-----> Este Blog já apareceu nestas emissoras <------

por Roberta Gregoli


O tópico de hoje é delicado e quero já deixar claro que não tenho a intenção de acusar, criticar nem ofender ninguém por suas escolhas. Mas como a nossa proposta é justamente abordar esse tipo de tema que tem pouco espaço na mídia tradicional, aqui me aventuro eu.

Confesso que, quando vi o slogan ao lado pela primeira vez há alguns anos, não o compreendi em sua completude. O feminismo luta por direitos, por igualdade, equidade - ingenuamente, achei que a humanidade das mulheres só (só?!) era questionada na objetificação de seus corpos.

Entretanto, quanto mais reflito, mais me dou conta que, às mulheres, lhes é constantemente negado algo tão básico quanto a própria subjetividade: pense em todos empecilhos que enfrentamos para ter e manter uma carreira; o esforço de peitar, perante a sociedade, a potencial decisão de não ter filhxs; ter o nosso corpo transformado em espetáculo público... Este processo de apagamento do eu é perfeitamente ilustrado, num nível absolutamente primário, numa prática corriqueira: adotar o sobrenome do marido ao se casar. Alteramos o mínimo denominador, o índice mais óbvio de quem somos: nosso nome.

O que me inspirou a escrever sobre este tema esta semana foi a Beyoncé. Sim, a diva do monômio exuberante se casou e, não só adotou o nome do marido, como intitulou sua nova turnê Mrs Carter. Por quê, por quêeee, nos perguntamos. A verdade é que os motivos que levaram Beyoncé a mudar seu nome (estratégia de marketing? comentário irônico sobre a prática, enfatizado pelo figurino à la Louis XIV?) são diferentes dos que levam as mulheres não-estelares a fazerem o mesmo.


Para mim, mudar meu nome sempre esteve fora de cogitação, justamente porque enxergo a questão como identitária e eu não me reconheceria como, sei lá, Roberta Silva. Além disso, alterar o sobrenome tem também um impacto profissional, sobretudo na carreira acadêmica. Qualquer mudança no nome significa, na prática, jogar no lixo seu currículo de publicações. Existem professoras, inclusive, que mantêm o sobrenome do ex-esposo, mesmo depois do divórcio, porque já se consolidaram na área com ele. Imagine que triste, sua identidade intelectual para sempre vinculada a um casamento falido. E, se você virar grande referência na área - se conseguir 'construir um nome', como dizem - o nome construído vai ser o do ex, não o seu.

Esperando por sua nova identidade
com glamour
Na verdade, a prática de alterar o nome, em sua origem, simboliza a inauguração de uma nova fase na vida da mulher, quando ela assume o papel de esposa (dentro dessa concepção tradicional, o único que cabe à mulher). Em inglês, 'nome de solteira' (maiden name) literalmente significa 'nome de donzela', índice da concepção arcaica da prática. Ao se casar e perder sua virgindade - que nesse sistema funcionava como moeda de troca que determinava o 'valor' da mulher (pensando bem, as coisas não mudaram muito...) - a identidade de antes, símbolo de seu estado virginal de solteira, devia ser descartada, porque a identidade de prestígio social para uma mulher era (e ainda é) a de casada.

Isso tudo me soa tão sem sentido que só consigo entender os motivos que levam algumas mulheres de hoje a adotarem o sobrenome do marido a partir de um exercício intelectual de abstração.

Uma das causas mais comuns deve ser a tradição: 'é assim que é feito, nunca parei pra pensar sobre isso, onde eu assino?' Primeiro que não é assim que é feito necessariamente. Desde 2002, acrescentar sobrenomes é opcional e qualquer um dos cônjuges pode fazê-lo

Daí vamos para um outro forte motivo, que é a pressão social. A sociedade policia as mulheres de todas as maneiras possíveis e imagináveis - até aí, não há novidade. Mas, nesta questão específica, a coisa pode ficar muito hostil... E dá-lhe terrorismo emocional: será que já tá pensando no divórcio? não vai demonstrar seu amor por ele? mas e a celebração da sua união? Todas essas jogadas de romantismo que, no final, só servem para reforçar a tradição.

Tem gente que menciona xs filhxs e eu não entendo bem qual é o drama. A mãe chama Fulana A, o pai chama Fulano B, x filhx chama Fulaninhx A B (e nem vamos entrar no mérito do último nome ser o do homem). Tá ali, o nome dos dois, não há ambiguidade quanto à origem da criança. Agora, se a mãe não tiver o nome do pai vão achar que a criança é bastarda, é isso? É essa a preocupação, que, ai e se ela for mãe solteira? Ou divorciada? Em que século estamos mesmo?

Outro dia me apareceu uma nova. Alguém me contou que a noiva não queria adotar o nome do noivo e era um absurdo porque ele estava disposto a adotar o nome dela. Se é para ter igualdade, por que ela não aceita, já que ele ia fazer o mesmo? A resposta é simples: porque ela não quer. Se ele quer adotar o nome dela, ótimo, vá em frente. Agora, dureza ela ter que ficar dando satisfação para todo mundo de uma escolha que deveria ser só dela: o nome é dela, a identidade é dela.

Pronta para fazer - e com sorte
não ter que REfazer - toda a papelada
Além de tudo, por mais que ninguém goste de pensar nisso na hora do casamento, o divórcio é uma possibilidade real: 56% dos casamentos terminam em divórcio no Brasil. Então, manter seu próprio nome, além de uma questão ideológica, seria também pragmática: é como fazer uni-duni-tê para ver se vai mudar todos os registros de sua existência civil duas vezes. Só a primeira vez já me desanimaria.

O feminismo luta para que as mulheres sejam livres (ironicamente, até isso pode ser usado contra as mulheres, como quando dizem que faz sentido ganharmos menos porque colocar a carreira em segundo plano é uma decisão pessoal). O tema da mudança do nome é complicado justamente porque aborda decisões pessoais. Afinal, muitas mulheres dizem mudar o nome por escolha própria, da mesma forma como muitas dizem que são donas de casa porque querem.

Eu volto a enfatizar que não desmereço nem critico nenhuma mulher por ter adotado o nome do esposo, ou por ser dona de casa, mas questiono, sim, se essas são escolhas reais

Afinal, como falar em liberdade de escolha quando não existe igualdade? Se os homens adotassem o nome das mulheres em igual proporção que as mulheres adotam o nome dos homens, aí, sim, ok, temos escolha. Você está mentindo se disser para umx estudante do ensino público da periferia que elx pode ser o que quiser quando crescer. É possível dizer que elx escolheu não ser médicx (ou qualquer outra profissão de status que requeira estudo de qualidade e investimento financeiro)? Só há liberdade de fato quando existem oportunidades iguais.

Minha intenção com este texto não foi convencer ninguém a fazer nada. Só fomentar a discussão para levar a uma escolha esclarecida, expondo um lado do debate que muitas vezes fica obscurecido. Com todas as informações postas e pesadas, sem levar em conta qualquer pressão familiar ou social, aí, sim, podemos falar em escolha real. 


0 comentários

Como Conquistar um Homem