
Um homem que já vendeu 16,5 milhões de livros, publica em 60 países, fala para plateias lotadas, não dá entrevistas, nunca aparece na TV e mora em uma fazenda na cidade natal dele, a paulista Colina. Essa é a parte mais conhecida da história do psiquiatra e psicoterapeuta Augusto Cury, 53 anos. Pouca gente sabe que a ansiedade aguda e pensamentos perturbadores levaram esse neto de libaneses pobres, filho de uma lavradora, a virar escritor. Nos últimos 30 anos, ele vem desenvolvendo a teoria da inteligência multifocal, sobre o funcionamento da mente. Do calhamaço, “até agora com 3 mil páginas”, já derivaram 26 livros, entre obras de não ficção “de aplicação psicológica” e “romances psiquiátricos”. O mais recente é O Colecionador de Lágrimas – Holocausto Nunca Mais (Planeta), cujo protagonista é um professor de história que, em pesadelos, se vê no universo nazista e, em sala de aula, instiga os alunos a repensar a humanidade. Presente nas listas dos mais vendidos desde 2001, esse cidadão recluso, resistente ao Facebook, revelou que sente mágoa quando críticos o rotulam de “pseudocientista” e que detesta ser considerado autor de autoajuda. Comentou um duelo proposto a ele pelo escritor Paulo Coelho, os episódios de “ateísmo profundo” que já viveu e, bem-humorado, contou seus deslizes em casa com a mulher e as três filhas. Tudo em uma longa conversa em Ribeirão Preto (SP), iniciada na sua Academia da Inteligência e finalizada numa bucólica pracinha, pouco antes do sol se pôr.
Por que as mulheres gostam tanto de você?
Tenho escrito sobre o padrão inatingível de beleza, um tirano sobre elas. Digo também que foram injustiçadas na história e que, ainda hoje, são apedrejadas ou silenciadas. E que os homens falharam com a humanidade. É a hora delas. Se estivessem no comando há 100 anos, o mundo seria mais solidário. Você não vê mulheres patrocinando exclusão social, guerras, genocídios, tortura.
Não será porque elas não comandam? Uma vez no poder, não cometerão erros parecidos?
Se preservarem a sensibilidade, a afetividade e não se tornarem máquinas de trabalhar nem viverem em função da neurose do poder, poderão, sim, irrigar a humanidade com boas práticas.
Mulheres leem mais, rezam mais e são altruístas. Por que adoecem mais que os homens?
O soldado no front da batalha é o primeiro a ser alvejado. A mulher é intensa, se expõe muito e se protege pouco. Creio que ela me lê porque se vê nos livros: olha para si, desenvolve resiliência, aprende a filtrar os estímulos estressantes, reedita as janelas traumáticas da memória, que chamo de janelas killer. Elas registram medo, aversão, rejeição, autopunição e levam a pessoa a agir com base nessas experiências. O desencontro amoroso também a faz adoecer. Talvez porque viva mais no controle, no ciúme, no medo da perda. Quem teme só acelera a perda. Noto ainda a necessidade neurótica de mudar o parceiro, o que acaba cristalizando nele as características que ela detesta.
O que foi determinante para se tornar o homem que é hoje?
Éramos muito pobres, seis filhos dormindo com os pais num único quarto. Meu pai não tinha estudo, trabalhava numa loja, só mais tarde se formou em direito. Desde cedo me preocupei com a dor do outro, sofria vendo um bêbado, um mendigo. Detestava estudar e era um sonhador. Quando disse que faria medicina, duvidaram: “Como pode um garoto que vive no mundo das ideias e da fantasia entrar na faculdade?” Superei a desconcentração, estudei, passei no vestibular aos 20. Observei a relação de dois fenômenos: sonho e disciplina. Sonho não é desejo, e sim projeto de vida. Sem a disciplina, ele produz frustrados; e ela, sem o sonho, gera autômatos que só obedecem a ordens.
Teve experiências precoces com droga e sexo?
Eu bebia em festas. Numa cidade pequena, não tive acesso a drogas. E nem me interessaria; aprendi com meus pais o amor pela vida. O sexo foi precoce, mas ingênuo, nada que envolvesse extrema paixão.
Quando começou a criar sua teoria?
