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Hoje, no Versos e Subversas, faço o cruzamento de poesias de duas grandes intelectuais e artistas (Rosário Castellanos e Idea Vilariño) para discutir um pouco da """educação""" afetiva das mulheres, a construção e imposição de sua dependência emocional e sua vulnerabilidade ao amor fatalista.



 

 MEDITAÇÃO NO UMBRAL
(Rosário Castellanos, México, 1926-1974)

Não, não é a solução
atirar-se debaixo de um trem como a Ana de Tolstoy
nem consumir o arsênico de Madame Bovary
nem aguardar na planície solitária de Ávila a visita
do anjo com a flecha
antes de amarrar o manto à cabeça
e começar a atuar.

Nem concluir as leis geométricas, contando
as vigas da cela de castigo
como o fez Sor Juana. Não é a solução
escrever, enquanto chegam as visitas,
na sala de estar da família Austen
nem fechar-se no ático
de alguma residência da Nova Inglaterra
e sonhar, com a Bíblia dos Dickinson,
debaixo de uma almofada de solteira.

Deve haver outro modo que não se chame
Safoni Mesalina nem María Egipcíaca
nem Madalena nem Clemencia Isaura.
Outro modo de ser humano e livre.
Outro modo de ser.




Neste primeiro poema, Rosário Castellanos busca repetidamente negar a vida de submissão e de condeanação trágica a que estão submetidas as mulheres: seja pela opressão social direta dos homens sobre sua liberdade de ação seja pelas saídas desesperadas a que se lançam as mulheres dominadas por amores  fatais. Ela nega as figuras típicas da subjetividade feminina na literatura e também um ou outro caso real, como a de Sor Juana, religiosa católica e poetisa, considerada a primeira feminista das Américas. São meditações que Rosário realiza sobre o destino das mulheres, seu fim, sobre o tipo de vida e morte que, em geral, têm ("meditação no umbral") e dialoga com sua própria experiência concreta: é público seu enorme sofrimento decorrente de suas relações amorosas conflituosas com o "don juan" Ricardo Guerra, que a mal tratava e a traiu diversas vezes. Essa situação conduziu Rosário à depressão, à hospitais psiquiátricos e tentativas de suicídio. É justamente contra este fim trágico, e que parece inevitável às mulheres, que se rebela Rosário.

 


A CANÇÃO E O POEMA
(Idea Vilariño, Uruguai, 1920-2009)

Hoje que o tempo já passou,
hoje que já passou a vida,
hoje que me rio se penso,
hoje que esqueci aqueles dias,
não sei porque me desperto
algumas noites vazias
ouvindo uma voz que canta
e que, talvez, é a minha.
Quisera morrer — agora— de amor,
para que soubesses
como e quanto te queria,
quisera morrer, quisera… de amor,
para que soubesses…
Algumas noites de paz,
— se é que as há todavia—
passando como sem mim
por essas ruas vazias,
entre a sombra estreita
e um triste odor de glicínias,
escuto uma voz que canta
e que, talvez, é a minha.
Quisera morrer — agora — de amor,
para que soubesses
como e quanto te quería;
quisera morrer, quisera… de amor, para que soubesses…

Idea Vilariño, neste outro poema, expõe a típica imagem do ser "morto de amor" ou que deseja "morrer de amor": a incompletude e o vazio de sua vida sem o homem amado e a anulação de sua subjetividade evidente pelo desejo de morte. Assim como no caso de Rosário, é público o relacionamento conturbado de Idea com o grande escritor uruguai Carlos Onetti... Idea sempre o amou incondicionalmente e por isso sofreu terrivelmente, já que Onetti parecia oscilar em seus interesses com Idea, desenvolvendo um jogo de aproximações e desprezo regular. Idea se questionava por que sempre voltava a Onetti, o "burro, cachorro, besta" a quem dedicou todos seus poemas de amor. Por que o procurava mesmo depois das mais terríveis brigas? Idea, aparentemente, nunca conseguiu dar uma resposta clara a essa pergunta. Ironicamente, foi através de seus poemas de amor que, em geral, retratam seu sofrimento e anulação, que Vilariño se tornou conhecida. Impressionante ver como mesmo a raiva não tem lugar em seus poemas, a não ser uma raiva "fria", que se mostra indiretamente como no poema abaixo no desejo de morte do amante.



TE ESTOU CHAMANDO
(Idea Vilariño, Uruguai, 1920-2009)

Amor
desde a sombra
desde a dor
amor
te estou chamando
desde o poço asfixiante das recordações
sem nada que me sirva nem te espere.
Te estou chamando
amor
como ao destino
como ao sonho
à paz
te estou chamando
com a voz
com o corpo
com a vida
com tudo o que tenho
e que não tenho
com desesperação
com sede
com pranto
como se fosses ar
e eu me afogasse
como se fosses luz
e eu morresse.
Desde uma noite cega
desde o olvido
desde horas fechadas
no solo
sem lágrimas nem amor
te estou chamando
como a morte
amor
como a morte.


Tanto Rosário como Idea foram das maiores intelectuais de seu tempo, mulheres engajadas e lutadoras e que, mesmo assim, enfrentaram enormes conflitos internos, profundas contradições em suas relações afetivas. Isto porque uma sociedade machista as educou (e ainda educa as mulheres) para a dependência afetiva, para a aceitação do amor fatal como modelo, para a anulação de sua subjetividade, para que esta se veja como frágil, incapaz ou pouco capaz de realizar diversas atividades "próprias" dos homens, emocionalmente devotadas a um só grande amor (a um só grande homem) e, portanto, tendendo a estabelecer uma relação com o sexo menos livre. Não é preciso pensar muito pra perceber que isso forja  uma mulher com baixa auto-estima, totalmente ou em-grande-medida incapaz de estar sozinha e de fazer escolhas mais livres acerca de seus amores e relacionamentos.


Essa é a contradição profunda que as duas poetas enfrentaram com as armas de que dispunham: sua arte e sua luta concreta para transformar a sociedade. Acredito que ao espelhar em poesia seus sentimentos de submissão ou de amor trágico buscavam, de alguma forma, romper com esse ciclo, seja pelo questionamento direto (como em Rosário, ainda que sem encontrar possibilidades claras de saída), seja pela exposição nua e crua, mas profundamente elaborada, de seu sofrimento (como nos poemas de Idea). Dar palavras a esses sentimentos, transformar a opressão em poesia já é enfrentar a opressão íntima (socialmente construída), é se ver no espelho e permitir que outras também se vejam. E isso não é pouco. Mais do que expor as "fragilidades" de duas poetas, o intuito deste post, pelo contrário, é evidenciar a grandeza de suas lutas, a força de Rosário Castellanos e Idea Vilariño.


A luta feminista é profunda: deve não só enfrentar os casos mais cotidianos (e por isso mesmo terríveis) de violência contra as mulheres, mas também os aprisionamentos mais sutis da afetividade e da sexualidade feminina, libertando não só as mulheres de sua condicionada "fragilidade" e dependência afetiva, mas também auxiliando os homens a se libertarem de seu canalhesco don juanismo.


(Texto e traduções de Jeff Vasques) 

Limites. Ainda dá tempo?



