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Por Thaís Bueno

Que o Brasil é um país onde se assiste a muita televisão, não é novidade. Segundo uma pesquisa Ibope de 2012 (quadro abaixo), o brasileiro assiste à TV por uma média de 5 horas e meia por dia. Obviamente, trata-se de uma média, que pode ser jogada para mais ou para menos dependendo de inúmeras variáveis: idade, classe social, gênero. É interessante notar, no entanto, que no meio desse mar de números e estatísticas (que parecem não dizer muita coisa), há um dado interessante: cada vez mais a TV por assinatura cresce em termos de audiência, roubando uma fatia do bolo que antes era servido às grandes redes de canais abertos.



Segundo pesquisa realizada pela Agência Nacional de Telecomunicações, em 2011, a TV paga atingiu, no Brasil, um crescimento de mais de 21,7%, chegando a quase 12 milhões de domicílios. Seria interessante pensar nos fatores que ocasionaram esse crescimento, mas, agora, penso em outra questão: quais seriam as consequências desse crescimento processo de recepção de conteúdos pelos telespectadores brasileiros, considerando o espaço e os papéis das mulheres nos programas exibidos nos canais fechados? Como muita gente sabe, as séries estadunidenses, ou sitcoms, predominam na programação de boa parte desses canais fechados no Brasil, e estão cada vez mais populares entre os brasileiros. 

Seria interessante, então pensar: como é representada a imagem da mulher nesses seriados? Será que a mulher brasileira (ou as mulheres brasileiras) pode se identificar com os modelos femininos propostos por essas séries? 

Felizmente, há muitos estudos interessantes feitos sobre o alcance desses programas de TV no Brasil e os padrões que eles disseminam. Segundo um desses estudos (BEZERRA, 2008), mesmo nos casos em que tais seriados se dedicam a contar histórias de mulheres (nessa categoria, o famoso Sex and the City é o que primeiro me vem à mente) e suas conquistas no momento atual de avanço das lutas feministas, essas conquistas se restringem a questões da esfera privada, não representando uma grande mudança no âmbito público: 

 ...podemos ver a representação, feita através do discurso da personagem-narradora, de uma mulher que, sim, está num momento histórico decorrente de duras conquistas, um momento em que pode expressar o que pensa sobre variados tópicos, como: sexo, trabalho, amizades, espiritualidade e casamento. No entanto, podemos concluir que essa sua atuação ainda se restringe à esfera privada, em que suas preocupações, anseios, ações e relações não estão representadas como tendo impacto no âmbito social/público, esfera que historicamente vem sendo reservada aos homens.

Seriado Sex and the City: questões femininas podem ser interessantes, mas se restringem à esfera privada

É curioso pensar nessas análises dos seriados de TV levando em consideração quem é que escreve e produz esses programas. De acordo com o WGAW 2013 TV Staffing Brief, um estudo feito pelo The Writers Guild of America (sindicato que representa os escritores do setor cinematográfico e televisivo dos Estados Unidos), o grupo de profissionais que escrevem os programas de TV produzidos lá (e assistidos aqui) é constituído, predominantemente, por homens brancos. Muito pouco espaço é concedido a mulheres ou a mulheres ou homens negros no processo de produção do conteúdo que é exibido pelos canais de TV: nas temporadas 2011-2012, dos 1.722 roteiristas envolvidos na produção desses programas, apenas 519 (ou 30,5%) eram mulheres, e só 269 eram negrxs. 

Além desses números, o sindicato apresentou, no estudo, uma lista de séries de TV que não incluíram roteiristas mulheres ou negrxs em suas equipes de produção: 

:: Lista de programas de TV que não incluíram roteiristas mulheres na produção (temporada 2011-2012): 

America’s Funniest Home Videos 
Big Time Rush 
Californication 
Comedy Bang! Bang! 
Dancing With The Stars 
Eagleheart 
Enlightened (Creator Mike White wrote all the episodes) 
Futurama 
Geniuses 
Gurland On Gurland 
The Insider 
Kickin’ It 
Locke & Key 
Magic City 
Psych 
Teen Wolf 
Veep 
Workaholics I 
Workaholics II 

:: Lista de programas de TV que não incluíram roteiristas negrxs na produção (temporada 2011-2012): 

America’s Funniest Home Videos 
Anger Management 
Are You Smarter Than A Fifth Grader 
Baby Daddy 
Best Friends Forever 
Big Time Rush 
Blue Mountain 
State Boss 
Breaking Bad 
Californication 
The Client List 
Comedy Bang! Bang! 
Dancing With The Stars 
Eastbound and Down 
Enlightened (Creator Mike White wrote all the episodes) 
The Firm 
Free Agents 
Futurama 
Game of Thrones 
Geniuses 
A Gifted Man 
Glee 
Good Luck, Charlie 
Gossip Girl 
Gurland On Gurland 
Happily Divorced 
Hart of Dixie 
Homeland 
How To Be A Gentleman 
The Insider 
Jane By Design 
Kickin’ It 
Lab Rats 
Last Man Standing 
The League Longmire 
Make It Or Break It 
Man Up 
Mike and Molly 
Napoleon Dynamite 
Once Upon A Time 
One Tree Hill 
The Protector 
Ray Donovan 
Revenge 
State of Georgia 
Stevie TV 
Two And A Half Men 
Veep 
Web Therapy 
Weeds 
Workaholics I 
Workaholics II 

É frustrante notar que as listas são enormes. E, mais frustrante ainda, perceber que, entre esses programas, há alguns direcionados ao público infantil ou infanto-juvenil, como Futurama e Big Time Rush.



Como se pode imaginar, uma das consequências de termos apenas roteiristas homens e brancos escrevendo os programas televisivos aos quais assistimos é a homogeneização das histórias que esses programas contam e que, obviamente, não representam a mulher brasileira. No entanto, é preciso fazer uma ressalva: um roteirista ou escritor branco pode, sim, apresentar um retrato interessante e complexo da atual situação feminina ou mesmo da cultura negra. Como escreveu Alyssa Rosenberg, esse seria o caso dos seriados Enlightened (que apresenta questões interessantes sobre o universo feminino) e Breaking Bad (que inclui em sua trama histórias interessantes de personagens negrxs). Mas isso não justifica que tais histórias sobre mulheres ou negrxs sejam sempre contadas por homens brancos. Obviamente, como bem mostrou a escritora nigeriana Chimamanda Adichie em sua palestra no TED (ver vídeo abaixo), ouvir nossa história ser contada por outros pode ser interessante e enriquecedor, mas é também importantíssimo termos o espaço para podermos contá-las por nós mesmos.





