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por Barbara Falleiros

Ao longo desses anos passados na universidade francesa, sempre me surpreendeu a ausência de crianças circulando no meio universitário. Não, não falo de superdotados, mas dos filhos dos estudantes. No Brasil, durante a graduação, via pelo campus estudantes grávidas e seus bebês (os amigos da Unicamp talvez se lembrarão do episódio de uma pequena que fez xixi em plena sala de aula...). Eu mesma cresci tomando o leite do bandejão da USP. Em Paris, as pouquíssimas estudantes grávidas que encontrei estavam, em geral, terminando o doutorado. Nunca vi um único bebê nos locais da faculdade. Procurei estatísticas sobre as estudantes-mães por aqui e não encontrei, sei apenas que existem na cidade três creches universitárias com capacidade conjunta para 100 crianças. 

Pode-se até dizer que isso é bom, que os longos estudos, a maternidade numa fase mais madura e a prioridade dada à carreira são indícios de uma sociedade "desenvolvida". O que eu desconfio é que o fato de o aborto ser legalizado contribua para que as estudantes se tornem mães mais tarde, fazendo da maternidade uma escolha altamente planejada. Mas de qualquer maneira, a impressão que tenho é de que, no meio acadêmico, nunca há hora propícia para se ter um bebê. Do ponto de vista profissional, a maternidade é sempre um demérito, uma fraqueza. Falo deste meio porque é nele que estou inserida, mas sei que a situação não difere em outros ambientes profissionais.

Às vezes as pessoas que têm uma ideia estereotipada das reivindicações feministas pensam que feminista é aquela que "odeia homem", "não quer ter filhos" e milita pela "destruição da família". As coisas não são tão simples. A escolha da maternidade é individual, o que importa para todos é o direito da mulher de não ser reduzida à sua função reprodutora. Pois é esta redução que motiva a discriminação profissional das grávidas: espera-se de uma mãe que esta seja sua função primordial e que esta tarefa a ocupe integralmente. O que, claro, atrapalha a atividade profissional. Então é filho ou trabalho, as duas coisas não! - este é o leitmotiv. E volta aquela velha história de padrão duplo: este tipo de clivagem não diz respeito ao homem, que normalmente não conhece um efeito direto de comprometimento da carreira com a chegada de um filho. Porque para uma empresa preocupada com o desempenho de seu funcionário, por exemplo, que o homem tenha filhos ou não importa menos, já que a responsabilidade do cuidado das crianças recai majoritariamente sobre a mãe. Na cabeça do chefe, quem é que vai faltar no trabalho quando a criança estiver doente?

É interessante perceber como funciona o círculo vicioso: para começar, o salário de uma mulher já é 30% inferior ao de um homem. Quando ela tem filhos, sua carreia é geralmente freada, enquanto que a do homem segue seu ritmo de evolução. No interior da família, isso contribui para colocar o trabalho do homem em primeira ordem de importância, mantendo-o no papel de provedor e relegando à mulher a responsabilidade principal no cuidado dos filhos. Por sua vez, ao assumir esta responsabilidade, a mulher é levada a colocar a carreira em segundo plano. Esclareço que não tenho particularmente nada contra famílias em que um trabalha "fora" e outro "dentro", em que um se investe mais no trabalho e outro menos, o problema é que estes não costumam ser modos de vida escolhidos livremente; este tipo de configuração, induzido por inúmeros fatores como os que foram citados, podem implicar um jogo de poder no interior da família, colocando uma das partes (a mulher) numa posição frágil. É o mais comum.

Não há como negar que o período da gravidez pode exigir certas adaptações, dependendo da profissão exercida, e que a mulher precisa passar por uma recuperação física e emocional no pós-parto. Mas este período é transitório. E a mulher voltaria em melhores condições se tivesse, em casa, a ajuda de seu companheiro. Afinal, o filho não é do pai também? É correto que ele fique apenas uma semana com o recém-nascido? O projeto de lei 879/11 prevê a ampliação da licença paternidade de cinco para trinta dias para que ambos os pais possam cuidar do bebê e se adequar à nova rotina:

“A ausência paterna sobrecarrega a mãe, que se encontra no delicado período puerperal, cuja duração é de 30 a 45 dias após o parto, muitas vezes em pós-operatório, com limitações físicas e carências psíquicas, e que necessita ser auxiliada nos cuidados imediatos do bebê”

Com uma ressalva ao texto citado: na minha opinião não se trata de auxílio, pois auxílio é o que se oferece a alguém que se encontra na incapacidade de exercer uma tarefa que lhe cabe. Auxílio é favor: "Deixa que eu faço pra você". É um pouco como dizer do marido que ele "ajuda" nas tarefas domésticas... Trata-se, ao contrário, de dar ao pai a possibilidade e o direito de assumir o que é de sua responsabilidade. Quando há um pai e uma mãe (ou dois responsáveis), a tarefa de cuidado de um filho deveria ser dividida de forma igualitária. A mãe, menos sobrecarregada, veria possivelmente uma diminuição do impacto negativo da maternidade sobre seu trabalho.

Voltando à questão da discriminação profissional da mulher grávida. Lembro da história de uma amiga que, prestes a receber uma função de importância numa grande multinacional de cosméticos, anunciou aos superiores sua gravidez. Sua chefe respondeu: "Mas você sabe, você não precisa ir em frente com isso, há sempre a opção do aborto! E pense bem, uma oportunidade como esta não se repete!" Como eu disse acima, ou filho ou trabalho, a mulher acaba sofrendo a pressão para escolher entre um e outro...

 Discriminada no trabalho e com um
 computador do século passado! (brincadeirinha)
Mas há outras formas mais ou menos sutis de assédio moral e discriminação, como a perda de promoções ou mesmo a não contratação de mulheres que se aproximam do prazo de validade,  ameaças ("Ah, mas você tem certeza de que não fazer uma encomenda para a cegonha, não é? Por que veja bem, para nós não vale a pena investir em alguém que não se mostrará 100% comprometido com a nossa empresa"); desvalorização de mulheres que já têm filhos servindo-se da desculpa de que seu foco não está na empresa; horários para a amamentação não respeitados ou dificultados; avaliações de desempenho negativas e atribuição de funções inferiores na volta da licença-maternidade; recusa de benefícios e oportunidades; ou ainda a discriminação por parte dos próprios colegas, que encaram as adaptações das condições de trabalho da funcionária grávida como privilégios ilegítimos ou que pensam que a licença maternidade é o equivalente a férias.

Uma empresa pode e deve ser processada por qualquer discriminação desse tipo. E à mulher grávida cabe conhecer seus direitos, listados nesta página do governo. Por outro lado, algumas empresas mais espertinhas seguem o caminho contrário e adotam políticas de melhoria das condições de trabalho das grávidas-mães, como pausa alimentação para as grávidas, berçário no local, facilitando a retomada do trabalho após a licença maternidade, licença de seis meses, bônus e ajudas de custo, horários flexíveis, salas de amamentação. Claro que para as empresas há vantagens, como o abatimento de impostos. Mas é bem possível que algumas tenham se dado conta de que funcionário contente é funcionário engajado e que tenham percebido, ao respeitarem o trabalho das funcionárias, que a "igualdade de gênero aumenta a produtividade", como mostrado no Relatório sobre o Desenvolvimento Mundial 2012.

Deixo a pergunta para as nossas leitoras: quem aí sofreu discriminação e quem tem outros exemplos de políticas corporativas positivas? (Não me deixem falando sozinha! rs) Na semana que vem, meu último post desta série sobre maternidade com um assunto doloroso mas importante: a violência obstétrica.




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