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por Thais Torres


Para o bem e para o mal, Caio Fernando Abreu está na moda. Há várias páginas no Facebook com frases que supostamente seriam do autor, bem como teses acadêmicas sobre sua obra, além de alguns filmes e peças de teatro baseados em seus textos. Trata-se de um autor emblemático para a Literatura brasileira contemporânea e não deixa de ser interessante essa atenção especial que vem sendo dada a ele. No entanto, com o modismo vem a incompreensão. Acho que poucos autores são tão mal interpretados quanto Caio Fernando Abreu. Os motivos são vários, mas um me incomoda em particular: saber que, para grande parte das pessoas que leem sua obra – e as que afirmam ler, sem ter efetivamente lido – o gaúcho é uma espécie de mártir daquilo que, para muitos, é conhecido como “Literatura gay”.

Aparentemente, o tema sobre o qual escrevo não é tão pertinente neste blog. Mas, não tenho dúvida que as autoras e os leitores são contra a ideia de “Literatura feminina” ou “Literatura para mulheres”. Como assim? Que espécie de gueto é esse? Quais são os estereótipos que essas denominações mobilizam? Vale lembrar outro modismo do momento: por que as mulheres que querem ler livros eróticos não se interessariam pelo maravilhoso A história de O ou mesmo pela polêmica obra de Hilda Hilst e prefeririam o sofrível Cinquenta tons de cinza? Basta ler as primeiras obras para entender o perigo do poder subversivo do erotismo. Aí fica fácil entender o que se cala com essa febre do momento.

Mas voltemos à “Literatura gay”. Sem dúvida alguma, lutar pelos direitos dos gays é uma questão de extrema importância no país que não deve se orgulhar de ser o campeão mundial de assassinatos homofóbicos, concentrando 44% do total de execuções de todo mundo. A importância desta luta é indiscutível. A grande questão é se reduzir a obra de um dos mais importantes autores da literatura contemporânea a um rótulo pré-determinado ajuda nesta luta. Não há dúvidas que a verdadeira literatura pode ser lida e escrita por qualquer um, de qualquer idade, orientação sexual, gênero ou time de futebol preferido. Acho que esse é o caso do Caio F. Sua obra transcende muito as amarras pretensamente libertadoras que são colocadas quando alguém determina que determinado livro é feito para gays ou por um gay. Basta ler com atenção Morangos mofados e (o meu preferido) Os dragões não conhecem o paraíso para concordar comigo.


O curioso é que o próprio autor rechaçava a possibilidade de ser uma espécie de defensor dos gays. Em carta ao escritor João Silvério Trevisan, escrita em 18 de outubro de 1983, Caio F. avalia “Pela noite”, conto de sua autoria que frequentemente é lido como um exemplar desta “literatura gay”:

É talvez um pouco impiedoso demais com o gueto gay, não sei se “impiedoso demais”, não sei se o gueto merece compreensão. Eu detesto.

Mais adiante ele comenta que foi convidado a participar de um evento intitulado “Os homoeróticos: os gays e as lésbicas na sociedade brasileira”. Conta ao amigo que não vai comparecer naquilo que chama de “coisa” e complementa: “Cá com meus botões, continuo a pensar que homossexualismo não existe”. Em diversos momentos, Caio Fernando Abreu defende essa ideia. Para ele, o conceito de homossexualismo não apenas estigmatiza determinados sujeitos, como também oculta a noção de uma sexualidade universal, que particularmente lhe interessava:

O homossexualismo está sendo mais aceito, ou mais entendido, mas só de certa forma. Porque continua sendo um estigma, uma mancha. Antes a pessoa ser homossexual era lama. Aí a coisa passou a ser discutida, relatórios daqui e dali e de repente parece que virou moda. Mas profundamente a questão não foi resolvida. Nunca me liguei a movimentos de liberação gay porque acho que não existe homossexualismo, existe sexualismo. As pessoas são sexuadas ou assexuadas. Tem gente que é assexuada e não gosta de trepar. Mas se você é sexuado, trepa com homem, trepa com mulher, transa com pessoas, mas quando põe o rótulo homossexual ou bissexual, você reforça preconceitos. [meu grifo]