Referência bibliográfica:

BEZERRA, Fábio Alexandre Silva. Sex and the City e a representação da imagem feminina. Anais do CELSUL 2008. Disponível em: http://celsul.org.br/Encontros/08/sex_and_the_city.pdf. Acesso em: 01 abr. 2013.

 Por Thaís Bueno


Movimento de ativistas afegãs pelos direitos das mulheres

Visitando alguns blogs que gosto de acompanhar, topei com um post de uma ativista pelos direitos das mulheres, nascida no Afeganistão, chamada Noorjahan Akbar. Não conhecia nada sobre ela, nem sobre o trabalho que ela realiza. Comecei a ler o post, sem esperar muito, e, no final, estava encantada com as palavras que ela trazia e com a forma como ela descreve sua cultura. 

Nos dias de hoje, em que discussões sobre injustiça política e social, identidade e cultura estão pipocando a todo momento, é importante ter em mente que, independentemente de sua postura política e das suas concepções ideológicas, é preciso ter muito cuidado ao se tentar falar pelo outro e defendê-lo. Há por aí uma série de discursos protecionistas/paternalistas que supostamente defendem os grupos minoritarizados como se fossem pobres coitados, que não têm capacidade de falar por si mesmos. E também já houve, por muito tempo, uma infinidade de discursos, seja na mídia, nos círculos acadêmicos ou nos grupos de agência política, que buscam "falar pelo outro", ou "dar voz ao outro". 

Foi por essa razão que eu quis traduzir este post para o português e trazê-lo para este blog. Ler o texto de Akbar é lembrar que o outro tem voz própria, e que talvez ele prefira falar por si. É lembrar que, na verdade, por termos nosso próprio lugar, nossa história e nossa cultura, não podemos falar pelo outro. Podemos, no máximo, escutá-lo e ajudá-lo a ser ouvido. Ou lido.

Noorjahan Akbar

Onde foi que aprendi sobre liberdade 

Por Noorjahan Akbar – Ativista pelos direitos das mulheres afegãs, cofundadora da organização Young Women for Change, autora do UN Dispatch e correspondente afegã para o A Safe World for Women.

A maior parte do meu trabalho e dos meus textos está focada nas atrocidades e injustiças cometidas contra mulheres no Afeganistão, mas, neste blog, eu gostaria de discutir sobre outro tipo de injustiça. 

Recentemente, uma jornalista estadunidense me enviou uma versão preliminar de seu artigo sobre meu trabalho, para edição. Em um parágrafo ao longo do texto, ela afirmava que eu tinha tido a rara oportunidade de receber uma educação e uma formação escolar nos Estados Unidos da América, e que essa experiência de liberdade me garantiu a possibilidade de nunca sofrer injustiças novamente. Nessa frase, eu notei várias concepções que ela fazia da minha pessoa e de minha cultura, e o contraste em relação à cultura dos Estados Unidos, algo que se reflete muito na literatura produzida neste campo. 

Muitos dos textos sobre ativistas afegãs que lutam pelos direitos das mulheres se baseiam na concepção de que nós, mulheres afegãs, aprendemos sobre liberdade e igualdade quando vamos para países que não são nossas pátrias e nossas culturas, e no meu caso particular, acredita-se que o fato de eu ter estudado nos Estados Unidos me trouxe um gostinho de liberdade e me levou a lutar contra a injustiça. Acredita-se na ideia de que eu era uma oprimida e, consequentemente, mera vítima no Afeganistão, e que, se não fosse pelo tempo que passei nos Estados Unidos, eu não teria me transformado em uma ativista pelos direitos das mulheres. 

Esse monopólio dos valores universais tem muitas consequências negativas. Ele contribui para uma visão binária do mundo, em que metade das pessoas é “progressista” e “civilizada” e o restante, desprovido dessas características e desses valores. Além disso, esse tipo de literatura ajuda a construir o discurso usado para deslegitimar as ativistas afegãs como mulheres “ocidentalizadas”. A ideia de que eu ou outras ativistas aprendemos sobre a liberdade nos Estados Unidos se torna, assim, uma faca de dois gumes usada para nos rotular, tanto aqui no Ocidente quanto em nossos países. A ideia de que liberdade ou liberação são conceitos unicamente estadunidenses, ou ocidentais, e de que, consequentemente, nós aprendemos sobre liberdade na América (já que nossas culturas somente nos oprimem e não há possibilidade de liberação em nossa terra natal) é absurda. 

Eu não aprendi sobre liberdade na América. 

Eu aprendi sobre liberdade com meus pais. Quando eu tinha seis anos, eles decidiram que não queriam viver sob o regime do Talibã e queriam educar suas filhas livremente. Eles abandonaram toda a vida que haviam construído, tudo o que haviam feito durante suas vidas, para serem livres. 

Eu aprendi sobre liberdade com minha tia. Quando estava com quarenta anos, ela decidiu aprender sozinha a ler e escrever, para ser mais independente. Ela permitiu que sua única filha viajasse milhares de quilômetros para que pudesse ter uma formação escolar e ser livre. 

Eu aprendi sobre liberdade com as mulheres do meu país, que cantam sobre ser livre em dúzias de idiomas e dialetos, e que contam às suas filhas histórias de liberdade. 

Eu aprendi sobre liberdade com prisioneiras políticas afegãs, jornalistas e escritoras, que preferem a prisão ao silêncio e à opressão. 

Eu aprendi sobre liberdade com um soldado do Exército Nacional Afegão, que conheci no ano passado. O nome dele é Nadeem e ele arrisca sua vida todos os dias, não por causa dos 150 dólares que ele recebe como salário, mas para libertar seu país do radicalismo. 

Eu aprendi sobre liberdade com a poesia de Rabia Balkhi, uma princesa que conseguiu abalar a divisão de classes e a discriminação sexual ao se atrever a amar um escravo, e que foi assassinada por querer ser livre para amar quem ela escolhesse. 

Eu aprendi sobre liberdade com Merman Parwin, que rompeu com tradições opressivas ao se tornar a primeira mulher a cantar em uma rádio afegã. 

Eu aprendi sobre liberdade com Batool Muradi, que foi acusada de adultério por seu marido, o que pode ter sérias consequências, mas decidiu não ficar calada.

