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Meninas, desembarco atrasado no Lulu.
E pra falar bem a verdade, desembarco atrasado e até meio algemado.
Um pouso forçado. Um pouso obrigado, direi.
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A chefia vem e me diz:
- Vai. Vai lá e diz pra gente o que você acha!
Diante da exclamação, eu só concordo:
- Sim, senhora. Irei e direi. Pra já…
(Mas há realmente algo a acrescentar?
Pensei, pensei e não havia).
Então fui a campo.
(Venham comigo ou não venham, que a coisa é grande).

O QUE DIABOS A GENTE TEM NA CABEÇA?
Meninas, não há desculpa para o Lulu.
Eis a primeira verdade. Eis a primeira e única verdade. O resto é farelinho.
Mas o farelinho é grande e se faz necessário observar.
O farelinho é este:
Não há desculpa para o Lulu. Mas por essa ser uma verdade solar, haverá sempre quem, nas profundezas – mesmo nas profundezas aí embaixo, nos comentários –, haverá sempre quem gritará:
- Não concordo, João!
- Absurdo, João!
- E o machismo, João? Hein, hein?
- E o imperialismo, João? Hein, hein?
- E as “provações que nós, mulheres, passamos durante toda nossa vida”, João? Hein, hein?
- E o fiu, fiu, João? Hein, hein?
- E o gostinho da vingança, João? Hein, hein?
- E o aplicativo como ferramenta antropológica e sociológica, João? Hein, hein?
- E a curiosidade, João? Hein, hein?
- E se for só por um dia, João? Hein, hein?
- E se eu prometer que não vou ficar olhando os meus ex, João? Hein, hein?
- E o bom humor, João? Hein, hein?
- E a galhofa, João? Hein, hein?
- E o Quico, João? Hein, hein…
Meninas, as desculpas serão infinitas. As desculpas serão perfeitas e infalíveis.
Mas, me desculpem de novo: são apenas desculpas.
A verdade, eu repetirei: não há desculpa para o Lulu.
O ESPELHO
Fico pensando que, diante disto tudo, haverá quem me tacará a seguinte pedra:
- Você é homem, João! Você é suspeito pra falar, João! Você está com medo, João! Você está provando do próprio remédio, João!
Diante desse pedregulho, nada posso fazer a não ser receber o golpe, passar o remédio e dizer, biblicamente:
- Você não sabe o que faz…
Porque, meninas, há um problema essencial nesta questão toda e imensa.
O problema é você. E eu. E ele. E ela.
- Por quê?, você pergunta.
- Como assim?, você insiste.
Olha só que beleza a minha explicação:
Por causa do espelho!
Sim, sim.
O espelho nosso de cada dia, esse safado, esse traquina. Esse espelho, mais do que tudo, é um grande amigo. O nosso grande amigo. E um mentiroso ainda maior.
Porque esse espelho, reparem, meninas: ele sempre nos dirá aquilo que a gente necessita ouvir.
E mais! E mais: digo que sem a mentira diária, essa que o espelho nos conta a cada olhada, o sujeito aqui e a mocinha aí não amarramos nem o cadarço da manhã.
Me explico bem?
O que quero dizer é que o indivíduo mais atroz e a mocinha mais carola serão sempre a mesma coisa diante do próprio reflexo: justos e corretos. A medida errada está sempre no outro.
Desconheço o bípede que, ao fim do dia, com o cinto afrouxado ou o sutiã repousado, fazendo as contas daquilo que deu e recebeu, sinta-se em dívida com o mundo. Quase sempre é o contrário.
Quando erramos, o depósito da culpa recaíra no cansaço, numa vaciladinha, num errinho.
Mas quando acertamos, os juros e os rendimentos serão bancários e infinitos e sempre menores do que merecemos.
Ainda não me faço claro, meninas?
Então venham comigo dar mais uma cavadinha neste raciocínio tão terrestre.
O QUE É MEU É MEU. O QUE É SEU É MEU
A prova de que editamos o tempo todo as nossas verdades (e nessa edição, cuidamos para que saiamos sempre acreditando que o público está a nosso favor) é o ex-namorado, a ex-namorada.
Pense em como driblamos a lógica para justificar nosso ódio, nosso desamor ou nossa falta de sentimentos por aquela pessoa que já foi o nosso amor, o nosso centro, a nossa totalidade de sentimentos, o nosso futuro.
