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Estamos na era do aprimoramento pessoal. “Como” e “melhorar” são os novos mantras: como melhorar a alimentação, como melhorar o trabalho, como melhorar o relacionamento…


Quando aparece a palavra “rim”, é porque o rim não está funcionando bem. Quando se fala muito em paz, é porque não há paz. Se cada vez mais ouvimos sobre desenvolvimento humano, felicidade e transformação, talvez seja por que nunca estivemos tão confusos em relação ao que isso realmente significa.


Ao mesmo tempo em que quase tudo é vendido como transformador, cada vez menos voltamos às perguntas mais básicas: “O que é transformação? Como a gente se transforma?”


Nessa nova coluna aqui no PapodeHomem vou abrir esse longo papo.


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Foto: Julie DuBose



Quase não conversamos sobre como a gente se transforma


Quanto mais intensa a experiência (“espiritual”, “transcendental”, “humana”… não importa como a chamamos), menos nos dispomos a descrever internamente como e por que aquilo é realmente transformador – mesmo quando passamos horas detalhando como tudo acontece fora. E menos os outros trucam. Não é raro o diálogo se restringir a uma só fala: “Você precisa conhecer essa comunidade, o trabalho deles é muito profundo!” ou “Renasci depois desse workshop! Foram muitos aprendizados, insights, fichas caindo!”.


Se as falas se estendem, grandes chances de cairmos em algo como “Percebi que tudo é um!”, o que cria uma grande neblina: “Então o que eu preciso fazer para me transformar? Apenas perceber que tudo é um? Ler um livro de física quântica para trocar de paradigma? Como exatamente isso vai reduzir ciúme e ansiedade, por exemplo?”


A falta de diálogo e de linguagem precisa acaba nos deixando sozinhos em meio aos desafios do florescimento humano. Quanto mais becos obscuros, mais facilmente somos enganados por charlatões, por falsos professores, por empresários que se posicionam como gurus, por cientistas com premissas ocultas, por nós mesmos em epifanias e até pela indústria de psicofármacos.


Para iluminar os subterrâneos da transformação humana precisamos voltar para as perguntas mais óbvias. O que é transformação? O que exatamente se altera em nossa mente, nosso corpo, nas relações, no trabalho, na vida cotidiana? Há sinais de avanço, claros e comuns, não importa qual seja nosso caminho? Como podemos descrever e conversar sobre isso com mais clareza?


O limite das mudanças de vida


Para começar o papo, penso ser útil levantar uma confusão muito comum entre dois processos que tenho nomeado — apenas para estabelecer uma linguagem consensual — de mudança e transformação. O problema não se dá no âmbito das palavras: porque chamamos tudo da mesma coisa, perdemos de vista o processo mais profundo (tanto é que nos falta uma boa palavra!).


Quando se fala em transformação na maioria dos casos o que se oferece é apenas mais um tipo de mudança: de estilo de vida, de hábito, de crença, de “paradigma”, de trabalho, de cultura, de visão de mundo, de moradia, de relação, de propósito, de comportamento, de fascinação estética…


Mudamos de relação sem transformar a carência. Mudamos de método de produtividade sem transformar a distração. Mudamos de escritório sem transformar a competição. Mudamos de ansiolítico sem transformar a ansiedade. Mudamos de projeto incrível sem transformar a visão estreita. Mudamos de objetos sem transformar o apego. Mudamos de filosofia sem transformar a ignorância. Mudamos de estratégia sem transformar o medo. Mudamos de casa sem transformar a insatisfação.


Aproxime-se de uma pessoa que já alterou bastante seus hábitos e crenças, que foi de “Você cria sua realidade” a la The Secret para uma visão neodarwinista, do sedentarismo aos esportes radicais, e pergunte o que exatamente ela fez para superar o autocentramento, o ciúme, a dependência emocional… Sem precisar filosofar, apenas observando, descobrimos que é muito possível trocar de hábitos e crenças sem nem fazer cócegas em estruturas profundas de aprisionamento cognitivo e emocional. É possível mudar e melhorar sem se transformar.


