Uma amiga te disse certa vez uma frase que passou a ser um dos seus mantras: "A única certeza que a gente pode ter na vida é a de que as coisas serão sempre diferentes do que a gente imaginou". Tentando fugir desse vaticínio você passa a inverter suas expectativas, se força a esperar de cada situação o resultado inverso do que naturalmente esperaria. Mas como você está na vida real e não num episódio de Seinfeld, a tática se mostra inútil: mesmo que sua língua repita uma sentença cem vezes, seus sentimentos rejeitam uma ideia que não crêem ser possível (e muitas vezes é esse improvável que se torna realidade).
Um belo dia você resolve procurar um ex-namorado. A história começou sem querer (titioFreud não acreditaria nesse não-querer, oChaves também não e, para falar a verdade, nem você acredita). Várias seqüências de sonhos, desejos, arrependimentos e saudades te assaltam com tanta insistência que você se põe a pensar. Por que não procurá-lo? E você mesma responde: porque ele iria te ignorar ou pior, te mandar plantar batatas no deserto de Chachapoyas. Por que não falar com ele? Porque faz tempo que vocês não conversam e o desconforto seria inevitável. Por que não marcar um encontro? Porque ele pode ter chegado às raias do medonho e, nesse caso, suas boas lembranças seriam soterradas pela realidade de uma aparência repulsiva. Por que não fazer um convite indecente a ele? Porque ele o rejeitaria - e, se não o fizesse, seria horrível constatar que todo aquele fogo virou pedra pome no fundo fedido do rio Tietê. E por que diabos não pagar para ver? Ora, porque ele pode estar namorando outra!
É, sua cabeça já criou um script. Mas, lembre-se: a única certeza é a de que as coisas serão sempre diferentes do que você imaginou. Então, que se dane: você manda um e-mail - e... ele imediatamente responde! Vocês conversam pelo telefone - e a intimidade entre vocês parece que nunca sofreu qualquer interrupção. Vocês marcam um encontro - e na sua frente surge um deus maia de braços abertos. Vocês vão ao cinema - e se divertem como sempre. Vocês se beijam e lavas borbulhantes escorrem sua baba por toda a terra. Só no dia seguinte você tem coragem de perguntar se ele está namorando alguém. "Estou", ele diz. Então se levanta da cama te deixando mais esfacelada que paçoca na mochila e, antes de entrar no banheiro, ele avisa: "Estou namorando você!".
Pois é: para o bem e para o mal, a única certeza é a de que as coisas serão sempre diferentes do que você imaginou.

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