Percebem? Quando a gente HOJE adora que alguém concorde conosco no ódio em relação ao antigo parceiro, eu penso como seria o encontro deste meu EU que odeia a Fulana com aquele mesmo EU que amava a Fulana.
Pensem mais dois segundos nessa questão, meninas.
**
**
Porque o EU lá de TRÁS brigaria à foice com o EU de HOJE na defesa de quem EU amava e agora EU odeio.
Entendem? Entendem? Juram que me entendem?
Pois se não entendem, eis a questão: nós somos seis bilhões de inconsistências. Seis bilhões de narcisos. Seis bilhões de sujeitos que promovem os maiores malabarismos para justificar que o mesmo erro que eu odeio no outro, comigo é diferente, tem uma justificativa.
Eu imagino o Stalin e eu imagino o Kennedy. Os dois na tenra infância e fazendo castelinhos de areia. E agora imagino mamãe Stalin e papai Kennedy, já velhinhos, diante do que o Stalin de bigode e o Kennedy de colete fizeram de ruim, os dois velhinhos balançando a cabeça para afastar a verdade à frente, convocando na memória as versões doces e em miniatura dos homens que viraram. Quero dizer com isto que sabemos sempre justificar os nossos erros e os erros de quem gostamos. Mas há de ver a nossa fúria vingativa quando passamos a odiar!
Meninas, nós somos errados.
E, assim, pergunto: quem é o certo?
E, assim, voltamos: Lulu.

O QUE SIGNIFICA O LULU
Dei essa volta toda para chegar ao meu eterno princípio: a verdade, meninas, a verdade é uma só: que coisa boçal esse Lulu. Que coisa horrenda a gente vem promovendo esta semana com a maior desfaçatez, com a maior e esfarrapada desculpa.
Mas, só porque a vida é doida e complicada: que coisa curiosa, que coisa quase irresistível esse Lulu!
- Meu Deus, João. Mas que enrolação!
- Ó, papai do céu, João! Por que tão sério?
- Chufiti, João! Não estou entendendo nada!
Tá sim! Tá entendendo sim!
E eu também tou me entendendo.
Ah, meninas. Eu vou escrevendo e vou me entendendo.
E por isso vim tão longe aqui na página.
Vamos só mais um pouquinho. Prometo que acaba.
**
Fiquei muito tempo matutando sobre o que o Lulu queria nos dizer.
E, descascando tudo isso aí que a gente usa de desculpa, o essencial da matéria é que provamos a nossa inviabilidade. Somos naturalmente bocós, toscos, jecas. O Lulu nos provou. “Você deu nota no Lulu, e o Lulu te notou de volta”, diria o homem de barba.
Meninas, a culpa não é de vocês. Ou melhor, a culpa é de vocês. E também é minha. E é nossa, dos homens.
Falhamos.
Dirão que não sei brincar. Que estou levando a sério demais. Juro que li gente que respeito dizendo o seguinte:
- Poxa, menos, menos! Vamos simplificar! Vamos sofrer só um pouco. Não brincar de Lulu, ficar nervoso com Lulu, é ser uma espécie de censor da humanidade. É se levar a sério demais. Calma, isso vai passar…
E ouvi isso e eu juro que direi: não, não. Você não entendeu, amigo.
Por baixo do Lulu, podem passar muitas coisas. Mas haverá sempre e ululando um farolete, uma estrela anã de tristezas e decepções.
Mas não pensem que foi apenas isso que ouvi esta semana.
Ah, juro que ouvi muitas mais.
Ouvi garotas dizendo:
- Olha, mas já aguentamos tanto preconceito! Agora os homens verão o que é ouvir um “fiu, fiu”, um “gostosa”…
- Olha, finalmente estamos fazendo aquilo que vocês fazem o tempo todo…
E diante dessas duas frases, eu direi:
- “Nóis” quem, cara pálida?
(Disse cara pálida, mas é um pálido de base e corretivo, esses pozinhos que te fazem tão linda e alva, tudo bem?).
* Primeiro quem nem todos. Eu não sou aquele cara e aquele cara não sou eu. Eu sou um outro e o outro às vezes sou eu, mas também não. E ainda pior: às vezes, eu sou igual àquele um, mas tem dias que eu sou aquele algodão de doçura. Há noites em que ele, o outro, é um foguete na cama, mas tem tardes que eu, e o outro, não passamos de um rojãozinho de meio tiro.
