Meninas, eu não sei vocês – e pra falar bem a verdade, eu não sei nem mesmo de mim –, mas preciso dizer: o ser humano quando se dá ao romantismo é um pateta, um troncho, um tosco e um palerma.
Venham comigo rumo ao grande e-mail que acabo de receber.
“João, tenho uma dúvida urgente-urgentíssima. Trabalho num escritório grande. Quatro andares de um edifício desses em que sem crachá você não consegue nem tomar um cafezinho. Pois bem. Uns tempos atrás, houve essa festa, happy hour com potencial pra ir longe. A empresa tinha batido uma meta, coisa e tal, e a direção quis celebrar.
Todo mundo que trabalha em qualquer lugar grande sabe que essas festinhas são uma desculpa pra gente comer, beber, tudo de graça, e, mais do que tudo, passar em revista o pessoal que trabalha sem que a gente possa conhecer mais profundamente do que um ‘oi’ rápido, fugidio, ali no refeitório. Ou seja, subimos ao terraço pra vermos e sermos vistos. Conferir os gatinhos, os potenciais, as possibilidades.
Pois então: nessa festa, em dado momento, já tendo um diretor desabotoado a camisa social e assumido a roupinha de DJ (um camiseta justinha com lantejoula, devo rir e dizer, João!), o povo foi pra pista calibrado com álcool, pouca vergonha e salgadinho.
Nessas, conheci o fulano que já tinha me chamado atenção uns tempos atrás. Sou do quinto andar, ele é do terceiro. Como quase nunca a gente tem a chance de se ver e falar – e nem o nome completo dele eu sabia –, pegamos a oportunidade e, na pista, ombro com ombro, iniciamos um diálogo, trocamos nomes, ele pegou mais bebida pra mim, coisinha rápida, demos tchau, e tudo bem.
Mas, evidente, ele sabia e eu sabia que aquela rápida conversa era uma porta escancarada pra coisa fluir. Porque, sabendo meu nome (e eu tinha plena consciência disso, tanto que soletrei meu sobrenome, que é holandês e difícil de grafar só de orelhada), ele poderia buscar num comunicador online e interno que temos e me dizer ‘olá’.
Não deu outra. Batatissimamente, no dia seguinte chegou o ‘oi’.
Começamos a conversar. Dias forma passando. Ele vinha, ríamos, falávamos do tempo, da vida, da empresa, de quem havia tropeçado na pista, sobre o gosto duvidoso (duvidoso uma ova, João! Jequíssimo, isso sim) do nosso DJ-diretor. Falávamos de fim de ano, de feriado, de tudo… Quando a gente se encontrava, raramente, no térreo, falávamos amenidades, beijinho no rosto e tchau. Uma vez, sentamos rapidamente pra um cafezinho depois do almoço.
Até que, enfim, cumprindo a meta de estabelecer uma quase-intimidade, o suficiente pro convite, ele soltou: ‘vamos fazer alguma coisa?’.
Fomos!
João, foi legal e foi estranho. Foi legal porque ele é legal, porque eu tava com vontade, porque sei que primeiro encontro é mesmo um negócio desengonçado. Ele meio nervoso, buscando o que falar o tempo todo, a gente rindo, preenchendo com qualquer coisa, qualquer ruído, até com uns ‘éééééé… que coisaaa… hein’, olhando pro teto, buscando assunto quando o assunto acabava. Enfim, legal, normal.
E foi estranho por tudo isso que eu disse acima. Porque a gente sabe que estamos os dois ali num teste, querendo ver o que cada um pensa do outro, se as expectativas tão sendo cumpridas, se vai ter beijo, se vai ser quente ou vai ser romântico. Se vai ser frio!! Enfim, estranho.
Mas em todo primeiro encontro há sempre um auge de estranheza: a hora de beijar. Ou de não beijar.
E aí que a novela desembestou. Ele é dos tímidos, João. Acho uma gracinha por um lado, e acho irritante por outro. Porque, também, na hora, eu nervosa, não dá muito pra perceber se ele é só tímido ou se não tava interessado em mim.
Sei que pedimos a conta, fomos em direção à rua, eu esperando o momento, o momento não vindo, começamos a andar pelo bairro, andamos, andamos, compramos uma cerveja, sentamos no meio fio, levantamos, eu dando uma entradinhas suaves e… nada. Nada de o beijo vir.
Enfim, foi, foi, foi, e sabe quando passa do momento? Quando de repente você percebe que daquela noite nada mais sairá?
Sabe? Estranho, João. Porque eu ainda tava a fim, mas já meio em dúvida se queria aquela noite. Eu tava cansada, sabe? E ele também. Mas tinha sido legal por um lado. Sei lá. Teve aquele momentinho, quando pagamos a conta e nos olhamos na frente do bar, que era O MOMENTO. Era só ele vir. Mas também, vai saber, entendo que ele talvez estivesse com medo de não rolar. Mas acho que dei as deixas. Ou não dei?
Só que ouvindo um amigo, pra quem contei o negócio no dia seguinte, ele me disse: ‘Vocês que pensam que é fácil! Homem quase nunca sabe quando a mulher dá deixa sutil. A gente é camicase em algum momento do encontro. Prende a respiração, faz figa, grita Gerôôônimo pra dentro, e mergulha… Às vezes dá certo, mas às vezes é toco! Homem é meio porta: só entende as deixas gritadas, as óbvias…’
‘Foi isso!’, eu pensei. Ele tava tímido mesmo!
