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por Roberta Gregoli


O título do filme De pernas para o ar 2 sugere subversão: de cabeça para baixo, o mundo às avessas num carnaval bakhtiniano onde o rei vira plebeu (ou rainha) e a plebe tem seu dia de realeza. Como toda comédia romântica, o foco está nos papeis de gênero, então presumimos que a subversão seja desta natureza, o que a referência a pernas no título e o enredo do filme reforçam: um mundo em que mulheres são workaholics E têm orgasmos. 
Eu nem sou daquelxs que menosprezam o cinema popular brasileiro: muito pelo contrário, sou entusiasta. Admiro seu poder de alcance e seu potencial transgressor, e acho que desdenhar o cinema popular generica e acriticamente é uma das facetas do elitismo tupiniquim.

Mas no caso de De pernas para o ar 2, infelizmente, a aparente subversão de gênero é um verniz superficial, que serve para satisfazer os ânimos dxs que se acham modernosxs ao mesmo tempo em que continua a promover - agora com novo visual, um verniz mais lustroso - os pilares da opressão de gênero.

E o pilar sobre o qual De pernas para o ar 2 se sustenta é o mais fundamental e caro ao patriarcado: a divisão sexual do trabalho. Alice (Ingrid Guimarães) é uma workaholic inveterada que se desdobra para manter casa, filho e casamento. O enredo do filme gira em torno dos malabarismos de Alice para "dar conta" (como dito repetidas vezes ao longo do filme) de suas responsabilidades, à custa de sua saúde e bem-estar.

É raro no cinema um quadro composto somente
por mulheres, ainda mais em posição de poder

Até então, o filme tem potencial, afinal, não existe nada mais injusto do que a chamada tripla jornada de trabalho (casa, carreira, cria). No entanto, a premissa que casa e filhos são de responsabilidade única e exclusiva das mulheres nunca é questionada. Numa cena absolutamente reveladora, Marcela (Maria Paula) aparece com o filho de Alice, dizendo: "Alguém tinha que pegar ele na escola, né?". Em nenhum momento é levantada a hipótese do marido (João, interpretado por Bruno Garcia), presente na cena, assumir essa tarefa.

Lançado no mesmo ano em que a Organização Internacional do Trabalho constata que, no Brasil, as mulheres gastam 12,50 horas a mais por semana em afazeres domésticos do que os homens, o filme, além de não questionar a injustiça desta realidade, a naturaliza como normal.


A única função de João na cena com o filho é somar uma voz ao coro que culpa Alice. E, no delírio irreal do filme, é possível "dar conta" de tudo. O filme personifica a mulher maravilha numa personagem habilmente chamada Vitória (Christiane Fernandes), que tem 5 filhos, uma carreira de status de sucesso, mantém a casa sozinha, é linda e cozinha "para relaxar". É mole?

Culpa é lugar-comum na história. Perdi a conta de quantas vezes Alice se desculpa, sobretudo para os homens de sua vida: seu marido e seu filho. Quando descobre que o marido beijou Vitória, Alice revida, mais ou menos nestes termos: "idiota eu não sou, eu posso trabalhar demais, mas quem me traiu foi você". Pensa que o gostosão pede desculpas? Em nenhum momento. Ele se sente absolutamente no direito, o que eu presumo seja justificado pelo fato da 'muié' não ter 'comparecido'. Aliás, foi Vitória que o beijou. Não importa qual a mulher, a culpa é sempre delas.

E se um beijo é uma coisa tão inofensiva, por que então o beijo entre Alice e o galã Ricardo (Eriberto Leão) é negado ao público, apesar de tantas oportunidades por um triz? A equação é simples: traição masculina = natural, traição feminina = tabu #padrãoduplo

Mas numa coisa o filme acerta: quando questionada como dá conta, a mulher maravilha Vitória é rápida em responder que "é fácil, querida, eu não tenho marido". Ter um cônjuge masculino em casa representa um aumento de 2 horas de trabalho por semana para as mulheres.


Outro ponto negativo do filme é que a amizade e solidariedade entre as personagens de Ingrid Guimarães e Maria Paula, presente no primeiro filme, se dissipa, e a disputa entre as duas por um homem sela o que o resto do filme já indicava: o único vínculo feminino colocado como genuíno e saudável é entre mãe e filha. Amigas são competidoras em latência.

Os que torcem o nariz dirão que já esperavam, que o cinema nacional é isso mesmo. Eu digo que, por um filme que fala sobre vibradores, mulheres viciadas em trabalho e orgasmo feminino, eu nutria esperanças. Não fosse o talento de Ingrid Guimarães e seus brilhantes monólogos, De pernas para o ar 2 seria uma total perda de tempo.


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