História Real:


Conheci Fréderic* há 11 anos. Ia visitar uma amiga em Sainte-Tulle, a 90 km de Marselha. E ele, próximo dessa amiga, falava português e se ofereceu para me esperar na estação de trem e levar até o hotel. Quando desembarquei, no entanto, ele não estava lá. Fui sozinha até o hotel e, já relaxada na banheira, a recepção avisou que ele estava no lobby. Desci meio desarrumada e tive um sobressalto quando o vi no saguão. Franco-marroquino, com a pele bronzeada e os lábios carnudos, Fred, então com 41 anos, era bem charmoso. Desculpou-se pelo atraso — em português, pois havia estudado o idioma na faculdade e trabalhava como intérprete na França — e me levou para jantar.
No fim da noite, nos despedimos e combinamos que, na manhã seguinte, ele passaria no hotel para me levar até a estação de trem. Ele apareceu na hora marcada, mas propôs uma carona de carro até Sainte-Tulle. Antes de chegarmos ao meu destino, Fréderic pediu que eu voltasse antes e passasse mais tempo com ele em Marselha. Estávamos claramente interessados um no outro.
Depois de quatro dias em Sainte-Tulle, fui encontrá-lo e me hospedar na casa dele. Nossas conversas fluíam e eu tinha impressão de conhecê-lo havia anos. Gostava de História e falava muito do seu país, o Marrocos. Disse que não era muçulmano e tinha ressalvas à maneira como a cultura árabe trata as mulheres.
Depois do jantar, fomos para a casa dele e, quando me mostrava o quarto onde eu dormiria, demos nosso primeiro beijo. Foi delicioso, macio. As carícias evoluíram e, ao contrário do que costumava acontecer na minha vida, me senti à vontade para transar na primeira noite. No dia seguinte, ele me levou à estação e a despedida foi difícil. Acenei através do vidro com um sorriso no rosto mas, assim que o trem se afastou, caí no choro.
Era a primeira vez que eu me sentia entregue assim, desde a adolescência, com meu primeiro namorado. Max e eu nos conhecemos na época do colégio e fazíamos planos de noivado. Mas quando estávamos prestes a completar três anos juntos, ele sofreu um acidente de moto e morreu. Entrei em depressão e emagreci demais. Na época, com 21 anos, cheguei a pesar menos de 40 quilos.
Com o tempo, tive algumas histórias com homens que pouco me atraíam. Ninguém mais havia me balançado tanto até o dia em que conheci Fréderic. Eu já estava com 41 anos e aquela viagem à França fez-me sentir novamente uma menina. De volta a minha casa, em Porto Alegre, o telefone tocou. Era ele. Disse que a minha passagem foi como um furacão na vida dele, e eu me derreti. Passamos a nos falar todos os dias por telefone. No Natal, fui visitá-lo. Em fevereiro, ele veio ao Brasil e conheceu minha família e meus amigos. Antes de ir embora, fez a proposta: ‘Você quer se casar comigo?’ Aceitei na hora.
"No início, era um conto de fadas. Não percebia detalhes da sua personalidade”
Tinha um emprego de mais de 20 anos num banco e amigos que eu adorava, mas topei abandonar tudo e viver esse amor. Nos casamos em Porto Alegre. Os filhos dele, de 11 e 14 anos, de um casamento anterior, vieram e nos demos bem.
Parecia brincadeira, mas menos de dez meses depois de tê-lo visto no saguão daquele hotel, estava casada e morando em Marselha. A vida, nos primeiros meses, parecia um conto de fadas. Tínhamos pequenos rituais de casal, como tomar café da manhã na sacada do apartamento ou nos despedirmos sempre da mesma forma. Fréderic avançava pela rua enquanto eu ficava de pé vendo-o se afastar. Quando chegava na esquina, virava-se de costas e acenava. Nessa hora, eu retribuía. Como eu ainda não tinha arrumado trabalho, levava uma vida de dona de casa, algo que, depois de duas décadas de labuta, estava adorando. Estava arranhando minhas primeiras frases em francês e provando todas as delícias da pâtisserie local. De tantos croissants epains au chocolat, engordei três quilos, mas estava feliz. Tão feliz que que demorei a perceber que Fréderic empurrava com a barriga a minha matrícula no curso de francês. Sempre que eu dizia que precisava começar as aulas, ele inventava uma desculpa para não irmos até a escola.
Depois de três meses em Marselha, decidi fazer eu mesma a matrícula. Saí com ele e, quando chegamos à rua da escola, avisei que dobraria a esquina. Ele tomou um susto, não esperava tamanha independência. Pediu que eu o acompanhasse até o trabalho e prometeu que iríamos à escola no fim do dia. No caminho, propôs me dar aulas em nossas conversas cotidianas. Claro, não topei. Como ele era tradutor, falávamos em português e mudar isso parecia uma ideia furada. Insisti na escola e, quando chegamos lá, ele deu outra desculpa: estava sem dinheiro na carteira. Eu havia previsto a manobra e levado meu próprio dinheiro, então saí de lá matriculada.
