Quando nos perdemos um do outro, ganhamos o direito de buscar de novo — um outro outro. Esse vácuo que se abre quando o outro se vai não deve ser nunca preenchido com restos de um passado que já não há. Esse espaço que o outro desocupou — até que enfim — agora é só teu. Cubra-o de paixões e de aventura.
Ela me olha, incrédula, quase assustada:
— Mas como poderei amar a perda, se o que perco é aquilo que eu mais amava?
— Gostei do ato falho: você disse “amava”.
— Mas eu amo ainda.
— E se separaram? Perderam-se um do outro, por quê?
— Divergências momentâneas... — ela me assegura.
— Aproveite a oportunidade: só a perda abre caminho para o novo.
— Ah, eu não gosto de perder — ela reclama.
— Troque: diga então “Só a separação abre caminho para o novo”.
— Mas eu também não quero me separar. Toda separação é dolorosa...
— Dolorosa para quem é fraco — resolvo provocar.
— Você acha que sou fraca?
— Não importa o que eu acho: procure, você mesma, ver-se como você é de verdade. Quem se sente forte, é forte. Quem pensa que é fraco, é fraco.
Ela suspira e solta os cabelos. E diz: — tudo que eu tinha apostei nessa relação.
— Essa frase é muito manjada — eu retruco.
— Tudo que eu era coloquei nesse casamento — ela fala como se não tivesse me ouvido. — Na verdade o vazio não está fora de mim: está dentro de mim. Não foi o casamento que se esvaziou: fui eu que me enchi de nada...
— Gostei desse duplo sentido do que você disse: “fui eu que fiquei cheia de nada”. Linda metáfora.
— A questão não é de metáfora: trata-se de uma solidão que se aproxima sobre mim de maneira insuportável.
— Estou gostando... — eu digo olhando para ela.
— Gostando do quê?
— Das tuas construções verbais, das tuas palavras bem colocadas. Por que você não tenta escrever sobre essa fase da tua vida?
— Eu sempre gostei de escrever, mas desde que me casei tive que parar — ela fala. — Ainda éramos noivos e ele leu um caderno de poesias que eu tinha escrito: pensou que fossem dirigidas a outro homem. Pediu que eu rasgasse...
— Então, teu futuro marido já era um estúpido — eu me arrisco.
— Estúpido, não — ela me corrige, querendo defendê-lo.
— Ah, desculpe-me: teu marido era um "gênio": só mesmo um gênio pode rasgar um caderno de poesias da pessoa que ele diz amar. Da futura esposa! Se quando ainda noivo ele já se mostrava imbecil, por que você levou avante o projeto? — eu atiço.
— Eu tava apaixonada — ela responde. E queria ter um filho dele — completa.
Sei que não tem filhos, mas resolvo não seguir por esse assunto. Mostro-lhe a garrafa inclinada e ela, sorrindo, consente com a cabeça. Levanta-se e abre dois botões da blusa. E eu pergunto:
— E teu marido, também apostou tudo nesse casamento? Ou vocês eram apenas dois loucos à procura de um fim?
(...)
Pausa para procurar o saca-rolhas. E momento para eu ficar pensando um pouco sobre o acaso. Tem diálogo que também não tem fim, suponho. A gente tem que aprender a ler os sinais. Quando eu retorno da cozinha ela já está completamente nua — e a nossa conversa muda completamente de rumo.(...)
O diálogo acima é parte do livro Solidão a Mil. Visitem o site de Edson Marques

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