Em uma conversa com Luciano Ribeiro, editor do PapodeHomem, ele me disse:



“Organizar e melhorar tudo na vida não significa que você está transformando as coisas. Você pode estar com as contas em dia, um relacionamento gostoso, dinheiro rendendo, corpo saudável, um trabalho dos sonhos… e isso ser apenas uma bomba relógio pois a qualquer momento uma grande aflição pode aparecer internamente ou uma tragédia pode aparecer externamente, e você desabar por falta de equilíbrio e sabedoria ao lidar com as experiências.”



Podemos casar com diversas pessoas e ir carregando junto o mesmo e velho ciúme para as próximas relações. Podemos implementar ações positivas por esforço sem nunca cultivar as qualidades que as tornariam naturais, livres e espontâneas. Portanto, assim como é melhor focar em superar o ciúme em vez de ficar escolhendo o próximo parceiro, é melhor focar em transcender qualquer tipo de crença e hábito em vez de ficar escolhendo as próximas crenças e hábitos.


Experimente agora lembrar de seu passado. Quantas vezes você já mudou? E o que você inevitavelmente carregou a cada novo nascimento? Um exemplo daquilo que carregamos junto a cada mudança: a mesma mente reativa, cada vez fascinada por uma nova história.


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Foto: Sylvaf



Mudamos, aprimoramos, melhoramos, rebuscamos, turbinamos, remediamos, resolvemos, ajustamos, lapidamos, aperfeiçoamos nossa pose, nossa esperança, nosso controle, mas não chegamos no ponto de não mais posar, não mais esperar, não mais controlar. E assim por diante.


As mudanças internas são as que mais se passam por transformação. Antes a pessoa se fixava em uma teoria sobre o que é a vida, agora ela mudou: está fixada em uma teoria mais sofisticada. E o mecanismo da fixação segue intocado…


A gente começa a se transformar justamente quando olha mais de perto para tais mudanças. Liberdade é se condicionar em um novo hábito ou não mais agir por condicionamento? Sabedoria é uma nova crença, uma visão incrível ou é compreender como um referencial se implanta e monta toda uma realidade sólida? Equilíbrio vem de controlar com mais esperteza ou de soltar o controle?


Não é fácil detectar o limite do processo de mudança em uma cultura que promove tantas soluções desse tipo. O site do TED é uma boa amostra desse zeitgeist atual. As palestras, se vistas em conjunto, parecem comunicar uma mensagem assim: “Você quer se transformar? Basta saber disso, estudar aquela pesquisa, ler tal livro, não esquecer daquilo, começar a dormir mais, usar esse novo modelo de pensamento, se exercitar assim, comer isso, fazer tal coisa, implementar tal hábito…”


Mudar de vida é diferente de transformar a vida


O processo da mudança funciona como uma constante busca por novas experiências. Quando alguém diz “Mudei” na maioria das vezes quer dizer: “Troquei de experiência”. O processo de transformação trabalha com toda e qualquer experiência, com cada vez menos necessidade de buscar por novas experiências ou de alterá-las externamente.


Quando eu me proponho a mudar, eu preciso de novas experiências. Quando eu me proponho a transformar, eu preciso apenas lidar com as experiências existentes. É por isso que se diz que os processos de transformação são sutis ou internos: eles dizem respeito ao nosso posicionamento, ao que podemos fazer em absolutamente qualquer situação, independente do que aconteça ao redor. Se você pegar as práticas que envolvem cultivo da atenção, equilíbrio emocional, sabedoria, empatia ou compaixão, nada disso exige uma mudança externa, ainda que possa eventualmente causá-la.


Em geral, trabalhos que focam em mudança acabam sugerindo manipulação de experiências. “Agora que você viu que a felicidade é trabalhar de seu notebook cada mês em uma cidade da Europa, peça demissão!”. Já as abordagens focadas em transformação sugerem um outro começo: “Não mexa em nada. Não peça demissão, não acabe o namoro, não raspe a cabeça… Apenas introduza mais ética, equilíbrio, sabedoria e compaixão, silenciosamente, a cada momento. E para fazer isso seria bom você parar de vez em quando para cultivar, treinar isso por dentro. Com o tempo, a partir desse maior espaço de liberdade, ficará mais fácil andar em alguma direção.”