Os pais de adolescentes convivem com um eterno desafio, que é impor limites aos filhos. "É um fenômeno da alternância de gerações", teoriza o psiquiatra paulista Içami Tiba. "Os pais dos jovens de hoje foram educados de forma autoritária e, com medo de repetir o erro com os próprios filhos, acabaram caindo no extremo oposto, que é a permissividade." Para os pais que descuidaram da tarefa de colocar freios na infância e agora têm de lidar com adolescentes intratáveis, uma má notícia: com o tempo, fica difícil reverter esse quadro. Mas não é impossível, claro. "O adolescente é um ser em desenvolvimento. Mesmo que seja um caso perdido, os pais nunca podem partir dessa premissa", afirma o psiquiatra Francisco Baptista Assumpção Junior, do Hospital das Clínicas de São Paulo.

Para auxiliar os pais nessa tarefa espinhosa, existe uma vasta literatura sobre o assunto. Lançado recentemente, Limites sem Trauma, da educadora carioca Tania Zagury, já vendeu 50.000 exemplares de dez edições. Disciplina – O Limite na Medida Certa, de Içami Tiba, tornou-se um sucesso, com 356.000 livros vendidos em 36 edições. O que os pais devem ter em mente, em primeiro lugar, é que não adianta agir como no passado. Antigamente, quando um filho queria fazer alguma coisa que os pais reprovavam, bastava um deles dizer: "Você não fará isso porque eu não quero". E o assunto estava encerrado. Isso não funciona mais. Os jovens são mais bem informados. São mais questionadores. Isso é bom. Significa que, no futuro, não irão aceitar qualquer coisa que lhes for imposta. Os pais, no entanto, ganharam um trabalho extra. Não basta proibir. É preciso justificar, com bons argumentos, a proibição. Antigamente, eram os filhos que tinham de dar explicações aos pais. Hoje, são os pais que, na hora dos limites, as dão aos filhos. "O pai moderno é aquele que estabelece limites com fundamentos educacionais", ensina Tania Zagury.

Os especialistas concordam em um ponto: a boa educação do adolescente é aquela que começa na infância. É preciso estabelecer regras claras desde cedo para evitar futuros problemas de comportamento. A falta de limites é encarada como algo negativo pela própria criança. Para ela, isso pode ser sinônimo de falta de afeto. Outro problema frequente é a discordância entre os pais. É importante que ambos cheguem a um acordo antes de impor as regras. Caso contrário, a criança fica sem saber quem está certo. Ou, pior, pode explorar essa contradição. Os especialistas comparam o processo educacional a um barco. É importante que, desde a infância, os pais remem na mesma direção.

Trata-se de um desafio complicado, mas é essencial enfrentá-lo. A falta de limites não causa apenas constrangimento familiar. Um jovem que burla as regras em casa e não é punido tende a fazer o mesmo fora. E as punições do mundo real costumam ser mais severas. Pesquisas mostram que grande parte dos adolescentes de classe média que dirigem embriagados, tomam drogas ou entram em brigas de gangues – provocando acidentes ou arriscando a própria integridade física – vem de famílias que não souberam impor limites a eles.










Maria C.


Deparo-me com uma notícia que me prende a atenção: músicas infantis polêmicas, descritas pelo artista como “sacanas, polêmicas”. Trata-se de um projeto, um álbum criado pelo artista Carlos Careqa chamado “Palavrão Cantado”, que terá músicas como “mamãe onde é que fica o cu”, falando ainda sobre peido, arroto, masturbação, morte etc., segundo site da Folha. 

A coisa me soa familiar... Onde eu já vi isso? Ah, na Televisão é claro. Em um dos programas mais misóginos já criados: Two and a half man. Uma coisa parecida, of course! Charlie Harper cria um disco infantil e vira um sucesso porque canta muitas besteiras nas músicas, mais ou menos essas, sobre peidos, arrotos e peitos de mulheres (Charlie não perde sua oportunidade, sendo um chauvinista caricato). As crianças adoram e vende feito água.

Não estou a apontar comparações, que besteirada. A vida imita a arte, ou qualquer coisa que o valha, não é?

De todo modo, tanta energia investida em nada produtivo...

Estamos sempre a repetir o quanto necessitamos reestruturar o sistema educacional, os velhos padrões, alterar as visões preconcebidas. Mas essas ações não são sinônimas da implementação de ideias reducionistas ou simplistas de modernidade, tais como a introdução fluente e precoce dos palavrões no vocabulário infantil.

Não que falar palavrões seja automaticamente errado. Uma criança normalmente repete um palavrão sem sequer saber o que diz. Mas e daí, o que isto lhe acrescenta? Falar sobre masturbação ou questões adultas, como o Viagra que seu avô toma, o que isso lhe acrescenta?

Que tal se discutíssemos, nessas mesmas músicas, questões outras, tão necessárias, como os papéis das pessoas na sociedade? Que tal se as músicas tratassem sobre igualdade, respeito?

Seria muito interessante uma música infantil que expressasse que as crianças podem ter amigos de todas as cores, ou de todas as classes. Que esclarecesse que meninos e meninas têm de se respeitar sempre, que as meninas podem ter uma profissão fora da cozinha, e que não há problema se os meninos quiserem se aventurar nela.

Se o universo infantil escolar se utiliza tanto da linguagem musical, há tanto preconceito de gênero nos brinquedos, porque a promoção por meio do desserviço através da música?

A mídia, seja ela comercial, artística, ou que nome lhe seja atribuída, atua como uma grande instituição – estatal ou privada, a lógica é sempre a mesma: é a administrativa. Tudo são números. Vai dar lucro? Vai, então é esse o negócio. Não vai dar lucro? Não vai, então estamos saindo fora.

Se desejarmos algo melhor para nosso futuro, e digo, para nossas sementes, estamos por conta. Eis a prova. 



por Thais Torres
Em uma das escolas em que trabalho, eu e outras professoras começamos a desenvolver um projeto para discutir os sentidos da sexualidade na adolescência. Repensar padrões de beleza, causas e consequências da gravidez precoce e os significados do prazer são alguns dos assuntos que vão ser abordados. Além disso, é claro, repensar a cultura machista tão própria da nossa sociedade que condena e produz a "periguete" e que diviniza e produz o "garanhão". 
Outro objetivo (para mim um dos mais importantes) é pensar a formação da cultura do estupro. Felizmente, não estamos lidando com pequenos estupradores, no sentido de criminosos que deveriam ser condenados. Mas há uma permissividade com comportamentos de uma certa agressividade sexual, algo que choca não tanto pela pouca idade dos envolvidos, mas pelo fato de que está em formação um pensamento que pode levar a aceitação do estupro como algo moralmente aceitável.

Vide o caso recentemente noticiado pela Folha de São Paulo. O jornal relata que uma menina de 13 anos foi agredida por colegas de 14. Segundo especialistas consultados pelo jornal, "Situações como essas são, sim, violência sexual". Segundo a direção da escola particular paulistana, "É grave, mas não se trata de estupro". Fizemos uma proposta de redação para discutir o assunto com os alunos. Nas aulas, chamamos atenção para a diferença significativa entre a composição das duas frases. De certa forma, me parece que a direção da escola acha que o acontecido não é tão grave por que ainda não se constitui um estupro propriamente dito. Em um afã desesperado para abafar o caso e não afetar as matrículas, silenciam-se as discussões, envolvidos são expulsos por alguns dias e tudo volta ao normal.