Uma última citação: em “Terça-feira gorda”, o autor descreve com uma beleza ímpar o desejo homoerótico: “Eu era apenas um corpo que por acaso era de homem gostando de outro corpo, o dele, que por acaso era de homem também”. E aqui eu, que por acaso sou heterossexual, reforço minha admiração por um grande escritor, que por acaso era homossexual. Não poderia ser simples assim?


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Thais Torres é graduada em Letras pela Unicamp e mestre em literatura brasileira pela USP. Atualmente, é professora de redação e doutoranda na USP. Apesar de ter ouvido de um professor de uma universidade federal que ela “não conseguiria entender Caio Fernando Abreu porque era mulher”, insiste em estudar o erotismo nos contos do autor. É apaixonada pelos amigos, pela arte, pelo talento das pessoas e por discussões divertidas e inteligentes. E por uma cerveja, para dar liga nisso tudo.

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por Tággidi Ribeiro

Não só as religiões trataram de produzir discursos que, digamos assim, 'esquentassem a chapa' das mulheres. Desde nos dividir entre santas e putas e nos culpar por sermos estupradas a nos obrigar a pagar (com nossos corpos) dívidas de outros homens da casa - as religiões complicaram e muito as nossas vidas. As tais não são, contudo, as únicas culpadas (para usar vocábulo apropriado) por termos sido massacradas* ao longo da história. Não só os religiosos, mas também alguns (muitos) filósofos fizeram o favor de tentar justificar o tratamento vilipendioso dado às mulheres.

No livro A Representação das Mulheres no Discurso dos Filósofos: Hume, Rousseau, Kant e Condorcet, a portuguesa Adília Maia Gaspar reúne textos desses quatro filósofos iluministas sobre a mulher. Que ninguém pense em relativizar historicamente o pensamento desses homens (brincando sério): são todos contemporâneos e ainda assim têm visões distintas acerca do valor da mulher na construção da sociedade e como ser humano. O chato, na verdade, é saber que as ideias mais machistas foram as que mais ganharam adesão, sendo publicizadas pelos grandes meios e repetidas à exaustão pelos ogros de hoje.

Kant
"Mulher tem que ser bonita" - agora o povo do boteco vai poder falar de boca cheia que quem disse isso foi Kant. Bem, ele não disse exatamente dessa forma - ele separou os gêneros em belo e nobre. A mulher (o belo sexo), segundo Kant, é naturalmente mais bela que o homem e pouco capaz de pensar. O homem (o sexo nobre) é naturalmente mais dado à filosofia que a mulher, e nem de longe tão belo. Para que os pares não parecessem muito díspares, Kant recomendava à mulher ganhar algum verniz intelectual; ao homem, recomendava que estivesse limpo e arrumadinho.

Rousseau
"Lugar de mulher é na cozinha" - Rousseau dizia que as mulheres tinham uma tendência natural a obedecer. Se elas eram mais fracas fisicamente, isso era sinal de que deviam ser submetidas aos homens (interessante o filósofo que questiona o direito da força dizendo isso, não?). Já que as mulheres tinham nascido dóceis e fracas, Rousseau achava que elas deviam ser ensinadas a serem boazinhas, agradáveis e a cuidarem da casa.

Hume e Condorcet, contemporâneos mais esclarecidos desses dois outros famigerados filósofos das luzes, atribuíram à pressão social o fraco desejo sexual e o recato, à época considerados naturais nas mulheres (Hume) e pretenderam que o direito à educação e ao voto fossem garantidos igualmente a homens e mulheres (Condorcet). Este chega a defender uma ideia completamente absurda para os homens do século XVIII e que ainda hoje não é aceita por todo mundo: a de que mulheres também são capazes de fazer-se cientistas e filósofas. Para prová-la, refere professoras de medicina e filósofas do século XVII, estigmatizadas e posteriormente proibidas de frequentar as universidades.