As mudanças (mesmo as consideradas profundas) operam no âmbito dos conteúdos internos e das aparências externas. Mudar é trocar um condicionamento por outro — às vezes melhor, às vezes pior, mas condicionamento igual. A transformação acontece em outro âmbito: me dou conta que tudo que encontro é coemergente com meu olhar, então começo a trabalhar diretamente em meus olhos.


Um exemplo é a pessoa que percebe que não há culpados para seu ciúme (nenhuma pessoa, nenhuma situação), então ela desiste das mudanças de comportamentos, das estratégias todas, e começa a focar seu tempo em olhar para a operação interna do ciúme. Em vez de olhar para fora com o ciúme atrás dos olhos, tingindo a realidade, ela começa a olhar o ciúme de frente.


Quem propõe mudança vai nos ensinar a virar alguém, sustentar algum tipo de construção, tensionar. Quem propõe transformação vai nos ensinar a parar, relaxar, repousar, reconhecer quem somos e onde estamos, desistir da necessidade de ser alguém, olhar profundamente para nossa condição atual. (Claro, e vai nos ajudar em alguma mudança apenas na medida em que isso seja preciso para começarmos ou avançarmos no outro processo, de transformação.)


Como isso não está nada claro, pessoas que mudaram de vida são reverenciadas como se tivessem descoberto um grande segredo. Pessoas bem-sucedidas, que conseguiram grandes mudanças, são tomadas como referenciais de transformação. Pessoas cheias de ideias legais são tomadas como referenciais de sabedoria. Pessoas que se equilibram em condições externas e crenças otimistas estão ensinando outras a atingir o mesmo equilíbrio. Como? Não oferecendo sua liberdade, mas compartilhando seus condicionamentos: “Acredite nisso, construa-se de tal jeito, vença tal jogo, monte isso ao redor e, pronto, você será bem-sucedido igual eu!”


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Foto: Frank Fribley



Um parêntese


Boas mudanças podem favorecer a transformação, mas elas em si mesmo não transformam. Habitualmente costumamos entender as mudanças como suficientes ou como a única opção para quem deseja transformação. Mudanças (como essa de linguagem que estou propondo) não são o problema. Mudanças são muito úteis. O problema é quando uma mudança se passa por transformação, quando achamos que ela é algo maior. É como se eu falasse: “Apenas comece a falar assim e pronto, seus problemas estarão resolvidos!” Parece um exemplo bobo, mas é exatamente assim: quando esse discurso surge com alguma sofisticação, caímos.


Em um processo de transformação, algumas mudanças de vida acontecerão como apoio logístico — por exemplo, você precisará organizar seu trabalho para passar alguns dias em retiro, se familiarizando e investigando como a gente se transforma. E alguns frutos da transformação poderão também causar mudanças, mas isso não significa elas são a causa, o motor, muito menos o objetivo da transformação. São efeitos colaterais.


Produzir mudanças positivas é melhor do que não mudar ou mudar negativamente. Bons hábitos são melhores do que maus hábitos, cultura de paz é melhor do que violência, sonhos benéficos são melhores do que pesadelos. No entanto, em paralelo, melhor ainda se começarmos a acordar. Nosso problema é que conversamos e praticamos quase que exclusivamente os mais variados tipos de mudança, ignorando esse outro processo que aqui estou chamando de transformação.


Mudar é fácil, transformar não é


Um dos piores sintomas da confusão entre mudança e transformação é o discurso de que esse trabalho é algo simples. E tanta gente acredita! É uma tristeza: a pessoa passa décadas se dedicando a diversas mudanças e chega confusa ao fim da vida, sem quase nenhuma transformação. Mudar é ótimo. Mas apenas mudar é limitante, principalmente com aquilo que precisa ser liberado, superado, atravessado, iluminado, transcendido, não apenas remendado.


Praticantes contemplativos dedicam 30, 40, 50 anos de investigação da mente em primeira pessoa para cultivar equilíbrio, sabedoria e compaixão com métodos poderosos sob orientação de professores qualificados dentro de linhagens autênticas que se desdobram há muitos séculos. Mas aí a pessoa chega falando que está “tentando ser menos ciumenta” ou que antes ela era apegada ou impaciente, mas que conseguiu mudar isso do nada.