A educação no Brasil parece se resumir a uma luta para que os alunos sejam bem sucedidos no vestibular e a escola, bem sucedida na manutenção da ordem e da disciplina. Nada parecido acontece na escola para a qual trabalho. Pelo contrário, recebemos total apoio para desenvolver nosso projeto. Mas sabemos que pais vão reclamar por estarmos discutindo sexo na escola. Que os adolescentes vão se indignar por estarmos denunciando práticas como a abordagem agressiva de meninos "garanhões" fazem com as "periguetes", condenadas por todos (até por elas mesmas). Que pais e alunos se revoltarão se o contato erótico do "casal hetero" precisar obedecer às mesmas regras que as "meninas que namoram" devem seguir.
No fundo, o dilema de quem se importa não é outro senão este: uma luta contra a uniformização que transforma todos os alunos em vestibulandos e um esforço para ajudar a formação de seres humanos plenos nos mais diversos aspectos, inclusive a sexualidade.
Procurando por imagens para ilustrar o post, encontrei essa clara demonstração de que o problema maior não é a sexualidade precoce, mas a distorção dos sentidos da sexualidade, ensinada desde cedo. 


PS: Esse post é também um pedido de sugestões para assuntos que podem ser abordados no nosso projeto. Bem como um agradecimento sincero a todo mundo que trabalha comigo e que, como eu, também se importa.


por Roberta Gregoli

Uma leitora querida nos enviou um vídeo que me inspirou a abordar um assunto no qual venho pensando faz algum tempo: a biologia da evolução. Reproduzo abaixo o vídeo, que serve como ilustração para alguns pontos que quero traçar, mas já adianto que o conteúdo é ofensivo, de mau gosto e traz informações imprecisas:


Eu já havia detectado vários problemas no vídeo, mas para os detalhes científicos que desconheço entrevistei um amigo que faz doutorado na área aqui na Universidade de Oxford. Como ele não fala português, expliquei a tese do vídeo e os principais argumentos mobilizados e a primeira reação dele foi: "Um abastardamento da ciência!".

A partir daí ele foi me apontando as barbaridades imprecisões propostas pelo vídeo, que discuto abaixo, incorporando também a minha interpretação enquanto feminista.


Mito: Os poros nos seios e bunda liberam mais feromônios, por isso os homens gostam mais dessas partes


Primeiro, a atração por seios e bunda está ligada à visão, não ao olfato. Apesar da explicação capenga do 'professor' - que, aliás, acho que diz mais sobre o seu gosto pessoal por sexo oral (e aqui fica o meu único ponto positivo para ele!) - ninguém fica excitado por cheirar um seio, como qualquer assinante da Playboy pode atestar.

Em segundo lugar, nós, feministas, sabemos muito bem que os ideais de beleza são culturalmente construídos e socialmente impostos. Como já vimos, o padrão de beleza na Idade Média era de seios pequenos e testas largas. Como explicar essa mudança de acordo com o argumento do vídeo? Os poros dilatados que liberam feromônio migraram da testa para a bunda?


Mito: Lucy se escondia numa moita e o cheiro de sua genitália atraía parceiros sexuais


Ahn? Numa moita? Ele estava lá pra ver, né? Só pode, porque do punhado de fósseis existentes, não há um único que tenha sido encontrado numa moita ou com qualquer vestígio que possa indicar esse padrão para a cópula.

Marofa de pomba nada!
Igualmente sem embasamento é a história do cheiro da vagina, elegantemente colocada pelo 'professor' como "marofa de pomba". E é este o ponto mais negativo do vídeo, na minha opinião: ele reforça um clichê dos mais toscos (quem nunca ouviu piadas que comparam o cheiro da vagina ao do bacalhau?). A associação entre vagina/mulher e sujeira/impureza é antiquíssima, presente em diversas religiões tradicionais, e essa é uma maneira de atualizá-la para um contexto contemporâneo laico. Parabéns por esse desserviço, 'professor'!


Mito: A migração do canal vaginal criou a família nuclear


O bonobo (Pan paniscus), a espécie mais próxima do ser humano, e a única em que a fêmea tem o canal vaginal na mesma posição que as mulheres, não se organiza em torno da família nuclear. Ponto. Toda a tese da 'aula' vai por água abaixo.

E nem precisamos entrar no detalhe de que não é preciso transar na posição papai-e-mamãe para ser capaz de identificar x parceirx. Ah, e 'papai-e-mamãe' em inglês é missionary position, não father and mother, ok?


Just-so stories


Esse tipo de narrativa sem embasamento científico sólido é chamada na ciência e na filosofia de just-so stories ('foi mais ou menos assim', numa tradução livre) ou falácia ad hoc. Explicações desse tipo concatenam fatos observáveis - A, B, C - e criam uma narrativa (fictícia) que mais ou menos explica como se chegou de A a B a C.

E vale lembrar que a evolução não é um agente inteligente, com uma agenda presciente, sabendo onde quer chegar. Muitas coisas acontecem simplesmente por acaso e tentar encontrar um único fator que explique algo tão complexo como a formação da família nuclear não passa de um disparate.

Fato - hipótese - resultado: Essencialismo biológico


O Gene Egoísta


Mesmo Richard Dawkins no livro O Gene Egoísta, de 1976, considerado um divisor de águas do campo da biologia da evolução, não escapa do sexismo.

O livro traz um capítulo cujo título, "Batalha dos sexos", já anuncia o contexto no qual o autor enxerga as diferenças sexuais. O capítulo é permeado por linguagem sexista, com o óvulo sendo o "gameta honesto" e o espermatozoide o "gameta explorador" (p. 142*), os homens como sendo 'imprestáveis' ("Males, then, seem to be pretty worthless fellows", p. 143; homem como ser inútil é uma das estratégias de opressão do patriarcado - ao constantemente colocar a mulher no lugar retórico de superior, justifica-se maior cobrança e imposições às mulheres); e é interessante quando ele começa a narrar um cenário fictício em que existem dois sexos, iguais e sem hierarquia, A e B (pp. 300-301), e no final da história acontece, sem querer querendo, que A é o sexo masculino...

Não é o caso de atacar a biologia da evolução em si, mas a frequente falta de embasamento crítico e ético ao se fazer ciência. A ciência não é produzida no vácuo e xs cientistas inevitavelmente trazem sua bagagem cultural e social para suas hipóteses, análises e conclusões. Basta estudar um pouco da história da sexualidade para ver como a ciência já tratou as mulheres de maneira perversa. Não ter consciência e não incluir essa dimensão crítica com relação à própria formação resulta quase certamente na (re)produção de conhecimento preconceituoso.

De fato, sob o selo legitimador da ciência, muitos estereótipos de gênero nocivos são propagados: como o cérebro 'enxerga' homens e mulheres de maneira diferente ou mesmo como mulheres negras são menos atraentes que mulheres de outras etnias (sim, racismo puro por parte do doutorando da LSE, que mais tarde foi totalmente rechaçado). Essas pesquisas até têm sua utilidade, já que escancaram o que nós, feministas, tanto repetimos: que existe uma diferença na percepção de homens e mulheres e que o padrão de beleza imposto é branco, no caso desses dois exemplos. Mas o problema é que, despidas de questionamentos de ordem política, social e cultural, elas acabam por reforçar o que nós com tão duras penas tentamos minar e questionar.