Condorcet
Verdadeiramente revolucionárias em sua época, as palavras de Hume e Condorcet foram escarnecidas e providencialmente esquecidas. Ainda bem que mulheres conscientes como a Adília Maia Gaspar perceberam a importância fazer esse trabalho de rememoração, buscando na história do pensamento masculino a história da mulher. Como povos conquistados, nós mulheres precisamos ler as entrelinhas da história do conquistador para construir a nossa história. Precisamos, sobretudo, contestar a narrativa do conquistador.



*Falar em massacre de gênero não é exagero: nos proibiram a educação, fomos varridas da vida política, submeteram-nos ao confinamento doméstico, reprimiram nosso desejo mas repetidamente nos violentaram, e, quando quisemos nos revoltar, nos mataram.

por Tággidi Ribeiro
 

Desejo mostrar ao mundo, tanto como pode a arte musical, a errônea presunção de que só os homens possuem os dons da arte e do intelecto e de que estes dons nunca são atributos da mulher. 
Maddalena Casulana (1544-1590), compositora renascentista. 
Admito desde já que estou há pouco tempo pensando sobre as mulheres na música e que pesquisei muito pouco sobre. Trago mais de memória uma linha do tempo de figuras femininas, sobretudo cantoras, que fizeram história. Mas esse texto não vai falar sobre as cantoras. Ou, pelo menos, não vai falar sobre as 'apenas' cantoras. Meu foco aqui são as compositoras. As brasileiras.

Pesquisei pouco, mas achei, numa rápida ida ao santo Google esses dois endereços que contêm muito mais coisa do que eu imaginei que poderia encontrar. Obviamente, isso só diz do meu despreparo. Mas vamos lá. Haverá coisa aqui nesse textinho que você não vai encontrar tão facilmente.

Chiquinha Gonzaga
Quando penso nas mulheres compositoras do Brasil, me vem logo à mente Chiquinha Gonzaga. Já foi personagem de minissérie da Globo, razão pela qual gente da minha geração pode se lembrar tão bem dela. Do contrário, saberíamos quem compôs 'Ô abre alas!'? No mais, fora ter sido uma mulher compositora em sua época, foi também absolutamente transgressora, ao não admitir os abusos e traições dos dois primeiros maridos e ao unir-se, aos 52 anos, com um jovem de apenas 16. Embora eu não julgue que uma união com essa diferença de idade seja salutar, o fato é que durante os 36 anos seguintes, até a morte de Chiquinha, ela e seu maior amor permaneceram juntos. Só pra merecer mais respeito, Chiquinha Gonzaga ainda era politicamente progressista e ativa, defensora da causa abolicionista e republicana.

No vazio feminino da composição - ou na falta de memória, história e pesquisa -, depois de mais de 10 anos da morte de Chiquinha Gonzaga, Dolores Duran desponta como cantora. Dolores Duran viveu apenas 29 intensos anos. Morreu em 1959 tendo composto alguns dos maiores sucessos da música apelidada de 'dor de cotovelo', como 'A Noite do Meu Bem'. Compondo com Tom Jobim, é considerada precursora da bossa nova e portanto de tudo que veio na música brasileira como reação à bossa. Uma biografia recém-lançada sobre ela mostra a incrível mulher vinda de família pobre, autodidata e politizada que foi Dolores Duran.

Ali quase ao lado de Dolores Duran, vem outra 'grande dama' da dor de cotovelo: Maysa. Também personagem de minissérie da Globo (e por isso certamente mais conhecida), Maysa foi outra cantora/compositora talentosa que fez história na música popular brasileira.

Tânia Maria
Falei de apenas três nomes femininos da música brasileira em quatro séculos e meio de história, e da década de 1960 até a de 1980 do século passado tenho somente alguns outros poucos para referir: Rita Lee, Suely Costa, Joyce, Marina Lima e Ana Mazzotti. E a Tânia Maria: cantora, compositora e pianista genial que fez toda a carreira dela 'na gringa', porque não teria espaço aqui. 