A humanidade inteira se esforça, todo santo dia, para construir um mundo que dê espaço para o florescimento do potencial de cada ser, uma cultura baseada em uma visão clara sobre as verdadeiras causas da felicidade genuína, uma cultura bem diferente da atual. Mas aí a pessoa chega e diz que o mundo já oferece mil oportunidades e é você que está bobeando, que basta escolher sua vida e ser feliz num estalar de dedos, apenas mudando alguns hábitos e crenças pessoais.


O trabalho da transformação é longo, diário, paciente e muitas vezes sujo. Sem oba-oba, sem fogos de artifício. Trabalho para a vida inteira. E isso não é uma fala bonita ou poética, é verdade: precisamos saber como começá-lo, experimentar, nos apropriar dos métodos e conversar mais sobre como ele acontece.


Caso contrário, vamos apenas mudar de vida, de novo e de novo e mais uma vez, apenas atualizando o software da confusão, enfeitando a mente reativa, aprimorando nosso autocentramento sob diferentes narrativas, lustrando nosso ciúme com romantismo, melhorando e pirando cada vez em uma nova história, uma nova dieta revolucionária, um novo hobbie, um novo look, um novo propósito, uma nova prática espiritual, um novo exercício físico, um novo método de produtividade, um novo insight genial, mais um projeto incrível de crowdfunding…


Mudar no máximo nos levará a uma versão melhorada de nós mesmos.


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Foto: Field Poppy



Seguimos o papo nos comentários


Você viu algum sentido nesse primeiro convite da coluna “Como a gente se transforma?” para conversarmos sobre a diferença entre mudança e transformação? Ressoou aí? Tem exemplos de ambos os processos na sua vida? Tem observado algo parecido nas vidas ao seu redor?


Passarei a semana de olho aqui nos comentários para quem quiser seguir o papo.


Abração!


* Todas as fotos usadas nesse texto são de miksang, fotografia contemplativa que foca menos no que é visto e mais no olho que vê.




por Gustavo Gitti





















Fonte: Mudar é fácil… | Como a gente se transforma? #1»

Tenho recebido alguns vídeos da galera tocando HANG, um instrumento super hype criado por suíços em 2001.


Como um hang soa bem mesmo quando cai uma pedra nele, muitos se aproveitam para fazer coisas que parecem músicas – e elas rodam o Facebook.


Se você quer ouvir coisa realmente boa, recomendo músicos que tocam muitos outros instrumentos, como o Caíto Marcondes e o David Kuckhermann:




Link YouTube




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Link YouTube


As duas primeiras têm trechos em 7 porque o ciclo de 7 soa muito bem num hang, talvez por ser como o instrumento: hipnótico e recursivo.


* * *

Esse é um texto despretensioso, um formato rápido com o qual pretendemos experimentar para compartilhar com vocês ideias e recomendações que valem seu tempo.




















Fonte: Hang é um instrumento fantástico, mas tocar ele de verdade é isso aqui»

Ontem fui ver dois documentários na Ciranda de Filmes, primeira mostra brasileira focada em educação e infância.


O primeiro, Paulo Freire contemporâneo (2006, disponível online na íntegra), de Toni Venturi, é um belo retrato da vida, do pensamento e dos desdobramentos da ação de Paulo Freire, mostrando experiências educacionais atuais nas mais afastadas regiões. De chorar o relato de uma senhora de Iguape sobre a primeira vez que olhou para palavras e enfim conseguiu ler.


Logo depois, sem pausas (o que criou um constraste absurdo, agradeço às organizadoras por isso!), começou Room to breathe (“Espaço para respirar”, 2013), de Russell Long e Gail Mallimson, sobre uma sala infernal na Marina Middle School, em São Francisco (EUA), que começa a receber a visita de Megan Cowan, co-fundadora e diretora da ONG Mindful Schools.


