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Brandon Sullivan é um homem sem perspectivas. Seu único objetivo é trepar. Sua vida pode até parecer normal. Ele tem um bom emprego e vive cercado por belas mulheres no trabalho, nas ruas, nos bares e na web. Mas nos seus momentos de solidão, seu passatempo é a pornografia. Não demonstra outros interesses e sempre que tem uma oportunidade corre para o banheiro para se masturbar ou vai dar uma espiadinha em um site pornô ou em um chat de encontros. Na sua rotina obsessiva, o que é bom fica ruim. Qualquer relação se torna frustrante, e o prazer acaba esvaziado pela compulsão. Ele rejeita o afeto e só broxa uma vez, justamente quando encontra uma parceira legal. Brandon é o personagem central de Shame, drama que estreia no Brasil em março e já causou barulho nos Estados Unidos e na Europa ao lidar com um tema controvertido e atual: o vício em sexo.
Trata-se de um dos grandes males do século 21, mas os próprios médicos admitem dificuldades com seu diagnóstico. Embora tenha sido descrito há mais de 100 anos pelo psiquiatra alemão Richard von Krafft-Ebing, até o início dos anos 1990 pouco se falava nisso e nem se definia uma vida sexual sem limites como um transtorno psiquiátrico. A princípio não há doença nenhuma: é um distúrbio de comportamento e, muitas vezes, a suposta dependência parece mais um subterfúgio para celebridades americanas que traem suas patroas ou uma espécie de justificativa ética para sujeitos priápicos. Os psiquiatras consideram, com base nas recomendações da Organização Mundial de Saúde (OMS), que só existe patologia se a pessoa sofrer por causa dos seus hábitos ou se causar sofrimentos a terceiros. Se o sujeito não padece, é difícil transformar seu comportamento libidinoso em um distúrbio mental (parece ser o caso do ex-presidente do FMI, Dominique Strauss-Kahn, acusado de participar de uma rede de prostituição. DSK era assíduo de bacanais). O fato de alguém passar três ou quatro horas diárias, inclusive no trabalho, vendo pornografia ou participar de orgias não faz dele necessariamente desajustado, dizem os especialistas.
“O distúrbio só se verifica quando a pessoa se torna improdutiva e começa a ter prejuízos financeiros, problemas familiares ou sofre algum tipo de vergonha pública”, afirma o psiquiatra Marco Scanavino, do Programa de Estudos da Sexualidade da USP, Prosex. Os limites entre o que é inofensivo e o que é prejudicial são definidos subjetivamente. Na imaginação do viciado, o excesso vira uma virtude, já que transar muito e colecionar várias conquistas é valorizado hoje. Scanavino, responsável pelo ambulatório de Impulso Sexual Excessivo do Instituto de Psiquiatria, comanda a primeira pesquisa feita no Brasil sobre o tema, iniciada em 2010, no Hospital das Clínicas, em São Paulo. Sabe que anda em terreno pantanoso e cheio de incertezas. Noventa pacientes (80 homens e 10 mulheres) são acompanhados de perto e fornecem informações rotineiras. Os resultados serão divulgados neste ano, mas Scanavino adianta que os compulsivos podem ser divididos em dois grupos: o primeiro, que representa mais de 60% dos participantes, é formado por aqueles que buscam parceiros e fornicam sem parar. O segundo, por solitários que expressam seu vício consumindo pornografia na internet e masturbando-se.
Raul (o nome é fictício, a pedido dele), de 49 anos, passou a maior parte de sua vida transando loucamente. Encarou travestis, fez sexo no meio da rua, suingue, bacanal e só achou que havia algo errado há poucos anos. Desde garotinho dava sinais de um temperamento lascivo com as amiguinhas do bairro e sempre viveu com mais orgulho disso do que arrependimento. Achava que era um vitorioso. Só depois de perder tudo – o emprego, a casa onde vivia, a mulher com quem se casou – e se apaixonar por uma jovem de 18 anos, é que a ficha caiu. “Ela era praticamente uma criança, queria sair com as amigas e eu só queria sexo. Ela me rejeitava e, em um acesso de raiva, cheguei a agredi-la.” O surto de Raul foi grave. Ele perdeu peso, fez, finalmente, três testes de HIV (todos negativos), teve síndrome do pânico e entrou em depressão. Nessa época, quando começou a achar que ia morrer e os remédios não produziam efeito, pediu ajuda ao Prosex. “Ninguém conseguia identificar o que havia de errado comigo, até que fui parar no Prosex e comecei o tratamento”, conta. “Hoje, depois de seis anos sob acompanhamento médico, ainda tomo remédio. Consigo ficar uma semana sem transar numa boa e durmo bem. Minha esposa sabe do tratamento, mas devo confessar que ainda tenho minha amantezinha.”
Outro tipo de dependentes manifesta sua compulsão de maneira virtual. Sua devassidão é mais imaginária do que real. Não há grandes aventuras ou orgasmos múltiplos. Muitos dos que participam das reuniões de outra entidade de apoio de abrangência nacional, o Dasa (Dependentes de Amor e Sexo Anônimos), como conta um frequentador, têm medo das cenas que sua imaginação pode produzir. É gente tímida, que fala em anorexia sexual, “uma condição em que o corpo para de desejar, a mente, de imaginar, e a sexualidade mergulha em um oceano escuro e deixa de mandar e receber sinais”, conforme a definição do Dasa. Há recém-casados que não conseguem eliminar as fantasias da cabeça e, mesmo sem trair a mulher, são engolidos pela internet. Encaram o sexo como válvula de escape. Diante da possibilidade de perder um contrato ou de levar uma bronca do chefe, a primeira reação que têm é procurar o banheiro mais próximo para descarregar a tensão masturbando-se. Frequentemente, como não conseguem alcançar um bom termo, muitos viciados optam pela abstinência sexual. O Dasa funciona de uma maneira parecida com a dos alcoólicos anônimos. O desafio é passar um dia limpo – 24 horas de cada vez.
Scanavino diz que a internet é um catalisador da compulsão, tanto pelo acesso fácil à pornografia como pela possibilidade de encontrar parceiros em chats e sites de prostituição. A web intensificou um problema latente. O próprio Brandon, personagem deShame, em um raro momento em que ameaça interromper o círculo vicioso de devassidão, não titubeia: joga no lixo sua tralha pornô – notebook incluído. Um dos principais focos de tensão da história é justamente a checagem do computador na empresa em que trabalha.
Atualmente, a dependência sexual deixou de ser uma excentricidade ou um distúrbio raro. Em 2013, a Sociedade Americana de Psiquiatria (APA) divulgará a quinta edição do Código de Doenças Mentais (DSM-5) com uma nova descrição, mais criteriosa, o que facilitará o diagnóstico. A patologia será classificada como transtorno hipersexual, caracterizado por fantasias repetitivas, desejos incontroláveis e comportamentos excessivos. Estudos feitos nos EUA no final do século 20 indicam que entre 3% e 6% da população exibe (ou tenta esconder) algum tipo de impulso dessa natureza. No Brasil, segundo Scanavino, o transtorno deve atingir taxas parecidas. No Hospital das Clínicas, em São Paulo, sempre que há uma divulgação da pesquisa para recrutamento de voluntários, a procura por ajuda aumenta. No Dasa, as reuniões diárias são concorridas e conquistam adesão crescente. Há mais gente do que se imagina tentando recuperar as rédeas sobre sua vida e reduzir as consequências negativas da dependência sexual. O que todo mundo quer, afinal, é o bendito autocontrole.
*com reportagem de Juliene Moretti
Matéria publicada na Revista ALFA de março de 2012.

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