* Segundo que: Como assim algumas de vocês dizem que, com o Lulu, estão “fazendo aquilo que vocês, homens, fazem o tempo todo”?
O que exatamente fazemos o tempo todo que agora vocês também fazem?
Se é comentar, entre amigos, as aventuras, as decepções; se é aquela partilha, quase sempre meio mentirosa, meio verdadeira, das histórias amorosas; se é essa coisa normal de, cara a cara, com respeito ou até falta de, mas cara a cara, e num círculo privado, dizer isso e aquilo de quem passa pela nossa vida; se é isso, então não acho que o jaburu aqui seja coisa apenas nossa, masculina.
Mulheres também falam, sempre falaram. Continuarão a falar.
De tamanho do pinto ao tipo do beijo. Se é pra casar ou se curte Romero Britto.
Sinceramente, meninas: avaliem os auto-argumentos que a defesa do Lulu utiliza para justificar o Lulu e contemplem um pastel de vento quentíssimo.
Uma mordida e a coisa queimará.
Por outro lado, ouvi muita gente boa e ruim lamentando o Lulu porque o Lulu seria como igualar o machismo mais horrendo praticado desde a geração do Piteco. Lamentam até mais: essas pessoas dizem que abraçar o Lulu seria dar aos jecas e aos ogros e aos canalhas a desculpa que os jecas, os ogros e os canalhas jamais precisaram para ser os jecas, os ogros e os canalhas que fazem as nossas barbas terem a má fama que elas têm. Seria mais ou menos o mesmo que permitir a essa corja de homens boçais o direito de dizer: “ah, é assim, é? Então agora vocês vão ver o que é bom pra tosse:
#mamaatéofim
#oralcomdoçura
#analsemfrescura
#peitolacaída
#queridoroubaramaminhabunda
#etcetal”.
Enfim.
As portas abertas para a tristeza.
Mas mesmo diante desses argumentos todos, ouso discordar: o Lulu não iguala a mulher ao machismo do imbecil.
O Lulu ignora a idiotice da pamonha à jequice do pateta.
Por trás dessa máscara de que é divertido, de que é inofensivo, de que não leva a nada, escondemos o nosso pior: estamos desrespeitando, estamos coisificando, estamos sendo claramente isso aí que a gente diz não ser.
Ou, por outra: estamos fazendo aquilo que não gostaríamos que fizessem a nós.
Porque sim, hoje eu estou carolíssimo e Poliano.
E porque sim, acho que diante de certas coisas, o sujeito e a mocinha haveriam de ser carolíssimos e Polianos.
Mas preciso finalizar.

FINALIZANDO
Meninas, voltemos ao térreo da discussão.
Não pensem que livro os homens deste saco de pancadas e culpas.
Nossa assinatura está lavradíssima nesse cartório.
Tenho mesmo visto as cenas mais lamentáveis. Vocês provavelmente já notaram um amigo chegar recentemente com o sorriso mais dourado e constrangido para pedir uma forcinha ou para checar a própria cotação.
Ah, meninas, vocês não imaginam a quantidade de sujeitos que pedem o ombro e o dedo da amiga emprestados. E pedem a esse ombro e a dedo que massageiem o ego dele e a telinha do celular. Assim: “Vai, Fulana. Vota lá que a minha nota caiu. Me ajuda aí, mete lá um #trespernas e #trepadasmil. Mete lá uma qualidades românticas no Lulu, vai. Pode até escolher, que disso aí você entende”.
As amigas, compelidas ao ato de caridade, vão e distribuem o elogio, a mentira, o exagero.
Se não é assim, então reparem na quantidade soberba de #trespernas #labiosdemel #maosdeRodin e #poraivai. E comparem com a verdade das ruas e da sua experiência. E sim, sim, reparem em mais uma coisinha só: como há, em geral, um silêncio estrondoso e nervoso dos machos diante do tema Lulu. É o recolhimento estranho e nervoso de quem finge, num sorriso blasé, o tremelique que sente por dentro.
Sejamos, pois, estupidamente sinceros: no Lulu, temos o menor ou o maior pinto do mundo. No Lulu, chupamos bem à beça, como se você fosse um drope de loucura e desejo. Ou fazemos o justo contrário, e somos o completo analfabetismo sexual, fazendo da mulher um pirulito com plástico e da nossa língua, o músculo mais desmotivado possível.