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O documentário começa retratando o problema da escola no estilo daqueles clássicos filmes sobre uma sala de alunos problemáticos que serão salvos pela Michelle Pfeiffer ou pelo Samuel L. Jackson. Especialmente depois de ouvir Paulo Freire, fica evidente que está tudo torto ali: o ambiente desconectado da realidade (um presídio, um depósito de crianças e jovens, como disse Viviane Mosé), o método (eles colocam alunos da sétima série em fila!), as expulsões constantes, a separação entre avançados e medianos, o racismo, a linguagem do professor e da direção. A vantagem é que o desespero cria abertura: “Vamos testar isso de mindfulness…”


As primeiras tentativas de Megan são angustiantes: ela está lá falando sobre observar a respiração enquanto as crianças gritam, se atacam com papel, não sossegam de modo algum. Ela alterna focos de atenção (respiração, sons externos, mastigação) e começa a pedir que eles mesmos conduzam a sessão. É bonito e triste quando ela sugere aos alunos que pensem “Que eu seja feliz” e depois pede que levante o braço quem nunca tinha parado um momento para desejar a própria felicidade. A maioria levanta. Para mim esse é o momento em que ela começa a realmente se comunicar. Autocompaixão parece ser um grande antídoto à cultura americana em geral.


O documentário acerta ao mostrar a vida e as famílias dos vários adolescentes, um a um. Em casa, cada criança é completamente outra: mais serena e responsável, sem a agitação que vive no ambiente escolar. E os pais reproduzem a cobrança escolar, como se felicidade fosse igual a boas notas e uma carreira de sucesso.


Foram apenas quinze encontros de cerca de 20 minutos, duas vezes por semana. Dá para ver como quase nada de trabalho com nosso mundo interno — parar, respirar, observar emoções e pensamentos surgindo, direcionar a própria mente, cultivar relações positivas — já impacta a vida. Os depoimentos ao fim são muito tocantes.




Link Vimeo | Trailer de “Room to breathe”


Algumas notas para abrir conversa


Saí do cinema feliz e muito triste. O trabalho da Mindful Schools parece ser incrível, mas há um grande problema na cultura em que ele surge.


Vou listar o que eu falaria se tivesse tomado um café com alguém logo depois do filme.



1)
É uma tragédia precisarmos de uma consultora externa para oferecer técnicas básicas de introspecção, de compaixão e de bondade amorosa em uma escola como algo curto e pontual. Os educadores e os pais poderiam fazer isso sempre, não? Vejam nesse vídeo como é simples o trabalho. Tudo o que precisamos é de tempo não preenchido, espaço para sentar, ouvir, silenciar, refinar a linguagem usual para conversarmos mais em primeira pessoa, por dentro da mente, do corpo sentido. Por que não fazemos isso com as crianças? Porque não sabemos direito fazer isso nem entre adultos!


2) Room to breathe tem um pressuposto que nunca é evidenciado, muito menos criticado durante o filme: são as crianças que precisam mudar, serenar, aprender a focar e se adequar à escola; não é a escola, não são os professores, não é a cultura inteira que precisa respirar e mudar.


Técnicas de meditação podem virar meios refinados de disciplina e servidão, o extremo oposto de seu verdadeiro propósito. Pseudomeditação, pseudocompaixão, tudo para que o professor consiga dar aula com mais silêncio, para que as notas aumentem, as expulsões diminuam e a escola permaneça intocada.


Aqui vale citar um importante texto sobre o que vem se chamando de “McMindfulness” (aqui o original e aqui a tradução):



“Quando a prática de ‘mindfulness’ é compartimentada desta forma, a interligação de motivos pessoais se perde. Há uma dissociação entre a própria transformação pessoal e o tipo de transformação social e organizacional que leva em conta as causas e condições do sofrimento num ambiente mais amplo. Tal colonização de ‘mindfulness’ também tem um efeito de instrumentalizar e reorientar a prática às necessidades do mercado, ao invés de uma reflexão crítica sobre as causas do nosso sofrimento coletivo ou dukkha social.


O Buda enfatizou que seu ensinamento era sobre a compreensão e erradicação de dukkha (“sofrimento” no sentido mais amplo). Então, como fica o dukkha causado pela maneira como as instituições funcionam? [...]


O resultado é uma versão atomizada e altamente privatizada da prática de ‘mindfulness’, que é facilmente cooptada e limitada ao que Jeremy Carrette e Richard King descrevem, em seu livro Selling Spirituality: The Silent Takeover of Religion como uma orientação “acomodacionista”. O treinamento em ‘mindfulness’ tem grande apelo porque se tornou um método moderno para subjugar distúrbios dos trabalhadores, promovendo uma aceitação tácita do status quo, e como uma ferramenta fundamental para manter a atenção focada em objetivos institucionais.”