Ao prover explicações baseadas somente na dimensão biológica (cérebro, cromossomos, hormônios), essas pesquisas afirmam as desigualdades como naturais, não sociais. Muitas vezes ignorando o debate natureza x cultura, esse tipo de pesquisa coloca a cultura (normalmente machista, classista e racista) como consequência inescapável de um hardware pré-instalado em nós, seres humanos.

Em contrapartida, o que nós, feministas, propomos é, no mínimo, que fatores sociais sejam levados em conta e que esses estudos sejam vistos não só como inseridos numa cultura como também como instrumentos de sua propagação. É por isso que precisamos de mais mulheres e mais feministas no campo da biologia da evolução.


* As páginas se referem ao original em inglês: Dawkins, Richard. The Selfish Gene: New Edition. Oxford, New York: Oxford University Press, 1989.

por Mazu

Existem muitos estigmas sociais que marcam as mulheres, existem os mais novos e os mais antigos. A questão da limpeza, que provavelmente tem algo que ver com a da pureza, é provavelmente um dos estigmas mais antigos. Do meu ponto de vista, um dos mais irritantes. Ele se manifesta de várias maneiras e em várias situações, hoje, vou listar três que, especialmente, chamaram minha atenção nos últimos dias.

No banheiro do trabalho, agora, existem várias mensagens do que a mulher tem que fazer para "não jogar a compostura pelo ralo", todas essas mensagens que aparentemente nos ensinam a ter compostura trazem princípios básicos de higiene e até um princípio errado de higiene (diz que devemos deixar a tampa levantada, quando a gente sabe que dar descarga com a tampa levantada espalha partículas pelo banheiro inteiro). Sinceramente, não me oponho às questões de higiene e ficaria mais feliz se as pessoas as seguissem, agora, por que cargas d'água isso tem algo com a minha compostura? Lógico, porque somos mulheres e isso significa que temos que ser limpinhas. Perceba, não estou dizendo que as mulheres nem os homens devem ser sujinhos, só estou tentando mostrar que higiene para mulher é quase uma questão moral. Vai vendo. No banheiro dos homens, não tem nada para ler. Coitadinhos.

Enfim, algo me diz que esse estigma da pureza e da limpeza é o que transformou a gente nas faxineiras oficiais do mundo. Aparentemente, nenhum homem pode fazer uma faxina melhor do que uma mulher. A gente sabe que isso é mentira, cuidar da casa é uma tarefa super difícil, mas todos e todas podemos aprender. Bom, nessa de limpeza ser tarefa de mulher, tudo que diz respeito à faxina, cuidar da casa e cuidar dos homens está voltado para o público feminino. Bons exemplos são estes dois materiais promocionais das marcas Veja e Vanish.

Captura de tela do site da Vanish: a gente limpa primeiro,
depois vamos trabalhar e conquistar nosso espaço

A questão aqui é a forma como somos educados, a Júlia já falou disso aqui, e já indiquei leitura sobre isso aqui. Enfiam na cabeça das meninas desde cedo que a limpeza é uma de suas características: ser porquinho, para um menino, é feio, para uma menina, uh, é a desgraça da família. Isso pode ser um problema, por exemplo, para as meninas que gostam de coisas mais atléticas. Pode ser um problema para mulheres que não curtem trabalho de casa, já que se a casa está suja a culpa é da mulher que habita a casa. Até quando eu morei em república mista, eu sentia isso. Outra coisa que sinto é que estas meninas (que não curtem trabalho de casa) são a maioria e sempre foram. A diferença é que, hoje, a gente tem um pouco mais de voz.

As mulheres trabalhando fora de casa também é um fenômeno mais ou menos recente. Inclusive, hoje, quase 40% dos lares brasileiros são mantidos por mulheres. E, sério, que pessoa, depois de um dia de trabalho, chega em casa a fim de fazer faxina? Ou quer passar o final de semana assim? Quem gostaria disso?

Uma das minhas colegas do trabalho tem dois filhos e um marido, todos eles trabalham menos e trazem menos renda para casa, e é ela que faz faxina, lava a roupa e cozinha. Já perguntei, por que eles não fazem nada? E ela me disse que quando fazem, fazem errado. Há! Esse é o truque mais antigo do mundo, tenho quase certeza que fui eu quem inventou. Toda vez que meus pais me pediam para fazer alguma coisa que eu não queria, eu fazia errado para não ter que fazer mais. Para não ser injusta, podemos dizer que ninguém os ensinou, logo, eles não sabem. Mas se as meninas aprendem, tenho certeza, que os meninos aprendem.

Falando agora dos materiais promocionais, acho que a bola fora da marca Veja foi mais explícita, eles receberam muitas críticas e mudaram a apresentação da sua página no Facebook. O grande problema foi o termo escolhido, usar o termo "mulher" é excluir os homens do seu nicho. A gente já discutiu isso, se usarmos "homem" a gente pode estar falando da humanidade inteira, assim como o masculino engloba toda uma coletividade, ainda que os homens, num determinado grupo, sejam minoria. Agora dizer "mulher" é só para mulher, nada mais.

Arte de Laís Bicudo para o Subvertidas

Por sua vez, a bola fora da marca Vanish é um pouco mais sutil. Para começar, algumas pessoas podem achar a propaganda agradável aos olhos. Mesmo que seja, para quem gosta de branquelões sarados, de certa forma, a propaganda também define seu nicho: as mulheres. Não só pelas imagens dos branquelões sarados, porque talvez os homens gays curtam, mas porque também diz “o que uma mulher merece?”. Parece até homenagem, mas está dizendo que a gente merece várias coisas, depois que lavarmos a roupa. O que também pode soar agradável é que eles perguntam se o companheiro tem "ajudado" em casa. Bom, qual é o problema desse verbo "ajudar"? Você ajuda quando não é sua obrigação, certo? E isso é phoda, a maioria dos homens foi criada para não entender tarefas domésticas como suas obrigações, logo, se quiserem, eles “ajudam”.


O outro lado disso é quando eles ajudam, nossa, é uma festa, ganham até medalha. Nossa, um homem que ajuda em casa é um partidão! Cara, isso é ruim porque é injusto, quando algo se torna sua obrigação, ninguém agradece, quando você ajuda, quase sempre agradecem. Então, quando a mulher faz e faz bem, ninguém menciona, se faz mal, sim, a desgraça da família. Agora, um homem, quando faz o mínimo de tarefa de casa é um herói. É injusto e é padrão duplo. O que eu gostaria de ver mesmo é a divisão justa e igual das obrigações. A casa e os filhos não são mais da esposa do que são do marido. E eu digo isso até para questões legais, no caso de um divórcio, o que tem de errado um homem ficar com a casa e a guarda das crianças se isso for melhor para todo mundo? Por que isso deveria causar algum escândalo?

Existem homens bem habilidosos nas tarefas domésticas e mulheres nem tanto. Acho que essas pessoas não se mostram porque existem ainda esses estigmas bobos que fariam com que elas fossem julgadas dessa ou daquela maneira.

