor da audácia feminina:
Aristóteles seduzido e humilhado pela cortesã Fílis
Após lançada a carta da incapacidade intelectual, eis que emergia o velho e bom julgamento baseado na moral e na sexualidade feminina. Ora, ao ousar atacar o grande mestre autor do Romance da Rosa, Christine agia como Leontina, uma prostituta grega que criticara o filósofo Teofrasto. Ou seja, no debate, Christine é literalmente chamada de puta!

Não é curioso que nós, seiscentos anos depois, escutemos o mesmo tipo de discurso, o mesmo tipo de argumento e o mesmo tipo de insulto? Não é curioso que nós, mulheres, ainda estejamos tentando conciliar casa, filhos e trabalho, sobrecarregadas por tarefas domésticas que muitas vezes nos impedem de seguir vocações? Que embora as mulheres sejam hoje a maioria na Universidade (enquanto estudantes, mas não necessariamente enquanto docentes...), ainda existam áreas nas quais elas são vistas como "incapazes" e "incompetentes", só por serem mulheres? Que em suas tentativas de emancipação a mulher seja invariavelmente tratada como piranha e vagabunda?

Em uma de suas cartas escritas durante essa querela literária, Christine tentou convencer seus interlocutores de que as mulheres não eram monstros de outra espécie, que precisavam ser combatidos e domados, que elas eram seres humanos como eles:

Penso sem dúvida que, se tu fosses bem informado, já não trarias [ao debate] aquele Ovídio da Arte de amar como argumento para desculpar teu mestre [o autor do Romance da Rosa]. [...] Ó livro mal intitulado Arte de amar! Pois de amor é que não é! Mas sim de falsa arte e maliciosa habilidade de enganar mulheres, é como deveria ser chamado. Que bela doutrina! É então um grande feito iludir essas mulheres? Quem são as mulheres? São elas serpentes, leões, dragões, víboras, animais vorazes devorantes e inimigas da natureza humana, que devem ser trapaceadas e capturadas por meio de artimanhas? Se assim pensais, homens, lede então a Arte: aprendei os artifícios! Agarrai bem as mulheres! Enganai-as! Insultai-as! Invadi o castelo! Cuidai, homens, para que nenhuma vos escape, e que tudo ceda ao opróbio! Por Deus, não são elas vossas mães, vossas irmãs, vossas filhas, vossas esposas e vossas amigas? Elas são vós mesmos e vós mesmos sois elas.

Feminismo: há mais de seis séculos, a ideia radical de que as mulheres são gente...


por Barbara Falleiros

Todo dia, voltando da "Grande Biblioteca", eu atravesso dois ou três becos. Modo de dizer, já que são becos modernos, passagens entre prédios recentes, quadrados e envidraçados, em contraste com a arquitetura dos cartões postais de Paris. Ruelas desertas que são tomadas à noite por uma luz lúgubre e esverdeada. Seria um ambiente de história em quadrinhos se não fosse - tenho que confessar - a total ausência de perigo. E é justamente esta falta de perigo real que me faz indagar: por que, mesmo sabendo que não corro risco algum, todo dia aperto o passo, busco segurança nos moradores dos prédios que vejo a preparar o jantar, e penso que "qualquer coisa eu grito com toda a força"? Qualquer coisa o quê? Por que este medo?


Porque a rua, especialmente à noite, é um espaço proibido para a mulher. Não foi essa a lição que quiseram dar aqueles estupradores assassinos indianos no último dia 16 de dezembro? Não foi o que o advogado desses homens afirmou, que "o casal de namorados era o maior responsável pela agressão, pois não deveria estar circulando pelas ruas à noite"?

O pessoal do mimimi provavelmente vai replicar que, em cidades violentas como São Paulo ou Rio, o espaço público é terra de ninguém onde todos se sentem ameaçados. Homens são vítimas de assalto e sequestro, não são? Ao reagirem a uma abordagem, podem ser agredidos ou até morrer, não podem? Não se trata, porém, do mesmo tipo de violência. Causas socioeconômicas explicam a criminalidade urbana e seus desdobramentos. Já a violação da integridade física, moral e sexual da qual mulheres e homossexuais são vítimas, no espaço público, são manifestações explícitas da violência de gênero. Um outro funcionamento.

Quando no mês de dezembro, em São Paulo, o estudante André Baliera foi agredido por dois brutamontes homofóbicos, o que eles disserem para se defender?

Ele mexeu com as pessoas erradas, no lugar errado, no momento errado. E foi agredido. Aprende, nunca mais mexe com ninguém na vida.
Foi agredido, apanhou. Apanhou de besta. Se tivesse seguido o caminho dele não teria apanhado.