Logo nas primeiras semanas, a professora elogiou meu desempenho. Um dia, após a aula, estávamos conversando na sala quando Fréderic abriu a porta com força, esbaforido. ‘Você está aí!?’, disse nervoso. ‘Onde mais eu estaria?’, respondi sem entender. Ele costumava me esperar na saída da escola e, naquele dia, perdeu o controle com o meu atraso. Demorei alguns meses para perceber que aquela atitude era resultado de um ciúme anormal. Foi em uma vernissage, quando Fréderic me apresentou a uma amiga que trabalhava na biblioteca municipal, que comecei a me dar conta da gravidade. Encantada com o meu francês, ela perguntou se eu gostaria de trabalhar no setor de literatura latino-americana da biblioteca. Mal tive tempo de responder e ele se adiantou: ‘A Regina não tem o francês bom o suficiente para isso’. Fiquei surpresa com o corte. Acabara de ser elogiada e o trabalho só começaria dali a meses, quando minha fluência certamente estaria melhor. Disse isso a ele quando cheguei em casa e a justificativa foi: ‘Só quis te proteger de possíveis constrangimentos’.
Com o tempo, ele foi dando sinais mais claros da sua personalidade conturbada. Comprei um CD do Garrou, um cantor francês superbonito, e Fred perguntou se gostava dele pela beleza ou por causa da voz mesmo. Aos domingos, quando minhas amigas me ligavam do Brasil, ele corria para atender o telefone e checar quem era. Também começou a furar nos compromissos comigo, meio que para testar se eu aproveitaria a ausência dele para ‘aprontar alguma’. Chegava em casa e ele estava lá — era gentil ao me ver e já propunha algo no lugar e eu me derretia.
"Dei outra chance a nós, mas não teve jeito. Tive de fugir da loucura dele pela segunda vez”
Mas eu estava cada vez mais atenta e passei a enxergar detalhes na sua personalidade que não via antes. Reparei que mexia nas minhas coisas. Um dia, estava varrendo o quarto e encontrei uma foto do meu gato e do meu cachorro no chão. E fazia tempo que não abria a caixa em que guardava minhas lembranças. Mesmo culpada, resolvi checar. Pus uma linha na porta do armário que só cairia quando alguém abrisse — e foi o que aconteceu.
Resolvi não falar nada com ele, porque entendia que ele era ciumento, e achava que nossa felicidade dependia dessa compreensão. No entanto, ele passou dos limites quando eu disse que precisava vir ao Brasil visitar minha mãe, que estava com 77 anos. Ao telefone, ela parecia cada vez mais esquecida e desatenta. Minha intuição se provou acertada. Aqueles eram os primeiros sintomas de Alzheimer. Mas Fréderic adiou a compra das passagens ao máximo e, quando insisti, despejou a bomba: ‘Você quer ir ao Brasil porque tem um amante lá’. O rosto dele estava totalmente pálido e a voz, trêmula.
Não podia acreditar no que acabara de ouvir. Minhas pernas amoleceram e fiquei enjoada. O homem culto por quem me apaixonara se mostrava um louco fantasioso. Nessa noite, dormi no sofá e, durante a madrugada, ele veio me pedir desculpas. Fui para cama, mas não nos tocamos. Aos poucos, ele foi se esquecendo da acusação e, depois de algum tempo, fingia que nada havia acontecido. Mas não conseguia mais transar com ele. Sempre que se aproximava, me lembrava da expressão de quando me acusou de ter um amante e desanimava. Mesmo assim, vivíamos em certa harmonia.
Nossa paz durou até o dia em que retomei meus planos de vir ao Brasil e o amante imaginário voltou a ficar entre nós. Fréderic buscou um e-mail que havia impresso e perguntou se o homem que me escrevia era o meu namorado. Percebi que ele também olhava meus e-mails (dei a senha para que ele me fizesse um favor). O remetente era um amigo gay, que o próprio Fréderic havia conhecido em Porto Alegre. Pedi a separação e ele falou, sem nunca levantar a voz, que iríamos ‘resolver os nossos problemas’. Mas os sinais da sua personalidade conturbada ficavam cada vez mais claros. Um dia, ele me acusava de trai-lo e, no outro, me fazia surpresas românticas, como insistir que eu fosse encontrá-lo no porto para um passeio de barco.
Pedi para conversar novamente e disse que queria me separar, mas ouvi a mesma resposta: ‘vamos resolver os nossos problemas’. A terceira tentativa foi também a última. Ele parecia não me ouvir e me disse, de novo, que sairíamos da crise juntos. Ali me dei por vencida e comecei a tramar uma fuga de Marselha. Pedi ajuda a uma amiga que morava nos Estados Unidos. Eu não tinha dinheiro para a passagem. Com ela, montei uma rota para evitar que ele me seguisse. Em vez de pegar o avião em Paris, iria até Nice de trem, e de lá seguiria até o aeroporto de Milão, onde embarcaria para o Brasil. Consultei a agenda de Fréderic e estipulei minha data de partida quando ele tinha um compromisso de trabalho. Comprei uma passagem de trem e a colei debaixo do criado-mudo. Achei que ali era o lugar mais seguro para esconder o bilhete.