Por essas e por outras que as feministas "chatas" vão sempre pegar no pé dos publicitários e publicitárias, eles estão com a faca e o queijo na mão para demonstrar que não estamos mais no século XVIII, eles têm acesso aos maiores canais de divulgação. Não são eles que criam os padrões, mas eles têm a capacidade de legitimá-los e reforçá-los. De minha parte continuo achando que seria tipo mágico viver em uma sociedade em que o limite do que a gente pode e deve fazer fosse o respeito pelo outro e não esses preconceitos bestas do que se espera de um homem, do que se espera de uma mulher.

por Barbara Falleiros

As leitoras e leitores deste blog devem ter acompanhado, esta semana, o caso de hostilização de um grupo de estudantes feministas que protestava contra trotes sexistas na USP de São Carlos. Para quem ainda não soube do ocorrido, aqui vai o relato divulgado no Facebook por uma integrante da Frente Feminista de São Carlos, levemente resumido:

Todo ano ocorre aqui na USP São Carlos o Miss Bixete, evento no qual, após passarem pela "apelidação" (apelidos pejorativos e fazendo juízo de valor sobre seus corpos e sua sexualidade), as calouras são levadas pelos veteranos para que desfilem. Ao longo do desfile os veteranos gritam em coro "peitão, peitão, peitão" pedindo para que a caloura mostre os seios e incentivam que ela dance e exponha seu corpo. Uma prática também frequente nesse dia do "evento" é a "competição do picolé". Nesta competição, cada uma das calouras recebe um picolé e têm que chupá-lo simulando sexo oral. A que terminar o picolé primeiro "ganha".

Como resposta ao evento, nos últimos cinco anos, o Coletivo de Mulheres do CAASO (centro acadêmico) e Federal promovem um ato em boicote ao Miss bixete, a fim de tentar conscientizar o maior número de pessoas possível. Nesta última terça-feira, a Frente Feminista de São Carlos reuniu 50 pessoas para a manifestação em repúdio ao evento. A manifestação era pacífica e contava com instrumentos de batuque, músicas, faixas com palavras de ordem e panfletagem.


Retrato de um imbecil (não encontrei a foto original)
Ao longo da manifestação, integrantes do GAP (Grupo de Apoio a Putaria) e alunos da USP que participavam do evento, arrancaram e rasgaram alguns dos cartazes da manifestação, tentarem impedir nossa entrada no CAASO, jogaram cerveja, copos e duas bombas em nossa direção. Houve empurrões, tentativa de agressão, assédio às meninas e um grupo que, no final da manifestação, perseguiu com pedaços de pau os manifestantes. Como resposta a nossa faixa, os meninos do GAP simulavam ato sexual com uma boneca inflável diante da manifestação. Alguns participantes do evento tiraram as roupas e fizeram gestos obscenos, sempre se direcionando aos manifestantes e dizendo provocações como "isso aqui é para corrigir esse bando de viado e sapatão". A USP abriu inquérito para investigar a respeito dos alunos que ficaram nus e a mídia local tem se focado nisso.

Não sou antropóloga para sair teorizando sobre ritos de passagem, mas lá fui eu humildemente ler na Wikipedia sobre trotes estudantis. Aprendi que ritos de passagem proporcionam "o aprendizado de valores fundamentais para a vida no nível seguinte" e que os trotes são "ritos de passagem às avessas, representando uma prática oposta aos valores humanistas da universidade".

O calouro é encarado pelo veterano como algo (mais que um animal, mas menos que um ser humano) que deve ser domesticado pelo emprego de práticas humilhantes e vexatórias. Da mesma forma, denominar o calouro de bixo (ou bixete, se for mulher), parece querer indicar que o calouro deve ser humilhado a ponto de nem mesmo merecer que a palavra bicho seja escrita corretamente. (Zuin, 2002, p. 44).

O interessante, a meu ver, é que no caso de trotes sexistas não se trata de passagem por uma situação de constrangimento ritual - e portanto, pontual, isto é, delimitada no tempo (um dia, uma semana de trote) - que, ao seu fim, levará o indivíduo constrangido a ser aceito e em breve alçado ao mesmo nível hierárquico dos que o constrangeram. Em um trote sexista há apenas a reprodução e a perpetuação da violência, do menosprezo e dos abusos que as mulheres e/ou "minorias" sofrem cotidianamente e continuarão a sofrer em suas vidas muito tempo depois de terminado o trote.

Os comentários de leitores às reportagens que saíram no jornal ilustram bem o desconhecimento do discurso que sustenta esse tipo de prática sexista. "É só tomar um banho que passa" não funciona no caso de um trote sexista porque as meninas vão continuar sendo julgadas pelo seu corpo e porque o sexo oral, na nossa sociedade, vai continuar sendo associado à uma prática coerciva ou humilhante (lembrando que o "grito de guerra" de uma faculdade contra outra costuma ser o "Chupa!": "Chupa medicina!", "chupa engenharia!", "chupa Poli!" etc.). Nada disso provoca "engrandecimento". E é preciso que o discurso mude urgentemente do "se não quer não participe" para o "se ofende não organize"... Está na hora de começar a pensar.


Como tentamos mostrar em inúmeros posts aqui do blog, a carta do humor é utilizada de modo frequente para tirar o peso da violência, "maquiar" problemáticas sérias, reforçar, por exemplo, a chamada cultura do estupro. Diante da faixa de protesto com os dizeres "Somos mulheres, não bonecas infláveis. Temos ideias, não somos manipuláveis", os partidários do Miss Bixete se divertiram simulando sexo com uma boneca. Mulher objeto. Mais ainda, eles distribuíram folhetos de incitação à violência contra as mulheres baseados na capa do best seller - diga-se de passagem, criticado por muitas feministas - Cinquenta tons de cinza:  "Cinquenta golpes de cinta. A cura para o fogo no rabo dessa mulherada mal comida." Devem ter se divertido tanto e achado tanta genialidade no trocadilho. Mas qualquer um que parasse um segundo para refletir sobre a frase  não esboçaria nem mais um sorriso amarelo. A violência física contra as mulheres não é uma piada. Ela mata, de verdade, todos os dias.

Temos aqui no blog leitores machistas, cada vez mais fiéis, que a esta altura já devem estar digitando um comentário: "Mas na manifestação essas vadias ficam peladas, não ficam?" Nem se incomodem em escrever, essa reflexão já foi feita, por exemplo, aqui:

Que as calouras sejam pouco induzidas a participar do tal desfile não desculpa a existência de um evento em que jovens mulheres, que provaram sua capacidade intelectual ao serem admitidas em um vestibular concorrido, sejam imediatamente reduzidas ao valor de seus corpos ao pisarem na universidade. Além disso, nota-se que o mesmo tipo de raciocínio utilizado para culpabilizar vítimas de estupro ou violência aparece aqui, já que comentário faz recair o julgamento moral sobre as participantes do "concurso" ao invés de responsabilizar seus organizadores: tornaram-se "engenheiras respeitáveis" apesar de terem participado, apesar de seu "exibicionismo adolescente", e a culpa das que se sentissem pressionadas seria delas mesmas por não terem "estrutura psicológica".

O que mais dificulta, no entanto, os combates feministas contra discursos e práticas machistas do tipo deste trote é o fato das diversas manifestações de nudez serem facilmente confundidas. O que é que tem mostrar o pênis se as "feministas" - ou "esse pessoal" - mostram o peito?

