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Tudo durou cerca de cinco segundos. Eu estava saindo do Allianz Parque ao final do show e uma multidão de cinquenta, sessenta pessoas foi barrada pelos policiais. Tudo para dar espaço a uma carreata de vans que saía do estádio. No meio delas, um ônibus. Na janela da frente do ônibus, de pé e ao lado do motorista, um beatle acenava para as pessoas na rua, ainda com a roupa do show.


Eu acenei de volta, como se estivesse me despedindo. Mas não estava.


Poucas bandas estiveram ao meu lado durante tanto tempo. Comecei a ouvir num K7 comprado no final dos anos 80 e foi paixão à primeira vista. Ouvi tanto a fita que suas quatro primeiras músicas (“She Loves You”, “Love Me Do”, “I Want to Hold Your Hand” e “Can’t Buy Me Love”, nesta ordem) ficaram tatuadas na minha cabeça como uma coisa só. Quando estou ouvindo uma delas e o final se aproxima, meu cérebro começa a esperar pelo início da próxima.


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Minha vida avançou. Também em termos musicais. Descobri o heavy metal, me aprofundei no rock clássico, me apaixonei pelo blues clássico. Mas os discos dos Beatles sempre estiveram ali, ao meu redor. Não é apenas admiração, é algo que vai além. Faz parte da minha história. Talvez seja por isso que, no meu iTunes, Beatles fica classificado como um gênero próprio, à parte de rock clássico. Minhas listas são totalmente emocionais e regidas pelo meu humor. Às vezes quero ouvir heavy metal, às vezes preciso de rock clássico.


Mas quando eu quero ouvir Beatles, quero ouvir apenas Beatles.


Sempre foi assim.


Por uma daquelas ironias, eu demorei tanto tempo para conseguir ver um beatle ao vivo que, em muitos momentos, achei que isso nunca iria acontecer. Mas aconteceu, em 2010. Talvez para você faça apenas quatro anos, mas para mim é uma vida inteira. Quando Paul McCartney subiu no palco do Morumbi tocando “Jet”, eu era uma pessoa bem diferente do que sou hoje.


Se ainda se passariam alguns meses até eu ser diagnosticado com depressão e síndrome do pânico, os sintomas já estavam todos ali comigo, ouvindo Beatles.


Isso não me impediu de adorar o show, de chorar sem entender direito o motivo (algo que aconteceria muito no ano seguinte) em diversas passagens — sem condições de escrever uma resenha do show, como era costume, eu publiquei uma crônica que muitas pessoas consideram a melhor que fiz até hoje. E um item bem importante na minha lista de “coisas para fazer antes de morrer” foi riscado.


Eu havia visto um beatle.


Isso apenas aumentou meu amor pela banda. E, se muita coisa aconteceu em quatro anos, este amor cresceu ainda mais. Costumo dizer que fui ao inferno e voltei; mas sei que voltei por ter o apoio de pessoas muito importantes: minha família; minha então namorada, que hoje é minha esposa; e meus amigos. E entre estes amigos estão John, Paul, George e Ringo que ficaram mais e mais ao meu lado, me confortando, me aconselhando, me acalmando. Quando comecei a dar meus primeiros passos saindo do inferno, tatuei os quatro no ombro.


Por isso que, ontem, eu não fui ver assistir a um show, mas sim rever um velho amigo. De reencontrar alguém que esteve comigo durante tanto tempo, especialmente quando mais precisei.


No começo, achei que não daria certo. A má organização nas filas fez com que demorássemos mais de hora para entrar no estádio; a chuva que não caía há meses resolveu cair ontem. Estávamos bem ao lado do palco no começo do show, a qualidade do som tornava impossível ouvir o que ele dizia, seja durante as músicas ou entre elas. Não melhorava. Resolvemos mudar de lugar.


Foi quando tudo começou a funcionar. A voz dele chegava, falando sobre a longa e sinuosa estrada que leva até sua porta. Com o tempo, o som melhorou ainda mais, tornando-se um show. A cada música, as pessoas ao meu lado pareciam entrar numa espécie de êxtase (bem diferente da lateral do palco onde eu estava inicialmente, onde as pessoas estavam mais preocupadas em gritar “senta!” para quem se levantava para dançar ou pular).


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E foi ouvindo bem que peguei a última leva de clássicos, que passavam por Beatles e Wings, iam de John Lennon (“Here Today”) a Linda McCartney (“Maybe I’m Amazed”), e pareciam encantar o estádio. Ao meu lado, todos pareciam se encantar mais e mais com aquele senhor inglês que, entre uma música e outra, fazia piadas, arriscava palavras em português e empunhava seu baixo para o alto, sendo aplaudido a cada passo, a cada acorde.


Mas foi na segunda metade do show, após um trecho com músicas do disco novo que a coisa começou a acontecer de verdade. Não me entendam mal: a primeira metade foi ótima; mas a segunda metade se tornou quase uma experiência religiosa, com direito a surpresas (nunca imaginei que iria ver pequenos tesouros como “All Together Now” ou “Being for The Benefit of Mr. Kite” ao vivo). E, se em 2010 o setlist era equilibrado, com clássicos obrigatórios se alternando com músicas “apenas” ótimas, em 2014 Paul jogou sujo e empurrou quase todos as músicas icônicas para a última hora de show.