Não. Eu não aprendi sobre liberdade na América. A ânsia por liberdade não é algo ocidental, e a concepção de liberação não é algo inventado no Ocidente, não é algo que eu só poderia conhecer nos Estados Unidos. A liberdade está no meu sangue, e no sangue de milhões de mulheres e homens que nunca estiveram nos Estados Unidos, mas que sabem que, sendo seres humanos, merecem ter o direito de respirar o ar puro e ter opiniões, sem medo de serem condenados por isso. Sendo um país cujos fundadores eram senhores de escravos, um país com séculos de escravidão e segregação, mentalidade colonial e imperialista, além de altos números de negros em suas prisões, os Estados Unidos não poderiam ser minha inspiração para lutar por liberdade. 

Young Women for Change, organização criada por Noorjahan Akbar e Anita Haidary em prol dos direitos das mulheres afegãs


As mulheres do Young Women for Change

Por Thaís Bueno

Você já parou para pensar em como certos discursos religiosos têm atacado, ao longo dos séculos, não apenas a integridade e a dignidade feminina, mas muitas vezes a própria integridade física da mulher? E, pelo fato de discursos religiosos estarem de certa forma entranhados em quase tudo que fazemos e pensamos (acredito que é impossível escaparmos a tudo o que tange à cultura em que estamos imersos), esses discursos nos afetam mais do que imaginamos. 



E não me refiro aqui a um determinado tipo de violência contra a mulher ou a uma religião específica: há, no mundo todo, uma infinidade de modalidades religiosas que têm como base de suas práticas um certo temor a tudo que se relaciona à natureza feminina (desde os extremismos praticados por religiões islâmicas de países da África subsaariana até os discursos proferidos por religiosos que estão bem perto de nós). E, obviamente, o grau e o tipo de opressão praticada às mulheres também varia bastante. 

Esses fatos são muito bem explicados pela historiadora Anna Gicelle Garcia Alaniz em alguns dos videocasts que ela publica em seu canal no Youtube, o Cantinho da História. Entre outros assuntos, como o advento do nazismo e diferentes concepções de história, Anna se dedica, em dois vídeos, a discutir questões relacionadas ao feminismo: em um deles, ela fala sobre o Dia Internacional da Mulher e, em outro, sobre a opressão feminina operada pelos discursos religiosos. Tratadas a partir do interessante ponto de vista de uma historiadora e baseadas em uma rica e profunda análise desses temas, essas discussões podem nos ajudar muito a entender e ser mais críticos e sensíveis a essas questões. 



Tendo em mente as ideias que Anna traz, principalmente no vídeo relacionado à opressão feminina pelos discursos religiosos, é interessante pensarmos em certos fatos que, apesar de nos parecerem irrelevantes e naturais, são decorrentes de pura construção ideológica. Por exemplo, as palavras e o discurso de um religioso ao realizar um casamento; a forma como o aborto é tratado pelas diferentes religiões; a autoridade conferida às mulheres em certas igrejas; a forma como a natureza do corpo feminino é tratada em determinadas culturas; a constituição familiar; a forma como as religiões instituíram um lugar para mulheres entre suas santas e intercessoras, e como esse lugar lhes é concedido. 


Especificamente nesse último quesito, achei muito interessante um trecho do livro Borderlands/La Frontera – The New Mestiza, em que Glória Anzaldúa conta a história da formação de três figuras míticas mexicanas (a Virgem de Guadalupe, padroeira do México; Malinche, mulher indígena que ficou marcada como traidora na construção do imaginário nacional mexicano; e la Llorona, a mais famosa lenda mexicana, construída a partir do mito da mãe que perde seus filhos e com isso passa a vagar eternamente assombrando crianças "malcriadas"). Essas três figuras mexicanas podem ser um exemplo interessante de como a imagem da mulher (proveniente de diversos domínios da cultura – do imaginário indígena, de mitos e lendas populares ou da própria religião católica) é utilizada pelo discurso religioso como ferramenta ideológica para manipulação e manutenção do poder político e social: 

La gente Chicana tiene tres madres. Todas as três são intercessoras: Guadalupe, a mãe virgem que não nos abandonou, la Chingada (Malinche), a mãe violentada a quem nós abandonamos, e la Llorona, a mãe que procura pelos filhos perdidos e é uma combinação das duas primeiras. A ambiguidade cerca os símbolos dessas três "Nossas Senhoras". Guadalupe foi usada pela igreja para confirmar nossa opressão institucionalizada: para aplacar índios, mexicanos e chicanos. Em parte, a verdadeira identidade de todas as três foi subvertida – a de Guadalupe, para nos tornar dóceis e pacientes; a de la Chingada, para fazer com que nos envergonhemos de nossos ancestrais indígenas; e, de la Llorona, para nos tornar um povo eternamente sofredor. Essa subversão ajudou a fortalecer a dicotomia virgen/puta.


Se você quiser saber mais sobre o mito de la Llorona e de como os discursos religiosos podem influenciar na forma como a mulher é vista e tratada em nossa cultura, sugiro a leitura de “La Llorona: mito e poder no México”, de Rosa Maria Spinoso de Montandon. Disponível aqui.

por Thaís Bueno

Desde que comecei a contribuir para este blog, venho pensando em dedicar um post à minha experiência pessoal do nascimento do Pedro, meu filho. Quem acompanha este blog sabe que alguns posts já se dedicaram às questões e aos (vários) problemas relacionados à forma como a maternidade se dá no Brasil. Aqui e aqui, você teve a oportunidade de encontrar informações valiosas e ótimas reflexões sobre as consequências de um sistema que, obviamente, por questões econômicas, privilegia o parto por cesariana nos hospitais, e o resultado negativo que isso tem para mães e bebês. 