Vamos esclarecer as coisas. O movimento das Femen, com o qual eu particularmente não me identifico e a respeito do qual mantenho as dúvidas colocadas aqui, contextualiza explicitamente a prática da nudez de suas manifestantes como estratégia para atrair a atenção da mídia tradicional.

Já o movimento da Marcha das Vadias surgiu em resposta a uma alegação de um policial canadense para quem "se as mulheres evitassem se vestir como vadias, não seriam estupradas". Sabemos que não é a roupa que causa o estupro mas as relações de poder, que desumanizam a mulher. Ironizando a fala do policial e mostrando que, segundo esse tipo de pensamento, toda mulher seria "vadia", as militantes da Marcha das Vadias costumam desfilar usando roupas curtas e algumas com seios nus, reivindicando o direito das mulheres de fazerem o que quiserem de seus corpos e pedindo o respeito total ao corpo feminino, contra sua sexualização exagerada. O que elas tentam mostrar é que a quantidade de pele exposta por uma mulher não é jamais um convite para que os homens se disponham de seu corpo como bem entenderem e sem consentimento.

Quanto aos pênis dos estudantes, fica claro que a nudez foi usada intencionalmente de forma violenta, ainda mais acompanhada de gestos obscenos e ameaças homofóbicas, como relatado ("Isso aqui é para corrigir esse bando de viado e sapatão"). O pênis, em si, não significa nada. Um pênis nu é tão inonfesivo quanto um seio de fora. Exceto quando ele é usado como órgão e símbolo de perpretação da violência, da humilhação e do ódio.

Agora dá para entender a diferença? Ela não é pequena.

Para terminar este post numa nota positiva: como foi dito acima, os protestos contra o evento Miss bixete acontecem há cinco anos e têm surtido efeito, já que o evento parece estar perdendo cada vez mais força - apesar do acontecido este ano, e esperamos que os responsáveis sejam sancionados pela Universidade. Parabéns para o Coletivo de Mulheres do CAASO e a Frente Feminista! Também fiquei agradavelmente surpresa com a quantidade de homens feministas na manifestação do coletivo. Liberdade, igualdade e respeito para todo mundo, e um ótimo ano escolar para todos os esperançosos que iniciam os melhores anos de suas vidas.







por Mazu 

Semana passada, escrevi sobre a escritora e acadêmica, Yadira Calvo, e suas posições sobre linguagem e discriminação de gênero. Na oportunidade, comecei o texto com o currículo dela, seus feitos, sua formação, seus prêmios. Essa pode parecer uma fórmula comum, você vai falar sobre alguém, você apresenta esse alguém primeiro, certo? Mas existem mais razões para esse tipo de introdução. Se a gente for analisar bem, o jeito que apresentamos o tema de que falamos já é uma forma de defendermos nossa posição. Então, comecei o texto com o “currículo dela” para dar a ela e, consequentemente, a mim, a autorização necessária para se pronunciar sobre os temas abordados e, consequentemente, legitimar os argumentos.

Não aguento quando
Esse exercício metalinguístico pode parecer meio deslocado, mas serve bem ao tema de hoje: o poder de falar, se pronunciar, de abrir a boca em qualquer instância de uma sociedade.

Bom, para começar, a gente sabe que vive em uma sociedade predominantemente sexista e preconceituosa, logo, não pode ser surpresa para ninguém que o direito de abrir a boca seja bem mais de uns que de outros. Determinados assuntos são especialidades dos homens, outros, das mulheres. Na minha vida profissional, na militância, percebo que os homens têm mais autorização para falar e são mais ouvidos quando fazem. Obviamente, isso já foi pior, afinal, participamos, as mulheres, da vida política e profissional da nossa sociedade há pouco tempo. Contudo, em determinadas instâncias, muito ainda falta para que esse direito de abrir a boca, essa autorização para falar a que me referi acima, seja assim fácil para nós como é para os homens.

Alguém poderia dizer que exagero ou que as mulheres, na realidade, falam bem mais que os homens, mas o direito de se pronunciar, de que falo aqui, é o direito de ser ouvida e não só sobre temas ditos femininos, mas sobre tudo, inclusive ciência, política ou sexo. Vou ilustrar com duas matérias da mesma revista sobre o mundo feminino. Antes de mais nada, vou dizer, gosto da Superinteressante, mas quando era mais nova fui instruída pelo meu professor de física do colégio a tomar cuidado com as publicações porque eles, às vezes, pegavam um dado pequeno, um indício, e embasavam uma afirmação categórica sobre alguma coisa. Esta matéria é um bom exemplo disso. Outras matérias têm como objetivo derrubar mitos científicos, tipo esta aqui. 

Detalhe da segunda matéria
De verdade, não vou entrar no mérito científico das matérias, especialmente, porque elas me fizeram pensar sobre questões culturais. Questões culturais que explicariam bem mais o falar e o não falar de homens e mulheres. Entre o falar demais e o sofrer calada pode haver menos espaço do que a gente imagina. Foi por isso que disse que, em determinadas instâncias, falta-nos voz, em outras situações, a voz é obrigatoriamente nossa, por exemplo, quando se trata da criação dos filhos parece que as mães sabem mais que os pais. Existem também limites do que falar impostos aos homens, por exemplo, sentimentos, moda, por aí vai. Quando um homem se aventura por essas áreas, ele sempre é enquadrado em alguma espécie de estereótipo.

Em algumas áreas, como política e ciência, o caminho para se ter voz é, ainda, mais complicado para as mulheres, não dá para negar. É só olhar ao redor, ver os números. O trajeto que é necessário para se ocupar um lugar que permita o posicionamento pode variar muito quando se é homem e quando se é mulher. 

Comentário na primeira matéria, ilustrando o senso comum sobre os dizeres femininos e a falta que as vírgulas fazem

Como já existe uma preferência perceptível, mas não expressa, por profissionais masculinos, quando uma mulher chega a uma determinada posição, a formação e a experiência dela precisa ser bem maior.  E ela sempre vai ser mais questionada e se questionar mais que os homens porque nós somos educados assim.

Hoje e, não se enganem, só hoje, porque são eventos contemporâneos mesmo, a gente chega lá, ocupa esse ou aquele espaço, emite opinião especializada. Ainda assim, se a gente reparar bem, o nosso trabalho, nessas áreas em especial, sempre passa pelo filtro do sexismo. A Sheryl Sanberg, por exemplo, é um ícone do mundo dos negócios, mas tem quem se refira a ela como babá do Zuckerberg. Nossa presidenta, nos seus acertos ou nos seus erros, nunca escapa desse ou daquele comentário sobre sua aparência física ou sexualidade. E o mais engraçado disso é que a gente nunca teve um presidente com aspecto físico padrão, tipo bonitão, em contrapartida, só a Dilma é agraciada com esse ou aquele comentário.

Na vida profissional, é possível perceber a relação de competência com exigência. Isso funciona com homens e mulheres, mas os rótulos são sempre diversos. O chefe é bravo, exigente, a chefe é mal comida, encalhada, histérica.

Acontece bastante, quando se é mulher, de ouvir comentários sobre seu aspecto físico durante uma discussão ou no desempenho de uma função que não seja minimamente relacionada à aparência ou à sexualidade. “Feia”, “gorda”, “mal-comida” ou até mesmo “linda” são formas de lembrar que por mais competente ou inteligente que uma mulher seja, ela é uma mulher. E, na nossa sociedade, há uma crença de que mulher que fala demais, reclama demais, não é feliz sexualmente. Mulher satisfeita e que satisfaz vive calada. A triste ironia disso é que, nessa mesma sociedade, as autoridades precisam fazer campanhas e campanhas para que vítimas de violência contra a mulher se pronunciem.

