por Roberta Gregoli
Há pouco mais de um ano, foi em Oxford um grupo chamado Orchid Project fazer uma apresentação sobre Mutilação Genital Feminina (MGF). Eu já tinha ouvido falar da MGF, mas a palestra me deixou absolutamente perplexa. Reproduzo aqui alguns dados.
Há pouco mais de um ano, foi em Oxford um grupo chamado Orchid Project fazer uma apresentação sobre Mutilação Genital Feminina (MGF). Eu já tinha ouvido falar da MGF, mas a palestra me deixou absolutamente perplexa. Reproduzo aqui alguns dados.
A MGF é uma prática ainda em voga em diversos países (mais da metade dos países africano e também na Malásia, Curdistão e entre grupos de imigrantes na Europa), que consiste em cortar partes da genitália feminina, normalmente em crianças de 5 a 8 anos. São 4 tipos de mutilação:
- No tipo 1, o clitóris é parcialmente ou totalmente removido (clitorectomia);
- No tipo 2, o clitóris e pequenos lábios são removidos;
- No tipo 3, o clitóris, pequenos e grandes lábios são removidos e parte da pele remanescente é costurada em graus variáveis de abertura. Por vezes, corta-se novamente uma abertura maior para a noite de núpcias e para dar a luz;
- No tipo 4 enquadram-se todos os outros tipos de procedimentos que agridem a genital feminina, como raspagem, picadas, esfregões e o uso de ervas ou outras substâncias.
As consequências são obviamente o risco de infecção e até morte. Em 2004, mais de 140 milhões de meninas e mulheres viviam com as consequências da MGF no mundo.
Os dados são chocantes e a tentação de vilificar esses grupos é imensa. As coisas ficam mais complexas quando colocadas em perspectiva: a MGF é uma tradição e, apesar de muitas mães afirmarem que não queriam que suas filhas fossem cortadas, uma genitália não-cortada é considerada feia e uma menina que não foi cortada não se casará, o que nessas sociedades é o principal papel social da mulher.
Intervenções de países estrangeiros de tom moralista e imperialista há 50-60 anos resultaram numa reafirmação da FGM como tradição. E isso que é o legal do Orchid Project: elas trabalham com as comunidades, durante meses e até anos, para que a iniciativa de banir a prática parta de dentro, não de um bando de gringos eurocêntricos ainda que bem intencionados.
Intervenções de países estrangeiros de tom moralista e imperialista há 50-60 anos resultaram numa reafirmação da FGM como tradição. E isso que é o legal do Orchid Project: elas trabalham com as comunidades, durante meses e até anos, para que a iniciativa de banir a prática parta de dentro, não de um bando de gringos eurocêntricos ainda que bem intencionados.
O pessoal do Orchid Project diz que é possível erradicar a MGF completamente, como aconteceu com a prática de enfaixamento de pés na China, que foi banida em apenas 12 anos. A ONG Tostan já conseguiu que 5.300 comunidades abandonassem a prática de MGF utilizando uma metodologia super interessante, sempre com enfoque na comunidade.
Na época que assisti à palestra comecei a divulgar os dados para amig@s e foi interessante ver a reação de indignação das pessoas. Um amigo, inclusive, ficou muito movido e chamou as comunidades de primitivas, dizendo que não aceitava uma coisa dessas. Simpatizo muito com o sentimento de indignação e tristeza, mas ao mesmo tempo acho que as coisas são muito mais complexas porque estão inseridas culturalmente, e a verdade é que somos muito cegos quando se trata da nossa cultura.
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| A muffia: sem pelos, melhorada cosmeticamente |
Veja, por exemplo, as chamadas cirurgias de rejuvenescimento vaginal. (E aqui faço a ligação com meu último texto sobre a banalização das cirurgias plásticas no Brasil.) Elas estão sendo feitas em número crescente no Reino Unido, o que rendeu até uma marcha própria em Londres: a Muff March (a Marcha da Xoxota). E, surpresa, o Brasil faz 5 vezes mais cirurgias de rejuvenescimento vaginal do que a média dos top 25 do mundo.
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| Ame seus lábios |
Claro que se pode argumentar que há uma diferença grande entre a intervenção feita por esse tipo de cirurgia e a MGF, mas pelo menos em princípio elas são muito parecidas: a alteração da genitália feminina (incluindo um procedimento cirúrgico doloroso que sempre envolve algum risco) para se atingir uma estética arbitrariamente construída cultural e socialmente.
Não sei se meu amigo, que é brasileiro, se consideraria um bárbaro como ele esbravejou com relação às comunidades africanas. Mas acho que cabe a nós pelo menos nos indagarmos -- e nos indagarmos genuinamente, esquecendo argumentos que têm por base uma ideia distorcida de liberdade do tipo "fui eu que escolhi fazer a cirurgia" ou "eu não me sentia bem com o meu corpo" -- o quanto valores estéticos culturais são, na verdade, instrumentos de opressão das mulheres. E a MGF, assim como as cirurgias plásticas, são a ilustração perfeita de toda a tortura e dor que as mulheres passam para se enquadrar nos valores de uma sociedade ainda incrivelmente machista.
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| Suas partes íntimas são normais! |







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