Pois bem, minha experiência começou quando eu descobri que estava grávida e que em nove meses teria o Pedro. Apesar de a gravidez não ter sido planejada, eu não cheguei a pensar em aborto (não porque eu fosse contra o aborto - muito pelo contrário -, e sim porque sou a favor da vida). Depois daquela sensação “uau, eu não esperava por isso”, veio a sensação “então, vamos ver o melhor jeito de passar por essa gravidez, para mim, para o bebê e para o pai”. A partir daí, foi um longo e maravilhoso processo, de nove meses, em que o aprendizado sobre muitas coisas foi bem mais relevante do que enjoos e outros detalhes. Entre as coisas que eu aprendi na prática e que eu gostaria de compartilhar, estas foram as mais valiosas: 

1. A gravidez também é do pai da criança, em todos os sentidos e em todos os momentos. Obviamente, muita gente já sabe disso e vive repetindo que o homem deve participar do processo (ou “ajudar”, que é um termo que eu abomino). Mas, na prática, pela divisão de tarefas que temos em nossa sociedade, é muito fácil desistirmos de incluir o pai no processo, quando, por exemplo, você precisa ir a uma consulta pré-natal e o pai não pode ir porque precisa trabalhar. Situações como essa são só o começo de toda uma sequência de dificuldades. E, na outra ponta, está o parto em si, momento do qual, em boa parte dos casos, o pai não participa ativamente. E isso pode acontecer porque ele não tem vontade de participar, porque não “tem estômago” (ou melhor, foi ensinado a não ter) ou, simplesmente, porque o hospital não permite que ele entre na sala de parto (sim, é absurdo, mas acontece). Isso quando o hospital não cobra uma taxa para que o pai esteja presente no nascimento da própria criança. 

Nos dias de hoje, nos grandes centros (infelizmente, cidades menores ainda carecem de grupos de parto alternativo), temos opções maravilhosas para o parto, que não só colocam o pai como parte ativa no processo, mas tiram de campo a figura do médico como aquele que vai determinar o curso da experiência. Nesse caso, a intervenção do obstetra é desnecessária, a menos que uma complicação ocorra. Mas, se tudo corre bem, o parto é, exclusivamente, do bebê, da mãe e do pai. E ponto final. Tirar de qualquer uma dessas três pessoas o direito de participar ativamente do processo é uma violência. 

Cena do filme "O Sentido da Vida", do grupo Monty Python: "É menino ou menina?"
"Acho que é um pouco cedo para começar a impor papéis à criança, não?"

2. A gravidez e o parto em si são experiências valiosíssimas para aprendermos e termos mais consciência de nosso corpo. E esse aprendizado vem tanto nas leituras que você faz durante a gravidez (sim, é importantíssimo ler e se informar de tudo o que vai acontecer com você e o bebê) quanto na prática e na experiência do parto. Por exemplo, você aprende que nenhum corpo gera algo que ele não seja capaz de comportar – ou seja, aquela velha desculpa de que “o bebê é grande demais para que a mãe tenha um parto normal” é, em boa parte dos casos, pura balela, e não pode nem deve justificar uma cesárea violenta. 

Você aprende, também, que o corpo não é só uma máquina separada da mente e comandada por ela. O corpo é muito mais complexo que isso, tem memória e subjetividade, e tudo isso aflora no momento do parto (se isso for permitido à gestante, claro). A experiência do parto normal é, para a gestante, literalmente, a possibilidade de se abrir ao mundo e assumir todas as qualidades que ela tem e que ficam guardadas devido a códigos de moral e de comportamento que nossa cultura nos impõe. Se você tem consciência disso, passa a entender a dor e o grito de forma totalmente diferente como são normalmente entendidos: dor e grito não significam sofrimento, e sim partes do processo, com suas respectivas funções. A dor e o grito nos conectam a uma dimensão do nosso ser que por muito tempo é reprimida e negligenciada, que foge aos padrões aceitos por nossa sociedade, e justamente por isso dor e grito são tão evitados em uma sala de parto convencional. Por isso, no ambiente de um hospital convencional, a mulher não deve sentir dor e também não deve gritar – pelo contrário, ela deve passar por tudo aquilo quieta, deitada, submissa às ordens de uma equipe de médicos e enfermeiras que, supostamente, sabem mais sobre seu corpo do que ela mesma. Mais uma violência. 


3. A educação e a forma como as informações circulam em nosso país não ajudam, mas é importantíssimo estar ciente de tudo que determina a forma como o sistema de saúde se estrutura e o porquê de tantas cesarianas acontecerem em nosso país. Mães e pais devem ler e se informar a respeito dessas questões, e não apenas se basear naquilo que o médico diz durante as consultas. Muita gente sabe e já cansou de ouvir em programas de TV que o Brasil tem, todo ano, um número elevadíssimo de cesáreas desnecessárias sendo realizadas em seus hospitais. O que esses jornais não falam é que uma cesárea é muito, mas muito mais lucrativa para o hospital do que um parto normal. Eu não sou administradora hospitalar, mas sei que uma cesárea é um procedimento agendado, ou seja, o processo é muito mais rápido do que um parto normal, que pode (e atenção aqui para o "pode") levar horas e horas. Isso sem falar em todos os procedimentos médicos, ultraviolentos, todo o equipamento e todos os produtos farmacêuticos utilizados em uma cesárea e que, portanto, geram dinheiro para muita gente. Já o parto normal, além de mais longo, geralmente não exige intervenção médica, e por isso o lucro do hospital é menor.

Pesquisa realizada na Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto - USP [1]

Nesse sentido, é necessário que mãe e pai se informem não apenas para ficarem cientes do processo e para garantirem um nascimento saudável e humanizado, mas como postura política mesmo. Em nossa sociedade, tudo o que não gera lucro pode ser considerado algo politicamente subversivo. E não falo de ONGs, pois sabemos que ONGs (ou a grande maioria delas) geram, sim, lucro. Falo de práticas saudáveis não apenas durante a gravidez, mas durante toda a vida da criança (a alimentação e a educação infantil são outros capítulos da mesma história, que igualmente podem ser entendidos e praticados de forma crítica e política). Durante minha gravidez, o pai do Pedro e eu tivemos duas opções para o parto: por um plano de saúde privado, em minha cidade natal, onde toda a família mora e poderia ajudar no processo pós-parto; ou em um centro de saúde localizado dentro da universidade onde eu estudava, em Campinas, e que contava com uma equipe de parto humanizado e apoio fisioterápico e psicológico, que me seria oferecido pelo SUS. 

Obviamente, a segunda opção me oferecia muito mais vantagens, mas a sigla SUS assusta muita gente (e eu mesma via o SUS como um cenário pós-apocalíptico). E a dúvida ia ficando cada vez maior, sem que conseguíssemos tomar uma decisão. Até que, em uma conversa com uma grande amiga, ela me falou: “Thaís, se você escolher o plano de saúde particular, o parto vai acabar em cesárea”. Depois disso, não tive mais dúvidas: fiz todo o pré-natal pelo SUS, longe da família, contando com o pai durante o parto, que foi natural e sem intervenção médica. Foi uma experiência maravilhosa e determinante para quem eu sou hoje (e também para o Pedro e para o pai dele). 