No segundo ano de medicina, escolhi a psiquiatria. Queria ouvir do paciente não só sobre a doença mas pelo que havia chorado na vida. Até que, sem explicação, entrei em depressão, com uma angústia horrível, insônia e desprazer de viver. Minha mãe era sensível, tinha um tom depressivo, se impactava com pequenos problemas. Isso me influenciou um pouco. Como havia preconceito contra doenças emocionais, não fui ao médico. Decidi: essa dor me destrói ou me constrói. Hoje entendo que eu não havia desenvolvido algumas funções do psiquismo para me proteger. Passei a analisar cada pensamento perturbador, me interiorizei. Ali me tornei escritor; primeiro para me entender. Anotava no caderno os pressupostos da teoria. Me casei com a Suleima (dermatologista) no quinto ano. Ela logo varreu o que considerou lixo e... lá se foram os meus originais (risos).
Ela acompanhava suas descobertas?
Quando a conheci, eu não tinha dinheiro nem para um suco. Numa lanchonete, fui tirando as notas do bolso e caiu um texto. Suleima quis saber do que se tratava. Respondi: “Olha, eu não sou muito normal. Estou escrevendo sobre o funcionamento da mente. Se você quiser apostar nessa relação, saiba que meu projeto é esse”. Ela achou que eu delirava e a febre logo passaria.
Quando deixou o consultório?
Nos anos 1980, tinha uma rotina profissional respeitada em São Paulo. Contrariando os parentes, abandonei tudo e fui para Bebedouro (SP). Atendia com base nas minhas descobertas. Via que o paciente resistia ao processo terapêutico por necessidade de estar sempre 100%, ter poder sobre o quadro, por dificuldade de usar o pensamento dialético para esquadrinhar a angústia e, ainda, por conformismo – o ganho secundário na doença é a atenção dos outros. Se ele não enxerga isso, não desmonta as armadilhas. Os resultados apareceram; eu atendia muito, mas escrevia pouco. Então me mudei para a fazenda. Publiquei o primeiro livro em 1998.
Por que se considera um cientista incompreendido?
Humildemente: sou um dos poucos pensadores brasileiros que têm a teoria analisada em mestrado e doutorado nos Estados Unidos e na Espanha. Uma das minhas tristezas é o preconceito no meu país, onde se produz pouca ciência. No começo, mostrava os escritos para colegas e eles não correspondiam. O analfabetismo funcional leva alguns jornalistas a rotular meus livros como de autoajuda. Não entendem a diferença entre autoajuda e aplicação psicológica. Isso me incomoda. A hipocrisia nessa área corre solta, o sucesso inquieta. Não escrevo para ter sucesso. Mas guardo mágoa por não ser julgado pelo conteúdo das ideias.
Em O Colecionador de Lágrimas, o professor Júlio Verne, em crise, transita entre o consciente e o inconsciente e se questiona. Nota-se que, para escrever, você faz o mesmo, ajudado pela intuição. Tem partes suas no personagem?
Tem. Não é um alter ego, mas traços da personalidade dele coincidem com os meus. Ao analisar minhas emoções, expandi o feeling para enxergar o intangível. Minha denúncia contra o sistema educacional é esta: a escola não permite que o aluno veja o intangível. Mal ensina a explorar o mundo de fora e ignora que é preciso entrar no planeta psíquico. Por isso vemos pessoas graduadas, no comando ou com saber tecnológico, mas absolutamente despreparadas para lidar com as emoções. Segundo estudos de Harvard, os jovens de hoje não fazem autocrítica, são mais frágeis diante de tensões, apesar de manejar informações sobre tudo.
Por que escreveu sobre o holocausto?
Para provocar. Não prevenimos novos holocaustos. O mundo vive às vésperas de insegurança alimentar e do aquecimento global. Já estamos entre conflitos bélicos, disputas geopolíticas, crises financeiras... E há pouca gente equilibrada para lidar com tudo isso. Se houver outros Hitlers, eles contarão com mídias muito mais rápidas e poderosas para persuadir os jovens a seguilos. Adolf Hitler, nos anos 1940, encontrou os alemães com baixa autoestima e os fez achar que eram super-homens, que podiam tudo, até destruir doentes mentais, velhos, crianças, mulheres e judeus.
Quando visitou os campos de concentração, tinha em mente fazer o livro?
Pesquiso o tema há dez anos. Dei conferências na Sérvia e na Romênia e fui ver, na Polônia, os campos de Auschwitz. Fiquei assombrado: até onde nossa espécie pode se autodestruir. O museu mostra as malinhas das crianças que chegavam acreditando que iriam comer e tomar um banho, mas entravam nas câmaras, respiravam pesticida e morriam asfixiadas. Chorei o tempo todo.
Daí o colecionador de lágrimas? É você quem dá os títulos?
Dou os títulos. Produzo dois livros por ano. Minhas editoras mexem na ortografia. Então, leio de novo e mudo. Reli 500 vezes o Colecionador.

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