Bem, quero crer que minha pouca memória e minha falta de conhecimento é que reduzem os números. De qualquer forma, não há como negar, há menos compositoras que compositores no Brasil (e no mundo). E tenho certeza de que vocês leitores deste blog imaginam, como eu, que esse dado se deve ao fato de que as mulheres tiveram seu espaço restrito à casa e foram proibidas de estudar durantes milênios, o que deve ter contribuído um pouquinho para que não seguissem outra 'vocação' que não a de mães e donas de casa.

Por isso, definitivamente, devemos comemorar o que vem acontecendo no Brasil desde a década de 1990. As mulheres aportaram no cais da música, como corpo e voz, mas sobretudo como palavra - criação. Marisa Monte, Cássia Eller, Zélia Duncan, Adriana Calcanhoto, Fernanda Abreu, Vanessa da Mata foram abrindo caminho às demais. As de quase agora: Mallu Magalhães, Maria Gadú, Tulipa Ruiz, Céu, Bárbara Eugênia, Tiê, Ana Cañas e Karina Buhr. Esperamos tantas mais.

Karina Buhr
Tomo a liberdade de findar este post de referências com a Karina Buhr, compositora que toca a dimensão demasiadamente humana do feminino: 'Eu sou uma pessoa má/Eu menti pra você/Você não podia esperar/Ouvir uma mentira de mim/Que pena eu não sou/O que você quer de mim/Se você tiver que escolher entre você e o seu amor/Você escolhe quem?'.



por Tággidi Ribeiro

Bem, na verdade, não. O New York Times ignorou a notícia, sem dúvida histórica, de que as mulheres, pela primeira vez, tiveram nota mais alta que os homens no famosíssimo teste de QI (Quociente de Inteligência).

O teste de QI, como o conhecemos hoje (alvo de muitas críticas), é aplicado há mais ou menos cem anos e sempre foi usado como prova de que mulheres são menos inteligentes que homens. Durante um século homens superaram mulheres nesse teste, que mede basicamente a capacidade de raciocínio lógico de uma pessoa.

Inteligência masculina?
Mulheres, como se costuma ouvir por aí, têm maior inteligência emocional, sabendo lidar com, ensinar e cuidar de melhor forma que os homens, tidos como mais "racionais". Às mulheres caberia, portanto, segundo o senso comum e também uma parte da ciência, todo um entendimento "emotivo" do mundo.

Poderíamos, pela novidade do resultado do teste de QI, influir que a mulher é tão racional quanto o homem, ou talvez até mais que ele? Ou, ao menos, que possui habilidades lógico-cognitivas semelhantes ou mesmo superiores às de seus pares XY?

Podemos responder afirmativamente a essas questões, se sabemos que mulheres só começaram a ser aceitas em universidades há pouco mais de cem anos e que, durante quase toda a história da humanidade letrada, mulheres foram proibidas de chegar perto do conhecimento tido como masculino, ou seja, tudo que não tem relação com a limpeza da casa, a criação primeira dos filhos (alimentação e alfabetização) e a manutenção da beleza.

Contudo, nosso mundo não está preparado para tanta novidade. Em vez de admitir que mulheres, ainda que tenham menos neurônios que homens, pensam tanto quanto eles se expostas ao conhecimento, à educação, nosso mundo preferiu achar outras respostas, como 'a complexa vida da mulher moderna'.

Daí eu pergunto: quem parece lógico e racional nessa história? E respondo: não este nosso tempo - e suas conclusões.