Na manhã do dia marcado, Fréderic foi supercarinhoso. Saiu para comprar croissants e depois, pediu que me despedisse dele da varanda, como sempre fazia. Fiquei ali de pé, acenando e chorando enquanto ele caminhava. Mas, assim que dobrou a esquina, corri pela casa recolhendo roupas e objetos que queria trazer para o Brasil. Em menos de uma hora, estava no táxi a caminho da estação de trem. Estava tão paranoica que consenti quando o taxista perguntou se eu era italiana. E segui mentindo: disse que iria a Paris. Imaginava Fréderic percorrendo a cidade atrás de informações sobre meu paradeiro e queria despistá-lo de todas as formas.
Quando o trem arrancou, chorei tanto que precisei ser consolada por dois turistas chineses que dividiam a cabine comigo. Seis horas depois do previsto, cheguei a Nice. Contrariando as sugestões da minha amiga, decidi ligar para casa. Queria saber como Fréderic havia reagido ao bilhete em que eu explicava que havia tomado essa atitude drástica porque ele se negava a aceitar os meus pedidos de separação. Ele atendeu o telefone chorando e foi logo pedindo detalhes de onde eu estava. Não disse nada e, mesmo arrasada, segui com o meu plano. Essa ligação foi o suficiente para que ele rastreasse a chamada, fosse até Nice, procurasse por mim nos hotéis da cidade e amanhecesse no estacionamento do aeroporto, ciente de que eu apareceria. Nessa hora, no entanto, eu já estava no trem rumo a Milão.
Quando cheguei ao Brasil, notei minha mãe bem debilitada. Tentei explicar que ela não deveria atender os telefonemas de Fréderic. Mas ela não conseguia entender. Poucos dias depois, eu estava na casa de uma amiga quando minha mãe telefonou dizendo que meu marido havia chegado. Estava ao lado dela, na nossa casa, e lá ficou hospedado. Topei um jantar para conversarmos. Ele admitiu o erro e prometeu procurar tratamento psicológico. Implorou para que eu voltasse, mas eu pedi mais um tempo para pensar. Estava tocada com a sua vontade de fazer as coisas funcionarem, mas ainda tinha medo de me ver de novo presa na sua teia de ciúme. Dois meses depois, minha mãe morreu em decorrência de um aneurisma de aorta. Fiquei muito abalada e decidi dar outra chance ao nosso casamento. Ainda era apaixonada por ele.
Voltei a Marselha e, por um momento, tudo parecia diferente. Fréderic havia agendado minha visita à escola de francês e dera início aos papéis para que eu pudesse trabalhar. Voltamos a transar como antes e era muito bom. Ele sempre foi carinhoso, algo que, para uma romântica como eu, é fundamental. Seu rehab, no entanto, acabava aí. Ele continuava me perseguindo, mexendo em minhas coisas e indo na escola em horários bizarros apenas para ver se eu estava lá. Percebi meu erro e entrei em desespero. Comecei a tramar uma segunda fuga e, dessa vez, fiz tudo debaixo do seu nariz. Pedi a uma amiga que ligasse fingindo ser a secretária de uma advogada responsável pelo inventário da minha mãe. Com a desculpa de assinar os papéis, planejei minha viagem ao Brasil com ele. Estava convidado para vir, mas eu sabia que o trabalho o impediria.
Já em Porto Alegre, telefonei para dizer que não voltaria. Ele veio me buscar, mas dessa vez fui firme. Retomei o meu posto no trabalho e encarei os olhares curiosos dos colegas. Quanto a Fréderic, doeu demais ver que, mesmo arrasado, não procurou um terapeuta para salvar nossa relação. Fez o contrário. Ele, que me ligava várias vezes por dia no primeiro mês de separação, depois disso entrou com o processo do divórcio. Assinei os papéis iniciais, mas o trâmite nunca foi concluído — sou, até hoje, casada na França. Há alguns anos, minha amiga de Sainte-Tulle morreu. Liguei para Fréderic. Ele foi irônico, fingiu que não reconheceu minha voz e, no meio da conversa, perguntou se eu estava namorando. E eu, que estava com o coração na boca de tão ansiosa, não tive coragem de perguntar nada sobre ele.
Voltei à França anos depois a passeio e incluí Marselha no roteiro. Queria dar outro significado à cidade. Não consegui. Chorei ao passar pela pracinha em frente à nossa casa e confesso que esperava encontrá-lo por acaso. Precisei de muita terapia para entender que sua loucura não era minha culpa. Quando me vi livre dessa dor, dois anos após o rompimento, fui surpreendida com um flerte em uma viagem ao litoral gaúcho. Ele era um pai de família divorciado e estava de férias com a filha. Foi só uma conversa e nunca mais nos vimos, mas a sensação de ser paquerada me fez muito bem. Mostrou-me, em um lampejo, que existe sim paixão saudável.
* O nome foi trocado a pedido da entrevistada

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