—Ron Purser and David Loy



3) A técnica isolada tem seus benefícios, claro. O filme é sobre isso. E talvez um pouco de introspecção ajude alunos e educadores a acordarem e exigirem mudanças. Lá pelos 5 minutos dessa fala Megan Cowan admite que a coisa pode dar muito errado sem compaixão e como o treinamento da atenção pode impulsionar uma mudança no sistema educacional.


4) A escola tradicional não tem mecanismos nem espaços de escuta. No filme, em apenas uma sala, várias crianças reclamaram de não terem ninguém nem onde desabafar. É muito incrível quando uma menina barulhenta, que passa o dia inteiro tocando o terror, confessa seu desejo por um lugar tranquilo e silencioso, que não existe isso em sua vida. Sem escuta, os sonhos e qualidades das crianças passam batidas. O menino Gerardo, por exemplo, sonha em ser grafiteiro. Se houvesse um modo da escola ajudar nisso, ele imediatamente seria capaz de focar mais a atenção, não?


5) Quem começou com o que hoje chamamos de “mindfulness” foi Jon Kabat-Zinn. É importante esclarecer que essa técnica, como ensinada atualmente na maioria das iniciativas “minful”, não chega a ser uma adaptação da técnica milenar de pacificar a mente (shamatha ). Se fosse, sua instrução seria diferente e ela nunca seria desvinculada de pelo menos três outras categorias de treinamento: ética, sabedoria e compaixão.



“Yoga and meditation without ethics and wisdom are merely techniques for exercise and stress-reduction.”

Miles Neale



Sobre os benefícios da uma meditação isolada, ainda não achei um vídeo melhor do que esse do Robert Thurman sobre a importância de vincular a prática a toda uma visão de mundo mais ampla:




Link YouTube


6) Se pudéssemos introduzir apenas uma coisa dentro de uma escola ou de uma empresa, o que seria mais benéfico? Uma técnica isolada de atenção à respiração (num trabalho pontual) ou uma visão ampla sobre felicidade, sofrimento, sabedoria, compaixão, operação em rede, sonhos locais, escuta, diálogo, impermanência, interdependência, emoções, trabalhos e relações mais satisfatórias (dentro de um processo bem mais longo e contínuo)? E se pudéssemos fazer ambos?


7) Ensinar técnicas contemplativas simples para crianças pode ser realmente benéfico, principalmente porque isso exige que pais, mães e educadores as pratiquem. O trabalho de Susan Kaiser Greenland, recomendado por Alan Wallace, vai nessa direção. Ela coordena a fundação InnerKids e escreveu o livro The mindful child .


Corrida para lugar nenhum


Quando até os métodos mais profundos de emancipação humana (treino da atenção, equilíbrio emocional, sabedoria, compaixão) são cooptados pela cultura do sucesso pessoal, alguma coisa está muito errada. Estamos sendo aprisionados por aquilo que foi desenhado para nos libertar?


Parece que o filme que verei hoje, às 14h, é justamente sobre isso:




Link YouTube | Trailer de “Race to nowhere”


Se você for de São Paulo, recomendo demais: a Ciranda de Filmes vai até quinta-feira no cinema da Livraria Cultura, é só chegar meia hora antes (veja a programação).


Se for hoje, dá um toque nos comentários. Eu pago o café!




















Fonte: Room to breathe: é de meditação que as escolas precisam?»

Arte de Fábio Rodrigues

Arte: Fábio Rodrigues



Nesse começo de ano é comum surgir um clima de limpeza, ajuste de propósitos, retomada de sonhos, vontade de aproveitar melhor o tempo. Além de metas e promessas pontuais, o que exatamente pretendemos fazer para transformar nossa atitude como um todo, o modo como vivemos em corpo e mente todas as experiências?


Neste breve post (que enviamos por email semana passada para a lista de interessados no lugar ), sugerimos algumas possibilidades.



