Parece que os homens têm medo de não serem mais importantes e necessários à mulher, como se elas fossem dominar tudo e, eles, ficarem na posição de inferioridade, até agora delegado à elas. E, a mulher parece ter a fantasia de que abrir mão do seu papel de “frágil” seria abrir mão da cômoda não-responsabilidade diante da relação e ainda ter que assumir tudo sozinhas: casa, filhos, trabalho...
Dentro da psicologia sabemos que todos os nossos medos de que um dia, num futuro, possa vir acontecer, de fato já, no presente, está acontecendo. Esta, sim, é uma grande realidade. Pois, é exatamente isto que vemos acontecendo atualmente no relacionamento homem-mulher.
Por medo de assumir a necessidade de se reformular os paradigmas, vemos grandes desencontros e a guerra estabelecida para se tentar preservar um status quo, de ambos os lados, que já nem existe mais.
Precisamos entender que temos muito mais a ganhar do que a perder com esta reformulação.
No presente, com os novos papéis conquistados – por homens e mulheres – temos, ambos, direitos garantidos enquanto indivíduos dentro da relação, pois não é possível se estabelecer um relacionamento amoroso sem a contraparte. A mulher é absolutamente importante na vida de um homem como o homem também o é na vida de uma mulher.
A obrigatoriedade de novos paradigmas, baseados em novas crenças e valores, sobre o que é relação homem-mulher, sobre o que é Alma Gêmea, se faz urgente.
Toda reformulação, toda transformação, só ocorre quando desenvolvemos consciência dos equívocos e contradição entre minhas necessidades emocionais, motivações internas, e as minhas atitudes.
Então, como podemos buscar a nossa “alma gêmea”, dentro daquele conceito medieval, de buscar a nossa outra metade que nos completaria e ainda assim ser Um indivíduo? Como, nós mulheres independentes, podemos nos colocar numa posição passiva de esperar alguém “especial e único” para nos “entregar”? Como pode um homem que diz querer uma companheira, querer também bancar o príncipe que luta contra o dragão para salvar sua bela adormecida? Embora a mulher e o homem modernos não falem neste tom está implícito quando se busca a “Alma Gêmea” ainda hoje.
Eis o paradoxo instalado: vamos ainda buscar nossa alma gêmea, no conceito medieval, e queremos uma relação liberal.
Precisamos entender que estamos num estágio tal de evolução que não nos permite viver na ignorância de nossa individualidade dentro de uma relação e que esta insistência em se viver ignorante de nós mesmos e da nossa cota de responsabilidade dentro de uma relação – seja ela qual for – leva-nos a este desencontro.
Precisamos, primeiro, encontrar a nós próprios, enquanto indivíduos, na nossa própria vida, para depois, encontrar o outro, também enquanto indivíduo.
Precisamos, tanto coletiva como individualmente, reformular o que é relacionamento amoroso, o que é Alma Gêmea. Precisamos desenvolver novos conceitos para o presente momento, para que possamos estabelecer novos códigos – códigos comuns à atualidade – dentro das novas necessidades do ser humano contemporâneo. Enquanto isto não acontecer só haverá encontros e desencontros, depressão, ansiedade, angústia e toda a gama de sentimentos fruto da falta de perspectiva diante da vida.
E como sair deste redemoinho desamoroso em que vivemos?
Antes de mais nada é necessário reformular nossos conceitos.
O primeiro passo é se ter consciência sobre a própria individualidade; o Indivíduo que somos, e quais são nossas reais necessidades, as mais prementes na nossa própria vida.
O segundo passo é saber que precisamos ter tais necessidades satisfeitas, em prol de nossa saúde emocional.
O terceiro passo é nos dar o direito de ter essas necessidades satisfeitas para que tenhamos uma vida feliz.
E, para que possamos reivindicar o direito à satisfação de nossas necessidades, primeiro precisamos assumir total responsabilidade sobre a nossa pessoa. Portanto, ninguém é responsável pela nossa vida nem pela nossa felicidade, porque ninguém pode ser vital à nossa sensação de felicidade e auto-respeito a não ser nós mesmos. Quando eu tenho claro estas questões para mim, enquanto indivíduo, consigo estabelecer relações mais satisfatórias em minha vida.
Então, quando eu vou inteiro – responsável por mim – ao encontro da minha contraparte e a minha contraparte vem inteira – também responsável por si – ao meu encontro, somos duas individualidades que se encontram e que buscam apenas estabelecer troca de amor, tão fundamental para uma relação.
Então, o novo conceito de Alma Gêmea poderia ser o de duas pessoas inteiras, que se encontram, que têm muitas afinidades e que estabelecem uma relação de amor, respeito, cumplicidade e intimidade. Para isto, então, precisamos rever, re-conceituar e esclarecer o que é Amor... o que é Respeito Mútuo... o que é Cumplicidade... o que é Intimidade... para cada um de nós e coletivamente...
Parece que este é o nosso exercício de vida para este começo de século, reformular conceitos e, conseqüentemente, o que é relacionamento amoroso, necessidades emocionais, papéis sociais, para que possamos ter uma melhor qualidade de vida e de relacionamento a partir de então.

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