Ou seja, meu conselho é: se está em dúvida, não tenha medo de colocar um grupo de parto humanizado na sua lista de opções para o nascimento de seu filho, ainda que o grupo signifique um parto pelo SUS. Informe-se, leia (hoje em dia há muita informação sobre parto humanizado em grupos na internet) e procure ser críticx, politicamente falando. Porque o que é politicamente bom para toda a sociedade também vai ser para seu bebê.

E para finalizar: a amiga sobre a qual escrevi e que foi tão importante para nós é hoje madrinha do meu filho. Escrevo este post em agradecimento a ela.

OBS.: As atividades do Grupo de Parto Alternativo, do qual participei durante minha gravidez, acontecem no Caism - Centro de Apoio Integrado à Saude da Mulher), localizado dentro da Unicamp - Universidade Estadual de Campinas. 

[1] BARALDI, Ana Cynthia Paulin; DAUD, Zaira Prado; ALMEIDA, Ana Maria; GOMES, Flávia Azevedo; NAKANO, Ana Márcia. Gravidez na adolescência: estudo comparativo de usuárias das maternidades públicas e privadas. Disponível aqui. Acesso em: 11 mar. 2013.


por todas nós


Hoje não queremos flores, nem desejamos ser comparadas a elas. Por isso não venham nos dizer, neste dia 8 de março, o quanto somos belas, delicadas e perfumadas. Não somos bonecas novas recém-saídas da caixa. Somos gente. Feias ou bonitas, delicadas ou brutas, nada disso vem ao caso. Porque hoje não se comemoram as qualidades femininas que supostamente nos tornam atraentes. O dia internacional da mulher foi e será um dia de luta. 

Não venham nos dizer que somos contraditórias, que nos deixamos levar pela emoção. Só se esta emoção for a revolta, a raiva de saber que há lugares do mundo em que 70% das mulheres sofrerão violência sexual em algum momento de suas vidas. Uma rosa não apaga o que viveu a jovem indiana, jogada nua para fora de um ônibus, com seu intestino perfurado pela barra de ferro que foi introduzida na sua vagina. Hoje é um dia de luto, por ela e por tantas outras, por aquelas que estão sendo violentadas e assassinas no exato minuto em que escrevemos. Hoje é um dia de luta, para que canalhas como os da banda New Hit não cometam atrocidades e saiam impunes.

Não nos falem da nossa sensibilidade, como se o sentir e o amar fossem próprios a um sexo e não a todo o gênero humano. Não nos dêem um beijo na testa, nos parabenizando por sermos boas mães. Boas mães o são por amor, comprometimento e responsabilidade, e não porque são mulheres. Péssimas mães também existem, assim como ótimos pais. Tampouco nos falem da nossa capacidade de amar incondicionalmente. Não nos encorajem a suportar o que não podemos, a aceitar o inaceitável.

Não queremos ser enaltecidas, endeusadas ou ser tidas como epítome da virtude e da civilidade. Queremos ter o direito de ser más. Queremos a igualdade que garante que a escolha entre virtude ou vício seja individual, não generalizada para todo um gênero.

Chega de contradições. Não adianta nos falar que toda a mulher merece respeito hoje e nos assediar na rua amanhã. Nós não precisamos de gentilezas. Não pedimos favores, não queremos condescendência. Não queremos ouvir como é maravilhoso ser mulher, principalmente porque o 'ser mulher' não existe, é construído cultural e socialmente.

Hoje não nos dêem flores. Exigimos direitos e justiça. O que queremos é dignidade. Queremos oportunidades iguais, salários iguais. Queremos respeito e o direito de andar onde quisermos, com a roupa que quisermos e em segurança. Queremos fazer parte de uma cultura que não sexualiza nossos corpos constantemente para vender produtos. Uma cultura que não promova o estupro. Hoje - e todos os dias - não precisamos de elogios sobre a nossa feminilidade, queremos a liberdade real de nos expressarmos e vivenciarmos nossos corpos em toda sua plenitude.

Nós, mulheres feministas, lutamos por igualdade de direitos e deveres, pelo fim da violência de gênero, pelo fim da cultura do estupro, pelo fim da objetificação das mulheres, por nossa liberdade, por nossa felicidade sexual, pela propriedade de nossos corpos, pela ideia de que mulheres são gente. Não esperamos presentes menos caros que esses neste 8 de março.

Se quiser nos parabenizar, parabenize-nos pela luta, porque é isso o 8 de março, um dia de luta, não uma homenagem à feminilidade. Não se trata de comemoração. Se algumas mulheres, em alguns lugares, trabalham, votam e significam na sociedade, de maneira independente dos homens, isso é possível porque, não muito tempo atrás, outras mulheres lutaram por isso. Algumas morreram por isso, muitas continuam a morrer porque nossa luta não atingiu ainda seu objetivo e porque a liberdade e a independência feminina ainda não são fatores globais. Se quiser nos presentear ou homenagear, de verdade, de alguma forma, denuncie o machismo, aponte essa ordem social repressora, que tantas vezes passa despercebida. Lute conosco. Subverta-se!

E que hoje seja um dia de celebração também. Celebração das conquistas dessa luta árdua, que, apesar de longe de estar ganha, nos motiva e nos apaixona. Celebração da amizade e do amor entre as mulheres, da sororidade. Celebração de tudo o que conquistamos, nos dando energia para seguir em frente...

...até que todas sejamos livres.


por Thaís Bueno 


Você também acredita que o "normal" existe?


Eu gostaria de começar este post com uma pergunta: você se lembra de qual foi a última notícia que leu sobre casos de sexismo, racismo ou homofobia? Lembra-se de quando isso ocorreu e de qual foi o desfecho da história? 

Todxs nós sabemos que episódios vergonhosos de desrespeito à dignidade de grupos sociais minoritários acontecem frequentemente, tanto no Brasil quanto em outros países, e pipocam na mídia a todo o momento. Quase todos os dias ficamos sabendo de algum crime relacionado a homofobia, racismo, desrespeito aos direitos das mulheres... E também não é raro emergir, em certos momentos, ondas de discursos de ódio contra homossexuais, negros, mulheres e outras categorias sociais minoritárias, principalmente nas redes sociais, ambiente onde muita gente acha que tem liberdade total para escrever o que pensa.


