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Sete horas da manhã.


Uma brisa leve arrepia os pelos do meu braço. Penso em tudo o que me espera e um nervosismo aperta o coração. Tento me manter presente, sem pensar no esforço que vou encarar. Levo a atenção até meus pés e sinto-os tocando o chão, imóveis.


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Uma respirada funda inunda meus pulmões com o ar gelado da tímida manhã que reluta em acontecer. E isso me anima. Mexo os braços e as pernas pra ver se ainda tenho controle sobre o corpo ou se estou anestesiado dentro de um sonho. Não, tudo ainda está bem, não estou sonhando, isto é real, pra valer, é pra isso que eu me preparei, não vou desistir.


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Sinto a adrenalina se infiltrando em cada fresta dos meus tecidos, me aquecendo, fazendo surgir uma ansiedade e uma palpitação difícil de deixar passar. Forço uma respiração mais tranquila, profunda, completa. Lembro que me treinei para relaxar em momentos de tensão, sei que só estando relaxado é que posso dar tudo de mim, ver as brechas por onde andar e as oportunidades a agarrar.


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É isso. Tudo convergiu para este momento. Não tem porque voltar agora. É só ouvir o relógio bater e anos de dedicação serão postos à prova, testados à exaustão. Relembro que não cheguei até aqui só por causa da dedicação, com esforço, cheguei porque fui ajudado por uma infinidade de pessoas que viram sentido na minha trajetória, viram que algo bom poderia vir disso, pra mim e pra todos.


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A mente esvoaça, perde o prumo por alguns segundos. O corpo reage, impelido a fazer o que foi treinado a fazer. Volto a consciência pra este exato momento. Minha mente fica afiada, alerta, focada, sagaz. Reparo na respiração – está curta, rápida, pesada, ineficiente, se perdeu no nervosismo. Relaxo. Deixo o ar entrar e sair naturalmente, na medida da necessidade do coração. Reparo no tamborilar dentro do meu peito — forte, intenso, ritmado, feito uma tribo indo pra guerra.


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Olho para os lados. Outras mentes, outros corpos, outras vidas, outras histórias, lado a lado tentando o mesmo. Estamos juntos nessa loucura. O que os move? O que estão apostando nesta tentativa? Um misto de raiva e desespero toma conta. Raiva por ver outros mais bem preparados e desespero de não ter me dedicado o suficiente. Lembro da minha motivação e do que me moveu. Lembro das pessoas que ajudei a também se moverem em direção ao que procuravam. Isso me da mais ânimo e uma alegria brota no meu peito.


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Sou todo fluxo. Não preciso de controle e tensão pra continuar. A mente opera em outra frequência, relaxada e afiada, tranquila e em ebulição. O mundo parece girar mais devagar, cada movimento é o que de mais preciso tenho em mim. Nada é senão o que eu devo fazer, ali, naquelas circunstancias, naquele momento. Ao mesmo tempo percebo um relaxamento incrustado em cada ação. Um não-tentar-fazer, apenas deixar que tudo siga, sem obstrução, sem tentar ganhar um jogo comigo mesmo.


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Nem acredito que consegui. Estou ofegante, dei tudo de mim, fui além do que imaginava. O coração dispara de excitação e felicidade. Vejo se esgueirar um certo medo também — os resultados vão se escancarar logo ali, todos verão.


Percebo o quão desnecessário é esse temor, afinal, dentro de mim, tenho a certeza e a calma de perceber que nada poderia ser diferente. Usei tudo o que tinha e cheguei onde tudo me levou. Aliviado, enfim, cheiro o ar úmido, ouço o burburinho de vozes, sinto a respiração profunda, a mente tranquila, o corpo fadigado, cansado, levemente amortecido e cheio de vida.


Sete e meia da manhã.


Saio da água, me seco, reencontro a equipe, sorrio satisfeito por ter conseguido outra vez atravessar à braçadas alguns quilômetros em águas abertas.


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Fonte: Manhã de prova»

A liberdade sempre foi algo muito importante pra mim. Liberdade de poder colocar a mochila nas costas e ir pra qualquer lugar do globo; de escolher qualquer oportunidade que o destino me apresentasse; de usar o meu tempo da forma que eu quisesse; de ser quem ou o que eu bem entendesse. Mas será que isso é ser livre?


