A leitora Letícia repisa faz algum tempo no blog a sua desesperada interrogação.
Em resumo, esta:
“Oi, tudo bem? Bom, eu tenho um problemão… Sou amante de um cara há 2 anos e meio. Nesse meio tempo a gente tentou se separar mil e uma vezes, mas nunca conseguimos. A gente sempre sofria nesses términos e acabávamos voltando! Nesses dois anos e meio, já passamos por muita coisa juntos e, pasme, ele se casou. Ele escondia de mim o noivado, mas não o relacionamento. Num belo dia, eu descobri. Briguei, chorei, me culpei, mas acabei perdoando…”
Ah, meninas, a leitora Lelê continua! Sim, ela continua. Segue contando a história, e quem já leu a coisa toda nos comentários que ela publicou antes (deem uma olhada nos últimos posts), sabe que o caso vai muito além. Teve doença, dinheiro do avô, esposa que não gosta de sexo, sexo que é sexo delícia, loucura sensual, entrosamento, tristeza, promessa. Enfim, Letícia conclui:
“Ele agora está numa fase difícil da vida, está com depressão, e fico pensando: ele se casou há menos de um ano, que vida é essa que ele está levando com essa mulher? Um ano de casados, era para estar em lua de mel. Vive reclamando de falta de dinheiro, a mulher dele não trabalha, não cuida da casa, não vai para a cama com ele e nem quer ter filhos. Aff! Eu estou completamente desesperada, João, eu amo ele demais. Mas ele nunca vai ser meu, mesmo sabendo que ele é meu agora, como ele sempre diz. Me ajuda João, o que eu faço? Eu preciso que alguém me aponte um caminho! Eu preciso de uma resposta, da sua opinião sincera. Muito obrigada! Beijos, Lelê.”
Lelê, nenê, sabe o que acontece? O que acontece é que não tem pra ninguém, não tem pra nada: o grande vício da gente é o drama. Você e eu. Ele e ela. A gente adora um drama. E diante de um drama, somos reféns, somos cachorrinhos. É assim que caminha a humanidade, de quatro, de gatinhas, farejando dor e almejando sofrimento.
A sua história, doce de Leticinha, a sua história é 350% drama.
ENGANANDO A ENGANADA
Menina Letícia, vocês já eram amantes, confere? E esse cara, que já enganava a mulher, enganou você, confere? Ele não contou sobre o casamento. Ele escolheu casar! Dois anos e meio! Passando furrequíssimas desculpas a você e à mulher? Letícia, meu coração, aqui entre todos: esse cara é um malandro! Esse cara tá abusando.
Vamos ser duros, diretos, sinceros: sai dessa! É difícil, é complicado. Mas sai dessa! É o que há de se fazer.
Vamos pensar aqui – e, claro, tou botando nos meus dedos todo o peso do seu sofrimento -, a verdade é uma só: vocês dois estão reféns do drama. Ele tá deprimido, ele tá triste, mas ele tá confortável. Vida também é escolha. E não digo que ele precise escolher uma das duas. A vida tem disposições malucas. Quem disse que amor tem fórmula? Amor comporta muito mais que 1 + 1. Mas isso aí, essa manteiguinha que o cara tá te aplicando, isso não é mais só amor. É tanta novela, é tanta dor, é tanto enrosco que, numa boa, vocês podem até dizer que não, que é puro sentimento, 850% de sentimento, mas garanto que a dupla já não sabe onde nasce o sentimento e onde termina o sofrimento.
Sua vida caberia num ópera sertaneja, Letícia. E Leonardo não a cantaria melhor.
Não se preocupe: não te julgo. Ser amante é dureza. Sei que a vida cria mesmo esses acertos estranhos, heterodoxos. É possível amar sendo amante. Aliás, olha que linda essa palavra: amante.
Ser amante acontece. Às vezes, ser amante é o melhor relacionamento possível (e não atirem pedras, meninas! Tá na hora de a gente parar de tapar o sol com esse escorredor de macarrão). Porque sim, às vezes um relacionamento alternativo é uma bonita, ainda que estranha, jogada de amor e alegria. Não sei se dá certo. Não sei se deveria dar certo. Mas acontece. E se acontece, não vamos negar.
Apenas que… Apenas que ser amante exige pelo menos a ciência do jogo jogado. Um respeito dentro da falta de respeito. Quando dos três lados desse triângulo, dois sabem e convivem com clareza e alegria, vá lá. Se vocês dois tivessem um relacionamento tranquilo, sereno, mesmo dentro dessa situação delicada, tudo bem. Não é o caso. Você aspira a ser esposa, não amante. E ele aspira a confusão e a malandragem. Aí, quando é assim, quando não se vive a liberdade de um relacionamento furtivo, mas tranquilo, aí não dá. Aí não pode. Aí vocês dois se enganam.
Quando vira essa groselha de promessa furada, de engano que engana o enganado, quando a coisa tá assim, sai correndo. Escapa. É furada.
BOTANDO O SUSPENSÓRIO NA COBRA
O que quero dizer? Quero dizer que se a gente sofre, se a gente passa por uma rejeição e por uma situação que machuca, é da gente, é do povo, fazer as piores escolhas. A gente fica nessa de insistir, de não ver, de tentar botar o suspensório na cobra.
Letícia, minha doce Lelê: sofrer por sofrer, poxa, para com isso! Você tá vestindo suspensório numa jiboia! Sofra a opção que ao menos tem chance reduzidas de acabar mais cedo. E sabe qual é? É se afastar.
Curto e grosso: vocês dois acham que amam muito. Vocês até se amam. Mas é um amor menor. Um amor contaminado por drama. Por um ciclo sem fim de enganação. Por promessa. Se tem promessa, ferrou. Porque diante do drama e da expectativa, a gente vira refém. Ser refém de amor é não ter amor.
Sai dessa.

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