No Lulu, somos mais e somos menos. Depende de quem vê, de quem recebe o pedido, e se é passado, se é presente ou se quer ser futuro na vida do sujeito. No Lulu, somos um papel de Bovespa. As ações caem, sobem, e o risco-relacionamento vai aos píncaros. Que mulher há de ignorar e esquecer para sempre o perfil do namorado avacalhado ou incensado pelas ex, pretendentes e – nunca esqueçam – pela piada dos amigos? Que homem haverá de perdoar uma mentira ou mesmo uma verdade que ele não pediu para ouvir (ou que ele até pediu, mas não via modem).
Sim, sim. Vi mais de onze vezes amigos entrando no Lulu, tomando o celular da companheira ou da colega. Eles encontram o perfil, eles encontram uma cara de um cara de quem gostam ou não gostam. E aí é #peidaearrota, #naofaznemcocegas, #filhodevó.
Ah, meninas, não acreditem em Lulu. É um bicho incontrolável, um desenho dos mais medonhos daquilo que vai dentro de nós. E isso tudo numa mistura ainda mais grotesca porque anônima. É como se cada pessoa, homem ou mulher, depositassem um tijolo de tristeza e boçalidade para construir o retrato de um sujeito que será sempre muito menos do que os prós e muito mais do que os contras das hashtags.
E não vamos esquecer: o pior de tudo é que ao homem está concedida a dádiva de tirar o corpo fora. Sim, sim. Ele tem o livre arbítrio. Eis o grande pior disso tudo! Bastaria uma debandada em massa, global, masculina, e o Lulu estaria reduzido ao que é: um vazio cheio de nada.
Mas não, não. Conheço muitos que decidiram permanecer. Esses, eles utilizam das desculpas mais esfarrapadas até as mais compreensíveis. Vão de um fingido “não estou nem aí” até um “fico porque gosto, porque quero saber o que pensam, porque é isso aí, porque no fim ainda vou papar umazinhas”. Tudo certo e tudo errado.
No fim, é simples: ao homem cabe ficar ou sair.
À mulher, avaliar ou ignorar.
Porque nada disso tem tanta importância assim.
E eu sei lá: toquemos a vida. Ela é mais ou menos isso aí mesmo.
A VIDA DE CHINELO
Respeitemos o Lulu, meninas. Ele está aí. E ficará. Até perder a graça, quando a quantidade de besteiras acumuladas nos perfis criar retratos tão impossíveis e esquizofrênicos que não restará nada além de tentar relembrar o que pensávamos dos outros antes desta era de anonimatos.
O Lulu sobreviverá até que encontremos um novo jeito de sermos piores e melhores. Até que possamos superar mais este patamar, este Olimpo de cretinices e divertimentos.
O Lulu sobreviverá porque, diante do espelho, nossas hashtags nos levam ao infinito.
E o Lulu sobreviverá porque tem tudo a ver com estes tempos com cheiro de rua e gás, de formas toscas e tão agressivos ao olho no olho.
Eis uma era mais colorida, mais berrante.
Eis uma era em que o Romero Britto virou adjetivo.
Tadinho do Romero Britto…
E assim caminhou a humanidade esta semana, meninas.
Não, não. Direi diferente: porque a humanidade não caminhou esta semana.
Ela fez ainda mais.
Corrijo e finalizo:
Assim correu a humanidade esta semana, meninas.
E foi de Rider.
  • J. ANTÔNIO

    Meu nome é J. Antonio e sou um amador. Jogador de futebol amador, jornalista amador e poeta amador. Frequento duas academias: a de Letras e a do bairro. Na última, convivo e suo ao lado de halteres e halterofilistas amadores. E ao lado de meninas, que brincam de fuzilar gordurinhas, todas lindinhas, molhadas e com calça fusô (minha leitora: é 'fusô' ou 'fuseau' o nome da calça? Eu tenho essa dúvida). Mas dizia que sou poeta e malhador. Aos fins de semana, gosto de correr e comer. Sou bruto e macho, mas sensível. Choro escondido – e ó, se um amigo me perguntar, eu nego. Eu nego! Mas sim. Quando a coisa aperta, quando a vergonha afrouxa, ou quando uma de vocês, mulheres, me machuca, eu choro. É assim desde que nasci. Há 30 anos. REVISTA MARIE CLAIRE

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