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por Roberta Gregoli

Apesar de não ser nem se pretender acadêmico, o livro de Leandro Narloch se dispõe a popularizar as pesquisas acadêmicas históricas das últimas décadas. O resultado foi um fenômeno editorial merecedor de comentário crítico, ficando mais de 40 semanas entre os mais vendidos e a venda de mais de 200 mil exemplares. Além da divulgação da revisitação histórica ocorrida nas últimas décadas constituir uma ideia interessante (e, como se provou, lucrativa), o livro apresenta um estilo envolvente e abre discussões estimulantes. Apesar de não ser um livro sobre gênero, uma crítica feminista rende observações interessantes.

O primeiro ponto que chama a atenção no livro é o título, que à primeira vista parece impreciso, ou pelo menos índice de um entendimento superficial da noção de politicamente correto. A proposição de desmitificar figuras e acontecimentos históricos a que o livro se propõe pouco tem a ver com a ideia de politicamente correto. Dizer que Zumbi tinha escravos, um dos pontos mais comentados do livro segundo o autor, não é politicamente correto ou incorreto – é historicamente correto ou não.

O que o autor chama de politicamente incorreto vem fazer vulto a discussões recentes que defendem, de maneira sensacionalista, que o politicamente correto tolhe a liberdade de expressão. O que os proclamadores do politicamente incorreto não fazem é problematizar o fato de que instâncias de expressão individual, como discursos homofóbicos, racistas, machistas ou de incitação ao ódio, ferem o que é social e legalmente aceito.

O que o autor chama de politicamente incorreto se alinha, então, com alguns exemplos de figuras públicas, no mínimo, controversas, como o caso da apologia ao estupro feita pelo comediante Rafael Bastos, a piada antissemita de Danilo Gentili, ou o deputado Jair Bolsonaro, que mais de uma vez fez comentários abertamente homofóbicos e racistas, para citar somente alguns casos de maior destaque no ano de 2011.

Talvez essa não seja a intenção do autor, que parece se espantar quando seu livro é citado pelos que são contra o feriado da Consciência Negra (explicado em ‘Quem disse que sou contra Zumbi?’). Ele afirma que o livro foi feito “para irritar aqueles que usam a história como instrumento político”. Esses dois exemplos mostram que o autor ignora, conscientemente ou por ingenuidade, uma das primeiras lições do feminismo: que não existe posicionamento apolítico. Narloch defende que a configuração maniqueísta de personagens e acontecimentos históricos entre bem e mal, bandido e vilão, é uma divisão posterior, que envolve apropriações por grupos diversos, mas o autor parece ingenuamente desatento à apropriação à qual seu próprio livro mais facilmente se presta.

Nas palavras do autor do artigo intitulado ‘Politicamente fascista’: “O rótulo “politicamente incorreto” acaba sendo uma forma eufemística, bem-educada e aceitável (isto é, politicamente correta) de se dizer reacionário, direitista, fascistoide.” Para quem acha que essa é uma definição exagerada, veja algumas máximas do livro de Narloch : “quem lê esses pronunciamentos [dos ministros que aprovaram o AI-5] hoje fica com a impressão de que 1968 foi uma desordem assustadora. É verdade”, “quem hoje se considera índio poderia deixar de culpar os outros por seus problemas” ou “Viva o Brasil capitalista”.

O problema não são os fatos em si (se os índios colaboraram com os portugueses ou se Zumbi tinha ou não escravos), mas a forma como esses fatos são dispostos e interpretados, como quando o autor tenta provar que a ditadura brasileira foi “branda” (pp. 324-325). Se houve mais ou menos mortes no Brasil do que em outros países é uma questão, outra é dar a esse número um adjetivo que expressa um julgamento. O adjetivo, além de ser inevitavelmente conivente, não leva em consideração outras consequências da ditadura militar, como o padrão de quebra nos direitos humanos que até hoje mata mais de mil civis no estado do Rio de Janeiro. Outro exemplo é a conclusão de que “a guerrilha provocou o endurecimento do regime militar”. Sem entrar no mérito (ou desmérito) da luta armada, a visão parece se alinhar com os que chamaram os motins de Londres da “revolta do iPad”, ou seja, tão reducionista e ideológica quanto a dos “esquerdistas” que o autor tenta derrubar.

Os silenciamentos do autor são também reveladores. Apesar de caracterizar em detalhes D. Pedro I e D. Pedro II e discorrer sobre a independência do Brasil, um outro tema das atuais revisitações históricas do período imperial em nenhum momento é mencionado: o papel fundamental da Imperatriz Leopoldina no processo de independência. Outro exemplo relacionado às mulheres demonstra o desconhecimento de Narloch da noção de politicamente correto: o uso da palavra ‘homem’ para designar ‘humanidade’ é considerada sexista em diversos países. Na Inglaterra (que o autor exalta no capítulo ‘Negros’), há tempos é senso comum que o uso de 'homem' em sentido genérico exclui pelo menos 50% dos sujeitos históricos.

No entanto, o livro inadvertidamente provê recursos interessantes para o debate feminista. O capítulo ‘Escritores’, que desmistifica alguns dos grandes nomes da literatura brasileira, por exemplo, fornece alguns argumentos pertinentes para a desestabilização dos cânones (que invariavelmente excluem as mulheres), nesse caso o literário.

É claro que a problematização e revisitação de personagens e acontecimentos históricos não só é possível como bem-vinda. Mas isso teria que ser feito com alguém com muito mais sensibilidade do que Narloch.

Em debate na Festa Literária Internacional de Pernambuco, em 14/01/2011, o autor defende a revista Veja nos seguintes termos:

“Um amigo que mora em Brasília me contou que toda sexta-feira à noite, quando a Veja entra no ar na internet, há um alvoroço na capital, para se saber qual é o próximo ministro que vai cair. Não concordo 100% com a Veja, a acho muito ranzinza, muito adjetivo e pouco substantivo, mas prefiro uma revista que incomode governantes do que uma que não incomode, como a Carta Capital, que só tem anúncios do governo.”

Pouco mais de um mês mais tarde, a revista Carta Capital protagonizou o que se configura como uma revolução na mídia brasileira ao noticiar o livro Privataria Tucana perante o completo silêncio das grandes mídias, dentre as quais a revista Veja. Desde então as coisas só pioraram para a Veja, agora com seu envolvimento com Carlos Cachoeira. A afirmação de Narloch, além de ser, no mínimo, irônica, é prova de seu alinhamento político.

Ainda que o debate promovido pelo livro seja estimulante e a popularização de estudos acadêmicos atuais seja interessante e necessária, mais garantido é ler os estudos nos quais ele se baseia – ou esperar que outra pessoa os popularize de maneira mais politicamente correta.

Referência: NARLOCH, Leandro. Guia Politicamente Incorreto da História do Brasil. 2a edição, revista e ampliada. São Paulo: Leya, 2011. 367 páginas.


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