Na verdade, praticamente tudo o que foi dito acima pode ser desconsiderado. A discussão sobre quem é mais inteligente é, no fundo, pouco inteligente. É necessário lembrar, sempre, claro, que mulheres foram PROIBIDAS de estudar durante milênios. Mas é necessário, sobretudo, denunciar o silenciamento do gênio feminino na história. Temos a impressão de que somente os homens pensaram e construíram este mundo quando, na verdade, existe um processo deliberado de anulação da figura feminina como agente transformador. Ou vai dizer que você sabia que a equipe de cientistas que anunciou recentemente a descoberta do Bóson de Higgs foi liderada por uma mulher?

Eu não sou uma mulher diferente


por Roberta Gregoli
Violência doméstica é tão engraçado
Tenho comprado muita briga por não ficar quieta quando ouço piadas machistas e sexistas. A última foi com relação a uma crônica do Luís Fernando Veríssimo, que termina com o marido dizendo que vai dar uma surra na esposa. Eu disse para a pessoa que postou a piada que banalizar a violência doméstica não tinha graça, pelo menos não para as 7,2 milhões de mulheres que já foram agredidas no Brasil.
A cada 2 minutos, 5 mulheres agredidas
Outra pessoa entrou na discussão e, indignadíssima, disse que mais grave que a violência contra as mulheres era a minha falta de bom senso. Essa afirmação, em si, já é obviamente perversa. Ainda assim, pedi que o cidadão me iluminasse. Notei então que o argumento dele se baseava em dois pontos: 1) que o Veríssimo era magnífico e 2) em insultos pessoais, ex. eu não entendi "nada" e o meu posicionamento (ignorante) era perigoso, quase fascista (!).

Pois bem, podemos subverter o argumento dele por partes:


A arte da opressão

O fato de um escritor ser considerado bom - e aqui vale lembrar que nenhum cânone é imparcial - nada tem a ver com seu posicionamento político. Pode espernear, mas o fato é que Monteiro Lobato era racista e Millôr Fernandes, Henfil, Paulo Francis, Jorge Benjor (só para citar alguns nomes) eram abertamente machistas.

Causa uma tremenda indignação dizer que as mulheres, em média, são menos inteligentes do que os homens, mas acontece que isso é verdade.
Millôr Fernandes, 'Barbarelas', O Pasquim, n. 27, dez. 1969

O diretor D. W. Griffith lançou, em 1915, o filme O nascimento de uma nação, que gerou diversos protestos devido ao seu conteúdo racista. Até hoje esse fato é mencionado. Quando cito a frase do Millôr acima, me respondem que ele estava sendo irônico. A reação é sempre de minimizar, negar, descreditar. A questão, então, é por que temos tanta dificuldade em encarar que artistas, ainda que brilhantes, sejam - para usar um eufemismo - figuras controversas?

Na época da disputa entre França e Estados Unidos sobre a extradição do Roman Polanski, li um artigo muito interessante que dizia que:

Na França, os artistas e intelectuais são deuses seculares, tratados com deferência em qualquer circunstância, tenham lá cometido roubos (Jean Genet), feito panfletagem antissemita (Louis-Ferdinand Céline) e estrangulado a mulher (Louis Althusser). 
Sérgio Augusto, O Estado de S. Paulo, 10/10/2009

Soa familiar?

Democracia e/ou Autoritarismo

Não entendi direito por que o moço da história do Veríssimo me chamou de fascista (ele não conseguiu articular direito o argumento), mas o curioso foi que, ao tentar me silenciar sem muita coerência, ele fez justamente o que condenava. 

É simples: opiniões distintas coexistindo e sendo discutidas respeitosamente é democrático. Tentar impor opiniões com hostilidade, sem conteúdo ou lógica, é autoritário

Consenso absoluto só é alcançado através do autoritarismo. dissenso está no cerne da democracia. Importante é discordar sem gerar ódio, alimentar preconceitos e respeitando sensibilidades.

O que me parece muito grave é a perversidade de distorções como essa e outras parecidas: uma palavra tão carregada quanto censura é usada contra os que levantaram a discussão sobre racismo na obra de Monteiro Lobato (registrando um pedido para análise do Conselho Nacional da Educação, ou seja, um procedimento totalmente democrático).