Redes sociais: revelando preconceitos since 1997


Pois bem. Nesse cenário todo, o que me surpreende é que, mesmo em uma época na qual essas questões sociais são frequentemente debatidas, tais crimes ainda ocorram. Fala-se muito sobre o feminismo, sobre questões de gênero, raça, etnia, homossexualidade. Acompanhamos, também na mídia, debates, análises, considerações – e muitas delas realmente críticas e bem intencionadas – em defesa dos grupos minoritários. As informações estão aí, para qualquer um que queira se instruir, e já ficou mais do que claro que posturas preconceituosas e discursos de ódio têm sido cada vez menos tolerados. Ainda assim, essas posturas continuam aparecendo e os discursos continuam sendo feitos. Por quê?

É óbvio que, se determinado tipo de crime ou abuso está sendo noticiado e discutido, isso é algo bom. É sinal de que estamos numa sociedade democrática (embora eu ache que, às vezes, esse “democrática” precisa de algumas aspas), e que os crimes e abusos estão aparecendo – diferentemente de algumas décadas atrás, quando sexismo, racismo e homofobia aconteciam de forma mais velada e aceita. No entanto, suspeito que há, ainda, um pequeno fator no meio disso tudo ao qual a gente não dá atenção: em muitos casos, essas minorias são tratadas como problema. 




Um exemplo disso é o discurso segundo o qual o feminismo veio para solucionar "problemas" das mulheres. E isso é um sinal de algo ainda mais preocupante: a categoria "homem" raramente é questionada ou debatida. Quantas vezes você já viu alguém perguntar como é ser homem na sociedade brasileira? Obviamente, o status da mulher e a forma como ela é tratada no nosso país é algo frequentemente debatido, assim como ocorre com negros e homossexuais. Questionamentos sobre como “como é ser negro em uma sociedade racista” ou “como é ser homossexual em uma sociedade homofóbica” são bastante comuns. Mas, curiosamente, nunca vi alguém perguntar coisas do tipo “como é para você ser branco?” ou “como você se sente sendo heterossexual?”. E então, como é ser homem?

Pensando nessas questões, acredito que, muitas vezes, a forma como a mídia e nós mesmxs tratamos essas questões de ordem social e política acaba por fossilizar os grupos minoritários como se eles fossem espécies em análise, em algum laboratório, esperando pelas considerações de um pesquisador. E, no caso do feminismo, mesmo com a intenção de defendê-lo, acabamos tratando-o o como aquilo que precisa ser debatido, analisado, discutido. Ora, mulheres, gays e negros não são problemas, gente, e não devem ser pensados assim. Da mesma forma, as categorias “homem”, “branco” e “heterossexual” também não são rótulos neutros e podem (e devem) ser questionados e debatidos.

Se o status de certas categorias de identidade não é questionado ou debatido, isso acontece por uma razão muito simples: essas categorias são hegemônicas e construídas por mecanismos ideológicos há séculos. Cabe a nós, portanto, questionar esses mecanismos. Eles é que merecem nossa atenção e nossa análise. Esses processos é que precisam ser solucionados.

"Ninguém nasce mulher"... E ninguém nasce homem tampouco



Por Thaís Bueno

Tina Modotti


Você conhece ou se lembra de ter ouvido o nome de Tina Modotti? Pode ser que não se lembre, mas você provavelmente viu essa mulher extraordinária como personagem do filme Frida (2002): Tina era aquela que abria sua casa para os artistas que faziam parte da rica e fervilhante cena artística da Cidade do México, nas décadas de 20 e 30. No filme, Tina, interpretada por Ashley Judd, organizava festas animadíssimas, além de beijar Frida Kahlo e participar ativamente do movimento comunista. Mas houve uma infinidade de outras coisas interessantes na vida dessa mulher, que o filme não mostrou.

Esta é a cena em que Tina dança com Frida, ao som da maravilhosa Lila Downs, cantando Alcoba Azul:



Eu adoro tudo que se relaciona a aspectos biográficos de grandes personagens da história, principalmente se a personagem é uma mulher. Por isso, biografias e correspondências são alguns dos meus gêneros literários favoritos. E foi isso que me atraiu à biografia, em formato de HQ, Tina Modotti: uma mulher do século XX (de Ángel de la Calle, publicado no Brasil pela Conrad Editora). O livro faz um bom passeio por toda a vida de Tina, desde sua saída da Itália, onde nasceu em 1896, até sua morte, no México (algo que, diga-se de passagem, até hoje está mal explicado). 

Biografia de Tina Modotti em HQ


Entre seu nascimento e sua morte, Tina Modotti passou por tantas coisas que sua vida poderia render uns três livros dos mais diferentes gêneros literários. Se relacionou com pessoas como Olga Benário, Luis Carlos Prestes, Frida Kahlo, Diego Rivera, Maiakóvski, Hemingway, John dos Passos, James Joyce e Pablo Neruda. Foi atriz do cinema hollywoodiano, fotógrafa genial no México e militante comunista. Participou da Guerra Civil Espanhola. Foi espiã soviética em Berlim. Como consequência de sua forte agência política, Tina morreu misteriosamente, na Cidade do México, em 1942.

Mas não vale a pena ficar aqui esmiuçando cada um dos capítulos da vida de Tina (em vez disso, minha dica é que você confira o livro, ou leia uma das várias biografias que existem sobre ela). A mim, o que mais interessa na trajetória de Tina, além de sua fotografia, é a forma como ela viveu suas paixões e seus ideais. Tina foi uma mulher genial e libertária, que viveu sua vida de acordo com suas próprias ideias e vontades. Exerceu suas potencialidades sem se limitar às convenções e às limitações sociais de sua época, o que é sempre difícil e digno de nota, em qualquer época. E isso tudo fica bem claro na biografia/HQ. Minha única ressalva ao livro seria ao título: acho que “mulher do século XX” é uma forma um tanto limitada de descrever Tina Modotti. Será que alguns dos dilemas e das crises pelas quais ela passou não poderiam ser parecidas às das mulheres de hoje?

Há um café onde se misturam políticos, pistoleiros, criminosos comuns, toureiros, putas e atrizes de terceira. A personagem mais fascinante de todas é uma fotógrafa e modelo, além de prostituta de muita classe e Mata Hari do Comintern, chama-se Tina Modotti... (Kenneth Rexroth)

 Quando quero me lembrar de Tina Modotti devo fazer um esforço, como se tratasse de recolher um punhado de névoa. Frágil, quase invisível. Eu a conheci ou não a conheci? (Pablo Neruda).