Por isso, disse que entre o falar demais aqui e o falar de menos ali quase não há distância, já que ambos se originam de um mesmo problema, a imposição social do que uma mulher deve dizer ou não, e toda a discriminação decorrente de sua decisão de dizer ou não dizer em certas situações.

por Barbara Falleiros

Quando respondo a perguntas sobre o que faço da vida, às vezes me deparo com interlocutores perplexos. Muitos não entendem o porquê de se estudar "personagens obscuros de um período obscuro", tão distantes do "extraordinário estágio civilizacional para o qual evoluímos"! Afinal, que interesse pode haver em uma época de príncipes e castelos, rivalidades e traições, para além daquilo que serve à fantasia de um Game of Thrones e afins? Vejo-me no papel de meus antigos professores de História, repetindo a adolescentes insolentes que a compreensão do passado serve para entendermos o presente. E às vezes você descobre que quinhentos, seiscentos anos te separam... do mesmo lugar!

Christine de Pizan no seu "escritório"
Há uma década, descobri uma mulher impressionante. Italiana de origem mas educada na corte francesa, filha de um médico do rei, Christine de Pizan (1364-1430) teria vivido uma existência tranquila, uma existência anônima de mãe e esposa como tantas outras se, como ela conta, sua vida não tivesse sido influenciada por duas forças poderosas, "Natureza" e "Fortuna" (ou seja, o destino).  A primeira conferiu-lhe grande curiosidade intelectual, a segunda deixou-a viúva aos 25 anos de idade, com três filhos pequenos. E o que faz uma jovem viúva com dificuldades financeiras no final da Idade Média? Casa-se novamente, certo? Errado! Ela se torna a primeira escritora profissional da história da literatura francesa.

O caminho que Christine escolheu não era, decididamente, o que a sociedade esperava dela. É verdade que, enquanto mulher e escritora, ela representava uma "novidade" que foi em parte responsável pela fama que adquiriu ainda em vida. Por outro lado, os homens intelectuais não a consideravam como uma igual, longe disso, e ela teve que lutar duramente pelo seu espaço no campo literário. Christine tinha total consciência da posição de inferioridade ocupada pelas mulheres e um dos seus maiores combates foi contra a concepção misógina de uma natureza feminina "deficitária", isto é, contra a visão das mulheres como seres moralmente e intelectualmente inferiores (valeu, Aristóteles!). Era preciso distinguir o natural do cultural, como ela afirma no Livro da cidade das damas (1405) a respeito da educação feminina: 

Eu reafirmo, e não duvides do contrário, que se fosse costume mandar as meninas à escola e se lá aprendessem as ciências, como fazem com os meninos, elas aprenderiam tão perfeitamente e compreenderiam tão bem quanto eles as sutilezas de todas as artes e ciências. [...] Sabes por que elas sabem menos? Porque não vivenciam coisas diferentes, porque basta que permaneçam em suas casas, às voltas com suas ocupações domésticas. Porém, não há nada mais estimulante para uma criatura dotada de inteligência do que experiências diversas e abundantes.

No Livro da visão de Cristine (1405), que contém inúmeras passagens autobiográficas, ela retoma a questão a partir de sua própria experiência. Ela se imagina dialogando com uma personificação da Filosofia, à qual diz:

Pois embora minha natureza me inclinasse para o saber, as tarefas que normalmente cabem às mulheres casadas, além da obrigação de frequentemente carregar bebês em meu ventre, impediram-me de dedicar-me aos estudos. [...] E o que há de mais belo que o saber? E o que há de mais vergonhoso do que a ignorância de um homem? Assim, certa vez respondi a um homem que criticava meu desejo de saber: ele dizia que não cabia a uma mulher ter conhecimento, como existem poucas. Respondi que tampouco cabia a um homem ser ignorante, embora existam muitos!
E eis a resposta de Filosofia:
No que te diz respeito, não há dúvidas de que se teu marido estivesse vivo até hoje, não terias estudado tanto quanto estudaste, impedida pelas ocupações do lar. Assim, não terias apreciado uma das coisas que mais amas no mundo, isto é, o doce sabor do conhecimento.

Vale ressaltar que Christine não era contra o casamento. Ela amou profundamente o marido que seu pai escolhera para ela e admirava-o por sua inteligência. E se ela começou a escrever após sua morte, a poesia serviu-lhe primeiramente como experiência catártica, uma forma de lidar com a solidão e com a tristeza. "Sozinha estou e sozinha quero estar, sozinha deixou-me meu doce amigo, sozinha estou, sem companheiro nem mestre", disse em seu poema mais famoso.


Por volta de 1401-1402, Christine se envolveu em uma briga literária com homens intelectuais do seu tempo a propósito de uma obra extremamente famosa, o best seller de então, chamada Romance da Rosa. O livro conta a história da tomada de um castelo seguida da "colheita de uma rosa" pelo Amante apaixonado, em outras palavras, a história da conquista e da defloração de uma jovem dama. Para Christine, um escritor tinha que arcar com sua responsabilidade moral e não podia escrever absurdos misóginos e obscenos usando a desculpa de que tinham sido ditos por suas personagens. A discussão toda era sobre a função da literatura, o que não cabe desenvolver aqui, mas é muito interessante reparar nos argumentos usados pelos "inimigos" de Christine para desmerecê-la no debate. Para um deles, tudo o que ela era dizia era ditado por terceiros. Afinal, que mulher seria capaz de pensar e tirar suas próprias conclusões? Ela era só o "guarda-chuva" (é a palavra que ele usa, ou "capa de chuva") colocado na linha de frente do debate e atrás do qual se escondiam homens covardes que lhe assopravam os argumentos... Resumindo, queria dizer: não foi você quem disse e eu não discuto com mulher.

Sábios e o temor da audácia feminina:
Aristóteles seduzido e humilhado pela cortesã Fílis
Após lançada a carta da incapacidade intelectual, eis que emergia o velho e bom julgamento baseado na moral e na sexualidade feminina. Ora, ao ousar atacar o grande mestre autor do Romance da Rosa, Christine agia como Leontina, uma prostituta grega que criticara o filósofo Teofrasto. Ou seja, no debate, Christine é literalmente chamada de puta!

Não é curioso que nós, seiscentos anos depois, escutemos o mesmo tipo de discurso, o mesmo tipo de argumento e o mesmo tipo de insulto? Não é curioso que nós, mulheres, ainda estejamos tentando conciliar casa, filhos e trabalho, sobrecarregadas por tarefas domésticas que muitas vezes nos impedem de seguir vocações? Que embora as mulheres sejam hoje a maioria na Universidade (enquanto estudantes, mas não necessariamente enquanto docentes...), ainda existam áreas nas quais elas são vistas como "incapazes" e "incompetentes", só por serem mulheres? Que em suas tentativas de emancipação a mulher seja invariavelmente tratada como piranha e vagabunda?

