por Tággidi Ribeiro
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| Mulher carrega foto de Amina Filali em protesto |
O ocidente deplorou a morte de Amina Filali, de apenas 16 anos. Para quem não sabe da história, a adolescente marroquina cometeu suicídio por ter sido obrigada a casar com seu estuprador (o nome dele não foi divulgado). No Marrocos é previsto em lei que homens deixem de cumprir pena pelo crime de estupro casando-se com suas vítimas. O estuprador de Amina achou por bem, então, casar-se com ela, em vez de ser condenado a até vinte anos de prisão. A família da moça concordou. Ela não. Infelizmente, Amina não era dona do seu corpo, nem de sua vontade.
Durante cinco meses de casamento, Amina foi constantemente agredida verbal e fisicamente, e repetidamente estuprada. Tentou voltar para a família, que não a recebeu. Sem saída para o inferno que seria sua vida, a adolescente tomou veneno de rato. Amina morreu no meio da rua – quando soube que ela havia ingerido o veneno, seu “marido” a arrastou pelos cabelos em via pública.
O ocidente, como dito antes, deplorou a morte da adolescente Amina Filali, em março deste ano. A comunidade internacional se mobilizou pela revogação da lei que obriga mulheres estupradas a casarem-se com os homens que as estupraram – o que ainda não aconteceu. Mesmo aqui no Brasil, onde em geral as vítimas de estupro enfrentam a desconfiança da opinião pública, Amina despertou compaixão.
Sei que muita gente deve ter falado ou pensado sobre a condição das mulheres orientais – sobre o quanto elas ainda sofrem com a falta de liberdade. Contudo, o pano de fundo da situação das mulheres orientais não difere do nosso e o fato do ocidente ter olhado com respeito para essa morte não o torna menos responsável por ela. Nós também matamos Amina Filali.
Nós matamos Amina Filali porque ainda julgamos que uma mulher só tem valor se for sexualmente pouco ativa. Para os marroquinos, a questão é simples: se a mulher praticou sexo antes do casamento, consentido ou não, ela nada mais vale. Por isso a lei faculta ao estuprador (com quem a mulher não consentiu sexo) casar-se com sua vítima – só ele pode redimi-la e ampará-la, já que nenhum outro homem quereria para si uma mulher que já foi de outro. Mais flexíveis que os orientais, permitimos às moças certa liberdade sexual: ter alguns parceiros/namorados antes do casamento é considerado normal. Ter muitos parceiros, não. Mulheres de muitos parceiros são preteridas para o casamento, sabemos muito bem disso. Então ficamos assim: no oriente, uma mulher de valor deve ter apenas um único homem em sua vida; no ocidente, uma mulher de valor deve ter, no máximo, cinco homens. Lembro a todos que, até os anos 1960, a valoração da mulher a leste e a oeste era dada pela mesma marca de um só parceiro sexual para a vida toda. E pergunto: quando vamos chegar à conclusão incrível de que essa distinção ridícula não faz sentido?
Por não ter resposta, reafirmo: nós também matamos Amina Filali. Enquanto medirmos o valor de uma mulher por quantos parceiros ela teve ao longo de sua vida, continuaremos matando e estuprando mulheres. Enquanto as mulheres não forem donas de seu corpo e sua vontade, continuaremos. Enquanto não assumirmos que as mulheres são seres humanos e não propriedades, continuaremos estuprando e matando Amina Filali.
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| Feminismo é a ideia radical de que mulheres são gente |



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