Abaixo, algumas artes fotográficas de Tina Modotti:

Sombrero, martelo, foice (1927)

Bandoleira, milho, violão (1927)

Mãos de titereiro (1929)

Lendo El Machete (1928)

Diego Rivera e Frida Kahlo, em passeata, fotografados por Modotti (1929)

Mulher carregando yecapixtla (1929)




Você pode conferir mais fotografias de Tina Modotti neste site do MoMA: http://www.moma.org/collection/artist.php?artist_id=4039.


por Thaís Bueno


Você se lembra de uma polêmica ocorrida na mídia no final de 2012, envolvendo uma marca de lingerie e uma propaganda de gosto extremamente duvidoso? Na ocasião, a propaganda exibia uma favela do Rio de Janeiro, em processo de pacificação, um oficial caído no chão e uma mulher, negra, vestindo lingerie. O slogan: “Pacificar foi fácil, quero ver dominar”. A polêmica, claro, deveu-se ao fato de o Conar, órgão resposável pela regulação do que vai ou não ao ar nos meios de comunicação, determinar que se tratava de uma propaganda sexista, que vulgarizava a mulher e banalizava o processo de pacificação das favelas do Rio de Janeiro. 

Campanha da Duloren, de 2012, retirada do ar pelo Conar
Lembro que, na época, minha opinião sobre o anúncio era muito clara: ora, a propaganda era, em último caso, de péssimo gosto, e para mim não era novidade algo do tipo surgir na mídia brasileira. O que me surpreendeu, no entanto, foi a reação de muitas pessoas do ramo publicitário, nas redes sociais, taxando a decisão do Conar como ato de censura e postura politicamente correta. E eu pensei comigo: ora, qual o problema com o politicamente correto?

Pois bem, foi nessa época que comecei a notar que cresce há algum tempo, principalmente entre homens e mulheres que acreditam fazer parte de uma certa “intelectualidade” brasileira (que no entanto é bastante rasa e imediatista), um certo desprezo ao que se acredita ser o politicamente correto. Para essas pessoas, a atitude politicamente correta seria uma postura “quadrada”, que restringe liberdades individuais. Comentários como “ora, que deixem a fulana tirar a roupa no anúncio! Estamos em um país tropical, onde as mulheres usam menos que isso nas ruas... Não sejamos hipócritas!” e “a censura voltou e o Brasil está regredindo... daqui a alguns anos, a publicidade não poderá dizer mais nada!” estavam entre as pérolas que li e ouvi.  








O mesmo tipo de reação às vezes surge quando certas pessoas leem um texto que apresenta marcas de gênero. Muita gente lê uma frase como “Damos boas-vindas a todos(as) os(as) presentes” e não gosta, argumentando que as marcas do feminino nada mais são do que uma intrusão desnecessária, intrusão essa que “polui” o texto. Por que será que também não fico surpresa?

Se pensarmos bem, tanto no caso da modelo de lingerie na TV quanto no caso da linguagem com marcas do feminino, o que está em jogo não é exatamente uma simples questão de “proibição de um determinado modo de falar”, e sim uma questão de modo de agir. Obviamente, para quem acha que uma piada preconceituosa ou um linguajar ofensivo à mulher não afeta a forma como sentimos a realidade e vivemos neste mundo, o politicamente correto não faz sentido. Para essas pessoas, o “político” está relacionado a moralidade, e não a respeito e convivência. Para elas, portanto, o politicamente correto é apenas algo que restringe sua liberdade de dizer o que quiser (algo que, inclusive, já foi discutido aqui no Subvertidas).

No entanto, se pensarmos que o que lemos e escrevemos pode afetar efetivamente nossa percepção da realidade, a política toma outra dimensão e o politicamente correto passa a ser uma das armas de que podemos dispor para subverter ideologias e discursos dominantes. Por exemplo, quando optamos inserir uma marca de gênero em nosso texto, estamos provocando, pela linguagem, um estranhamento a algo que, não fosse por essa “intrusão”, passaria em branco (e vale também pensar nos efeitos dessa expressão, “passar em branco”, que acabei de usar). É como se, inserindo “(as)” ao final de uma palavra masculina, estivéssemos nos lembrando de que há ali, também, a possibilidade da existência de uma mulher. E, mais do que isso, pode nos levar a perceber como a condição masculina nos parece ser neutra. É uma condição dominadora e que, aparentemente, não precisa ser colocada em debate. Ela sempre se apresenta a nós como uma condição natural, uma condição que vem a priori, uma condição à qual o feminino se opõe. 


Se tomamos em consideração todas essas questões, podemos entender, também, porque é que o termo “feminista” carrega, para muitas pessoas, uma conotação negativa, como se a feminista fosse uma mulher radical, inadequada, difícil. E também porque, mesmo quando se trata de alguém que se opõe à ideia do sexismo, essa pessoa prefere se denominar como alguém “em favor dos direitos das mulheres” ou “feminina”, atenuando assim os efeitos do termo “feminista” e evitando para si o rótulo injusto que se costuma aplicar às feministas. Mas, será que se trata apenas de uma questão de “mudar de nome”? Será que, mudando o nome, mudamos também aquilo a que nos referimos? O que uma mudança de nome implicaria?

Parece que, no tempo de Shakespeare, “mudar o nome” não significava muita coisa, não afetava muito o mundo tal como era. A rose by any other name would smell as sweet (“Se uma rosa tivesse outro nome, ainda assim teria o mesmo perfume”) é um dos trechos da mais famosa peça de Shakespeare. Mas, hoje, séculos após a publicação de “Romeu e Julieta”, não dá mais para pensar assim, gente. Acredito que mundo mudou, e muito. Nos dias de hoje, por algum motivo, essa suposta arbitrariedade entre o que se diz e a realidade está fragilizada. O dizer e a forma de dizer podem ser a própria ação (toda a obra de Nietzsche está aí para nos mostrar isso). E, embora o cuidado com a linguagem não resolva milagrosamente problemas que são sociais e políticos (e que, obviamente, pedem também ações políticas e sociais diretas, não apenas linguísticas), ao prestarmos atenção àquilo que falamos, nós despertamos para algumas questões importantes, e aquilo que lemos e escrevemos pode se apresentar de forma diferente. A forma de dizer, às vezes, diz por si própria. 