“Eleanor Rigby”. “Something”. “Band on the Run”. “Back in the U.R.S.S.R”. Cada música, gritos, aplausos, lágrimas, celulares acesos. As pessoas começam a dançar, a aplaudir, cada uma em seu ritmo, cada uma com sua história, cada uma do seu jeito, cada uma com suas lembranças de cada música.


Pessoas da organização saem dos corredores e correm para a plateia, fotografar, assistir, filmar, cantar junto. Não há mais plateia, seguranças, organizadores. Não existe mais nada, a não ser música — menos para o bêbado ao meu lado, talvez o fã mais apaixonado que eu tenha visto na vida, que se estranhou com um sujeito que roubou o lugar de seu amigo e ensaiaram quebrar o pau ali, ao meu lado, com direito a dedo na cara, seguranças, PMs e tudo aquilo que uma situação dessas pede.


Foi no meio da briga que eu saí para fumar. Paul estava começando “Ob-la-Di, Ob-La-Da” e fui para um canto perto da escada. E, com o cigarro no canto da boca e ouvindo a música, comecei a tocar um baixo imaginário, e cantar junto. De repente, eu estava tocando e dançando, sozinho. Dançando, mesmo. Não apenas mexendo o ombro, ou batendo o pé. Eu estava dançando, sozinho, num palco meu.


Um segurança me viu fazendo aquilo e sorriu. E eu sorri de volta. Eu não estava mais apenas aproveitando o show. Eu estava feliz — e, ao perceber isso, entendi quanto tempo havia se passado entre o último show e ontem. Quanto de mim havia se passado entre o último show e ontem.


Ao final do show, Paul faz todos se renderem emendando “Let it Be”, “Live and Let Die” — com direito a explosões e fogos que parecem aumentar a cada turnê — e “Hey Jude”, que já muito tempo deixou de ser uma música e se tornou uma espécie de catarse coletiva, em que não basta ouvir a música. É preciso cantar com ele — e, se você é fã, se sente parte da história ao fazer isso. Você deixa de ser uma pessoa e se se sente parte de algo maior, muito maior que você.


São clássicos atrás de clássicos. Para quem gosta de rock, é como ver a história desfilando na sua frente. E o mesmo acontece no bis, com o riff de “Day Tripper” e a surpreendente “I Saw Her Standing There”, nada menos que a primeira música do primeiro disco dos Beatles e que, no alto de seus 52 anos, fez um estádio inteiro dançar como se fosse um lançamento que tocasse nas rádios todos os dias. E, com a inevitável “Yesterday”, a furiosa “Helter Skelter” e o encerramento com “Golden Slumbers”, “Carry That Weight” e “The End”, Paul se despede deixando um Allianz Parque atônito.


Ouvindo os comentários ao meu redor, quem nunca havia visto um show dele antes parece não compreender direito o que acabou de testemunhar. As pessoas não encontram palavras para descrever o show — eu passei por isso em 2010.


É um gênio musical, um artista que parece viver eternamente no auge — enquanto vocalistas de bandas mais antigas somem do palco para descansar, Paul faz o contrário: em muitos momentos do show de três horas, a banda desaparece do palco e o show se torna apenas ele.


Mas música é algo emocional, e talvez emocionalmente ninguém tenha definido melhor a sensação que minha esposa, ao me dizer que “ao assistir um show do Paul, você sai do estádio otimista. Você volta para casa com a certeza de que a vida é melhor do que você imagina”.


E você volta para casa se sentindo uma pessoa melhor, sabendo que in the end, the love you take is equal to the love you make.


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Paul faz a vida ser mais simples. Beatles faz a vida ser mais simples.


Por isso que saí do estádio com a certeza de que, depois de quatro anos, o show de ontem inaugurava um novo capítulo na minha vida. E dei de cara com Paul McCartney. Ele acenou para nós da janela do ônibus, e eu acenei de volta, como se estivesse me despedindo. E sorri para ele.


Na verdade, eu estava agradecendo. Ou, ao menos, tentando. Pois talvez seja possível agradecer por três horas, mas não sei como agradecer por quatro anos. E, definitivamente, não sei como agradecer por toda uma vida de amizade.


Mas acho que não era necessário agradecer. Ao se despedir com um “até a próxima”, Paul deixa claro não que irá voltar, mas que, na verdade, estará sempre por perto, como um bom amigo.


E essa é a melhor coisa que você pode esperar de um amigo: que ele esteja com você em todos os instantes. Que ele faça parte da sua vida e ajude a explicar e escrever pedaços da sua história – mesmo que em forma de músicas. Pois cada uma das dezenas de milhares de pessoas que estavam no estádio ontem tem a sua própria história com as músicas de Paul McCartney e dos Beatles.


Esta é a minha.




por Rob Gordon





















Fonte: Eu vi Paul McCartney de perto»

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