Nessas falas, fica evidente como as relações de poder e de gênero condicionam a circulação de pessoas no espaço urbano. Grupos vulneráveis como mulheres, homossexuais e travestis, sobre os quais recai fortemente a violência de gênero, têm restringidos assim os limites de sua circulação. É interessante ver como a declaração dos brutamontes corrobora as conclusões de um geógrafo francês, autor de um relatório sobre a circulação das mulheres na cidade, assim como as constatações da porta-voz de um grande grupo feminista francês:

As mulheres apenas atravessam o espaço urbano, elas não estacionam.
Constatamos que as mulheres andam menos na rua sem ter algo específico para fazer, e que se locomovem rapidamente de um lugar a outro.

Estudos feministas de geografia começaram a mostrar, a partir dos anos 70, que a própria forma de organização das cidades é sexista, que ela "reforça a ordem heteronormativa compulsória" e que seu "planejamento não desenvolveu outras formas de desenvolvimento urbano que não estivessem subordinadas às tradicionais perspectivas da divisão sexual dos espaços, baseada na pretensa naturalidade entre sexo, gênero e desejo" (cito um artigo muito interessante publicado em 2010 na Revista de Psicologia da Unesp, "Espaço urbano, poder e gênero: uma análise da vivência travesti", ao qual voltarei mais abaixo).

Assim, as relações espaciais se constróem com base nas dicotomias entre interior e exterior, entre estaticidade e movimento. Fora do ambiente "protegido" do espaço privado (protegido em termos, pois neste há o risco de violência doméstica), uma mulher sozinha é sempre vulnerável, como um homossexual é vulnerável na madrugada paulistana. A Roberta mostrou recentemente como a responsabilidade de se proteger das agressões  recai sobre a mulher, cabe a ela ser "prudente", "não andar onde não deve", "voltar para casa cedo", "vestir-se adequadamente". Foi o que os brutamontes disseram, não? Que o agredido estava onde não devia? É interessante que tenham mandado a vítima "circular", isto é, ocupar como se espera um espaço que só pode ser atravessado, rapidamente, de cabeça baixa. Eles, os brutamontes, que tentaram esconder a motivação homofóbica da agressão, nem desconfiavam que ao pronunciarem essas palavras tinham acabado de revelá-la.

A oposição entre estaticidade e movimento me faz pensar nas prostitutas, mulheres e transsexuais cuja presença no espaço público é, ao contrário, estática. Paradas, "fazendo ponto". Mas esta estaticidade não lhes confere a mesma liberdade masculina de ocupação dos espaços. Esta presença estática e noturna é atrelada à violência e à exclusão, a uma vulnerabilidade ainda maior. Um indício: minha busca inocente no Google de uma imagem de "travesti no ponto" (soube depois que havia um bug na safe search) resultou em uma série de corpos ensanguentados... no meio da rua ou na sarjeta, no meio desse espaço público que, antes, não puderam ocupar plenamente. No artigo que citei acima, o autor e a autora explicam como os territórios de atuação de cada travesti são definidos:

Elege-se um local de grande tráfico de veículos, onde a passagem de famílias não seja comum, em geral, zonas comerciais e de serviços pesados. Esse tipo de local é considerado discreto porque durante a noite só frequenta a área quem está disposto a participar das relações que ali se estabelecem, em geral homens.

Logo, trata-se de uma estaticidade às margens do espaço. Chamada de "tempo de batalha", a delimitação do território, hierarquizada, é determinada pelas relações de poder e violência assim como pela beleza: o grau de "feminilidade" da transsexual conta na manutenção do ponto. A conclusão d@s autores é a de que estes territórios conferem às travestis, paradoxalmente, uma possibilidade de existência:

Um território que se faz da separação / conexão entre eu e outro, entre centro e margem em constante movimento, possibilitando a seres abjetos, impróprios e interditados à vivência socioespacial, sob a égide da heteronormatividade, criar resistências e existir através de seus territórios.

Uma existência resistente, "apesar de"... Embora a prostituição e a discriminação das travestis sejam problemas específicos, não se pode mais ignorar, no estabelecimento de políticas públicas de segurança, por exemplo, a forma como a heteronormatividade norteia os modos de ocupação urbanos e seus fluxos de circulação. Dizer para um gay circular, para uma mulher não sair sozinha, deixar morrer na sarjeta uma travesti em "área de risco", facetas do violento sexismo que domina o espaço geográfico urbano.

Como Conquistar um Homem