1. Assumir responsabilidade por nosso mundo interno.



“Quando minha filha dá um chilique e eu fico irritada, ela apenas está me apresentando à minha própria irritabilidade. A raiva não é causada por ela, a raiva é minha.”


—Ana Thomaz (em vídeo exclusivo para o lugar)




“Não é o que o outro seja irritante; eu é que me irrito.”


—Lama Padma Samten



2. Dedicar 15 minutos para uma prática diária realmente transformadora.


3. Toda vez que invejar amigos em fotos de festas no Instagram ou no Facebook, lembrar-se: não há festa.


4. Experimentar muitas peças numa loja cara e não levar nada. Usar a experiência de compra para enfrentar nossa necessidade constante de agradar a todos e aprender a consumir de forma mais consciente.


5. Comer mais comida de verdade. Dieta paleolítica, crudívera, low carb, reeducação alimentar com acompanhamento de nutricionista (não importa) ou fazer apenas o básico: diminuir o consumo de açúcar refinado e industrializados. Comprar na feira ou encomendar de um pequeno produtor orgânico é um bom começo.


6. Não divulgar conteúdos maléficos, mesmo que seja para criticá-los.



“Não devemos comentar conteúdos que consideramos moralmente negativos, muito menos compartilhá-los (ainda que com um comentário negativo). Não existe publicidade negativa, e o melhor é sempre punir com o ostracismo.”


—Eduardo Pinheiro (em texto exclusivo para o lugar)



7. Lembrar da morte, desenvolver critérios mais afiados para filtrar lixo cognitivo e não ser tão refém de epifanias e distrações.


8. Responder a si mesmo: sofro trabalhando para ganhar dinheiro suficiente para comprar experiências que ajudem a suportar esse sofrimento? Caso a resposta seja sim: “O seu estilo de vida já foi projetado” e “Pare de equilibrar sua vida com seu trabalho”.



Do sempre genial André Dahmer | www.malvados.com.br

Do sempre genial André Dahmer | www.malvados.com.br



9. Descobrir arte além do entretenimento. Pedir curadoria para amigos da área, fuçar o IMDB, usar a arte para expandir nossos sentidos e cultivar empatia.


10. Aprender alguma atividade corporal e lúdica (dança, artes marciais, teatro, esporte…), que naturalmente causa mudanças indiretas em nossa relação com o corpo — nosso e dos outros.


11. Olhar mais para o céu.


12. Conhecer a comunidade e se apropriar dos espaços que nos cercam. Apresentar-se aos vizinhos, ajudar desconhecidos, cuidar daquela praça escondida no fim da rua, pendurar um cartaz no elevador do prédio para descobrir o sonho dos outros, habitar de verdade nosso próprio bairro.


13. Adicionar uma camada silenciosa de treinamento interno. Não necessariamente sair do emprego, acabar o casamento, raspar a cabeça (o problema nunca é o emprego, o casamento ou o cabelo…). Não fazer alarde.


14. Pirar. Realmente pirar em algo. E às vezes apenas pirar, a la Reggie Watts, no melhor estilo WTF.



Você deseja intensificar seu desenvolvimento?


É possível implementar algumas mudanças andando sozinho. Mas podemos também praticar em rede, junto com quem está igualmente motivado a cultivar qualidades positivas.


No lugar, oferecemos uma plataforma online que concentra pessoas de todo canto do Brasil e do exterior para experimentar práticas de impacto direto no cotidiano, conversar sobre o que importa, oferecer e pedir ajuda, enriquecer projetos e aprender de perto com diversas vidas.


Se quiser participar deste experimento de transformação coletiva, entre por aqui →



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Se não quiser entrar agora e participar, você pode receber o conteúdo aberto que desagua da movimentação dentro do lugar.


Enviamos um email por mês.

























Desejo de coração que qualquer lugar seja o lugar, que toda situação difícil seja incorporada ao nosso treinamento (seja ele qual for), que nossa atividade se torne cada vez mais impactante com cada vez menos esforço, e que sejamos atropelados por aquela presença descomplicada que surge em nós quando paramos de tentar ser alguém.


Seguimos!




















Fonte: 14 práticas para 2014 (ou Como se envergonhar de si mesmo em 2015)»

Como Conquistar um Homem