As pessoas (e eu me incluo nessa) costumam dar mais valor para a liberdade expressa em grandes atitudes, em rebeldias, aventuras, movimentos externos, do que aquelas liberdades comezinhas do cotidiano. Como se uma viagem de volta ao mundo fosse uma prova de liberdade maior do que a de escolher comer ou não um chocolate. É como se seguir os próprios impulsos fosse a liberdade suprema, aquilo que todos entendem por “ser livre”.


Por que quase a ideia de liberdade é retratada assim?

Por que quase sempre a ideia de liberdade é retratada assim?



Em outras palavras: achamos que quem tiver mais momentos de suposto prazer, relaxamento e êxtase certamente é a pessoa mais livre.


Mas, analisando melhor, talvez essa parte, a de seguir os próprios impulsos, seja justamente o que nos faz viver numa prisão permanente, bem longe da tão almejada liberdade.


Pense bem, nós somos reféns de qualquer vontade que pipocar na nossa cabeça. Nós pensamos que somos livres obedecendo ao menor impulso que vier, sem nem questionar de onde vem, o que ele está apontando e quais as consequências de seguir esse desejo. Tal qual uma pessoa pega pela torrente de um rio gritar que é livre, que escolheu estar na correnteza e que pode sair dela quando quiser.


Exemplificando: a gente foi xingado durante o jogo de futebol e surge raiva, uma vontade enorme de bater em quem nos ofendeu. De repente a raiva somos nós, personificamos a raiva rangendo e cerrando os dentes, contraindo os músculos, encurtando a respiração e “sangue nos olhos”. Daí até o embate não custa nada. Em pouco tempo estamos totalmente entregues a essa emoção que surgiu sem que a gente a questionasse ou analisasse.


Casos extremos, como as pessoas que sofrem de TOC, podem nos ajudar a visualizar esse processo de forma bem explicita. A pessoa diagnosticada com TOC não consegue evitar a compulsão — ou a vontade — de repetir atividades ou rituais para neutralizar uma obsessão. É como ter obsessão por limpeza e lavar as mãos repetidamente para tentar anular a fixação.


E nós todos somos assim também, iguaizinhos, em diferentes graus de fixação e compulsão. Não conseguimos nem ver onde começa a vontade e onde termina a liberdade de escolher. Se a pessoa se diz livre, mas não consegue viver sem café, será que ela é livre mesmo? E se você ainda não está convencido, é só pensar numa coceira: você tem liberdade de não se coçar imediatamente depois que sentiu a vontade? Mesmo sabendo que isso pode ser algo ruim?


Enquanto não percebermos o quanto estamos presos às nossas vontades, gostos, escolhas, desejos, opiniões, ideias, joguinhos e fixações, vamos continuar levando a prisão dentro da cabeça onde quer que a gente vá, mesmo que a gente viaje, se aventure e diga que é livre.


Casado, pai, trabalhando em empresa, morando no mesmo lugar e cada vez mais livre… É possível?


A escola, o trabalho, os relacionamentos, a paternidade, são sempre apontados como exemplos de prisão e sufocamento. Mas, talvez, pudéssemos olhar para eles como um espaço para cultivar a liberdade que existe além dos impulsos descontrolados. Além da histeria.


Imagine poder oferecer um relacionamento com liberdade — sem carência, sem apego, sem ciúmes — para sua parceira ou companheiro. Ajudar a pessoa a ser feliz, a atingir seu potencial humano, aprender e ensinar sem hierarquias, dar risadas dos tropeços sem diminuir ou menosprezar, querer estar próximo sem ficar controlando, mas saber que tudo isso pode desmoronar sem aviso prévio. Soa como sinônimo de liberdade, não? Tenho tentado cultivar isso, embora nem sempre consiga.


Como se relacionar de modo a aumentar — em vez de reduzir — a expansão, o espaço, a liberdade?

Como se relacionar de modo a aumentar — em vez de reduzir — a expansão, o espaço, a liberdade?



Minha recente paternidade também tem se mostrado como uma belíssima oportunidade de praticar outros olhares. Em meio ao caos de fraldas e choros, a liberdade está presente nas emoções que escolho cultivar. Posso escolher a alegria em vez do cansaço, a paciência em vez da raiva, a generosidade em vez da carência e o bom humor em vez da irritação. Parece pequeno, mas isso afeta tudo e todos à nossa volta.


Esses exemplos me parecem uma liberdade muito mais ampla e benéfica do que aquela, hedonista, que comentei no começo do texto. Se conseguirmos treinar essas qualidades, nas atividades mais rotineiras, podemos aplicá-las em várias outras frentes da vida, melhorando nossas relações e fazendo com que sejamos livres naturalmente, sem esforço.