E não se esqueçam dos que juram que as cotas raciais vêm introduzir o racismo no Brasil. Vamos negar todas as estatísticas que provam a total predominância da discriminação e voltar a celebrar o mito da democracia racial. Se isso não é perverso, me diga o que é.

É nessas horas que acho que ainda nem começamos a questionar as consequências da ditadura no Brasil. Ainda nos enrolamos com conceitos fundamentais como censura, liberdade de expressão, resistência, dissenso, respeito - todos fundamentais para o exercício pleno da democracia.

A hostilidade imediata dos que respondem a qualquer resistência, seja ela de feministas, representantes do movimento negro, etc, mostra que ainda hoje faltam espaços para a discussão de ideias e sobram tentativas de impor o "bom senso" (que na maioria das vezes é outro nome para o senso comum preconceituoso) de maneira autoritária e virulenta.


por Roberta Gregoli

Apesar de não ser nem se pretender acadêmico, o livro de Leandro Narloch se dispõe a popularizar as pesquisas acadêmicas históricas das últimas décadas. O resultado foi um fenômeno editorial merecedor de comentário crítico, ficando mais de 40 semanas entre os mais vendidos e a venda de mais de 200 mil exemplares. Além da divulgação da revisitação histórica ocorrida nas últimas décadas constituir uma ideia interessante (e, como se provou, lucrativa), o livro apresenta um estilo envolvente e abre discussões estimulantes. Apesar de não ser um livro sobre gênero, uma crítica feminista rende observações interessantes.

O primeiro ponto que chama a atenção no livro é o título, que à primeira vista parece impreciso, ou pelo menos índice de um entendimento superficial da noção de politicamente correto. A proposição de desmitificar figuras e acontecimentos históricos a que o livro se propõe pouco tem a ver com a ideia de politicamente correto. Dizer que Zumbi tinha escravos, um dos pontos mais comentados do livro segundo o autor, não é politicamente correto ou incorreto – é historicamente correto ou não.

O que o autor chama de politicamente incorreto vem fazer vulto a discussões recentes que defendem, de maneira sensacionalista, que o politicamente correto tolhe a liberdade de expressão. O que os proclamadores do politicamente incorreto não fazem é problematizar o fato de que instâncias de expressão individual, como discursos homofóbicos, racistas, machistas ou de incitação ao ódio, ferem o que é social e legalmente aceito.

O que o autor chama de politicamente incorreto se alinha, então, com alguns exemplos de figuras públicas, no mínimo, controversas, como o caso da apologia ao estupro feita pelo comediante Rafael Bastos, a piada antissemita de Danilo Gentili, ou o deputado Jair Bolsonaro, que mais de uma vez fez comentários abertamente homofóbicos e racistas, para citar somente alguns casos de maior destaque no ano de 2011.

Talvez essa não seja a intenção do autor, que parece se espantar quando seu livro é citado pelos que são contra o feriado da Consciência Negra (explicado em ‘Quem disse que sou contra Zumbi?’). Ele afirma que o livro foi feito “para irritar aqueles que usam a história como instrumento político”. Esses dois exemplos mostram que o autor ignora, conscientemente ou por ingenuidade, uma das primeiras lições do feminismo: que não existe posicionamento apolítico. Narloch defende que a configuração maniqueísta de personagens e acontecimentos históricos entre bem e mal, bandido e vilão, é uma divisão posterior, que envolve apropriações por grupos diversos, mas o autor parece ingenuamente desatento à apropriação à qual seu próprio livro mais facilmente se presta.

Nas palavras do autor do artigo intitulado ‘Politicamente fascista’: “O rótulo “politicamente incorreto” acaba sendo uma forma eufemística, bem-educada e aceitável (isto é, politicamente correta) de se dizer reacionário, direitista, fascistoide.” Para quem acha que essa é uma definição exagerada, veja algumas máximas do livro de Narloch : “quem lê esses pronunciamentos [dos ministros que aprovaram o AI-5] hoje fica com a impressão de que 1968 foi uma desordem assustadora. É verdade”, “quem hoje se considera índio poderia deixar de culpar os outros por seus problemas” ou “Viva o Brasil capitalista”.