Em uma de suas cartas escritas durante essa querela literária, Christine tentou convencer seus interlocutores de que as mulheres não eram monstros de outra espécie, que precisavam ser combatidos e domados, que elas eram seres humanos como eles:

Penso sem dúvida que, se tu fosses bem informado, já não trarias [ao debate] aquele Ovídio da Arte de amar como argumento para desculpar teu mestre [o autor do Romance da Rosa]. [...] Ó livro mal intitulado Arte de amar! Pois de amor é que não é! Mas sim de falsa arte e maliciosa habilidade de enganar mulheres, é como deveria ser chamado. Que bela doutrina! É então um grande feito iludir essas mulheres? Quem são as mulheres? São elas serpentes, leões, dragões, víboras, animais vorazes devorantes e inimigas da natureza humana, que devem ser trapaceadas e capturadas por meio de artimanhas? Se assim pensais, homens, lede então a Arte: aprendei os artifícios! Agarrai bem as mulheres! Enganai-as! Insultai-as! Invadi o castelo! Cuidai, homens, para que nenhuma vos escape, e que tudo ceda ao opróbio! Por Deus, não são elas vossas mães, vossas irmãs, vossas filhas, vossas esposas e vossas amigas? Elas são vós mesmos e vós mesmos sois elas.

Feminismo: há mais de seis séculos, a ideia radical de que as mulheres são gente...


por Roberta Gregoli


A loucura consumista do natal está aqui e, com ela, o reforço dos estereótipos de gênero através o marketing sexista. Particularmente trágico, para mim, são os estereótipos de gênero reforçados por brinquedos infantis, que por sinal abundam já que, afinal, trata-se de uma das maiores e mais lucrativas fatias de mercado.

(Já adianto que um mundo em que brinquedos desafiam os estereótipos de gênero e propões novas possibilidades existe e é na Suécia. Veja aqui como seria esse mundo distante.)

Como diria a Riley, num tom compreensivelmente inconformado, meninos querem super-heróis e meninas também querem super-heróis, mas os fabricantes de brinquedo iludem as meninas para que comprem brinquedos cor-de-rosa:


E em toda a sua sabedoria, Riley hesita: "meninas querem brinquedos cor-de-rosa e meninos... meninos não querem brinquedos cor-de-rosa." Mesmo tão pequena, Riley já entendeu que tabu maior do que meninas querendo super-heróis, ou carros, ou espadas, são meninos querendo "coisas cor-de-rosa".

É claro que estão aí xs que insistem que as diferenças na escolha de brinquedos são inatas. Claro, porque é muito mais lógico que os seres humanos tenham desenvolvido mecanismos biológicos especificamente selecionados para fazer com que um menino goste mais de caminhões que de castelos cor-de-rosa do que considerar que a diferença entre os sexos, em geral, é dada e reforçada desde o nascimento.

Este excelente artigo discute pesquisas científicas sobre o assunto e conclui que:

Macacos à parte, é possível que a preferência por certos brinquedos seja resultado da pressão do grupo tanto quanto de diferenças inatas. Mais ou menos na metade da pré-escola, meninas começam a flexibilizar suas preferências e brincar com diversos tipos de brinquedo diferentes enquanto os meninos se tornam mais rígidos com seus brinquedos 'de menino' [...]. Uma explicação lógica para isso seria que meninos pagam um preço mais alto pela diversificação. Ninguém estranha quando uma menina brinca de basquete ou com um carrinho de corrida; pelo contrário, isso talvez seja visto com bons olhos. Mas um menino com uma boneca ainda é, para muitos pais, quase tão alarmante como era nos anos 70. Um estudo clássico da universidade SUNY Binghampton, por exemplo, mostrou que meninos estão duas vezes menos propensos a explorar brinquedos tipicamente femininos quando há outra criança no recinto. [minha tradução]

Um episódio recente que aconteceu na minha família ilustra bem como tais comportamentos normativos são constantemente vigiados, reforçados - ou seja, como eles não têm nada de natural - e como qualquer desvio mínimo pode resultar em choque e punição. Meu sobrinho queria uma boneca de natal. Queria. Ontem ele me explicou por que mudou de ideia, depois de uma conversa com o pai: "Tia, eu sou menino, eu tenho pipi. A plincesa Popstar tem peleleca." Apesar de estar há somente 3 anos neste mundo, ele já entendeu o conceito de cisgênero, segundo o qual o sexo biológico e o gênero confluem (ter pipi = gênero masculino, que na nossa sociedade não inclui gostar de bonecas).


Sem entrar no mérito do valor educativo da boneca Barbie, qual o problema em um menino querer uma boneca? Para o senso comum, muitos. Quando contei para uma amiga que queria comprar um bonequinha para ele, a reação foi: "Melhor não, vai que ele vira gay. Daí vão te culpar."

Nem vou discutir a homofobia na premissa de que "virar gay" é algo ruim, algo pelo qual alguém deva ser culpadx. Para além da homofobia, esse tipo de fala revela que o senso comum ainda não se tocou que orientação sexual, assim como o sexo biológico, não tem nada a ver com identidade de gênero. Que o diga o Laerte, que é transgênero e 'heterossexual' (cada vez mais me dou conta da limitação do paradigma hétero-homossexual. Ele se aplica a pessoas transgênero? E axs transsexuais? Como rotular um homem que nasceu mulher e é casado com uma mulher?).


Identidade de gênero, orientação sexual e sexo biológico são três coisas distintas e há uma série de combinações possíveis entre os três.

Ainda assim, querer uma boneca não tem necessariamente a ver com identidade de gênero. Por que bonecas não podem fazer parte do universo masculino? Brinquedos têm a função social de preparar as crianças para a vida adulta. Bonecas têm a ver com a esfera doméstica, com filhxs, e certamente precisamos de mais maridos e pais presentes, que de fato dividam o trabalho doméstico e o cuidado com xs filhxs.

É nessas horas que admiro ainda mais pais e mães que ousam sair da caixinha e apoiar seus filhos em gostos que desafiam o status quo opressor. Acho triste que, no mundo adulto, um menino usar saia seja um ato tão subversivo que vire manchete mundial. E curto as crianças por se importarem com o que gostam, sem dramas. Como quando o pequeno Sam, de cinco anos, explicou que não gostava dos sapatos que causaram tamanho furor na internet por serem cor-de-rosa, mas porque eram de zebra, seu animal favorito.


Percebemos, então, que todo o drama é criado pelxs adultxs, ansiosxs por reforçarem e reproduzirem esse monte de paranoias. E tudo por simples medo daquilo que desafia suas ideias pré-concebidas a respeito de gênero e sexualidade.

Negamos a nossas filhas o prazer de se imaginarem super-heroínas e aos nossos filhos a possibilidade de experimentar dar carinho e cuidado a um outro ser. Por isso não venham me dizer que Riley, Sam ou o meu sobrinho têm algum distúrbio ou 'confusão de gênero'. Doentes somos nós.

Deixo aqui, então, um guia de presentes não-sexistas para este natal, pois acredito que muito mais nocivo do que o medo infundado de criar um filho homossexual - como se isso fosse pior do que criar um filho machista - é impor nossos dramas às crianças.

E, pior, perpetuá-los por mais uma geração, que terá de abrir mão de parte de sua experimentação, criatividade e imaginação pelo medo dxs adultxs de tudo aquilo que difere de seus preconceitos - por medo do que é natural.


Como Conquistar um Homem