Mais relatos


Eu gostaria que este papo não se esgotasse aqui, porque sei que ainda há muito a explorar nesse tema. Por isso, usem a caixa de comentários e digam: quais as suas visões do que é ser livre? Em quais outras situações de aparente aprisionamento podemos enxergar e cultivar a liberdade?




















Fonte: Ser livre é fazer o que se quer?»

Num mundo em que a única constante é a mudança, vamos combinar, a gente morre de medo das mudanças, não é?


Não me refiro só ao medo da escola nova, de não se encaixar na cidade desconhecida, das cobranças do chefe recém-contratado ou, até mesmo, do vizinho caladão com cara de poucos amigos que se mudou ontem.


Falo daquele medo mais interno de, sem querer, virar um ex-alguma-coisa: ex-namorado, ex-marido, ex-empregado, ex-esquerdista ou ex-pegador.


De qual fixação estamos falando?


Num nível sutil, fixação pode ser interpretada como sendo aquele aspecto da sua vida que você não gostaria que mudasse. Ou então, aquele detalhe na sua identidade que não deveria, nunca, encontrar o rolo compressor do destino. Ou ainda, aquilo que você tem certeza que é.


Ideologias, religiões, times de futebol, partidos políticos, apelidos, relacionamentos, status social, coisas das quais nos orgulhamos etc. Todas estas podem ser fontes de fixações que acabam por influenciar e restringir as nossas possibilidades de escolhas.


Isso sem contar que, se estamos com um olhar – ou uma mente, ou um espectro de possibilidades – restrito, isso atrapalha muito a nossa empatia e a nossa capacidade de ouvir o outro.


Mas e qual o problema em tê-las?


Se o mundo muda constantemente e nós tentamos, a todo custo, manter uma parte da nossa vida inalterada, algum atrito vai acontecer. Se tentarmos manter a nossa identidade atrelada a essas fixações, mais cedo ou mais tarde vamos ter que gastar uma energia tremenda tentando sustentá-las.


Com exemplos isso fica mais fácil de visualizar.


Às vezes é amor, às vezes é só apego mesmo

Às vezes é amor. Às vezes é só apego mesmo



Uma pessoa que se considera um Don Juan, vai estar sempre atrás de uma nova conquista, nunca ficando satisfeito e, mais cedo ou mais tarde, vai usar muita energia tentando sustentar essa fama, gastando muito em baladas, roupas caras, jantares e encontros. Se a fixação de Don Juan dele for atacada, ou contestada, vai gerar raiva, já que ele está tão certo de que é um amante perfeito que defenderá isso a qualquer custo.


Muitas brigas acontecem por causa das fixações. Uma pessoa é vegetariana e você vem dizer que comer carne é a melhor opção? Pronto. Campo fértil para uma discussão inglória. Imagine então, se o seu time do coração fechasse ou sumisse. Suspeito que você ia brigar até o fim dos dias pela volta ou, pelo menos, pra manter viva a memória do seu time.


E o que eu faço com elas?


A princípio não precisa fazer nada. Não tem problema nenhum em torcer pro seu time, ser do partido ou se considerar uma pessoa poderosa. O problema começa quando você tem uma certeza imutável e inabalável disso.


E se os mal-humorados passassem, do nada, a sorrir? E se você que tem certeza que é um fracote, começasse a desenvolver auto-compaixão? Rapaz. Isso seria subversivo!


Você também pode começar não cobrando padrões fixos dos outros. Aquele amigo que era Corintiano e passou a torcer pelo Vitória, só deixou as fixações de lado, não precisa cobrar isso dele.


Se você ‘congela’ a sua empregada doméstica nessa visão – como se ela não pudesse ir alem dessa função – o que acontece com esse seu olhar, quando ela vira prefeita?


Ter um certo nível de desconfiança para cada uma das nossas obsessões é um meio muito bom de ter uma vida mais leve. Se a gente pudesse sorrir a cada vez que a gente se perceber numa fixação, com certeza teríamos menos desentendimentos e bem mais amigos. Quanto menos amarrados formos, mais livres seremos.


Agora jogo a pergunta pra vocês: quais fixações vocês tem medo de deixar de lado?




















Fonte: Que tal deixar suas fixações de lado?»

Como Conquistar um Homem