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m São Paulo, cidade sem grandes atrativos, existem duas famosas e recorrentes distrações: ir a restaurantes e ficar em casa, mais precisamente na internet. A primeira, todo mundo sabe, virou programa perigoso nos últimos tempos de arrastões. Mesmo no aconchego das casas mais finas, já é possível ser assaltado e, infelizmente, não se trata aqui de uma metáfora para contas exorbitantes.
A segunda, acabo de descobrir, também está virando um caso de polícia. Na quarta-feira passada, no quentinho solitário e despretensioso de minha sala, descobri que estou sendo violentamente assaltada por jovenzinhas fofas de todo o Brasil. Senti o geladinho de uma arma pesada e impiedosa na minha nuca quando, em um ato egocêntrico – confesso –, digitei “Tati Bernardi” no Google e deparei com milhares de blogs, sites, fan pages, tumblrs e twitters com meu nome e rosto.
A princípio parece algo muito inofensivo, levado a cabo por fãs queridos. Pessoas que espalham minhas sementes por esse mundo e que, na hora da colheita, apenas aplaudem meus frutos. Mas quando entrei nesses “espaços” de homenagem ao meu trabalho, descobri o tamanho do lamaçal em que eu me encontrava. Simples: mais de 70% das frases e textos desses santuários virtuais não pertencem à minha pessoa.
Quando as tais frases ou textos são espertinhos, o problema se mantém só no quesito “direito autoral”; mas quando elas são bestas, mal escritas e de autoajuda, aí a coisa toda complica. Eu perdi boas ofertas de trabalho graças à quantidade gritante de bobagens atribuídas a mim na internet. Não que eu seja um gênio, mas grande parte do material é realmente péssimo, por exemplo: “Eu sou feliz e isso me basta”, “Rindo e vivendo, lá vou eu” ou ainda “Sorriso na cara, essa é a minha arma”. Sentenças que seriam facilmente proferidas por alguma tia-avó interiorana em um almoço de domingo ensolarado e que alguém na internet uma hora resolveu chamar de “frases” – e o que é pior, “minhas frases”.
Em busca, cheguei até o “pensador.uol”, um site de citações. Nele, descobri que, ao lado de absurdos que a Clarice Lispector nunca, jamais, teria dito, bobagens que o Caio Fernando Abreu provavelmente não escreveu e idiotices que o Jabor certamente não redigiu, existem dezenas de frases que eu, nem alcoolizada aos 6 anos, poderia ter falado ou escrito ou, sequer, ter pensado.
Não estou me comparando a escritores consagrados e nem contando, com falsa modéstia, a respeito de minha realidade de subcelebridade virtual. Se você está lendo esta coluna de nariz torcidinho, pensando “coitadinha, a moça se acha”, já adianto que não é o caso. Eu adoraria digitar o meu nome no Google e não encontrar um texto que diz mais ou menos assim: “Sou pessoa de dentro pra fora, sou pessoa de riso fácil e choro também”. Cazzo, isso não é meu!
Não tenho nenhum romance premiado e, de fato, boa parte do meu material é bem meia-boca. Mas eu sempre tentei ser minimamente cínica e espertinha e autêntica e ao menos engraçadinha. Não dá para, de repente, só porque a internet transforma qualquer coisa em conselho besta ou em mimimi de blogueira com pouco talento, eu de uma hora para outra virar uma autora de aplicativo de celular.
O que fazer? Eu não posso ligar para nenhuma delegacia e pedir ajuda: “Senhor Palhares, a Gleycy de Piraporinha Mirim fez um tumblr com o meu nome, encheu de frases que não são minhas e está denegrindo minha imagem”. Senhor Palhares diria para eu ir lavar uma louça em vez de ficar passando trote em alemão.
Resolvo fazer justiça com as próprias mãos e mando recadinhos carinhosos para várias “fãs” pedindo que elas parem, por favor, de publicar textos alheios (muitas vezes escritos por elas mesmas) usando para isso o meu nome. Todas (e aqui eu reforço: todas mesmo!) me responderam muito prontamente e grosseiramente: “Queridinha, você certamente NÃO É a Tati Bernardi oficial, você não passa de uma invejosa que está vendo o meu sucesso e quer me derrubar, então não me enche o saco”.
Cheguei ao cúmulo de ter de provar quem sou eu para poder falar em meu próprio nome. Fui humilhada pelas “falsas eu”. Recebi comunicados do tipo: “Prove que você é mais Tati do que eu que tenho um site de frases com seu nome!”. A verdade é que, com tanta coisa brega levando meu nome espalhada por aí, eu mesma já não me suporto mais. Tati Bernardi, essa que você encontra aos montes nesse mundão virtual de meu Deus, é uma boa de uma bosta.
Matéria publicada na Revista ALFA de julho de 2012.


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