A luta contra os preconceitos terá que ser uma luta persistente e incansável. Será preciso inúmeras tentativas e, ainda assim, não haverá nenhuma garantia de que o mundo estará livre de todos os preconceitos e a linguagem, politicamente "limpa" de uma vez por todas. Entretanto, uma das maneiras mais eficazes de combater os preconceitos sociais que, ao que tudo indica, sempre existirão, é monitorando a linguagem por meio da qual tais preconceitos são produzidos e mantidos e obrigando os usuários, em nome da linguagem politicamente correta, a exercer controle sobre sua própria fala, e, ao controlar sua própria fala, constantemente se conscientizar da existência de tais preconceitos.
Intervir na linguagem significa intervir no mundo. (Kanavillil Rajagopalan, "Sobre o porquê de tanto ódio contra a linguagem 'politicamente correta'")

 

Ainda que tenha outro nome, o sexismo vai continuar fedendo



por Thaís Bueno

La Malinche, de Rosario Marquardt, 1992
Se existisse um hall of fame para tradutorxs, com certeza no topo da lista de homenageadxs estaria uma índia, que, não bastasse ter sido a tradutora do original, foi também amante dele.

Trata-se de La Malinche, como é mais conhecida (mas também foi chamada de Malinalli e Malintzin na tribo onde cresceu). La Malinche foi uma princesa de origens asteca e maia, nascida no final do século XV, na região onde hoje fica o México, e ainda criança foi vendida como escrava, por seu padrasto, a um comerciante local. Em seguida, com a invasão do México pelos espanhóis, La Malinche foi parar nas mãos de Hernan Cortéz, espanhol que foi figura central no episódio da conquista do México.

Ao perceber que Malinche se virava muito bem com idiomas, os espanhóis a recrutaram como intérprete de Cortéz. A partir de então, ela passou a traduzir, para o invasor, não apenas as palavras do imperador asteca Montezuma, mas tudo o que os astecas discutiam a respeito da chegada dos espanhóis.

No século XVI, a índia Malinche foi intérprete do espanhol Hernan Cortéz,
traduzindo, da língua nahuatl, as planos e os planos do imperador asteca Montezuma
e contribuindo para o projeto de conquista do México pelos espanhóis
(Ilustração: Lienzo de Tlaxcala)

Obviamente, essa "mexicana nativa", se é que se pode falar assim, foi extremamente influente nos planos de conquista orquestrados por Cortéz, planos esses que terminaram em um dos maiores genocídios de que se tem notícia. E é muito interessante pensar que, muitos anos após a conquista do México, durante o processo de independência e de formação do imaginário nacional do país (uma nova ordem patriarcal e religiosa), a figura de Malinche reapareceu, passando a representar a mulher traidora e vil, que se entregou (linguística, cultural, militar e sexualmente) ao inimigo, e assim entregou ao invasor todo o México. Ao contrário da imagem da Virgem de Guadalupe, a virgem mestiça que representaria a face “santa” da cultura mexicana, Malinche carregaria a imagem de puta (e não deixa de ser engraçado e irônico que, em uma cidade do Texas, EUA, exista um bairro em que as ruas Guadalupe e Malinche se cruzam). “Hijo de La Malinche”, “malinchista”, “à La Chingada” são todas expressões pejorativas (que aqui no Brasil têm correspondentes como "filho da puta" e "para a puta que o pariu") que remetem à figura da índia e são bastante usadas no México. 
Vista do Google Maps da irônica esquina em que a rua Guadalupe
e a avenida Malinche se cruzam em Laredo, Texas, EUA

Pensando em toda essa história e também que a História que conhecemos é sempre contada segundo uma ideologia, não me surpreende que La Malinche tenha se transformado em palavrão na boca dos mexicanos.  Ela foi uma mulher dotada de um poder extraordinário, dado o contexto político. Como intérprete de Cortéz, ela estava na posição singular de decidir o que ambas as partes do conflito iriam saber e o que seria mantido em segredo. Ela não apenas estava passando informações de uma língua para outra, mas tinha o poder de decidir se mudaria ou não o curso da história, a cada frase. Uma mulher como ela, com tamanho poder, não poderia ser admirada, nem respeitada. Ela teria que ser rebaixada e ridicularizada, tanto naquele momento específico, quanto em todo o desenrolar da história do México. 

Essa questão me faz lembrar um ótimo professor que, certa vez, em sala de aula, contou para a turma uma das inúmeras e péssimas piadas sobre a “loira burra”, que todo mundo conhece. A turma riu. Em seguida, o professor perguntou: “vocês sabem por que riram?” A turma em silêncio. Ele próprio respondeu à pergunta, explicando que, pelo simples fato de a loira ser loira, ou seja, se encaixar no padrão de beleza que o nosso país mais valoriza, ela não pode nem deve ter outras características positivas, como inteligência ou bom humor, pois, caso isso aconteça, seu poder será muito grande e ela poderia ameaçar o status quo.

A história de La Malinche pode nos ensinar muito sobre o porquê de a “loira” sempre ser “burra” em nossas piadas. No entanto, há alguns anos, a figura de La Malinche tem sido resgatada por estudiosas (e isso me torna muito otimista) que passaram a defender para a indígena a imagem da mulher que representa a abertura ao outro e que, em uma situação de poder, o utiliza para transpor limites de gênero e cor, celebrando o hibridismo e a mestiçagem em detrimento de um ideal de pureza.

 Norma Alarcón[1], feminista chicana, buscou em Todorov uma boa e nova definição para papel de La Malinche na história mexicana e latino-americana:

primeiro exemplo e, portanto, símbolo da hibridação de culturas, ela proclama o estado novo mexicano e, mais do que isso, o estado presente de todxs nós, uma vez que, se não somos todxs bilíngues via de regra, somos, inevitavelmente, bi ou triculturais. La Malinche glorifica a mistura em detrimento da pureza, bem como o papel dx intermediárix. Ela não se submete ao outro simplesmente. Ela adota a ideologia do outro para melhor compreender sua própria cultura, conforme se pode ver na eficácia de seu comportamento (mesmo que "compreender" signifique aqui "destruir").


[1] ALARCÓN, Norma. “Traddutora, traditora: a paradigmatic figure of chicana feminism”, in Inderpal Grewal & Caren Kaplan (org.) Scattered hegemonies. Postmodernity and transnational feminist practices. Minneapolis & London: University of Minnesota Press, 1994, p. 43-56.
 

Como Conquistar um Homem