E daí fiquei em dúvida: não beijamos, certo? E agora tá meio constrangedor, certo?Porque, claro, acabou sendo um negócio meio juvenil a gente ter ficado com vergonha, embaraçado, tropeçando na hora de dar o beijo. Os dois queríamos, eu sei. Mas ele não sabe! E acho que ele se cobra. Ele tá olhando um pouco pro chão quando nos encontramos. E apesar de eu ter dito que foi legal, acho que ele entendeu que eu só queria aquilo mesmo: o bar e não o beijo.
Minha pergunta é: o que eu faço? Tomo a iniciativa? Isso é normal mesmo entre vocês? Homens sentem tanta vergonha assim? Vocês ficam muito tensos e escondem? Isso é comum? Quando a gente perde a deixa do primeiro beijo, tem jeito?
Me ajuda, João”.
A PEDRA NO MEIO DO ENCONTRO
Ah, meninas. Que essa cartinha eu ajudo!
Porque nada mais pateta, troncho, tosco e palerma do que o homem e a mulher no primeiro encontro, na véspera da beijoca inaugural.
Já disse e direi de novo: visto de longe, toda saída com finalidades de investigação romântica é o encontro do boboca com a tontinha.
A gente fica ali fingindo que a gente não está ali pelo que está ali. A gente complica. A gente cria esses testezinhos engraçados pra ver se ele ou se ela estão aptos. Se falaram as coisas certas. Se vestiram a roupa certa. Se beberam as coisas certas.
Um primeiro encontro é o ridículo em seu esplendor.
E, evidentemente, porque as coisas são como são, cabe em geral ao homem um papel meio bocó de condutor da coisa. Mas saibam, meninas: por trás da fachada, do peito inflado, basta espetar um palito de dente pra que o interior daquele sujeito esvazie num sopro agudíssimo de vento, revelando, por baixo, um bloco de gelo pequenino e derretendo a toda velocidade.
Um homem, num primeiro encontro, é uma pilha de nervos, uma ruminação total de dúvidas, um mar de suor interno. Mesmo que ele se convença de que não.
Regra geral do homem diante de você e do bar: ele não fará jamais ideia do que deve dizer ou fazer. Ele faz e reza pra dar certo.
Donde, de certa forma, todo macho, num primeiro encontro, é um macho à espera de um milagre: ele sonha, ele pede, ele deseja não fazer nada muito errado, nada muito estúpido pra que, vencida a provação, ele consiga ao menos um beijinho.
Mas o beijinho, meninas, o beijinho é o Sísifo a dois metros do topo – a uma mera rolada de pedra para o sucesso ou para a maldição. Vocês que não enxergam: mas num primeiro encontro, o homem a todo momento deixa escapar a pedra barranco abaixo. Porque na mente simplória e sapeca de um rapaz, por ele, bastariam cinco minutos de boa conversa, dois minutos de risada, um ombro no ombro, e lábios e línguas se poriam a trabalhar em frenesi sentimental.
UMA AJUDA HUMANITÁRIA
O mundo, sendo lindo e maravilhoso e respeitoso com o amor, o mundo permite que em algum momento, em alguma das tentativas de subir a pedra até o pico, durante aquelas horas de primeiro encontro; pois bem, o universo permite que a gente consiga achar o caminho.
E aí, o beijo acontece.
Só que acontece de, às vezes, alguns caras, em algumas noites, se desesperarem diante do pedregulho que escapou e rolou até a base. Eis o sujeito diante do momento que passou. Vocês sabem como é?
Ele tá quase pra te beijar. Ele sentiu que o momento deve ser aquele. Ele venceu todas as travas e todo o grilo que gritava ao ouvido que você talvez não queira a beijoca. Ele vai decidir o movimento… Surge aquele silêncio um segundo maior do que o necessário, aquele olho no olho com duas piscadas a mais do que o preciso, aquela proximidade suficiente para sentir o odor dos chicletes, mas não o sabor: o momento do primeiro beijo, agora ou nunca.
E por algum motivo, insondável motivo, ele vacilou, ele piscou a terceira vez, ele pensou um pensamento a mais, ele vacilou. E aquele silêncio, antessala do amor, virou a casa do constrangimento. O momento passou.
Meninas, saibam: homens, diante desse tropeço, se culpam, se torturam, dormem pouco, entristecem.
Mas, meninas, vejamos por outro lado: a vida é mesmo meio ridícula e, assim, nada mais ridículo, nada mais vida do que passar esse ridículo eterno do primeiro encontro. O friozinho, a vergonhinha, a vaciladinha tensa do beijo que virá.
Sejamos mais tolerantes com os retardatários.
Saíram uma vez, o vento levou o fio da pipa e o beijo pra longe, mas a noite foi boa, a noite prometeu algo mais? Tá ainda com vontade? Saia de novo. Dê mais abertura. Depende dele, depende de você. Ajudar um homem tímido (e todo homem, em algum grau, seja alcóolico ou seja no espírito, guarda uma timidez) diante da montanha de dificuldades e apreensões que é o primeiro encontro, ajudar esse homem é ajudar a humanidade.


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