O problema não são os fatos em si (se os índios colaboraram com os portugueses ou se Zumbi tinha ou não escravos), mas a forma como esses fatos são dispostos e interpretados, como quando o autor tenta provar que a ditadura brasileira foi “branda” (pp. 324-325). Se houve mais ou menos mortes no Brasil do que em outros países é uma questão, outra é dar a esse número um adjetivo que expressa um julgamento. O adjetivo, além de ser inevitavelmente conivente, não leva em consideração outras consequências da ditadura militar, como o padrão de quebra nos direitos humanos que até hoje mata mais de mil civis no estado do Rio de Janeiro. Outro exemplo é a conclusão de que “a guerrilha provocou o endurecimento do regime militar”. Sem entrar no mérito (ou desmérito) da luta armada, a visão parece se alinhar com os que chamaram os motins de Londres da “revolta do iPad”, ou seja, tão reducionista e ideológica quanto a dos “esquerdistas” que o autor tenta derrubar.

Os silenciamentos do autor são também reveladores. Apesar de caracterizar em detalhes D. Pedro I e D. Pedro II e discorrer sobre a independência do Brasil, um outro tema das atuais revisitações históricas do período imperial em nenhum momento é mencionado: o papel fundamental da Imperatriz Leopoldina no processo de independência. Outro exemplo relacionado às mulheres demonstra o desconhecimento de Narloch da noção de politicamente correto: o uso da palavra ‘homem’ para designar ‘humanidade’ é considerada sexista em diversos países. Na Inglaterra (que o autor exalta no capítulo ‘Negros’), há tempos é senso comum que o uso de 'homem' em sentido genérico exclui pelo menos 50% dos sujeitos históricos.

No entanto, o livro inadvertidamente provê recursos interessantes para o debate feminista. O capítulo ‘Escritores’, que desmistifica alguns dos grandes nomes da literatura brasileira, por exemplo, fornece alguns argumentos pertinentes para a desestabilização dos cânones (que invariavelmente excluem as mulheres), nesse caso o literário.

É claro que a problematização e revisitação de personagens e acontecimentos históricos não só é possível como bem-vinda. Mas isso teria que ser feito com alguém com muito mais sensibilidade do que Narloch.

Em debate na Festa Literária Internacional de Pernambuco, em 14/01/2011, o autor defende a revista Veja nos seguintes termos:

“Um amigo que mora em Brasília me contou que toda sexta-feira à noite, quando a Veja entra no ar na internet, há um alvoroço na capital, para se saber qual é o próximo ministro que vai cair. Não concordo 100% com a Veja, a acho muito ranzinza, muito adjetivo e pouco substantivo, mas prefiro uma revista que incomode governantes do que uma que não incomode, como a Carta Capital, que só tem anúncios do governo.”

Pouco mais de um mês mais tarde, a revista Carta Capital protagonizou o que se configura como uma revolução na mídia brasileira ao noticiar o livro Privataria Tucana perante o completo silêncio das grandes mídias, dentre as quais a revista Veja. Desde então as coisas só pioraram para a Veja, agora com seu envolvimento com Carlos Cachoeira. A afirmação de Narloch, além de ser, no mínimo, irônica, é prova de seu alinhamento político.

Ainda que o debate promovido pelo livro seja estimulante e a popularização de estudos acadêmicos atuais seja interessante e necessária, mais garantido é ler os estudos nos quais ele se baseia – ou esperar que outra pessoa os popularize de maneira mais politicamente correta.

Referência: NARLOCH, Leandro. Guia Politicamente Incorreto da História do Brasil. 2a edição, revista e ampliada. São Paulo: Leya, 2011. 367 páginas.


Como Conquistar um Homem